O estranho caso do Verão de 2014

O estranho caso do Verão de 2014

O problema começa exactamente na existência diáfana das manhãs frias de Verão. Ora, desta forma, começa logo tudo mal. As coisas têm de ser postas nos seus devidos lugares e as manhãs frias não pertencem de todo ao quadro matinal que se idealiza para a estação referida. São essas manhãs, as que aparentemente se esquecem de levar pela mão o Sol que se quer quente, que aqueça a gente, que se quer quente, dito novamente, porque há mesmo quem tente, de forma mais, ou menos convincente, arranjar espaço suficiente para frescuras injustificadas.

Não constou em momento algum que o Sol tivesse perdido o comboio, que se tivesse esquecido das chaves em casa e tivesse voltado atrás, para se assegurar que tudo estaria perfeitamente fechado para o dia do seu regresso, que, curiosamente, calha em ser precisamente o dia em que me sentei para começar a escrever sobre a estação do Sol. O dia que marca oficialmente o final do Verão. Porém, que não se pense que tamanha empreitada se consegue resolver em apenas um dia, ou melhor, em apenas uma sentada em frente ao teclado.

Agora vão ter de me desculpar, mas não resisto mais. Tenho mesmo de fazer um esforço Hercúleo a fim de tentar compreender toda e qualquer (i)lógica explicação que possa residir por de trás daquilo que fez deste um Verão absolutamente mi-se-rá-vel. Parece haver uma espécie de ausência de princípio e, sobretudo, uma inexplicável incoerência naquilo a que tão frequentemente chamamos “Os desígnios de S. Pedro”. O que não se percebe é, principalmente, a razão pela qual se chega mesmo a colher a leve e estranha sensação de que se está na presença de um caso de absoluta má vontade. No entanto, talvez esteja redondamente enganado e não se trate de nada mais que pura e simplesmente um caso paradigmático de azar, vontade divina e muito mau tempo.

Estávamos no princípio de Junho.

Ele sabe e sente e ouve e promete e mente. Mente pois. Diria mesmo mais, diria que não tem vergonha nenhuma naquela cara e se dispõe a mentir com quantos são os dentes que tem e mesmo afónico, rouco, com a voz comida pelo orvalho fresco da hora a que se ergue para afinal não fazer rigorosamente nada. Mesmo aí e durante os três meses da sua permanência anual entre nós, não deixa de tentar a mentira e o engano em modo supersónico, disferidos numa assustadora e desavergonhada cadência que embalada e hipnotiza os que por ele esperam.

Está tudo a mudar e o tempo, esse, é e será eternamente uma grandeza impossível de controlar. Graças a Deus. É bom que assim se deixe estar. São, ou não as coisas que não controlamos aquelas de que mais gostamos e por que mais suspiramos, rezamos e apelamos? São, ou não as coisas que queremos perceber e não podemos, que tentamos ver e não conseguimos, aquelas que na verdade mais tememos e menos entendemos? É preciso coragem para viver. É preciso audácia para viver e amar alguém com a mesma força com que se ama a própria da vida.

Importa primeiramente deixar claro que este texto não é inteiramente meu, pertence-me, pois claro, mas não o compus inteira e totalmente sozinho. Claro que fui eu que o pensei, fui eu quem o ouviu correr desenfreado no pensamento como a água do rio corre da montanha para o mar, serpenteando alegremente por entre pedregulhos, pedras e pedrinhas mais pequenas, tremelicando por baixo dos ramos das árvores que nas margens se encostam e se deixam ficar assim para a ouvir e admirar, para escutar todas as histórias que ela traga para contar. Certo é que, para conseguir entrar “nisto”, contei de facto com o preciosíssimo contributo de quem me lê, de quem me fala e de outros que nem por isso, mas que, mesmo assim, de imediato se dispuseram a ajudar, num gesto puro e genuíno, que me deixou tremendamente comovido. Ou seja, resumindo e baralhando, sem a vossa ajuda não valeria de todo a pena perder sequer um fugaz fragmento de tempo (esse bem, essa relíquia, esse material quase celeste e divino que se transforma num raro e incrível ornamento preciso e precioso da existência e que parece, é isso, parece mesmo conhecer apenas um sentido, o da aparentemente inevitável finitude) a tentar fazer o que quer que fosse, fosse de que forma fosse.

Ora, é precisamente no ser que reside o possível centro de interesse de alguma coisa possivelmente interessante que possa estar para sair daqui. O que é. O que foi. O que devia ter sido. Ah e claro, o que não volta ser. Seja como for, não foi, não houve, e bem que devia ter havido, existido, sido. Oh, se devia.

Voltemos, então, a Junho e ao seu princípio, ao seu começo e aos sonhos que conheço de tantos e tão poucos que não sei ao certo se mereço sequer a veleidade de desafiar algo assim, mas cá vou.

Era Junho.

Estávamos ali no seu princípio e já eles faziam os primeiros esboços das férias tão ansiadas. Afinal de contas, fora um ano bastante complicado, esquizofrénico (dizendo isto com a clara consciência da dor que o familiar significado da palavra lhe traz) mesmo. Foi, sobretudo, um ano que os revoltou, que a ele, sobretudo a ele, o tornou mais ausente, o deixou amargurado, que o vestiu de um sentimento de revolta atroz. Como revoltado, andou e tem andado este tempo, o tempo que o viu ficar doente até ao mais profundo recanto da sua existência, que tanta tormenta tem sofrido, tormentas essas tantas vezes sem qualquer sentido.

E se ele esteve doente… Não foi uma constipação, nem tão pouco um desarranjo intestinal, nada disso. Esse tipo de coisas nem chegam bem a ser doenças. São mais maleitas. Incómodos. Transtornos. Chatices. Coisas que vão e vêm com a mesma facilidade com que vai e vem o vento, com que vai e vem o alento e o sofrimento, com que chega e parte o sumo mais puro espremido da incauta árvore do pensamento. Sabem, um homem envergonha-se quando lhe faltam as pernas, as palavras, as ideias e outras capacidades que tais. Envergonha-o a incapacidade bem maior do que a dor física que o atormenta e entorpece, irrita-o a profunda e inaceitável inoperância, a falência absurda de partes que até então sempre, ou quase sempre o assistiram, que sempre, ou quase sempre, ou muitas vezes ali estiveram para o ajudar a fazer-se mais homem, para fazer dele o homem que é, o homem que sempre foi. É natural que se envergonhe, pois claro. É natural que deixe até, momentaneamente, de acreditar que continua a ser o mesmo homem, que foi, que era, que costumava achar ser.

– Infelizmente as notícias não são as melhores. Devo dizer-lhe, meu caro, que lamentavelmente nada pudemos fazer para que o senhor continuasse a ser quem era até então. Posso assegurar-lhe que teve a atenção máxima de toda a equipa, que na verdade foi inexcedível, mas, olhe, vai ter de habituar-se à ideia de que daqui para a frente terá de aprender a viver a sua vida de outra forma, como o homem que não era e que terá de conhecer.

– Ora essa, doutor, não precisa de me justificar o que quer que for. Asseguro-lhe que cá me arranjarei.

Pouca, ou nada sabe quem acredite que um(a) homem/mulher não muda o seu comportamento, a sua atitude, o seu pensar, o seu andar, a forma como come, como bebe, como dorme, ou como se despe e faz amor com quem ama, depois de passar por uma experiência traumática, qualquer que seja a natureza da mesma. Não me restam quaisquer dúvidas quanto a esse facto. Tudo muda e na verdade… Mudou e acrescentou à vida coisas que, com grande dose de probabilidade, nunca lhe haviam sequer visitado o pensamento, mas não era altura para estar com pensamentos tristes e conformados, estava ali o Verão caramba!

Tudo o que era e tinha sido menos bom, para não dizer muito mau, tinha de ser devidamente arrumado no seu sítio, no seu cabide. Era tempo – isso sim – de viajar, de passear, de levar os esqueletos (o seu e o dela) a conhecer sítios lindos, mágicos, imaginados e escolhidos com a comunhão e concordância feliz da única companhia que queria e sonhava ter nessa viagem, a dela, pois claro. Era tempo de oferecer, de oferecerem à própria vida um novo rumo. Até mesmo ela precisa de oferendas feitas de quando em vez. Uma espécie de compensação retardada por todas as provações a que a submetemos.

Foi com esse espírito que se fizeram ao caminho, carregando no corpo a felicidade provocada pela sensação de que estavam a preparar-se para o embarque animado num princípio de férias perfeito, ou pelo menos julgavam eles que estavam. Mais do que isso, sonhavam-no com uma incomparável e saborosa ternura que os fazia sorrir até em sonhos. Sonhavam-no com aquele desejo tão próprio do amor que para sempre dura, daquela forma tão pura e tão absolutamente convincente e inquestionável que encanta e embevece os olhos de quem olha, que são diferentes dos olhos de quem vê.

Sonhavam-no com aquela parvoíce encantadora que é atribuída aos devotos do amor, que não se esgota, como não se esgota a água que corre no ribeiro mesmo atrás da casa e que treme desconfiada, quando nela entramos, pé ante pé, para não custar tanto. Como não se esgota o encanto do vento a fazer baloiçar os ramos verdes no verdejante prado coberto por centenas de árvores de frutos, guardadas por cercas e folhas caídas no chão, perdendo-se e desvanecendo-se da vista e vagueando pelas encostas recortadas das traseiras da quinta velha.

Definiram a data da partida. Concordaram de imediato que só poderiam fazer esta viagem de carro. Afinal de contas, continua a ser o meio de transporte que mais gostam de usar juntos. Ele conduz e ela vai ali, mesmo a seu lado, com aquela graciosidade incomparável que o deleita, que o embevece, que o apaixona e o faz escutar cada respiração, perceber cada sorriso, cada suspiro, cada gesto, cada toque. É de um carinho e de uma dedicação como ele nunca encontrou em momento algum da vida que leva já alguns anos. Prende-o à sua doçura, com a simplicidade do sorriso que lhe dá de barato e com a felicidade que lhe serve numa bandeja de prata trabalhada e desenhada por mãos de artista. Pura.

Sul de Espanha. É essa a decisão.

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Traçam a rota com regozijo e alegria e vão imaginando os locais por onde fazem ideias de passar. Espreitam-nos na net para perceberem ao que vão, o que vão encontrar, o que vão ver, mas não prestam, na verdade, muita atenção. Afinal de contas, vem lá o Verão e o Verão tem sempre o condão de nos aquecer o coração. Não?

Lá chega a semana que antecede a semana das férias. Ele está excitado, entusiasmado e até ligeiramente ansioso. Tem dormido menos, sonhado mais, mas não está cansado, nada disso, sente-se como um tigre que atravessa vagarosamente a selva bem no auge de toda a sua corpulência e animalidade, sabendo-se quase indestrutível, o tigre, não ele. Ela está feliz, mesmo feliz. Ansiosa por ver as praias de pedra escura, as estradas intermináveis e as paisagens áridas que caracterizam a Extremadura espanhola, tão diferente, tão grande e imponente. Depois há o Tinto de Verano, as tapas, a paella e os espanhóis.

De tão feliz que está começa a fazer a mala com uma semana – mais dia, menos dia – de antecedência. A mala para os dois. As malas. Ele, como sempre, espera até ao último dia, até à véspera, onde regra geral também não consegue dormir lá grande coisa.

A primeira semana de Verão trás pouco calor e as seguintes trazem mais do mesmo e mais ainda. Vento. Trazem vento, muito vento, fresco, acompanhado de temperaturas que em nada dignificam o seu “senhor”. Não tem problema nenhum. Em Espanha, vai estar bem melhor, pensam em conjunto, sem tocarem sequer no assunto.

Damos um salto mais alto e já estamos na manhã da partida. Está sol e a temperatura parece meio perdida. Já sabem por onde vão. Já viram a estrada, mas antes, antes de cruzarem a linha que define a mudança de língua, param em Elvas. Alentejo quente e bom.

Nas ruas do centro histórico desta histórica cidade, existem reguladores de frescura, que é como quem diz, pequenos regadores, ou mangueiras, ou chuveiros, que têm como significado de existência a nobre missão de tornar menos infernal a vida de quem ali vive, durante os meses de Verão, naquela espécie de forno a lenha gigante, que tem a agravante de estar já longe da água do mar. Em Elvas, tomam o segundo pequeno-almoço. Hábito bom este das viagens desta estação. Comes em casa e, antes de mudares de língua, dás à mesma um último vislumbre dos sabores que conhece tão bem.

Assim, acabam de comer e seguem viagem. Ainda lhes falta mais de metade do caminho. Felicidade que transborda para lá das quatro portas, dos seis vidros, dos quatro pneus, das malas e sacos e mochilas que seguem deslizando pelo asfalto no Opel Corsa valente que está feliz e contente por estar a passear. Um carro também gosta destas coisas, de se sentir útil, de permitir que a sua utilidade e que o seu significado de existência, andar e transportar, seja o veículo que faz crescer estes dois num amor que se respira para lá dos seus 55 cavalos e 1000 cc.

Entram em Espanha e logo começam a sentir o ar quente e seco do Verão do país hermano. Até o Opel repara. Pudera, faz um calor respeitável e a estrada é interminável, mas bonita.

Vão direitos a Córdoba! Quase 600 km em oito horas.

Opel Corsa do caraças!

(texto publicado no site: http://www.reportersombra.com)

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