A morte… que teima em matar quem não deve morrer

A morte… que teima em matar quem não deve morrer

Vou atrever-me, publicamente, a falar, a discorrer, a tentar ordenar o pensamento de uma forma coerciva e compulsiva, da qual ele hoje teima em querer fugir, isto porque vou falar da morte de alguém que, não me sendo próximo, não sendo um ente querido, não sendo um familiar ou um amigo, sendo “tão somente” um conhecido de longa data, me está a atemorizar o pensamento, me está a chocar com toda a sua brutalidade poética e a sua insensível e impensada lógica.
O André tem, o André tinha, o André é, o André era, um rapaz, com curtos 29 anos. Tenho uns igualmente curtos 30.
Somos e fomos completamente contemporâneos nos corredores da RTP, nos corredores da Avenida 5 de Outubro, no 2º e no 3º piso. Somos e fomos contemporâneos de corridas de cadeiras, de brincadeiras nas máquinas de visionamento de K7s e de edição de peças, contemporâneos nos lanches no bar, com um senhor que gostava muito de nós, o grande Rui Romano.
Lembro-me que o André era, tal como eu, brincalhão, de sorriso largo e aberto e tinha aquela coisa que sempre me fascinou nos meus amigos do Porto, o facto de serem do Porto, de terem pronúncia do norte, sotaque “tripeiro”.
Não tenho mais lembranças do André.
Não tenho mais recordações de adolescência ou de idade adulta.
Lembro-me das brincadeiras tão próprias da idade em que só a brincadeira interessa e sei agora que ele não vai poder viver as coisas que nesta nossa idade tanto interessam.
A Judite Sousa é, para além de uma grande jornalista, uma figura pública, mais ou menos consensual, de Norte a Sul de Portugal, mas, para além disto, a Judite Sousa é, e nunca deixará de o ser, a mãe única do seu único filho, do seu André… que agora partiu.
A morte é natural. Bem sei. Mas a morte é natural e aceite com naturalidade quando as condições em que a mesma se processa são, também elas, naturais, não isto, não estas, não assim, não uma morte… destas.
A morte não tem hierarquias, nem tão pouco se pode falar em mortes melhores ou piores, mais ou menos difíceis, porque todas elas são e significam uma e a mesmíssima coisa, o fim.
Para os pais, a dor deve assemelhar-se a uma espécie de morte interior, a uma espécie de enterro de partes de si mesmos que não voltarão a existir, de partes de si mesmos que não voltarão a sorrir, que não voltarão a ter nome, que ficarão eternamente perdidos na sombra onde agora mergulham em apneias intermináveis, mergulhos de peixe para de lá não saírem tão cedo.
Este tipo de tragédias, este tipo de sucedimentos inexplicáveis, acidentados e completamente imprevistos tornam a vida num carrossel de merda que volta e meia perde a corrente e deixa sair disparado alguém que não está a contar fazê-lo.
Só escrevo porque não sei fazer nada mais. Não sei dizer coisas de mais nenhuma outra forma que não por palavras em cadeia.

Medo.
O medo de morrer assusta quem tem fome de vida.
O medo da morte assusta quem não sente que viver é fruto do azar ou da sorte.
Morrer assusta porque assusta tudo o que é doloroso, tudo o que é desconhecido, temido e incompreendido.
Viver assusta menos, porque viver, vai-se vivendo, já a morte não se vai morrendo. A morte chega e leva. A vida fica e dá, tira, oferece, presenteia, ilude, permite, aquece e arrefece, nem sempre acontece, mas não há quem não tropece e logo se levante para recomeçar.
Com a morte chega a única queda que não permite que quem cai se consiga levantar.
Tudo isto para?
Não sei bem. Não quero sequer pereceber. Não quero sequer pensar. Não quero enlouquecer começando a acreditar e a precaver-me para todas as mortes que ainda terei de enfrentar.
A vida é assim mesmo…
Intervalos pouco claros, poucos específicos, pouco sérios, de um tempo tantas vezes aveludado e mentiroso, enganador, que a senhora morte, sem qualquer pudor, faz questão de nos fazer experimentar.
O mais difícil parece ser mesmo conseguir viver sem ter a morte ali à espreita, viver uma vida mais que perfeita, sem saber sequer tão pouco o que dessa vida na verdade se aproveita.
Cabe-nos a difícil tarefa de adivinhar, de pereceber o que é de seguir e o que é de evitar, o que é de viver e o que é de… matar.
Será a vida isto mesmo? Uma espera? Um intervalo? Uma existência não comandada por quem vê a vida encaixotada entre um quarto vazio, a parede fria e a janela que deixa entrar o frio.
De muita força vão precisar os pais, os familiares e os amigos. Porque vos digo, porque sei bem do que falo, uma tragédia destas, deixa marcas perenes, deixa marcas que não se apagam, que não se esfumam, que não se lavam. Ficam. E como dizia Eugénio de Andrade, “Olha – queres ouvir-me? – às vezes ainda sou o menino que adormeceu nos teus olhos”, o André, para os seus pais, vai ser sempre o menino que adormeceu nos seus olhos, no seu colo, nos regaços e tantas vezes nos braços que não mais o vão abraçar, porque digo e repeti-lo-ei vezes sem conta, até que nem a voz me doa…
Bem maior é a dor de suportar do que a dor de partir.
Um abraço André, até sempre.
Um abraços aos pais e o desejo profundo de que a força os aguente.

Os grandes escritores e o futebol, por António Reis

Os grandes escritores e o futebol, por António Reis

A minha homenagem a uma peça de literatura fenomenal do meu amigo António Reis.

“Os grandes escritores e o futebol

Jorge Luís Borges (a mão deve tremer ao escrever este nome), argentino, escritor de primeira linha da literatura mundial, e da última, e de todos os intervalos entre o princípio e fim de um texto, por mais argentino que fosse, e por mais incrível que isso possa parecer vindo de um argentino, vivia muito bem fora de jogo. Para ele o futebol era isto: “O futebol é popular porque a estupidez é popular”.
E mais do que isto, era isto: ” onze jogadores contra onze, correndo atrás de uma bola, não são especialmente atractivos”. Mais disse, Jorge Luís Borges, a seu tempo (1889-1986): “a ideia de que haja um que perca e outro que ganhe parece-me essencialmente desagradável. Há uma ideia de supremacia, de poder, que me parece horrível”. Torna-se impossível de compreender como é que um homem que tanto sabia de dizer coisas, tão pouco tenha percebido o jogo: “que estranho que nunca se tenha atirado à cara da Inglaterra o facto de ela ter enchido o mundo com jogos estúpidos, desportos puramente físicos com o futebol. O futebol é um dos maiores crimes da Inglaterra”.
Borges morreu quinze dias antes de Maradona ter levado a Argentina à conquista do título de campeã do mundo.

Adiante. Dizem as pesquisas que quando jovem Camilo José Cela (a mão deve tremer ao escrever este nome) jogava à bola e o fazia na fascinante posição de extremo esquerdo, o último da táctica, e quantas vezes, em quantas equipas, em quantas gerações, a táctica, quando chegava ao ponta esquerda já se tinha entretanto diluído pelos outros dez e já não era mais táctica, era o que sobrava do espartilho, o talento e a fantasia, enfim, o futebol.
Camilo José Cela, espanhol entre 1916 e 2002, morreu antes de poder ter visto a Espanha triunfar sobre o mundo com a bola nos pés. Mas viveu a tempo de ter escrito “Onze Contos de Futebol”, um livro do tamanho de dois cartões amarelos. Muito me atrai, no meio desse melhor onze do mundo, a peculiar situação do FC Waldetrudis Pucará: ” equipa que, levando até às últimas consequências as tácticas defensivas, jogava com dois guarda-redes. Teógenes, guarda-redes direito, e Teogonio, guarda-redes esquerdo”. Valerá a pena, a quem puder, ir ao livro e perguntar pela vida destes dois entre os postes.
Uma outra frase, de um outro contro: “é raro, mas não impossível, a morte estar escondida numa bandeirola de canto”. E outra, de outro: “é lei de jogadores: é tão mau rebentar como ficar a milhas”.

Um dos meus ídolos, que ainda os vou tendo, um chileno muito especial, morreu em 2003. Foi Roberto Bolaño (a mão deve tremer ao escrever este nome), que tinha nascido em 1953. Escreveu os livros que me foram aproximando da escrita e escreveu, em alguma parte de “Putas Assassinas”, no conto Buba, o que aí vem: “eu, por exemplo, e como todo o mundo sabe, sou extremo esquerdo. Quando jogava na América Latina (no Chile e depois na Argentina) marcava uma média de dez golos por época. Aqui (Barcelona), pelo contrário, a minha estreia foi asquerosa, lesionaram-me no terceiro jogo, tiveram de operar-me os ligamentos e a minha recuperação, que em teoria ia ser rápida, foi lenta e trabalhosa, para que é que a vou contar. Senti-me mais só de que a lua. Essa é que é a verdade”.

Em Inglaterra (1903-1950), George Orwell (a mão deve tremer ao escrever este nome), punha, nos seus últimos anos na Terra, o dedo no negócio do futebol, quando muito quente estava ainda o cadáver da Alemanha nazi:”na Inglaterra e nos EUA o desporto tornou-se uma actividade de pesados investimentos financeiros, capaz de atrair enormes multidões e de despertar paixões selvagens, e essa infecção alastrou-se de país em país. E foi nos desportos mais violentos e combativos, o futebol e o boxe, que ela mais se espalhou. Não há dúvida de que tudo isto está ligado à ascensão do nacionalismo, ou seja, este lunático hábito moderno de alguém se identificar com grandes estruturas de poder, e passar a enxergar todas as coisas do ponto de vista do prestígio competitivo”.
Orwell chegou a dizer que “futebol é a continuação da guerra por outros meios. É uma imitação da guerra”.

E de Portugal, isto, terminando por agora a ronda, mas prometendo voltar ao assunto um dia destes. António Lobo Antunes (a mão deve tremer ao escrever este nome), que felizmente ainda não chegou ao fim da data, e que nasceu em 1942, disse ao jornal espanhol El País, numa entrevista que foi replicada pelo MaisFutebol, de onde retiro estes últimos trechos, maravilhas sobre Messi: “nunca servi para outra coisa. Não sirvo para a vida prática. Nem sequer tenho computador. Escrevo à mão, porque é como bordar. Gosto do cheiro do papel, gosto dessa coisa artesanal que é escrever, do desenho das letras. Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos, as mulheres e Messi. Vi-o há pouco tempo, pela televisão, no Mundial de Clubes. Quem me dera escrever como Messi joga futebol. A bola parece amá-lo”

 

Obrigado António Reis

Repórteres… na sombra… dos dias!

Repórteres… na sombra… dos dias!

Repórteres… na sombra… dos dias!

Parabéns Avô… esteja lá onde estiver

Parabéns Avô… esteja lá onde estiver

Já escrevi sobre isto… Já escrevi sobre a falta que o meu avô me faz… E porque hoje é o dia que será sempre seu, o dia do seu aniversário, apeteceu-me falar-lhe e publicar novamente o texto que escrevi para si há já quase 3 anos, mas que, creio eu, acabará sempre por ser… presente… e sobretudo… intemporal.

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As manhãs de nevoeiro são bonitas.
Em especial aquelas entre Dezembro e Janeiro, com frio, luz suspeita e iluminação duvidosa, essas tornam-se conscientemente sedutoras e envolvem-nos naquele manto de algodão gasoso que torna as estradas místicas e nos dá a sensação de estar a caminhar rumo ao vazio.
Será essa uma prenda da natureza aos homens?
Será essa a resposta a tantas preces, pedidos deveras sentidos que encostam o homem aos beirais do pensamento sonhador?
Não. É simplesmente nevoeiro. Não vale a pena pores-te já com fabulações e recriações de cenários biblícos, porque na verdade nevoeiro é apenas nevoeiro, chuva é apenas chuva, e por aí fora.
Mas é bonito…
Pois é.
E queres com isso dizer que todas as coisas bonitas têm de ter explicação?
Não têm, não devem sequer ter que ter, para não perderem parte dessa mesma beleza.
Há na vida momentos para apreciar, momentos para questionar, momentos para indagar e muito especialmente momentos para contemplar.
E na contemplação reside parte do sumo espremido para o copo do encantamento.
E é o encantamento que me traz ao que aqui me trouxe.
1 ano. Passou exactamente 1 ano, e parece que foi há tão pouco, mas ao mesmo tempo a tanto.
É estranho pensar num sem o outro, estranho conceber a realidade, é bem mais simples entender a ideia.
O meu carácter transformou-se muito devido a si, a tudo o que bebi dessa fonte inesgotável de verdades formativas, de conhecimentos adquiridos, de sentido de justiça, de trabalho, de missão, de obra, de estratégia, cálculo, conselhos, orientações, e sobretudo nessa fonte inesgotável de vida, de resistência, de luta, de capacidade de regeneração, abnegação, sobrevivência, nome, olhar a direito, pensar mais longe, que se traduziam numa FONTE INESGOTÁVEL DE VIDA!
Muito me admiram as grandes obras, as grandes resistências, as grandes ideias, os grandes e mais altos pensamentos, mas espantava-me a capacidade que tinha em racionalizar os factos e sintetizar os procedimentos, ao caminho único e possível a seguir.
Era de ficar com o sangue gelado e envergonhado dentro das veias, com vergonha de correr, com a verdade que transbordava pelos seus olhos, a emoção nas palavras duras e muitas vezes revoltadas e dirigidas ao centro da fúria, a injustiça, a desonestidade, a mentira.
Era como ter acesso a um clássico da literatura mundial que figuram em colecções privadas e que, infelizmente, poucos têm a sorte de botar os olhos em cima e poder devorar com o olhar, absorvendo toda a autenticidade do que temos diante dos humildes olhos, que gravam tudo o que vêem com precisão cinematográfica.
Costumava sair daquela magnífica e tão significativa casa, com a sensação de que tinha estado numa espécie de câmara intemporal onde o mundo parava, e eu simplesmente tinha a oportunidade de conversar durante o tempo (este sim aquele normal, o verdadeiro, dos relógios) que quisesse, sem que ninguém me cobrasse nada por isso, só porque me apetece, sem ter de dividir essa mesma oportunidade com ninguém, era meu e por isso me sabia tão bem. Aquele tempo que me era destinado.
E de facto foram vários anos de conversas, de ensinamentos, palavras sábias, perguntas, histórias, personagens, a moral de cada uma sempre melhor e mais certa do que a anterior.
Hoje percebo que era feito de forma intencional, consciente, propositada e sobretudo adequando-as aos conselhos que eu procurava sem pedir, na surdina de um olhar que ouve.
Faz hoje 1 ano. E as palavras continuam a aparecer-me na cabeça, os olhos, a expressão, o sorriso, a lágrima, a dor, a vontade, o passo largo, as mãos, aquelas mãos…
Saudades. Sou mesmo assim, um saudosista, e então? Reflexo da entrega e da paixão, com que amam os olhos.
Tenho saudades dos anos que passaram antes do ano que hoje faz. Tenho saudades e a elas volto, aos sítios, aos olhos, às mãos, às palavras, vejo tudo, gosto de olhar para trás.
Gosto de me lembrar de calçar os chinelos em pequeno, e andava com eles em casa, enquanto não chegava, já em pequeno queria na verdade calçar os seus sapatos, ver o que via, saber o que sabia, havia em si uma espécie de magia silenciosa, que rodeava os gestos, o caminhar, o tom da voz, era uma coisa muito boa de se sentir em miúdo.
Já crescido eram conversas longas, eu sabia que sempre que ia ter consigo, não poderia haver compromissos para depois, só seus, nunca meus, porque a conversa era mais valiosa que qualquer outra possível naquele preciso momento, e é impossível, mesmo para o esquecimento, fazer esquecer algo assim, e fazer produzir nessas horas, poucas outras expressões para além de sorrisos, ou esgares, e abanar assertivamente a cabeça, sem nunca perder de vista as mãos, aquelas mãos.
Para mim eram as mãos de alguém que sempre considerei um ser superior, à própria normal e banal condição da maioria das pessoas com quem contactamos na nossa vida.
Eram as mãos do meu AVÔ e isso é tudo.
Tenho pena do futuro, porque não chegou a tempo de o conhecer, dos meus filhos que também não chegaram a tempo, dos sonhos e das ideias, mas… é mesmo assim.
Sei que mesmo não estando feliz, está por perto, e isso é certo.
Obrigado.
Obrigado pelas palavras que ouvi e gravei, que aprendi, usei e ensinei, pelas vezes que me disse o que havia a ser dito, o que tinha de ser escrito, fosse mais ou menos bonito, era o que havia a dizer e cabia-me ouvir e perceber.
E não consigo não sorrir ao ver o enquadramento cénico da coisa.
Sala, ponta da mesa, diagonal traçada ora entre a esquerda, ora entre a direita, olhos nos olhos, olhos nas mãos e nos olhos, nas mãos. E depois o tempo que ficava a pensar quando dali saia, e só hoje vejo o funcionar oleado daquilo, de tudo aquilo que me dizia. E só está a começar. É isto que O Avô é e foi. Um ensinamento de vida, um marco, uma referência, não só uma, mas várias, conto duas, pelo menos, três, quem sabe? Talvez…
Vão marcar-me para todo e mais qualquer bocado de sempre, vão estar comigo nas horas de aperto, como já estiveram, vão servir de luz, quando a escuridão por vezes me cerca, e vão sobretudo ser citadas, vezes e vezes sem conta. O que conta é a conta que não faço, nos dias de cansaço, ao tempo que não passou, porque me cansaço de contar as coisas boas, todas elas que por aqui deixou.
Está frio, e um sólido e espesso nevoeiro, recordas-te de qual é o dia de que te recordas primeiro?
Recordarei sempre tudo por inteiro.
Quero acordar e ser quem sou, crescer e mostrar, dizer e contar, que na vida não há mais quem ganhe ou perca, mas sim quem vive e aproveita, e quem assim não vive, faz a cama onde se deita.
Gosto de acordar e de a olhar assim, meio desfeita, mas no fundo sorrio sempre ao vê-la ali, e porquê? Porque mais logo, sei bem quem nela se deita.
Do nome se fará herança, AVÔ.
Daqui, do NOME se fará herança! Continue reading “Parabéns Avô… esteja lá onde estiver”