E se fosse possível?

Surpeendido acordo pela manhã, olhos meio inchados, boca seca, tshirt molhada, pés frios.   Frios, muito frios os dias que antecederam esta manhã gelada que me secou a boca e me enregelou os pés.
Não percebia bem porque razão tinhas os pés frios, a boca seca, tudo bem, bebi demais ontem à noite, com o tabaco, tanto pior, mas os pés frios, os pés frios era…. esquisito, ahhh, não sei explicar.
Fui até à casa de banho, onde percebi que ainda tinha os olhos meio inchados, a boca gretada, pensei que seria do whisky mas não, eram gretas provocadas pelo frio, mas os pés não tinham gretas.
  Reparei, ao passar as mãos pela cara, que tinha as unhas sujas com terra, dentro das unhas, numa proporção estupidamente estranha. Lavei as mãos, e não tornei a olhar para as unhas.
  Fui até ao frigorífico, servi-me de um belo e habitualmente gelado copo de Coca-Cola, e bebi-o praticamente de uma vez, sentia-me no meio do deserto da tunísia, sequioso, gelado de febre, desidratado, e caminhava com uma leveza estranha.
Segui a rotina normal dos dias e fui ver se tinha mensagens no telemovel, ou alguma chamada. Tinha 2 mensagens tuas, que adoro ler ao acordar, estavas preocupada por serem 16h da tarde, e eu ainda não ter acordado, já me tinhas ligado para casa inclusivé, não ouvi nada. Tentei-te ligar, mas não estava a dar, dava erro de ligação. Tentei de casa, não dava, parecia que de repente tinha acontecido qualquer coisa de completamente anormal em meu redor.
Liguei à minha mãe, também estava desligado, o meu irmão, também desligado, o meu melhor amigo, também desligado. Parecia propositado.
Tomei banho, vesti-me e saí à rua.
Liguei a vEsPa e fui andando. Outra coisa estranha que me aconteceu, passei em 21 semáforos, 19 cruzamentos e 3 rotundas, e nunca precisei de travar, tudo verde, cruzamentos livres, rotundas vazias.
  Era como se toda a humanidade me estivesse a evitar. E eu? Tranquilo da vida.
Bem, parei, no alto do Parque Eduardo VII, a ver o rio, a olhar para ti, a imaginar onde estarias. Voltei a ligar-te, voltou a não dar, por fim consegui… Chamaste por mim, comecei a falar e tu só dizias: “tou? tou? tou…!!? quem fala? Como é que arranjaste este telefone. É do meu…” e começaste a chorar.
Tentei acalmar-te, mas estava eu mais nervoso do que tu, porquê?
Porque durante o tempo em que estiveste a fazer perguntas e a chorar, eu estive sempre a falar, e tu não ouvias nada do que eu dizia, nem sequer falaste directamente, parecia que estavas a falar para algum desconhecido, parecia até que….
EU TINHA MORRIDO!
Espera lá?? Que estúpidez completa, se eu morri como é que tenho telemóvel, vEspA, estou no Parque Eduardo VII a ver o Rio Tejo, a ver-te a ti, a ligar paaaara ti..
Mas a bem dizer ainda nem consegui falar contigo hoje e jã são 20h00, ninguém me atende o telefone, tu atendes e pouco tempo depois desatas a chorar?
O que se passa?
Decido o mais óbvio.
Vou me tentar aleijar…
Tento, mas… não consigo tentar. Não consigo pensar.. Estou bloqueado. Estou, naaa, não pode ser.
Estou morto.
O quê??
E tu? E a Maria InÊs?? e, tudo, e a minha mãe? o meu irmão..? O meu irmão.
Será por isso que tenho as unhas com terra, porque saí do buraco para passear?
Passado um bocado o telefone toca.
Onde é que o telefone de um morto toca? Onde é que um morto ouve o telefone a tocar? Ele até pode ter um telefone, mas depois como é que lhe carrega a bateria?
Ahh, agora é que te apanhei, mas estou a ficar sem bateria.
Volto para casa, ninguém me diz nada, volto para a cama, não quero saber.
Volto a acordar, outra t-shirt, agora seca, pés quentes, boca normal, afinal onde estive eu ontem?
Ligo-te, os pés tão quentes, não tenho meias, não quero luvas, é verão, mas onde estive eu então?
Não tinhas acordado ainda, mas parece que ainda há pouco estive aqui, mas não estiveste, quem te diz que eu não morri?
Que parvoíce, ainda agora acordaste e já tás a dizer asneiras Martim?
Sou eu, sou quem sou, acordei assim, mas diz-me se não é por ser parvo que gostas de mim?
Gostava que um dia voltasses para junto de mim.
Mas eu estou aqui.
Eu sei, dizes tu, mas eu já não saio daqui.
Apanhas-lhe o jeito, digo-te baixinho.
Se viver a teu lado, é viver a sorrir, porque não posso brincar com o que há de vir?
 Ou já veio.
Cala-te palerma.
Nem tudo pode ser feio.
Nem tudo pode durar.
Mas digo sem receio, enquanto dura, leva a vida a brincar.

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(SOBRE)viver.

(SOBRE)viver neste planeta parece estar a tornar-se cada vez mais dramático, mais problemático, mais difícil, impossível, pouco provável, para quem não tem a sorte de ter contas em bancos, de estudar, de ter uma família, de ter uma casa, carro, mota, para quem não tem a sorte de passar férias em países que não o seu, ou numa cidade que não a sua. É realmente preciso ter muita sorte para se poder (SOBRE)viver nos tempos modernos.Tudo custa os olhos da cara, o “sistema” arranjou maneira de lhe estarmos sempre a dever alguma coisa, para pagar a casa, o carro, as férias, as obras, a escola dos miudos, os sapatos que se rompem, os cadernos que se rasgam, as canetas que se partem. Arranjamos maneira de serpentear pelo meio de tudo isto e conseguimos acordar de manhã e sorrir, conseguimos inclusivamente arranjar maneira de sermos felizes.
Na verdade o ser humano é qualquer coisa de verdadeiramente fantástico.
Ontem assisti a uma cena de felicidade no meio do terror que têm sido estes dias no Haiti. Uma criança, de 8 anos se não estou em erro, e é possível que esteja, pois têm sido tantas as vítimas e tantos os números “avançados”, como se diz na gíria, daquela que eu espero vir a ser a minha futura profissão, (sobre)viveu durante uma semana, debaixo de escombros. O mais curioso, se é que existe alguma coisa de curioso no meio daquela calamidade, sem que seja mórbido em primeiro lugar, claro está. Mas como estava eu a dizer, o mais curioso, foi que a mesma criança permaneceu durante uma semana encolhida na posição fetal, como se de facto tivesse inconscientemente recorrido, à sensação de protecção do ventre materno.
As imagens alcançam sem dúvida um poderio devastador, mas imaginar este cenário não deixa de ser assustadoramente real e tocante. A vontade e a força de viver, superiorizaram-se à fatal partida do destino, à desmedida e descontrolada fúria da natureza, sobre aqueles que pouco mal lhe fazem.
No fim de contas sobreviver foi foi bem mais fácil do que será agora viver o resto da sua vida, com a dor de ter perdido a família, e de ter um futuro praticamente definido pela falta de oportunidades que a (SOBRE)vivência no seu país lhe reserva. Boa sorte pequenino, bem vais precisar.

Nada será igual

Bom ano para todos os que têm a amabilidade de estar a ler isto, para todos aqueles que fazem o favor de ir passando por aqui de quando em vez, e digo de quando em vez, porque de vez em quando, é muita fruta.
Ora pois ao que vamos nós hoje?
É preciso ser-se realmente estúpido para vir para aqui a estas horas, sem saber minimamente o que vou escever, ou melhor, sem saber minimamente o que estou aqui a fazer.
De facto hoje não foi de todo um dia normal. Através dos sempre vitais blocos noticiosos, vi que no norte da Suécia estão -40ºC, na Holanda o Mar do Norte, estava coberto de camadas superficiais de gelo, na Polónia morreram 120 pessoas, e que a vaga de frio Polar, que por cá também se faz sentir, com um modesto frio do caraças, se vai manter durante mais duas semanas, que agradável este verão da Sibéria. é sempre fantástico imaginar como vão dormir as pessoas, os milhares de pessoas que noite após noite dormem nas ruas das várias cidades deste planeta, enfim é o mundo em que vivemos.
O ser humano está lentamente a afundar-se na densa cortina de fumo que o mundo projecta, e que cega os mais distraídos.
Esperança, o importante será sem dúvida manter a cabeça à tona, para sabermos sempre para onde estamos a nadar, mesmo quando as vagas atingem proporções por vezes inquantificáveis.
Limiares, não são mais que pequenos degraus que se ultrapassam com uma facilidade assombrante, quando a força nos impele à conquista.
Como tal, nada melhor que começar o novo ano com força suficiente, para acreditar que tudo se resolve, que tudo se consegue, que tudo se alcança, na correcta e devida altura, na correcta e devida proporção.
Gostaram deste registo? Qual Dr. Phil..
Nada se repete, tudo se altera, o igual é apenas matemático.