Pequeno ensaio sobre a… pequenez!

Alto mas não muito, Miguel é o tipo de pessoa que deseja ardentemente deixar de ser.
Magro mas não tanto, come mal e dorme pior, passa as noites acordado e os dias envolto numa profunda e funesta letargia que torna cada vez mais complicado distinguir entre os sonhos que tem e o mundo que conhece.
Tem noites em que acorda e julga que o que estava a sonhar é o real e o real confunde-o, em jeito de embriaguez, com os sonhos que tem.
Miguel vive e dorme sozinho, come e acorda de igual forma.
Arrasta-se para o trabalho.
No Metro não cruza ou descruza o olhar com absolutamente ninguém, vai de auscultadores nos ouvidos e de olhos semicerrados que têm como finalidade afastar seja quem for.
Tem pavor a qualquer forma de sociabilização por mais primária e inocente que seja.
É avesso a toda a espécie de convívios que não sejam tidos e mantidos sentado, deitado, em pé ou encostado, atrás de um ecrã e de um teclado.

Vive petrificado com medo de se apaixonar.

Na verdade chega a sentir-se irremediavelmente frustrado e intimamente amargurado por nunca se ter deliciado ou sequer tocado numa mulher.
Por nunca ter sentido o bafo quente e ofegante da luxúria feminina na jugular, por nunca ter tido as costas arranhadas por uma ou mesmo as duas mãos cheias de unhas pintadas.
Não sonha, pois nunca chega a perceber se dorme.
Não lê assim muito nem sai assim tanto.
Tem 28 anos e é órfão desde os 17, altura em que sozinho conheceu a força bruta da injustiça de uma vida.
Trabalha num centro comercial.
Secção de fruta e legumes de um conhecido hipermercado.
É aquele tipo de homem que só é reconhecido porque tem uma placa no peito que o identifica e, mesmo essa, já deixou teimosamente fugir a tinta e Miguel é agora MI UEL.
Não alimenta o sonho de casar, não ambiciona tamanho feito nem tão pouco se julga capaz de o alcançar. O forte de Miguel não é, não foi, nem será o acreditar.
Nem mesmo dentro do azul vivo e trepidante dos seus olhos entristecidos e conformados se acende a ilusão e o sonho do matrimónio.

Come sobretudo empacotados e congelados.
Entretém-se na internet e nem sequer tem uma televisão no apartamento, não lhe faz falta, diz, não quer saber de nada nem ninguém.
Vive perdido e não quer ser encontrado.
A exclusão é parte da equação.
A solidão espreita-o por entre o cortinado e Miguel já foi por Ela contratado.
Vai ser despedido do hipermercado.
Sozinho, isolado, despedido e… desesperado.
Será este o retrato moderno do homem abandonado? Será este arrastar de vida, vida para alguém?  Vivem-se tempos estranhos na verdade, muito estranhos e as pessoas acompanham cada vez mais a estranheza dos tempos! Para onde caminhamos?
Dizia, já não sei a quem, num destes dias, que tenho curiosidade em saber como vai ser o mundo daqui por 20 anos.
Isto porque não é mais o Homem que dita o avanço da vida mas a tecnologia que permite e controla o avanço do Homem.
Senhor Darwin, que lhe parece a si tudo isto? Hein?
Será lívida e eterna a insensatez? Tudo, e ao mesmo tempo tanto se assemelha ao eterno dilema da humana pequenez.
Queres que diga outra vez?
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Professores e… senhores doutores!

Aprendi, desde muito pequeno, que existem pilares básicos numa sociedade moderna que precisam de ser mantidos na mais profunda e profícua das estabilidades, a fim de se assegurar a subsistência, sobrevivência e manutenção da ordem nessa mesma sociedade.
Não é preciso ser-se uma “mente brilhante” com um Quociente de Inteligência (QI) de três dígitos para perceber esta equação mais que simples, básica, óbvia e tão óbvia quão óbvia é a capacidade de percebermos o seguinte:

Crianças = futuro 
Educadores + Professores = Quem, de forma objectiva (e, regra geral, fundamentada) é responsável por mais de 60% da educação das nossas crianças, ou seja, quem é responsável por conduzir os “condutores” da próxima geração.

– Tu, na terceira fila, aí junto à parede, do lado direito, como é que te chamas? Terei soado insegura e quase envergonhada?
– Professora, já lhe disse o meu nome 3 vezes esta semana. Olha-me bem para o estado destacoitada.
– Desculpa. Mas… posso saber como te chamas e que idade tens?
– Idade suficiente para já ter percebido há coisa de um mês que estar aqui ou não estar é praticamente a mesma coisa. Estás a pedi-las!
– Como?
– Sim. Estamos em Janeiro, as aulas já decorrem desde Setembro, a professora continua sem saber o meu nome, de onde venho, como é que chego aqui, dia após dia, a que horas acordo para aqui estar pontualmente às 07h45. Se estou, ou não, a perceber alguma coisa da matéria que a professora aqui debita três vezes por semana, não sabe absolutamente nada. Com a sorte que tenho ainda está à espera do resultado da prova de aferição, que testa as suas capacidades para dar aulas…!
– … (Silêncio geral na sala)
– Vê?
– Vejo sim, vejo que estás a ir longe de mais meu fedelho, mas deixa-me que te diga uma coisa em minha defesa. Esta turma tem 45 alunos, tenho três turmas, com aulas que começam imperiosamente às 08h00 da manhã, se me atraso… vocês vão embora, se saio de casa 10 minutos mais tarde por algum imprevisto… chego atrasada, e vocês? Vão embora! Tens razão quando dizes que eu não sei nada sobre cada um de vocês, mas também vocês pouco sabem sobre mim. Eu sei por exemplo que mais de metade de vocês copia, não estuda, “saca” as respostas dos testes para o telefone, mas não vos digo nada, não vos censuro e noutro tempo fá-lo-ia, mas não me posso dar ao luxo de perder este emprego. Estou a 150 km de casa, acordo às 04h30 da manhã, quando nunca me deito antes das 0h30, porque preciso de preparar as aulas, a que vocês não ligam, porque…?! A culpa não é vossa, mas também não é minha.
– … Pedro.
– Como?
– Sou o Pedro. Apanho dois autocarros para cá chegar, saio de casa às 06h15, para apanhar o primeiro deles às 06h25.
Bolas! Devia ter ficado calada.
– Como uma banana e um copo de leite porque à hora a que tenho de sair de casa a minha mãe ainda não chegou do emprego da noite porteira num condomínio qualquer de gente fina, como aqui o filho do senhor ministro não sei do quê, com o pão fresco que traz todas as manhãs.
Os meus irmãos mais novos vêm comigo, deixo-os no Jardim de Infância que faz a enorme gentileza de abrir propositadamente as portas para os receber, a eles e a mais umas meninas loirinhas de ranho no nariz que vivem perto de nós e que vêm no mesmo autocarro, juntamente com a irmã, a Sara. Está sentada aí mesmo à sua frente, com tanto sono que mal se aguenta de olhos abertos. E o filho do ministro que diz que está cheio de sono porque ontem se deitou às 04h00 da manhã, porque esteve a jogar PlayStation, passo a manhã à espera que chegue a hora de almoço porque a fome é tanta que nem consigo concentrar-me nas aulas. Compreendo tudo professora.
– Não sabia Pedro. Caramba, onde irá parar esta conversa? Mas olha, perdida por cem, perdida por mil.
Compreendo que não tenho as mesmas oportunidades, que não conseguirei nada desta vida, que estou destinado a sair da escola no final do próximo ano, com média de 11 valores, que não vou poder, como o fará a maioria dos meus colegas, candidatar-me a faculdade alguma, o filho do ministro talvez nem tenha de se candidatar, basta-lhe escolher, ou então daqui a uns anos dão-lhe as equivalências, como fizeram com aquele, como é que ele se chama?  
Preciso de ir trabalhar para ajudar a minha mãe com as despesas de casa. Compreendo que a professora não tem vida fácil.
Compreendes?
– Olho para si e vejo logo.
Ui. Bom talvez isto seja positivo e seja isto que eles precisam. Eu devia ser exemplar, devia conseguir que me admirassem, mas não consigo deixar de pensar que este mês não tenho dinheiro que chegue para comer até ao dia 26.
Os ténis de enfiar rápido nos pés, ideais para quem não tem tempo a perder, calças de ganga, as camisinhas aperaltadas, uma mala enorme onde traz tudo, o iPad, um casaco para o final do dia, comida, mais do que um telefone, garrafas de iogurte, leites com chocolate, depois há o olhar mortiço e tantas vezes perdido, numa vida para a qual não foi devidamente preparada.
Só me apetece chorar e desistir de tudo. Tenho uma licenciatura, um mestrado…
– Foi “mandada” para bem longe de casa. Conduz durante 1h30 para aqui chegar, muitas vezes chega à sala de olhos vazios, encarnados, de quem veio a chorar pelo caminho… deixaram-na acreditar que ser professora era uma profissão nobre, não foi? Pobrezinha. Passou anos a alimentar o sonho de trabalhar com crianças, com jovens, de os ensinar, de fazer parte das suas famílias, do seu crescimento, de ser reconhecida como uma autoridade na sua área e sobretudo ser respeitada pelo simples facto de ser professora. Enganaram-na e bem, não foi?
O que se faz aos professores chega a ser insultuoso.
E quando se perdem as referências educativas, quando se perde a noção de quem devemos ou não respeitar, de quem devemos ou não escutar, com quem podemos ou não aprender, então é caso para nos preocuparmos mormente, porque no futuro ninguém ficará contente com o futuro de toda esta gente.
Uma sociedade que não educa, que não se preocupa, que não respeita e que ao invés enjeita é uma sociedade tão imperfeita quão imperfeita é a Educação, num país em convulsão.
“A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida,  é a própria vida”, John Dewey
“É no problema da educação que assenta o aperfeiçoamento da humanidade”, Immanuel Kant
Que vida pode dar a um grupo de alunos um professor/educador em sufoco, em frustração, desalento e descrédito na sua própria posição? Ataquem-se os princípios, os processos, os métodos, mas não se ataquem as crianças, os jovens, os pequenos adultos, porque no ataque aos professores está um ataque bárbaro, impiedoso e cruel ao futuro da humanidade. Tirem o sonho às crianças e mais vale fechar tudo isto e acabar de uma vez por todas com as bacocas teorizações sobre os exercícios de poder ministeriais, porque no dia em que as crianças deixarem de sonhar e os professores deixarem de ser capazes de os levar de volta ao caminho, então aí devemos todos morrer envergonhados porque teremos reconhecido que o ser humano é de facto… fraquinho!

Eu sei, e tu?

Admito a completa quietude que me respeita, porque espero dela algo mais e maior que o descanso por si só. 

Espero da quietude a sabedoria e a ela me curvo por larga simpatia.

Enebriado e acossado pelo bafo aquecido que arfa nas noites de verão, (ou será pelo bourbon envelhecido em casco de carvalho?) envolvo os pés no calor arrefecido das meias, que pela noite dentro me afagam terna e carinhosamente os dedos, esperando por novas directrizes e indicações. 
Digo-lhes nada, dou-lhes menos ainda.

Remeto-me à leve e quase burguesa sensação de presunção de sabedoria que me invade, nesta candura diáfana tão própria da madrugada e deixo-me estar sossegado, só assim, quieto, só a saber. Como eu sei. 
E, senhores, há tanto e é tanto o quanto eu quero ser e saber!
Quero. 
Mas quero que seja simplesmente com a vontade única de ser eu, de ser assim, de ser quem sou.
Costumava perder-me em gestos de carinho, ternura, meiguice e preocupação verdadeira para com a grande maioria daqueles que me circundavam nos dias e nas noites. Confundi noções, sensações, espaços e opções. Pensei coisas e cai da escada aos trambolhões.
Troquei as voltas e voltas das voltas já pouco redondas e olhei, acordei, para a profunda e (su)real dimensão dos mesmos. Zero!
Gente estranha que se entranha como um vírus, gente esquisita que me irrita e que se enrosca nas paredes da  necessidade e que ali espera e te ladeia, tão somente para te ouvir pedir por favor, para te vir dar de beber à dor, para te ouvir implorar em surdina.
Continuo por aqui a deixar-me ser e a saber, que é algo que tão bem faço. 
Sei o que eles não sabem, e quando sabemos, então aí sentimos e viramos costas à podridão, à pequenez, à completa insensatez.
Será que não vês os porquês ou pura e simplesmente passas e não te arrependes nem só uma vez?

E por pouco ou tanto assim deixei de ser para passar a ser, e meu caro, quando passas a ser para deixares de o ser mudas o paradigma e confundes quem julga que sabe da verdadeira dimensão do que está para acontecer. 
Não estás bem a ver.

Enganam-se, mas olha, deixa lá, não lhes ligues que são tolos, que de tão pouco que sabem e de tão tortos que são jamais se endireitarão. Quem tira a presa da boca do Leão? 
Não, não, não! 
Não há aqui qualquer espécie de confusão. 
Há quem faça da amizade um grande bastião ou um slogan de apresentação, preferível antes lembrar Kant que nos diz que “é no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade”. 
No fundo lidamos com bandos organizados de anormais mal educados.
Quando tiveres calçado os meus sapatos saberás por onde andei, mas nunca terás passado pela estrada que tracei!
Tem vergonha de ti mesmo, tem vergonha de abrires a boca para de forma trôpega deixares as palavras embaraçadas pelo uso que lhes dás!

Psssssttt, não vês que isso não se faz!
É preciso dizer tudo mesmo quando não há mais nada para contar. 
Isso, isso, vale mais pores-te a andar.
Eu fico. 
Do banqueiro ao escritor todos pedem por favor. 
Do padeiro ao professor com todos a coisa resulta, não há forma de contornar um pedido de desculpa.
Porque o homem ama, sente, chora, mente, finge ser constantemente uma criatura bem diferente, mas para um homem poder ser, cedo tem de perceber que a vida é muito mais, que a vida é bem maior, que não pode valer tudo para seres mais e maior!
Se não gosta, temos pena… 
Olhe,

 
que não deve doer grande coisa!

15/09/2003 — 15/09/2013 — BELÉ

Ainda parece tão… fresco, se é que há alguma frescura nisto tudo…
Ainda soa tão… estranho.
Ainda… Ainda Belé, ainda.
Hoje, 15 de Setembro de 2013, dez quinzes de Setembro depois do fatídico e ainda hoje incompreensível 15 de Setembro de 2003, dia esse que marcou a vida dos teus familiares, amigos, e outros que nada disso eram, mas que ficaram igualmente atónitos marcados pela absurda e violenta natureza do acidente que te “roubou” a vida e te “roubou”à vida, aqui estou para te contar algumas das coisas que se passaram durante estes “nossos” 10 anos.
Provavelmente estás confuso e a dizer que já escrevi uma “merda” destas o ano passado, ou lá o que foi. 
Tens toda a razão, mas este ano é necessário uma actualização.
Dizia eu, qual velho que não se recorda mais dos pontos onde interrompe as histórias, que entretanto já tanto se passou por estas vida, pelas nossas vidas.
Já houve casamentos e ajuntamentos, separações e confusões, mais casamentos, baptizados e outras tantas celebrações, e agora, festejamos e apadrinhamos os nascimentos de lindos e pequeninos rebentos que ajudarão a perpetuar memórias do que fomos, do que vimos, do que fizemos e de tudo aquilo que conseguimos e não deixaremos nunca de lembrar, com os olhos postos em tudo o que almejamos alcançar.
Tens visto tudo, bem sei, mas ao mesmo tempo acho que te faz falta ouvir-nos de quando em vez, acho que te sabe bem que te contemos as histórias da vida de quem anda “cá por baixo”.
Neste mesmo dia, há 1 ano atrás, houve quem tivesse tentado falar contigo e se deparasse… com a tua ausência, física, daquela que havia sido a tua morada nesses últimos 9 anos!
Daqui podia nascer um enredo de filme, uma narrativa prodigiosa e ficcional em torno de um qualquer milagre de ressurreição, ao bom estilo dos romances que vendem milhões em todo o planeta e que sem qualquer sombra de dúvida faria O próprio Cristo corar de vergonha, embaraçado por pensar que havia conseguido em 3 dias, o que tu farias em 9 anos, exactamente 9 anos depois do dia que assinalou uma tristeza incomparável na vida de muitos de nós, do dia em que dos céus desceram as escadas que te levaram e em que se abateu sobre nós uma tormenta nunca antes imaginável e sobretudo a todos os títulos incomparável. 
Ora junta-lhe mais um à conta.
Mas não, não houve milagre para celebrar, somente da minha cabeça idiota podiam ter saído estas ideias estapafúrdias.
(Ainda hoje não consigo aceitar que tenhas morrido assim! Revolve-me as entranhas, escorrem-me lágrimas furiosas pelo rosto precipitando-se para o queixo de onde saltam desamparadas para o nada. Porra que continua a ser inconcebível que alguém se possa volatilizar assim…)
Há 1 ano descobrimos que tinham dado o teu terreno a outro(a) pessoa que estava a precisar de descansar um pouco. Acharam que estava na hora de mudares de ares e de ires pregar para outra freguesia.
Agora sim. Foi de vez.
Puseram-te, fecharam-te numa caixa. 
Coitados, acham eles que te podem algum dia engavetar, triste sorte a de quem te enterrou na morte, julgando que te estava de facto a enterrar.
Continuas vivo, bem vivo, presente e bem presente, em tudo o que é mente da gente que te acompanhou.
Miguel Ângelo Simões Henriques.
Miguel.
Belé.
Bebé.
Cara de bebé.
Vneno
Hups
Lip
Troll
Narigão
Narigudo.
Pencudo.
Sei lá mais o quê.
Um grande, grande amigo. 
Um dos melhores e mais intensos amigos que tive o prazer de ter na minha vida. 
Um dos mais eloquentes e ao mesmo tempo inconscientes seres humanos que cruzou o meu caminho.
Fizeste da amizade uma experiência visceral e transcendente.
O tempo ajuda a entender e maturar as coisas no pensamento, ajuda a tornar mais dócil o sofrimento, ajuda… ajuda! O tempo tudo cura e faz a cama à dor, dá-lhe de beber quando precisa.
Nunca esquecerei o teu olhar. O bom e o outro… o fodido. De raiva. De revolta. De orgulho. De peito feito e bolso vazio, de atrofiar o atrofio.
Vivemos tanto e tínhamos tanto para viver, no fundo é essa a causa de muita da dor, acho que é essa a causa maior da dor perpetuada no tempo e que teima em não passar!
Tínhamos tanto para viver, tínhamos tanta vontade de o fazer.
Ia gostar de te ver agora, como tio… Dos bebés que entretanto chegaram.
O Rodrigo, a Joana, o Salvador, o Álvaro, a Teresa… é uma autêntica legião… =)
E sei que tu ias adorar ser tio, tê-los ao colo, nos braços!
Estou desde manhã a pensar para onde é que te terão levado? Onde te terão eles engavetado?
Sabes, hoje trabalho num canal de televisão, no mesmo que me confirmou aos olhos a inenarrável tragédia que te levou, no mesmo que me deu a certeza de que não estava tudo bêbado e a gozar com a minha cara.
Como diz o Miguel Esteves Cardoso, “Como é linda a puta da vida”, irónico o desplante e a ousadia da própria ironia.
Por isso te digo que esse dia, o dia 15, 15 de Setembro de 2003 foi na verdade um dos dias mais tenebrosos, mais assustadoramente terríveis da minha vida, um dos dias mais surdos, cegos, brutos, dolorosos, incompreensíveis, esgotantes e desprezíveis que tive a infelicidade de viver.
Mas vivi-o, eu e todos os que te conheceram e que de cuja vida fizeste parte.
Obrigado Miguel, por teres feito parte da minha vida.

Sabes, não penso em ti todos os dias, não penso e digo-te isto com franqueza.
E não quererias que assim o fosse, que isso sei-o bem.
Quererias que todos nós prosseguíssemos com a nossa vida, e foi assim que o fizemos.
Talvez tenha para isso contribuído o facto de ter saído de Stº António dos Cavaleiros, talvez tenha tido esse um secreto desejo meu, mas sabes, quando penso, sorri! Sorrio, recordo, relembro, desmancho-me, aprendo e esfrego as mãos, respiro fundo, franzo a testa e arqueio as sobrancelhas… Pensando e desejando que o resto da vida seja uma festa.
Isto saiu no dia do teu funeral.

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/portugal/descarga-mata-vneno

Como esquecer?
Durante anos fugi da estação do Rato.
Durante anos…
Depois, um dia… fui lá, ver, falar contigo.
Vi de perto e soube bem.
Até um dia, te digo eu também.
Não sei se me perderei na auto-estrada para onde estás, não sei se de facto ainda… estás, mas olha, enquanto o tempo me permitir escrever e articular a simplicidade do pensar, em palavras que não se atropelem com a ânsia de te segredar um abraço, não me faltarão forças para falar contigo e para te levar comigo na durabilidade efémera da vida.
Um abraço meu amigo, um abraço.
Um maior do que aquele que te enviei há 1 ano atrás!
Hoje passam 10 anos Miguel e nem sabes o quanto isso torna tudo isto… estranho!
Lembro-me de ti como miúdo e tento imaginar como terias tu crescido?
Como estaria o teu cabelo?
Que carro terias tu?
Onde trabalharias agora?
E a vida toda da parte de fora.
Conta-se e fala-se sobre ti.
Eu falarei por certo aos meus filhos.
Do amigo do pai que se tornou estrela, lá longe e bem alto no alto distante do céu.
Das doideiras que ele fazia do como a pouco ou ninguém ouvia, e dos olhos que brilhavam com as mais inusitadas coisas.
Mas contar-lhes-ei também que fazias tudo à tua maneira, seguindo as tuas crenças, convicções, fossem estas certas ou totalmente descabidas e desconexas.
Porque sempre foste um fantasista, um crente, alguém que acreditava que o fim justificava sempre os meios que se utilizassem para lá chegar, fosse onde quer que fosse que isso acabasse por te levar! E levou, como o vento se encarrega de levar as palavras.
E agora?
Não te traz de volta pois não?
Já esperámos tanto tempo e não acontece nada. Já esperámos nos dias, nas noites e nas madrugadas, já deitámos vezes sem conta as esperanças nas madrugadas e ainda assim… nada! Absolutamente nada!
Foda-se, para onde foste tu afinal?
10 anos é muito tempo e é tempo nenhum, 10 anos é mais que tempo para se perguntar ao tempo se te traz ou te deixar ficar onde estás.
Seja como for, que seja em bom, em bem, para ti e não mais para mais ninguém!
De todos para ti.
E eu que tenho pensado em tanta, mas tanta coisa nos últimos dias, que tenho olhado tantas, mas tantas vezes para as minhas duas mãos separadas e vazias, pergunto-me se em algum destes acelerados dias, te vou poder perguntar tudo o que nunca te perguntei.
A esta, não quero ou espero resposta, apenas quero que saibas que sim. 
Esquece…
Não esqueço.
Ninguém te esquece!
E aos olhos acresce a comoção, a lágrima e a saudade.
O fado do português é triste e sincero.
A dor é melodiosa e bem regada.
Descansa em paz irmão.
Tenho a certeza que há muito que é teu o eterno e secreto “reino dos céus”.
Deixa-te estar sossegado, que no final de contas a cada um de nós, está o lugar reservado para o dia dessa monumental reunião.
Fica perto, que nós gostamos de te manter assim.
Um abraço eterno,
Sempre teu,

Martim

A ferro e fogo

São 14h30 e preparo-me para ir almoçar.

Mais um dia que não um dia como todos os outros.

Liguei a televisão para saber como vai o “meu” país, como vai o mundo em que vivo, na esperança de estar um pouco melhor do que quando me deitei há umas horas.

Rapidamente descubro que não, que está pior, que continuam a querer acabar com tudo isto, que continuam a querer pegar fogo a tudo o que é verde, que morreu mais um bombeiro.

Os bombeiros deviam ter vida eterna, ou mil vidas, como nos jogos de computador.

Deviam cair e levantar-se, deviam ter super-poderes capazes de, em situações extremas, apagar as chamas que os cercam com um sopro intenso e gelado, como tinha o super-homem, ou então serem capazes de voar para fora do local de perigo, resgatar colegas em apuros, subir alto nos céus para ver a direcção do fogo, encontrar a lagoa, a boca-de-incêndio mais próxima mas não, não podem, não têm, não voam e não sopram com a frieza gélida dos polos.

Têm, tinham pouco mais de 20 anos, todos eles.
E aqui entra a parte em que digo que todos eles, sem excepção, são, eram bombeiros voluntários, que vão, foram combater no pior dos cenários de guerra, o inferno escaldante e tantas vezes criminoso de um incêndio de apetite voraz e insaciável, que se alastra a uma velocidade vertiginosa e descontrolada contra a qual é impossível combater de forma justa e capaz.

E há alguma possibilidade de se falar de justiça quando um bombeiro, voluntário, foi combater o fogo para longe de sua casa, da sua família, dos amigos, da escola, da vida que tem, tinha e que deixou para salvar casas de pessoas que nunca viu, com quem nunca falou, para se colocar entre os bens dos outros e a violência atroz de um gigante esfomeado e sem estômago nem maneiras, que destrói tudo à sua passagem sem sequer olhar para trás.

Miranda do Douro, Covilhã, Tondela e Caramulo.

São já, foram já cinco os “soldados da paz” caçados pelo monstro.

Não deixa de ser curioso que ser bombeiro seja uma das profissões de sonho do imaginário dos meninos pequeninos, juntamente com os astronautas, os pilotos de carros e os jogadores de futebol.

Será que o ser humano tem todo ele uma inata atracção pelo fogo?

Quando somos meninos pequeninos não temos a noção das políticas e da falta delas, não fazemos ideia que existem matas sujas e muito menos nos passa pela “pinha” que existem animais capazes de pegar fogo a matas, florestas, casas, carros, só porque sim, só porque estão muito tristes e revoltados com a vida, porque foram traídos, porque se “entornam” dia sim, dia sim, para esquecer que não prestam, que são más pessoas, má rês, má gente, que há muito se desviaram do caminho que conduz à meritória e honorífica possibilidade de ser designado como ser humano, que a única coisa em que pensam reside no mal que possam ser capazes de fazer, da dor que consigam infligir, ou do terror que almejam causar.

Mentes pérfidas. 

Soldados da destruição e do horror sustentados no mais puro egoísmo digno de uma mente retorcida e solitária.

Cátia Pereira Dias, Carregal do Sal.
Bernardo Figueiredo, Estoril.
Ana Rita Pereira, Alcabideche.
António Nuno Ferreira, Miranda do Douro.
Pedro Rodrigues, Covilhã.

Ficam-lhes os nomes, as façanhas, as saudades e a dor nas entranhas dos que os vêem, viram partir.

Num país ligado às máquinas, que apoio têm estes homens?

Que apoio vão ter as famílias destes meninos e meninas que não quiseram ser astronautas, nem jogadores de futebol, antes preferiram alistar-se numa corporação de bombeiros para irem morrer longe de casa no mês em que o país vai de férias.

Novos demais para morrerem às mãos de um assassino impiedoso que não olha nos olhos nem olha para o inestimável rastro de destruição e dor que vai semeando à sua passagem.

Os bombeiros continuam a pedir esmolas nos semáforos de Lisboa, esmolas, nos cafés das aldeias, nos hospitais e tantos outros sítios com sinais, cruzamentos ou afins.

Continuam a realizar as quermesses e os bailaricos, a vender rifas e imperiais e apoiar freguesias e eventos municipais, a tirar gatos dos telhados, a abrir portas e a aturar alucinados e a troco de quê?

Paz aos soldados que “tombaram” perante a violência de um inimigo mercenário.

Justiça a quem todos os anos, com a coerência de um aniversário, combate o monstro, com a bravura medieval de um cavaleiro de escudo e espada, com a certeza de ter como certo, pouco, ou quase nada.


(Texto publicado no site do jornal Público a 03/09/2013) – http://p3.publico.pt/cultura/filmes/9186/ferro-e-fogo