Não sei se vou, mas sei que tenho

Há, na derivação caótica da realidade, um pedaço de terra que não tem mais de pouco tamanho, e que serve os interesses de quem nele assenta.
Na pior das hipóteses incomoda quem lá passa, mas não, é de uma pacatez e de uma segurança deliciosas, de uma simplicidade de processos apaixonante e acima de tudo muito bem localizada o que é sempre bom e dá jeito quando se quer fugir ao trânsito.
Há dias que mais parecem noites brancas.
Há dias que de dias começam por ter pouco ou quase nada, há dias loucos em que a boca já só quer ficar calada.
Há dias que rapidamente se transformam em lixo tóxico e corrosivo e que te esganam, que te sufocam e mordem os calcanhares.
Esses dias são, contudo, necessários, dias em que reflectes ao deitar, dias em que passas por tudo e nada passa por ti.
Dias em que chorar não é dizer Eu desisti.
Sobram sempre partes a esses dias.
Partes essas que mais não são do que os momentos em que bloqueias, em que paras e ali ficas, em que pensas e não acreditas, em que sentes e não evitas, em que choras mas não gritas, em que sofres e eu não quero que permitas.
Somos patins de roda desapertada.
Somos aquela bola velha e estragada.
Somos o que pensamos, o que vimos e o que dizemos, somos o que pagamos, o que comemos e o que bebemos, somos o que nos dizem que somos, o que pensamos que somos, e o que gostam que sejamos. Somos ou não somos?
Não sei se fomos.
Não sei.
E hoje voltei a não saber, e começa a ser demais, e começa a irritar-me, e chega.
E o frio que está?
E a janela que não sabe como se tapar?
E o cheiro que tem o morto a dançar?
E a dor que demora a passar?
E com ela? 
Não fui.
Não sei.
Não sei se fomos.
Foi natal. 
Foi a noites das noites sem sal, foi noite de alegria e pobreza, foi noite noite de sorte e tristeza, foi noite de conversa com frases contadas ao cêntimo.
E quem te olha e te vê e fala e pergunta, e sabe e pergunta e não sabe e pergunta, e não pergunta mas fala, e fala mas conta, e conta que fala que não sabe e… pergunta.
Não há o que não valha para tudo pensar, 
não importa a muralha que tenha de trepar, 
já não sei nem sabia a importância do ser,
já não é mais preciso acabei de perceber.

Suave a melodia tímida que ecoa nos teus olhos e canta alegre a canção que hoje viu.
É fácil dizer tanta coisa, é difícil dizer tudo, é um privilégio “começar numa ponta e acabar na outra”, um privilégio com trágico destino, a confusão de sinceridade e verdade, com crueldade e maldade.
Na outra realidade, aquela do pedaço de terra pouco maior do que uma coisa pequena, é que somos quem de facto somos, e somos amados e adorados por tudo aquilo que fazemos, tudo, o visível e o invisível, o palpável e o abstracto, a palavra e a ausência dela, pelo sorriso e pela lágrima, pelo elogio e pela crítica.
Lá para esses lado, a condição é a seguinte, somos um todo assegurado e não um pedaço amarfanhado, parece difícil de imaginar, eu sei, parece verdadeiramente complicado de enquadrar a praticabilidade da ideia, mas com o tempo chega-se lá.
Debagarzinho, mas bai.
Agora, tudo isto depende de um coisa fundamental, vontade.
Sem vontade, não há projecto, sem projecto não há construção, sem tudo isto, não há rumo, e perder o rumo resulta numa situação potencialmente muito complicada.
Os brasileiros têm uma “máxima”, que segundo costa diz o seguinte: “Cara, tudo se resolve!”
E no fundo, não deixa de ter um fundo de verdade, quanto mais não seja no plano da análise fria e objectiva, há um problema, que vai ser então resolvido.
Porém, há de tudo um pouco no que a problemas compete.
Ora com tudo isto quase me esquecia do importante.
Há anos inesquecíveis e anos de esquecer, mas há sobretudo anos que para recordar pouco ou nada têm, mas que são para nunca mais esquecer.
Estará lá sempre guardada a referência de que ano não queremos ver repetido, ou que se faça um remake, ou uma adaptação.
A saudade é o mais difícil de todos os sentimentos que conheço.
A saudade é tão mais difícil quanto mais dura, mais cortante, mais áspera, mais dolorosa, mais triste, mais…
A saudade só é fácil no seu estado mais puro, e de pouca duração, porque são saudades que têm um fim marcado.
Não há uma definição possível para saudade, porque cada um de nós as tem de forma distinta, complexo, com cheiros, com imagens, com sons, com palavras, com olhares, com gritos, com gestos, toques, sorrisos…
Saudade é saudade, é verdade e é reconhecimento, é amor e é sofrimento, é dor e alegria, é choro e medo, é ter do que não se tem e sentir falta de tê-lo também.
Tenho saudades de ter saudades que acabam daqui a não muito!
Gostava de ser mais como o outro da outra realidade.
Gostava de ter saudades das boas.
Gostava de gostar.
A saudade é o mais difícil de todos os sentimentos que conheço e também deve ser o mais difícil dos sentimentos que desconheço.
A saudade não é flor que se cheire, é flor que se sente!


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Cara de quê?

Há os caras de parvo, de rato, de coelho, de cavalo, de rabo, de estúpido, atrasado mental, boi a olhar para um palácio, de palácio a olhar para o boi, de quem mente, de quem está a falar a verdade, triste, alegre, zangada, infeliz, felicidade, simpatia, malandro, há caras para tudo.
Cara de quem recebeu uma má notícia, cara de quem soube que ia ser pai, de quem viu um fantasma, de quem viu a morte, de quem viu o chefe “comer” a colega de trabalho na casa de banho do pessoal, de quem viu um porco a andar de bicicleta, de quem não dormiu bem, de quem dormiu de mais, cara de quem já fez merda, de quem está a preparar alguma de quem se lembrou de alguma coisa, de quem não está nem aí para o que lhe estão a dizer, de quem está farto de me ouvir, cara de frete, a quem todos lhe devem e ninguém lhe paga, de cu, de quem queria estar em todo o lado menos aqui, de quem sabe e não conta, de empregado de mesa, de porteiro de discoteca, de troll, de otário, de quem está f*d**o, de quem recebeu a carta mas ainda não a abriu, de quem acabou de ver algo inacreditável, de quem está preso, de quem está doente, de quem tá a precisar de alguma coisa, ou de quem tem um palminho de cara.
É como digo ele há caras para tudo, para todos os gostos, para todas as caras.
E que cara tem que não tem cara para ser absolutamente nada, a não ser aquilo que é, nada.
Há ainda outro tipo de pessoas. Aqueles que têm cara de qualquer coisa, e que poderiam perfeitamente o porteiro do prédio, o empregado de balcão do café de todas as manhãs, o maquinista da carruagem do Metro das 07h05, o taxista de ontem do Marquês até ao Areeiro, qualquer coisa.
E esses passam por tudo, mas também são aquele tipo de cara de que todos se lembram e num instante todos se esquecem.
São aquilo a que alguém um dia sabiamente apelidou de “o homem comum”.
E o problema do “homem comum”, é que os seus problemas são também eles, problemas comuns.
O Benfica perdeu, o café está horrível, o almoço caiu-me mal, preciso de uma mini, acabou-se o açúcar, tenho o carro na reserva, deixei a carteira no carro e não me apetece ir lá buscá-la, estou farto da minha mulher e das mariquices da sala e dos jantares de chacha, amanhã não me apetece ir trabalhar, estou farto do meu chefe, se pudesse…
É tudo isto e um pouco mais.
O que me leva a concluir numa racional soma de problemas comuns com as caras que há, que a maioria dos homens de Lisboa ostentam o cognome de fiéis “homens comuns”.
Portanto, se me estás a ouvir e te queixas de algum mal, e fazes parte de algum deste tipo de caras, cuida-te porque és já um portador do síndroma do “homem comum” e no fundo estás condenado a lamentares-te da tua vida e de tudo o que te rodeia para o resto dos teus atormentados dias. Mas isso também não constitui qualquer problema para a tua alma, uma vez que nem sequer pensas na vida para a frente, só vês para trás, e só o que está lá atrás te interessa, mas olha rapaz, telefona se precisares, sabes que os amigos são para isto mesmo.
Isto sim é de amigo.
E sem fazer cara séria, simplesmente com a minha cara de parvo.
E está na cara que já vai longe a dissertação.
É dia de Natal, ou não?
Homem, faz o que de mais comum se faz, come o bacalhau, limpa a boca à mão, bebe mais um pouco, tanto não, tás louco?
Senta-te direito, chama os putos para se abrirem as prendas, que ainda queres ir ao café.
Para o ano há mais, vamos embora.

Não…é natal!

É natal. Escrevo em letra minúscula porque sim, porque o Natal passou a ser natal, porque o estúpido passou a ser banal, porque o ridículo passou a ser normal, porque o premiar obsceno do abrupto é aceitável e o sofrimento condenável, a felicidade é subjectiva e o bem estar é concreto!
De que serve ao homem o bem estar infeliz ou incompleto?
De que vale a busca incessante, se por vezes pode ser na aceitação do real está solução?
É assim tão necessário sermos verdadeiramente felizes?
Quanto a vale a felicidade?
Quantas felicidades existem?
Daqui a pouco estou a perguntar quem sou e de onde vim e para onde vou, não que a mim não me enganam mais.
Por isso é que enquanto me apetecer vou escrever natal, com “letra pequena” só porque quero e por acho que chamar Natal ao natal é como chamar país a Portugal.
Estamos inundados de anúncios amigos do fim do mundo, do terror económico, da crise financeira, do fim do euro, da guerra, da política de responsabilidade, anúncios que nos aterrorizam por serem aos nossos olhos verdadeiros, como verdadeira é a vontade que temos de os fechar, para não vermos as coisas mais horríveis a que conseguimos aceder nos dias que hoje correm.
E a esses anúncios contrapõem-se os da vida eterna, da beleza incomparável, da robustez nas curvas, das praias mais fabulosas, dos voos mais baratos, das noites em pousadas de portugal, (lá está, propositadamente escrito com “letra pequena”, porque isto de país tem pouco) tudo, há de tudo, para todos, e não há dinheiro, nem subsídios de natal, e para o ano vão os de férias, e aumentam as taxas moderadoras, e fazem greve os maquinistas, e as pessoas não têm dinheiro para as “prendas”, e os preços aumentam, e aumenta o tabaco, e assim se vai indo.
Há semanas atrás falava com uma amiga que estava cheia de planos para o Natal (agora escrito com maiúscula por ser uma clara referência à época que se festeja na terra dela), importa dizer que a rapariga é finlandesa, da Finlândia (lá está, maiúscula, estamos a falar de um país). E às tantas começamos a falar de salários e dizia ela, eu sei que vocês aí ganham muito mal, tens de sair daí, e eu dizia, “mas achas que nós aqui ganhamos quanto, quanto achas que eu ganho?” e ela responde, eu a seguir digo-lhe o valor real e ela fica parva, e diz-me que lá, na Terra (segue a mesma lógica aplicada ao país de que se esta a falar) ninguém ganham menos de 3 vezes isso, a média geral são 3 vezes e meia).
E eu fui só ter um AVC alí à cozinha, e voltei.
E portanto ela comprou montanhas de presentes para a pequena família que tem, comprou um vestido para o Natal da Terra dela, é na Finlândia e por isso o Pai Natal não tem de fazer um desvio assim tão grande, até pode ir pela Nacional
Já aqui, o natal é outro.
Quase me sinto a ter vergonha de o celebrar, quase me sinto a ter vontade de sentir vontade que chegue o Natal, quase que gostava de gostar do Natal, mas não posso gostar do natal assim, não depois de tudo.
Há um duelo de forças nesta altura do ano.
Um duelo voraz de consciências que se interpelam pelo olhar, que esbanjam, gastam, uns por opção, outros por obrigação, outros porque é Natal, outros porque podem, porque querem, porque adoram, porque não deram nada todo o ano e esperaram pelo Natal, e as crianças, depois há isso, as crianças.
Aí reside o conflito, reside o centro de tudo isto.
O natal já não é só das crianças, é para as crianças, e para os pais gastarem o que têm e não têm, e depois chega a dia 26 e acabou, está tudo de volta na manhã seguinte.
É isto o natal. É isto o Natal? Está transformado numa rica coisa, está.
Quem o viu e quem o vê, como o vi e como o vejo, nem sei bem se o vejo, ou se o olho com desdém, não sei bem se é natal,  nem sei sequer se ele vem. E se vem? O que tem?
É suposto ele resolver alguma coisa? É suposto ter algum significado? Ou é um polvilho de alegria contada, que devolve à rua o lixo e à alma o anestésico de um par de dias, ou não.
Um pouco como se estivéssemos a polvilhar canela num pastel de nata.
Quero lá saber do natal.
Quero é saber da minha vida.
É nisto que estamos é isto que interessa hoje em dia.
Como pode haver unidade, se tudo nos separa e tudo se separa, e junta-se o que se deve e não se deve, o que deve com o que não deve, é tudo tão breve, e a brandura dos olhos, é a brandura da alma, o espelho do nada que não passa, e do passo que não se dá.
Talvez o natal seja de facto o pré balanço do final do ano, o primeiro momento em que se pára diante da família e se recorda em silêncio, quem recorda, o que aconteceu durante todo o ano. E este não foi o mais famoso, para muita, tanta gente, gente a mais.
A vida tem coisas curiosas, minutos engraçados, horas com piada, tardes de sonho, noites memoráveis, a vida tem tudo, de tudo, para muitos e não para todos, por certo, não para todos.
Afina, aponta, fixa, ergue, segue, persegue, morde, agarra, puxa, insiste, não desiste, aguenta, mais força, aperta, é teu, não larga, cuida, trata, protege, educa, mostra, fala, conta, diz, ri, chora, canta, berra, grita, dorme, é vida, é tua, agarra-a, continua, não larga.
O natal para o ano volta carismático e agregador como sempre.
A mesma disposição, a mesma conversa de ocasião, o mesmo delito de opinião, o cinismo, as vozes na cabeça, os olhares de soslaio, o sofrimento, a ausência, a tristeza, a estranheza, os núcleos, a família, e a outra parte dela, as memórias e a fuga para a janela.
As lembranças e…
É natal outra vez, diz-se assim em português.
É natural por ventura, e o que arde cura, como a ferida aberta que fica escura, que o olhar da ternura se perca na noite escura?
Tudo é natural. É natal. E no Carnaval também, ninguém leva a mal, é um festival.
O que terá feito Jesus nas outros 32 noites de natal que testemunhou?
Será que ele saía à noite depois de abrir os presentes?
Bebia uns copos com os amigos?
Ou será que era um menino certinho, e ficava em casa a ajudar a santa da mãe a lavar a loiça, e ia cuidar do presépio, que o deles era daqueles mesmo verdadeiro, com animais e tudo.. E todos os anos deviam ir lá por uma velinha para agradecer ao Senhor o filho que Ele deu ao mundo. José devia ir de trombas. A pensar, agora tenho de ir agradecer ao filho do, com todo o respeito, Outro? Pensaria ele, mas sempre de sorriso na cara, o cínico, cobardolas, que nem soube defender o filho e deixava-o andar de rabo de cavalo em casa, para não mergulhar os cabelos na sopa.
Jesus devia ser fresco, devia. 
Mãe vou sair.
Vais onde filho?
Vou ali pregar aquela aldeia ali ao lado.
O pai era carpinteiro. A mãe dizia, ta bem filho, mas tem cuidado não te aleijes, e pronto, era aquilo de vez em quando.
E depois voltava dias depois, sujo, a cheirar mal e dizia, olá Mãe.
E Maria: Filho onde estavas? A pregar Mãe. A baptizar pessoas. O normal.
E eis que surge a pergunta da noite.
E tentar enquadrar Jesus numa família da classe média portuguesa dos dias de hoje?
Sim, classe média.
Jesus teria o passe da Carris, tinha de ter, sub-23 com sorte, sabia as estações de Metro de cor e salteado, de todas as linhas, e sabia os autocarros, porque a mãe lhe dera um mapa.
Andava a pé.
Teria roupa de marca, tinha de ser igual aos outros, senão davam logo por ele e era um ver se te havias.
Na escola ainda levou umas quantas na cara, quando se pôs uma vez a dizer que era o Messias. E tudo a gozar com ele na sala, és o Messias és, tá calado ó Jisas
E isto durou até o professor o expulsar. E ele foi com essa conversa com o pessoal do 12º ano que tinha faltado às aulas, a dizer que era o Salvador, o Messias, o filho de Deus, levou tanta bofetada naquela cara, que parecia um pão de Mafra, não voltou cá a meter-se com conversas.
Jesus haveria ter um Iphone.
E que músicas iria ter?
Com a quantidade de músicas que foram feitas em sua honra, tinha aquilo bem composto.
Possivelmente iria também gostar de coisas variadas, e ia comer ao McDonalds e à roulotte, essa instituição portuguesa.
Na vida de adulto de hoje em dia, onde é que o rapaz ia arranjar tempo para andar a pregar por aí?
E a sociedade estaria preparada para um pregador em versão super herói?
Que durante o dia é Jesus, não o treinador do Benfica, o verdadeiro, e à noite, ou quando tem um tempinho é o Messias Salvador?
Levanto desde já as minhas reservas.
No natal é que eu queria ver o que é que ele fazia.
Como seria o natal de Jesus nos dias de hoje?
Não é irritação, indignação, ódio, tristeza, frustração, revolta. É simplesmente, um não é.
Para mim não é Natal, mas sim natal, eu é que sei, eu é que escrevo.


20 minutos… ou nada

Quando o relógio te sai, a carteira te cai, a tua mãe não lá vai, já cá faltava o teu pai, o que é que assim te distrai.
Acordo e tomo um banho, cedo, o acordar, um pouco mais tarde do que o começo do banho.
São 06h da manhã e a rua dorme, parte dela só dormita, a outra ressona de satisfação.
Prefiro assim, não gosto de partir em dias de muita luz, é sinal de muita gente acordada, cara toda amassada, noite complicada… Gosto bem mais de desaparecer no escuro. Como o ladrão que caça na noite, evitando os candeeiros, jogando entre as sombras das ruas. Qual predador, explora, fareja, sente e conhece o terreno, mistura-se e torna-se parte do mesmo, até ninguém o estranhar.
É rápido na sedução. 
Assim é rápida a despedida.
Ninguém para magoar.
Nenhum olhar para trocar ou palavras a desperdiçar.
Vamos embora.
Continuam a ser 06h da manhã.
Ele sai de casa.
Café em copo de plástico, mochila nas costas, algum dinheiro no bolso, algum dinheiro guardado, sem previsão de regresso.
Máquina fotográfica. Computador portátil, telefone móvel, chave de casa no esconderijo, está tudo pronto.
Arranca rua abaixo, enquanto diz bom dia aos carris do eléctrico, o que vai para os Prazeres, o srº António acende a luz da casa de banho, é o 2º a estar quase pronto, e ele lá desce.
Agora já são 06h da manhã. Porque eu quero.
Só agora o relógio começou a contar, o que confere ao rapaz cerca de 20 minutos de tempo congelado que pode usar em seu favor. E como?
Pára o relógio e tudo à sua volta se passa a centrar no seu pensamento, tudo acontece à velocidade que ele acha que as coisas podem e devem acontecer. Durante 20 minutos.
Pára tudo!
Encosta-se a uma paragem de autocarro, não está a perceber bem a coisa. 
Tudo à volta dele se mexe, tudo se desenrola, mas basta um pensamento e a mulher recua na passadeira, o carro vira à esquerda e não à direita, o homem levanta 60 € em vez de 120 €, tudo em minutos que parecem não ter fim. Pode pedir o que quiser, desde que não seja um bem material.
O que fazias se tivesses 20 minutos de avanço, criados para poderes passar por eles, como quisesses, à velocidade que quisesses e recolhesses tudo o que te interessasse, que não bens materiais?
Tal pergunta me desce à mente, em vésperas de Natal, época tendenciosamente dispendiosa e desmedida.
O que faria eu com 20 minutos a mais?
Talvez fosse tão depressa quanto a velocidade me pudesse acompanhar.
Talvez caminhasse descalço só para sentir o chão que me pede para o pisar.
Talvez quisesse ser mais do que estavam a deixar.
Talvez até não quisesses sair do mesmo lugar.
Quanta vida cabe em 20 minutos?
De tudo o que já viveste, o que escolhias para 20 minutos mais?
É uma pergunta pertinente numa época em que todos os minutos parecem inequivocamente interligados que nem dás pela sua desmultiplicação sucessiva e enraivecida.
É o tormento dos dias em que vivemos a competir e a colaborar com máquinas cada vez mais eficazes e precisas e menos dispendiosas, e temos de dar sempre mais e mais e o dobro, e agora tiram-nos coisas que até aqui eram tidas como inalienáveis, e nem damos pelo tempo a passar.
Já é Natal novamente. Já é Natal, e o que para trás ficou… a bem ou a mal… já passou.
Não é uma canção de vanglória imortal, é a súbita consciência de que já é novamente Natal, e o que para trás passou, a bem ou a mal, passou, ficou, serenou, evoluiu, partiu.
Perante a pergunta colocada não há resposta precisa, correcta ou aproximada da verdade.
O que são 20 minutos?
Transforme-se 20 minutos em emails, cafés, piadas, caminhadas, pausas, telefonemas, sandes, cigarros, conversas, viagens de, viagens para, pesquisas, sms, idas à casa de banho, copos, amores, desamores, amantes, amadas, romances, caminhos vizinhos, labirintos distintos, tequillas, vodkas e absintos, ai os pés que não os sinto.
Tanto cabe em 20 minutos e tão pouco ao mesmo tempo.
E o benemérito pensa, porra, não é justo ter 20 minutos mais do que todos os restantes.. vou doá-los. E logo o vigarista se aproveita e diz, então vou vender os meus 20 e começar a comprar e vender minutos, num instante faço negócio.
Tudo em redor de uns míseros 20 minutos.
E garanto que haveriam de começar guerras por toda a parte pelo controle dos 20 minutos extra.
Em 20 minutos se faz muita coisa.
Sugiro uma experiência. Liguem o alarme no telemóvel e programem-no para 20 minutos depois estar a tocar o Bryan Adams, a Shakira, o Tony Carreira, a Beyoncé, ou o Sai da frente Guedes, mas indo ao que interessa, durante esses 20 minutos, que podem ser num qualquer ponto do globo à vossa escolha, interior, exterior, subterrâneo, aquático, vejam o que vos é possível fazer e registem.
No final, recordem o que fizeram e vejam o que podiam ter feito, de preferência gravem isto em vídeo.
Vão poder fazer uma experiência fantástica, que eu próprio nunca fiz, mas achei engraçado vir para aqui falar como se fosse um tipo muito experimentado nestas coisas da ciência interpessoal.
Estão a pensar nos 20 minutos.
Eu estou. Há mais de 20 minutos.
E ele entra no eléctrico, e vai tudo ainda meio a dormitar, e ele já leva 20′ de avanço, não tem com que se preocupar, chegará com certeza ao trabalho, bem antes, 20 minutos antes de ter de chegar para trabalhar.
Passa no Jardim da Estrela, sobe em direcção à Ferreira Borges e faz uma vírgula à Ronaldo para dentro, de pé direito e ao fundo está o cemitério dos Prazeres. E ele?
Bolas, perdi-o, deve-me ter saltado fora do eléctrico na Estrela.
Desço a rua a correr, vejo-lhe o casaco, mas já não o vejo a ele, batem-se portas de carros, palmas, asas de pombos, batem dois carros, trina o eléctrico, e ao longe grita-se dentro do jardim.
Quanto tempo terá passado? Cinco, seis, no máximo 8 minutos. Faltam 12.
Onde foi, o que terá em mente.
Grita-se com mais força, estou mais perto.
Está um sem abrigo deitado despido, morto e ferido, com um sapato calçado e outro, desaparecido, nariz esfolado, sobrolho rasgado, quem terá este chateado? Não te distraias, onde vai o miúdo?
Está ali, já o vejo.
Olha para o relógio, já chamou a polícia, acelera o passo. Só lhe restam 10. Pára. Olha-me e diz que não sabe o que fazer, que tem mais 10 minutos e não sabe o que fazer.
E eu, onde já vão os meus 20 minutos?
Já passei por eles e estou apenas sentado a escrever a pensar, a imaginar e a dobrar a realidade, e passaram três vezes os malditos 20 minutos, sozinho, em casa, sem abrir a boca.
E os dele? Recompõe-se, cerra o punho, avança decidido, senta-se num banco, acende um cigarro, fuma pouco, mas quando está nervoso tem de ser. Pensa, pensa, e já só faltam 6, e encosta-se, perna traçada e delibera: “Nem saio daqui sequer. É só esperar que passem.”
E esses 6 minutos sentados, tornam-se pesados, vagarosos, silenciosos, surdos, mudos, cegos, lentos, muito, muito lentos, e toca o telefone.
A expressão é de consternação e desilusão pessoal.
Porquê se foi a escolha que fez?
Porque no final dos 6 minutos, pensou que podia ter feito tanto mais, que 6 minutos davam para tanta coisa. Para pegar no telefone, e ter ligado a pelo menos 6 pessoas.
Esta podia ser uma história que tem tanto de estúpida como de real, não a palhaçada dos minutos, mas a escolha, a não escolha, a decisão e o arrependimento.
Está na tomada de opções o fruto do encarreirar no caminho.
São passos cegos tantas vezes, mas temos de os dar, e descalços de preferência.
Repetia muito do que vivi, ou era para lá que partia, mas não escolhia nunca para agora aquilo que já passei, pois tudo perderia assim o imenso valor que lhe dei, perderia assim a imagem que do tempo resultou.
É Natal outra vez.
E do tempo que passou o que se fez?
Encheram-se noites de porquês, conversas a dois, a três, conversas sem conversa de todo.
E eis que chegamos onde nos encontramos. Com os mesmos minutos com que começámos.
E em que é que falhámos? Onde foi que errámos? Vale a pena olhar para a trás, mas de cima para baixo. Ninguém gosta de ver o fundo ao tacho.
O ano chega ao fim, e já o outro está prontinho para arrancar, casas de banho lavadas, estradas alcatroadas, dívida acumulada, tudo em ordem, e vamos embora a despachar com isto.
Ainda a pensar nos 20 minutos?
Faz a experiência.
Ele não chegou a sair de casa, não bebeu o café nem falou com os carris, da rua meio adormecida com outra metade que ressonava de satisfação.
Adormeceu. Não ouviu o despertador. Tomou já banho de raspão, deu uma trinca a uma metade de pão, meteu o iogurte na outra mão e saiu, já tarde, 20 minutos depois da hora.
Vai chegar atrasado.
20 minutos, é assim tanto?

1 ano… E que vida!

As manhãs de nevoeiro são bonitas.
Em especial aquelas entre Dezembro e Janeiro, com frio, luz suspeita e iluminação duvidosa, essas tornam-se conscientemente sedutoras e envolvem-nos naquele manto de algodão gasoso que torna as estradas místicas e nos dá a sensação de estar a caminhar rumo ao vazio.
Será essa uma prenda da natureza aos homens?
Será essa a resposta a tantas preces, pedidos deveras sentidos que encostam o homem aos beirais do pensamento sonhador?
Não. É simplesmente nevoeiro. Não vale a pena pores-te já com fabulações e recriações de cenários biblícos, porque na verdade nevoeiro é apenas nevoeiro, chuva é apenas chuva, e por aí fora.
Mas é bonito…
Pois é.
E queres com isso dizer que todas as coisas bonitas têm de ter explicação?
Não têm, não devem sequer ter que ter, para não perderem parte dessa mesma beleza.
Há na vida momentos para apreciar, momentos para questionar, momentos para indagar e muito especialmente momentos para contemplar.
E na contemplação reside parte do sumo espremido para o copo do encantamento.
E é o encantamento que me traz ao que aqui me trouxe.
1 ano. Passou exactamente 1 ano, e parece que foi há tão pouco, mas ao mesmo tempo a tanto.
É estranho pensar num sem o outro, estranho conceber a realidade, é bem mais simples entender a ideia.
O meu carácter transformou-se muito devido a si, a tudo o que bebi dessa fonte inesgotável de verdades formativas, de conhecimentos adquiridos, de sentido de justiça, de trabalho, de missão, de obra, de estratégia, cálculo, conselhos, orientações, e sobretudo nessa fonte inesgotável de vida, de resistência, de luta, de capacidade de regeneração, abnegação, sobrevivência, nome, olhar a direito, pensar mais longe, que se traduziam numa FONTE INESGOTÁVEL DE VIDA!
Muito me admiram as grandes obras, as grandes resistências, as grandes ideias, os grandes e mais altos pensamentos, mas espantava-me a capacidade que tinha em racionalizar os factos e sintetizar os procedimentos, ao caminho único e possível a seguir.
Era de ficar com o sangue gelado e envergonhado dentro das veias, com vergonha de correr, com a verdade que transbordava pelos seus olhos, a emoção nas palavras duras e muitas vezes revoltadas e dirigidas ao centro da fúria, a injustiça, a desonestidade, a mentira.
Era um pouco como ter acesso a um daqueles clássicos da literatura que figuram em colecções privadas, a que poucos têm acesso, e poder devorar com o olhar, toda a autenticidade do que temos diante dos humildes olhos que gravam tudo o que vêem com precisão cinematográfica.
Costumava sair daquela magnífica e tão significativa casa, com a sensação de que tinha estado numa espécie de câmara intemporal, onde o mundo parava e eu simplesmente tinha a oportunidade de conversar durante o tempo (este sim aquele normal, o verdadeiro, dos relógios) que quisesse, sem que ninguém me cobrasse nada por isso, só porque me apetece, sem ter de dividir essa mesma oportunidade com ninguém, era meu e por isso me sabia tão bem.
E de facto foram vários anos de conversas, de ensinamentos, palavras sábias, perguntas, histórias, personagens, a moral de cada uma sempre melhor e mais certa do que a anterior, hoje percebo que feito de forma intencional, consciente, adequando-as aos conselhos que eu procurava sem pedir.
Faz hoje 1 ano. E as palavras continuam a aparecer-me na cabeça, os olhos, a expressão, o sorriso, a lágrima, a dor, a vontade, o passo largo, as mãos, aquelas mãos…
Saudades. Sou mesmo assim, um saudosista, e então? Reflexo da entrega e da paixão, com que amam os olhos.
Tenho saudades dos anos que passaram antes do ano que hoje faz. Tenho saudades e a elas volto, aos sítios, aos olhos, às mãos, às palavras, vejo tudo, gosto de olhar para trás.
Gosto de me lembrar de calçar os chinelos em pequeno, e andava com eles em casa, enquanto não chegava, já em pequeno queria na verdade calçar os seus sapatos, ver o que via, saber o que sabia, havia em si uma espécie de magia silenciosa, que rodeava os gestos, o caminhar, o tom da voz, era uma coisa muito boa de se sentir em miúdo.
Já crescido eram conversas longas, eu sabia que sempre que ia ter consigo, não poderia haver compromissos para depois, só seus, nunca meus, porque a conversa era mais valiosa que qualquer outra possível naquele preciso momento, e é impossível, mesmo para o esquecimento, fazer esquecer algo assim, e fazer produzir nessas horas, poucas outras expressões para além de sorrisos, ou esgares, e abanar assertivamente a cabeça, sem nunca perder de vista as mãos, aquelas mãos.
Para mim eram as mãos de alguém que sempre considerei um ser superior, à própria normal e banal condição da maioria das pessoas com quem contactamos na nossa vida.
Eram as mãos do meu AVÔ e isso é tudo.
Tenho pena do futuro, porque não chegou a tempo de o conhecer, dos meus filhos que também não chegaram a tempo, dos sonhos e das ideias, mas… é mesmo assim.
Sei que está feliz e está por perto, e isso é certo.
Obrigado.
Obrigado pelas palavras que ouvi e gravei, que aprendi, usei e ensinei, pelas vezes que me disse o que havia a ser dito, o que tinha de ser escrito, fosse mais ou menos bonito, era o que havia a dizer.
E não consigo não sorrir ao ver o enquadramento cénico da coisa.
Sala, ponta da mesa, diagonal taçada ora entre a esquerda, ora entre a direita, olhos nos olhos, olhos nas mãos e nos olhos, nas mãos. E depois o tempo que ficava a pensar quando dali saia, e só hoje vejo o funcionar daquilo, de tudo aquilo que me dizia. E só está a começar. É isto que O avô é. Um ensinamento de vida, um marco, uma referência, não só uma, mas várias, conto duas, pelo menos, três, quem sabe? Talvez. 
Vão marcar-me para todo e mais qualquer bocado de sempre, vão estar comigo nas horas de aperto, como já estiveram, vão servir de luz, quando a escuridão por vezes me cerca, e vão sobretudo ser citadas, vezes e vezes sem conta. O que conta é a conta que não faço, nos dias de cansaço, ao tempo que não passou, porque me cansaço de contar as coisas boas, todas elas que por aqui deixou.
Está frio, e um sólido e espesso nevoeiro, recordas-te de qual é o dia de que te recordas primeiro?
Recordarei sempre tudo por inteiro.
Quero acordar e ser quem sou, crescer e mostrar, dizer e contar, que na vida não há mais quem ganhe ou perca, mas sim quem vive e aproveita, e quem assim não vive, faz a cama onde se deita.
Gosto de acordar e de a olhar assim, meio desfeita, mas no fundo sorrio sempre ao vê-la ali, e porquê? Porque mais logo, sei bem quem nela se deita.
Do nome se fará herança, AVÔ. Daqui, do NOME se fará herança!

Noites longas de poesia

Da invulgar solidão nocturna se criam laços com a individualidade.
Passo tempo sozinho, passo até muito tempo sozinho, mas nunca estou verdadeiramente só, na medida em que estar sozinho nunca chega a ser solidão. 
Só eu, tu (pensar que és meu) e eu novamente, há espaço para todos nós.
É exactamente de espaço que falo, quando na noite me calo e me escuto a murmurar.
Haverá por ventura som mais surdo e ruidoso que escutares o teu próprio sonhar?
Atinjo-o calmamente e com o olhar embevecido, vejo lá fora uma plataforma sorridente onde atraca o cargueiro das ideias, já com o casco batido.
De chaminé entupida e tripulação exausta, amarras presas à margem e chega a meio a viagem de um portador de mensagens, que na noite se enrosca.
É comum em mim, tão certo que penso que não mais me deito sem me ouvir por umas horas.
Acredita que sei, que tudo o que te dei foi bem mais do que tinha…
Não era a mim que o cão vinha.
E pergunto-me agora, é por isso que choras?
Não sou um vulgar pensador, que se alimenta de amor e de sonhos vazios.
Sou homem sim senhor, que sabe bem o que é dor, o que é ter frio no verão.
É estranha a sensação, não digo o contrário, mas nem por isso lhe cedo e reviro o armário das imagens que guardo em mim, são elas que me pintam e me fazem assim.
São 5h00, está a rua molhada, e os homens ainda dormem.
Nem sei se dormem ou não, pouco me importa e então?!
No barco que atracou, houve algo que se soltou e não sei ao certo o que foi.
Trouxe a tristeza encrostada, uma janela quebrada, o Mar assim a deixou.
Fui já tanto e tão pouco, há quem diga “Estás louco!”, tens tanto para viver…
Respondo com os olhos a sorrir, a boca quase a abrir, vou acabar por dizer.
Talvez não esta noite, talvez não tenha de ser.
É melhor nem parar, a estrada é feita para andar, não há nada a fazer.
E tanto, mas tanto quero eu escrever.
Escrevo o que me interessa, com calor e sem pressa, que a bateria não acaba.
Tenho a luz meio acesa, farol fundido do pensamento, é preciso encadear o verbo e o complemento, não me queixo mas também não tento!
Poesias à parte, que rimar é também uma arte, pela qual passo os dedos.
Sou poeta do sonho, mas também me envergonho, quando me exponho aos meus medos.
E o espaço?
Sentir falta de, querer mais, ter pouco, ter muito, não saber o que lhe fazer, nem como o preencher, tudo pecados divinais.
Pschhhiu… anda cá, onde pensas tu que vais?
Lá fora já escuto o atrevimento dos pássaros e da borracha que rola no pavimento.
É cedo, pois é, e eu ainda a pé, se bem que é sentado que caminho a esta hora, pela noite fora, à procura do desejo, que não encontro nem vejo, de ter sono e dormir.
De que me valem as ideias? Tanto, que me cozem os buracos nas meias, e as noites estão cheias de pensares que hão-de vir.
Descarregados que estão os sonhos da viagem, é tempo de zarpar, das amarras soltar e tornar a partir.
Tens o casco batido, o vidro partido e mesmo assim queres seguir…
Cargueiro do real, não estás nada mal, para a idade que tens.
Deixa lá não chores, nem tão pouco implores, amanhã sei que vens.
Tantas vezes não gosto daquilo que escrevo, não gosto, e voltarei a não gostar.
Quero o espaço, a noite e o sonho de sonhar.
Quero a sede, o sol e a noite num pensar.
Cala-te estúpido, que nem sabes mais o que vais tu pintar.
Como não sabes que palavras empregar.
Os lençóis engelhados, nas portas pendurados, não enxugam por nada.
Tens a alma encharcada, a vista desfocada e o perfume a que te cheira?
A ti.
É. Cheira e bem.
E o amanhã, que perfume será que tem?