Cartas da Palestina – Apresentação

Cartas da Palestina – Apresentação

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Mounir tem de começar cedo a escrever, que ao final da tarde já a luz se foi e a electricidade, essa, essa partiu de malas aviadas há já uns bons meses. Por isso, a vida transfigura-se neste recanto atormentado da Terra depois de o sol lavar a cara e ir à sua vida e de o mundo reduzir consideravelmente o seu tamanho, isto, no colete de forças do planeta. Contudo, nas últimas duas semanas, a tensão aumentou e com ela, o número de mortes, de mão dada. A morte e a falta de sorte.

As dúvidas do petiz são incontáveis, não sabe sequer como e por onde há-de começar. Sente um nervoso miudinho daqueles que empurra violentamente a barriga contra o fundo das costas, que desarranja por completo a flora intestinal. Mounir está agora emerso numa multiplicidade de pensamentos que o assustam, mas ainda assim, consegue ter a leveza de espírito suficiente para perceber que o que verdadeiramente o atemoriza é, tão somente, o receio de fazer alguma coisa mal, de escrever e não dizer nada de jeito. Lá fora continuam as mortes e os rebentamentos. Concentra-te no que queres verdadeiramente fazer Mounir.

Ora, passado que fica o susto inicial, lá se consegue acalmar e reunir um conjunto de pensamentos que lhe permitem, minutos depois, ter mais ou menos uma ideia do que vai começar por dizer. A professora conseguiu arranjar-lhe, a ele em particular, um email directo de um amigo, que tem um filho da mesma idade de Mounir, mas do qual ela nem o nome sabe, mas ainda assim, resolve que vai retomar o contacto com o Português, para lhe enviar as cartas de Mounir. Prometeu-lhe isto mesmo, quando o encontrou numa destas manhãs, junto à padaria e lhe perguntou pelo trabalho das férias, se já tinha pensado em alguma coisa. Ele, radiante, pediu-lhe que lhe arranjasse maneira de ele poder escrever cartas em vez de apenas uma carta, para ser entregue quando regressassem às aulas (sabe Deus quando, onde e se alguma vez vão voltar a ter aulas).

foto: reuters
foto: reuters

A professora comoveu-se e encheu-se de orgulho e tristeza, numa rebelião de sentimentos simultâneos e inadvertidos, que a levaram a deixar-se cair num choro pueril e a sentir-se alegremente obrigada a dar um beijo maternal na face direita e arranhada (estilhaços de uma explosão) de Mounir.

– Sim senhor, tu é que mandas! Tens dois dias para escrever a primeira carta. Pode ser?
– Aaaa… Sim! Claro que sim. Daqui por 2 dias venho ter consigo aqui ao Mercado, se as bombas estiverem a rebentar lá em cima. Combinado?
– Combinado. 10h30?

A professora tinha o email de um amigo do Facebook que é Português, não sabe sequer de onde, não se lembra tão pouco do seu nome. Num pequeno bloco tem apenas escrito: Português – amigo (Erasmus), e o respectivo email que se apressa a dar ao pequeno. Felizes, despedem-se. Ela baixa a cabeça e de pronto se lhe encharcam copiosamente os olhos num choro de felicidade misturado com pavor. Ela sabe o que se passa e sobretudo, não sabe se vai voltar a vê-lo.

– Sim. 10h30. Adeus!! – E saiu a correr, tão depressa e brilhante quanto estava quando entrou e encontrou a professora. Partiu a grande velocidade a caminho do bunker. Afinal de contas, tinha tido uma ideia e não queria esquecer-se dela.
– Vou contar-lhe como são os dias aqui, pensou em voz alta e ofegante; como são as nossas brincadeiras, como é a nossa comida, como é mergulhar no Mediterrâneo e depois também vou querer saber o que se sente quando se mergulha num oceano. Sim, isso mesmo. Vou apontar para não me esquecer, disse enquanto parou um pouco para respirar, correr e falar ao mesmo tempo não é pêra doce, quando as ruas nadam em pó e bocados de casas sem enterro.
Quero saber como é o Oceano Atlântico, se tem mesmo ondas de verdade.
Terei igualmente de lhe falar da guerra. É impossível falar-lhe de mim, sem lhe falar do monstro da guerra.
Tenho de lhe explicar que a guerra maldita trava-se entre Israel e o Hamas e tenho de lhe contar que… enfim… falar-lhe daquilo que já vi… Dos mísseis nas escolas, nos hospitais e nas mesquitas. Dos homens e mulheres que se rebentam… de ouvir chorar todas as noites quando vou dormir.

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E as noites são sempre tristes. As ruas choram, as casas choram com mais força ainda numa tristeza própria das pessoas, as mães, mulheres e filhas parecem não ter outro destino que não o de chorar. Os homens… os homens bebem.
Tenho de lhe falar de todos aqueles outros homens, que andam armados e de caras feias, outras vezes nem caras têm, são homens sem cara e com mochilas cheias…
Tenho tanta coisa para lhe contar e nem sei bem por onde começar. Também não posso ser eu a fazer as perguntas todas senão ele cansa-se… Bom.
Vamos lá que a luz já é curta e depois lá em baixo não consigo fazer absolutamente nada! Vou escrever em papel primeiro e depois entrego a carta à professora para ela a enviar para ti.

Olá. O meu nome é Mounir e tenho 9 anos. Vivo na Faixa de Gaza. Já ouviste falar? Sabes onde fica? Vivo bem pertinho do mar e adoro nadar e ir à pesca com os meus amigos e os nossos pais e irmãos mais velhos (tenho 3 irmãos e o M. Fallah tem outros 5), nós somos os mais novos. O M. Fallah é o meu melhor amigo. Estamos sempre juntos. Jogamos à bola todos os dias. Pescamos. Nadamos. Fugimos dos homens das metralhadoras de Israel. Estamos outra vez em guerra. Estamos quase sempre em guerra e é tudo muito difícil para os adultos. Cresci sempre a acreditar que Deus nos protegeria e não deixaria que nos fizessem mal, a mim e aos meus amigos, mas infelizmente, Deus não nos tem ajudado. 

Não te vou chatear a contar a história desta guerra que não acaba, porque não ias gostar nada da minha carta e se calhar depois não me respondias e depois eu não podia saber como é que é o teu país, que é o país do Ronaldu. Mas tenho que te contar a história destes últimos 15 dias, porque foram os 15 dias mais tristes da minha vida.  
Bom, espero não parecer um mariquinhas. Eu não sou mariquinhas nenhum. Sou um homem.

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O Hamas e Israel entraram novamente em guerra e o que te posso dizer é que tem sido o terror todos os dias. Não tenho ido à escola de manhã, não vejo os meus colegas da escola há muitos dias, disseram-me que muitos morreram nas explosões, os pais de alguns deles também, e amigos deles, e amigos de amigos meus. E isto é muito triste. Não sei dizer-te em palavras porque ainda não sei muitas palavras, só tenho 9 anos, mas sei muitas daquelas feias que não se dizem, mas eu digo-as e ouço-as dentro da minha cabeça de noite e de dia. Não fizemos nenhuma maldade para vermos os nossos amigos a morrer na rua, no chão, cobertos de sangue. 

Ainda ontem. Estávamos a atirar pedras para água no pontão, só isso, pedras para a água no pontão, a brincar e a apanhar o sol da manhã, a falar sobre este nosso trabalho das férias, de termos de escrever uma carta para um amigo de outro país e de repente, um dos barcos de guerra dos israelitas começa a disparar para onde nós estávamos, conseguimos fugir, eu e o M. Fallah, mas o Youssuf e o Idriss morreram. Morreram!! Porque estávamos a atirar pedras para a água, de manhã. Merda para isto tudo. Desculpa estar a falar-te de mortes e mais mortes mas, na verdade, não tenho mais ninguém com quem falar, não há ninguém aqui a quem eu possa contar o quanto isto dói, porque aqui toda a gente tem dores… Toda a gente chora, grita, berra, bate, bebe, dispara, pragueja… Aqui a guerra em cada rua e nós fugimos para perto da água, mas… já nem aí estamos em paz… Em paz, não sei o que significa a palavra paz. E tu? Tens paz em Portugal? Também há guerra na tua rua? 

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Como será a vida sem guerra? Será que vou morrer? Hoje, amanhã, depois? Tenho medo. Ajudem-nos. Alguém que nos ajude. Não quero morrer. Quero ver o oceano azul do teu país e ainda nem sequer sei o teu nome.

Também há sempre fumo na cauda da tua Lua? A que sabe e cheira a Liberdade? Conheces o Cristianu Ronaldu?
Por agora não te chateio mais. As bombas têm caído mais na parte de cima da cidade, por isso vou ali chamar o M. Fallah para ver se vamos jogar à bola. Eu tenho a minha camisola. Nº7, RONALDU! Espero que respondas rápido. A minha professora vai enviar-te esta carta amanhã.

Adeus,

Mounir. 

Continua (…)

Cartas da Palestina – Parte I

Cartas da Palestina – Parte I

gaza4Gaza. Manhã cedo, assim bem cedinho e já tão quente como o são quentes as manhãs de verão na Faixa. Brilha o sol com a nítida e vergada placidez das águas do Mediterrâneo. Preparam-se os homens para a faina que trará o peixe que lhes sacia a fome e lhes permite uma receita modesta e variável como variável é a sorte dos dias que lhes passam pelas redes e pelas mãos. Mãos fustigadas pelo nylon, pelo sal grosso do mar que os banha.

Mounir aproxima-se da secretária de madeira suja e empoeirada que o pai lhe construiu para poder sentar-se a fazer os trabalhos da escola. Não tem janela alguma virada para onde quer que seja, porque neste momento vivem no abrigo subterrâneo obrigatório a todas as casas da zona. É um bunker. Apenas e tão só. Mas um bunker onde o pai teve a extrema preocupação de dar ao mesmo uma aparência semelhante à da casa onde vivem. A normalidade é a possível de quem vive numa zona que é fustigada, sem apelo nem agravo, pela imposição da ordem, à força, por parte de Israel e pela resistência armada e provocadora do Hamas.

A escola de Mounir foi há muito destruída pelos bombardeamentos das forças israelitas. O bairro onde cresceu está irreconhecível, desfigurado, rachado em várias frentes, formado por casas destruídas, blocos de pedra tristes e perdidos dos seus conjuntos, dos seus semelhantes, vigas de aço que se dobraram com a força das explosões e se curvaram perante o ímpeto irredutível da morte e dos seus fiéis soldados.

Foto: AP

Agora aprendem com uma professora que dá aulas a um grupo de 15 crianças, pela manhã, na cave de um antigo barbeiro. Chegam quando o sol do deserto aparece para lhes dar os bons dias. E por ali ficam a aprender até à hora de almoço, quando a fomeca aperta nas barriguitas já vazias dos meninos e meninas. As tardes são passadas a brincar, uns com outros, ou sozinhas, com pedras, com paus, com latas velhas, com restos de balas e partes de mísseis, com bolas feitas com o que lhes aparece aos pés. Ouve-se rádio nas esquinas e o ar é pesado, espesso, de entrada difícil no peito de quem não nasceu ali.

No início deste ano eram 24, mas entretanto já 9 morreram em explosões provocadas por ataques israelitas ou por “brincadeiras” de soldados bem dispostos pela manhã.
Mas estamos em tempo de férias e vêem-se menos do que o normal.

Mounir passa os dias maioritariamente com M. Fallah, amigo das fraldas e das correrias em pelota pelas ruas do bairro onde nasceram, perto do mar, sempre, os dois são exímios nadadores e mergulhadores aos 9 anos de idade. Ajudam na pesca sempre que são chamados.
Têm passado grande parte do tempo em que estão juntos a discutir o que vão dizer e escrever no trabalho de casa que a professora lhes passou nas férias. Ora, a tarefa consiste em escreverem uma carta, em que contem como se vive em Gaza, um dos sítios mais “difíceis” do mundo, e depois, para além de terem de escolher um país de destino para a carta, tinham ainda de dizer a quem é que queriam entregar a carta, a um menino, a uma menina, ou a um adulto, homem ou mulher. A professora tem amigos espalhados pelo mundo e muitos deles são também professores, pelo que será ela a enviar as cartas.

O país foi escolhido por eles num velho planisfério cansado de tanta guerra e de tanta explosão, agastado e já meio rasgado pelas marcas pouco simpáticas que o tempo, o calor, o pó e a morte deixam no papel, que outra solução não tem que não cobrir-se de castanho queimado. O papel é velho, rasga-se com incomparável facilidade. A professora conseguira resgatá-lo numa das salas da escola onde ensinava e da qual pouca mais restava a não ser alguns pedaços tímidos do primeiro andar e uma parte de cada uma das salas do 4º ano.

Mounir já tinha começado a escrever umas linhas e escolhera, curiosamente, o país do seu jogador de futebol preferido, Cristiano Ronaldo. Tem, nas costas da cadeira onde se senta em frente à secretária de madeira suja e empoeirada que o pai lhe construiu, uma camisola rota onde pintou o número 7 e um nome: RoNaLdU.

Ronaldo (1)

 

 

 

 

 

 

Continua (…)