Vês com os olhos que trazes!

Os dias contam-se, as noites também, as semanas são ligeiramente mais irregulares e difíceis de contabilizar. Já os meses, esses, voltam ao princípio aplicado aos dias e às noites, às tardes e ao fim das mesmas, às manhãs e às madrugadas, cabeças tapadas e as surdas gargalhadas de cristal.
Quem não conta, mente!
O quantificável permanece tangível, alcançável por entre os dedos saudosos e os lábios secos, gretados, gelados, implorando desesperadamente por uma abençoada salvação…
Levantam.se os olhos para o céu numa cadência nervosa e arisca, pensa-se e repensa-se, procura-se algo mais, encontram-se novidades em cada esquina, o cérebro não pára, não pode, não deve, não QUER!
Parar para quê? Fazer o quê mais que o impossível já tantas vezes feito?
Onde nos leva a cegueira?
Ás palmas das mãos. Nuas, frias, mas de uma genialidade sensorial e comunicacional a todos os títulos notável. Tudo depende das mãos nos dias que correm por nós.
Passamos os dias em comunicações surdas, com a única ferramenta ao nosso dispor que permite estabelecer uma conversa.
Não será por certo o resultado da mais frutuosa inspiração, mas quem não consegue de facto falar, os mudos, comunicam gestualmente, utilizando as mãos.
Ora o ser humano do século XXI utiliza o mesmo rigoroso princípio.
Escreve no computador, no Iphone, no Ipad, no BlackBerry, no telefone, whatever, mas conversa com a boca fechada, sentado, deitado, a conduzir, na santia, a andar, a trabalhar, de folga, seja lá onde for.
Portanto o cérebro não pára um instante e nós não damos a cara e escondemos-nos atrás das mãos, dizendo dessa forma tudo aquilo que as nossas próprias mãos tiverem a assumida coragem de dizer.
Se falamos tanto assim, mas sem falar de todo, sobra tempo para se pensar em mais e mais e mais e mais e ontem…
Ninguém lê em voz alta!
O coração, esse, ainda salta!
De quando em vez acorda-se como quem dorme, entorna-se o copo de água, dizes “Merda” e soltas uma daquelas respirações vindas das profundezas de tudo o que em ti existe e de tudo aquilo em que pensavas no teu sono profundo e perturbado, pensas, “porque estou agora acordado?”.
Mais tarde queres acreditar que foste acordado(a), para seres poupado(a).
Já basta o dano por si só causado…
E ao cérebro, perguntas se está cansado?
Não pode, não tem sequer esse direito se eu tenho de viver, ele tem de trabalhar, agora, mais ainda, horas extra sobre outro extra de horas por contar, nas folgas, nas foras e nas noites e nos dias, não há descanso, em absolutamente nenhum destes dias.
Porquê? Porque não podes parar, não podes descansar.
Deus-te deu-te a capacidade de pensares, de lutares, racionalizares as coisas da forma que melhor, ou não, te aprouver, para que assim de pudesses diferenciar dos demais quadrúpedes e bichos (alguns bem mais feio do que qualquer um de vocês) que se passeiam pela Terra.
Se nos foi dada tamanha veleidade, porque não pensar em usá-la?
Ninguém descansa, ninguém pára, porque parar é ficar lá, é ir também, uma espécie de prisão auto-imputada. Com que fim? Com que lógica o ser humano se prende a coisas quantificáveis  e se embebeda com todas as memórias com que se consegue enfrascar, nos bilhetes, fotografias, músicas, ruas, pores-do-sol, estradas, músicas em estradas, de mãos dadas, as caras transpiradas, conversas inacabadas, estridentes gargalhadas, as conversas terminadas, as viagens, os sorrisos das viagens, as conversas e memórias, das memórias das viagens. Para quê tanta coragem?
Está já ali a outra margem. Sim, quando entras é frio ao início, mas depois, fica mais fácil.
Acredita em mim.
Eu já consigo acreditar… E falo comigo para me mentalizar, e penso, muito, muito mais do que alguma vez pensei.
Viver sozinho tem esse traço tão característico.
Quando sais de tudo o que és, dos papéis que desempenhas e representas, nos círculos por onde te movimentas, voltas par aonde estás só, para o sítio que é teu, que és tu com móveis e cadeiras, sozinho, de manhã, de tarde ou mesmo à noite.
E assim cresces, só, tu!
E se assim é, é porque é assim que tem de ser.
Não contraries as vontades do tempo, contraria as tuas e segues-as, percebes a complexidade da ideia? Eu sei que sim.
Escolhas.
Tudo são escolhas. Vais, não vais. Levantas-te, ficas deitado, falas ou ficas calado, escreves ou ficas parado.
Cada escolha tem o seu tempo próprio e apropriado.
Deixa-o estar, deixa-o passar, passa por ele e sobretudo aprende a deixá-lo passar por ti…
Mais do que tempo, somes o fruto mais puro e fresco do próprio pensamento.
Vamos, somos, fazemos, escrevemos, dizemos, tudo aquilo que queremos e pensamos que podemos…
Aprendemos, ou pensamos que o fazemos e não sabemos e lá vamos vendo o mundo, cada dia numa forma, observando o que cresce em teu redor, verás que o amanhã pode sempre ser melhor, ou pior.
Sente quem és, reconhece quem no espelho encontras, fala-lhe e relembra-lhe quem tem pela frente, não só na feliz felicidade se ter a oportunidade de olhar a vida, com os olhos de quem tudo sente.
Uma coisa te garanto, há nesta vida, nesta, por vezes, estranha forma de vida, quem nunca a olhe frente e permaneça indiferente ao que diz o seu pensar…
Escreves com os olhos que hoje trazes… e deles o que vês e o que deles fazes.
Neste mundo, nem tudo são bons rapazes…

Como se ama novamente? Lâmpadas de luz intermitente

A pergunta não é simples, a resposta?
Haverá sequer, uma resposta?!
Será alguém capaz de explicar se é ou não possível voltar a amar alguém depois de se perder um amor de uma vida?
Como será o amor depois da dor mais profunda, do luto, da tristeza indescritível, da descrença no presente e na incerteza no que está para vir, da sensação mais porca e imunda, mais dolorosa e profunda?
Eventualmente… será novo.
Eventualmente trará medo.
Eventualmente, estar-se-à mais preocupado com o que não se quer sentir, do que com o que se pode passar, ou onde se pode chegar!
Tentar outra vez depois de uma situação de choque, de ruptura, de quebra, de dor, é sempre complicado, envolve uma preparação psicológica tremenda.
Imaginem que sofrem um acidente de mota, de carro, ou qualquer outro tipo de acidente menos dramático, mas igualmente acidental, onde  partem todinhos(as).
Nos tempos que se seguirem será difícil enfiarem-se novamente dentro de um carro, em cima de uma mota ou oceano dentro, porque o medo de poderem ver repetido tudo o que já passaram é terrível, só a leve ideia de isso se passar novamente é totalmente assustadora, aterradora, dolorosa, angustiante, sufocante, desesperante, tenebrosa…
Como angustiante é a ideia de pensar em sofrer novamente, seja de que tamanho for o sofrimento em questão.
Porque o sofrimento também ele tem altura, peso e largura, acima de tudo tem volume, maior ou menor consoante o que se sente, e a certeza de que aquilo que foi, NÃO VOLTA NOVAMENTE!
E para se amar novamente, é preciso não ter medo de cair, ou fazê-lo a sorrir.
E Ele está sempre à espreita do fugaz deslizo da alma ansiosa pela compensação, pelo sorriso, pelo carinho, doçura, ternura, preocupação, companhia, protecção, alegria, pelas conversas de olhares de magia.
E como será que tudo se processa nessa altura?
E será, que ao menos dura?
Que vale a pena a aventura?
Será que a alma se segura?
Quem sabe que responda, se ao menos o tamanho da onda é proporcional ao da mão que me segura.
Se a sensação que se segue não é mais que uma aventura…
Se há quem seja, capaz de ser maior do quem beija, de ver além, o que aquém mais não causa dor. Pode responder por favor?
Do ventre sai a palavra, aquela a que chamam Amor.
E a mente que tudo sente, que não há quem tente, ou fique sequer indiferente a tudo o que vai vendo na frente, provérbio indefinido da gente, que deixa que a atormente, num paladino sentimento percursor.
Será tudo isto o medo eterno do Amor?
Quem não arrisca não petisca, já diz o povo sabedor. 
Os conselhos do povo, são eles de maior ou mais curto valor?
Ao imprevisto não resisto e de mim bem sei que nao desisto, por isso insisto e volto a pensar mais um pouco nisto.
Deito-me e não durmo.
Clássico.
Normal.
De comer até me esqueço.
Não é bom, pois não, pois então o que fazer com tanta incompreensão?
Onde chega o grau de aceitação da sensação que te foge da mão e te esventra o coração, te devora a razão e toda e qualquer outra racionalização.
Por entre filmes e documentários, livros, textos e outros tantos cenários, não se prova o seu contrário.
Que sim.
Que é possível.
Que o amor nos descobre e não o contrário.
Que também ele nos absorve e nos tira do armário.
Que na vida bem vivida, não há nada que não se consiga.
Crescente o sentimento que o assola, mesmo não sendo ele mais uma criança sentada no banco da escola, ou o pedinte que à porta do café pede esmola, no entanto todas as curvas de vida lhe conferem uma doçura perdida, que agora deixa brotar.
É vida que vive e emoção que lhe passa bonita aos olhos.
Pisca-lhe um deles e com o outro segura o vestido que eles alcançam.
Vai de sabrinas pequeninas, iguais ao número que seus os pézinhos calçam.
Tens medo?
Eu tenho.
Posso contar-te um segredo?
Gosto do conceito segredo, mas não pelo secretismo, antes pelo que envolve o dizer de um segredo.
Para mim um segredo é sentido e contado de leve ao ouvido, que chega a arrepiar.
Sim, é um momento privado de uma intimidade colegial, mas que reproduz, em tão simples gesto primordial, a natureza de uma ideia que se quer surda para os que estão à volta.
Lembras-te como soava? Lembras-te da voz que falava?
Agora não.
Agora reinventam-se as formas.
Reescrevem-se as páginas e pintam-se os rostos.
É com receio que trazes no bolso a palavra desgosto, que teimas em não embrulhar e deitar no “palavrão”(conceito por mim reformado e que pode ser assim utilizado como o contentor de todo o léxico estragado, ou impossível de ser reutilizado).
Mas com trejeitos de lembrança, mantendo por perto a pequena sensação de desconfiança que tem uma criança que sente estar a ser manipulada.
Sobrancelhas franzidas, palavras cuidadosamente escolhidas, não se quer por nada pôr álcool nas feridas.
Venham mais anos com fúria calorosa de viver.
Venham tantas mais coisas quanto a vida quiser oferecer.
Só pelo prazer de poder agradecer a quem tanto me ajudou a crescer.
O futuro?
Quando lá chegar, logo se vai ver.
Por agora dou e limito-me a viver e que bem que sabe sorrir sem o sorriso esconder.
Há sempre lâmpadas que se fundem mas que se voltam a acender.

Saudade é para quem tem!

“Mas dou-te mais uma vez, meu bem, saudade é pra quem tem”.
http://www.youtube.com/watch?v=URD3-bID9d8

 A Marcelo Camelo tenho de agradecer obrigatoriamente a construção destas frases em forma melodiosa que segredam ao ouvido sensações únicas a que nos remete a palavra SAUDADE.

No limiar da fronteira entre o dia e a noite assume o escritor a sua veia criativa.
Pensa de dia e plastifica de noite.
Novos desafios e construções de significâncias surgem aos olhos do homem que em tempos não o foi, da criança que hoje não é mais.
As ilusões são criadas pela vontade de as ver acontecer.
Os sonhos são tão somente vontades projectadas e epifanias disfarçadas.
Sonhar é o querer inconsciente, “pintado” com imagens do real, que na mente são dobradas, retorcidas, adequadas, encaixadas e devidamente traduzidas.
Ser sonhador é tão mais do que fazer simples transposições de imagéticas da vida para o local onde acordados nunca estamos.
Ninguém sonha acordado.
Tal coisa não existe.
Ou se sonha a dormir, ou se dejesa conscientemente o que se quer.
Sendo o sonho a matéria abrilhantada que reside no subconsciente e sendo essa a sua magia, o facto de aparecer de noite, ou de dia, mas única e exclusivamente enquanto dormimos, descansados ou nem tanto assim.
O tempo tende a trazer-nos memórias do que sonhámos, do que sonhamos, na correcta proporção e no verdadeiro equilíbrio e balanço de uma sequência Fibonacci.
– Não desisto, ouviste bem? Não o farei. Te garanto e te prometo que nunca virarei as costas, nunca o faço, nunca o fiz e nunca o farei.
– Mas porque me dizes tudo isso Kiko?
– Porque sim.
E Madalena logo se calou, e aquelas palavras permaneceram na sua mente durante semanas, meses.
Francisco foi, voltou, sorriu e mais tarde, já de noite, já deitado, chorou.
Não era seu hábito quebrar assim, mas o ser humano precisa disto, precisa de quebrar, precisa de cair para se poder levantar com o erguer-se do chão perceber que de facto o mundo e a vida não são junto ao alcatrão!
Madalena e Francisco continuaram a viver o quase platónico sonho de uma manhã de verão no mercado da Lapa.
Ele esperou, esperou, esperou e continuou a esperar pelo dia que sabia, que um dia, iria ver chegar.
Ela não sabia, não sabia como saber, não tinha como o fazer.
Ele descansou-a, fê-la perceber que não havia medo a ter.
Que o futuro era um lugar todo ele desconhecido, mas na verdade, é assim que ele deve permanecer.
Haverá notícia pior que saber o que futuro irá trazer?
Os dias vão passando.
Multiplicam-se pelo expoente máximo os sorrisos, os abraços, as conversas, as brincadeiras, os beijinhos e as bebedeiras de felicidade, sem nunca se prometer nada mais, do que ser fiel ao compromisso de verdade e sinceridade assumidos diariamente um com o outro.
– Não vou a lado nenhum. Não tenho pressa para nada, nem planos de partir, disse Francisco ao ouvido de Madalena.
Ela voltou a fechar os olhos, sentiu o arrepio tão doce, e perguntou-lhe ainda mais baixinho:
– Abraças-me até ser dia?
– Seja qual for o dia!
Este amor dura e perdura no tempo.
Quem são os Franciscos e as Madalenas desta nossa existência?
São os que esperam sem prazo imposto, são os que aguardam sem pensar em desgosto, são os que se olham sempre, mas sempre, de sorriso no rosto.
A vida é para a frente, a vida é ontem, hoje e amanhã?
Que bem que sabe o trincar fresco de uma maçã.
Já mais tarde, de meninos pela casa, de rugas orgulhosas na cara, brinquedos espalhados na sala, olham-se em certa tarde, e perguntam sem dizer nada…
– Foi esta a viagem encantada?
– Foi esta a viagem desejada e sonhada?
Respondem com um piscar de olho, com um sorriso rasgado, o gesto apaixonado de dizer gosto de ti sem abrir a boca.
Quem sabe do que se fala quando a boca se cala?
De mãos dadas no terraço, envolve-os o abraço e o olhar terno de uma vida já vivida, com a cumplicidade merecida.
São amores de uma vida, que se viu a espaços perdida, mas sem nunca se desleixar!
São entregas perpetuadas, de uniões abençoadas pelo destino que insistiu em os juntar.
Se haveria alguém que um dia pudesse prever como esta história se viria a desenrolar?
E não é essa mesma imprevisibilidade que traz o brilho ao nosso olhar?
Sinto hoje um qualquer burburinho das almas, perdidas entre noites quentes e calmas de arrepios e borboletas.
Sei que no fundo tudo se resume à ebulição de todas as emoções concentradas, de tantas tentativas falhadas, de percepções assutadas, que na vida enebriadas, se desvancem com o tempo, te trazem à boca o lamento, mas subitamente…
Devolve-se à alma o alento, sim e sei que sou eu que o alimento, mas chega, já não aguento, já não aguentava.
Era a porta que batia e a janela que fechava. E a mim, em mim, pouco ou nada se encontrava…
Pretérito do verbo encontrar, conjugado na forma correcta, porque é na presente que vivo agora, vou, na janela com a cabeça de fora, sorrindo até te encontrar…
Não páro, não tranco a cara nem cerro os lábios, ao invés reinvento a lógica tantas vezes subjugada, de procurar pontos de luz em casas de janelas fechadas.
É tarefa dura? É, mas sabe bem, sabe tão bem dar e receber, sabe tão bem, olhar, não falar e perceber.
Sabe tão bem sentir saudades de quem…
Sabe tão bem não pensar em mais ninguém.
De flores se retira o cheiro, dos teus olhos o olhar, fico nele assim bem preso, até o dia voltar para me acordar.

Que bem que cheiras tu Liberdade!

Respirar livremente é algo que me transcende.
Obviamente que o respirar mais não é que uma metáfora para tudo o que se me aparece no pensamento, quando penso na palavra e no conceito da própria respiração a que me refiro.
Refiro-me ao olhar, ao tocar, ao pensar, ao sonhar, ao tentar, desistir, vencer e convencer, errar e perceber, crescer e descobrir, ao caminho a seguir, às noites de luar, às estrelas no olhar, ao mais puro arrepiar, ao poder de um abraçar, ao não saber o que pensar e mesmo assim continuar, ao sorrir e ao brincar, ao gostar e detestar, mesmo quando dou por mim a chorar.
A Liberdade tem cheiro.
A liberdade tem o cheiro do cheiro que quero que tenha.
A liberdade tem sabor.
A liberdade sabe a tudo aquilo que quero que ela saiba, e mesmo ao que não quero também.
É morango, ananás, e que bem que ela faz, são abraços e beijos, vinhos tintos e queijos, sal e pimenta, a cebola, que é nojenta, e essa liberdade não se aguenta…
Sabe ao sabor do vento, ao refinar do pensamento, à tristeza do lamento, ao “chega que já não aguento”.
Mas sabe também à frescura do mar, à ternura de um olhar, ao ingénuo arrepiar, sentes a minha mão a transpirar? É disto que estou a falar.
Por vezes, aprisionamos-nos na incerteza do que está para vir, com a tristeza do que para trás ficou a pesar sobre o pensamento, como se fosse de facto um monumental bloco de cimento que não largamos, mesmo quando nos deitamos.
Que vida é essa a que nos submetemos se somos de facto responsáveis pelas maioria das escolhas que fazemos?
Não incluo as crianças neste grupo de superiores entidades que podem decidir o curso das suas vidas.
Quem as tem, quem tem a felicidade de as ter, sabe também, que a essa felicidade vem juntar-se responsabilidade e sobretudo, a conta passa a ser sempre feita a + 1, com a felicidade que daí advém, mas não estou aqui para falar de ser pai ou ser mãe.
Ser livre é na verdade a melhor prenda que Deus concedeu ao homem, que tantas vezes subverteu e subverte essa veleidade divina, com o subjugar dos seus pares a vontades obscuras e sobretudo, egoístas e pessoais.
A liberdade de escolha é talvez a grande liberdade do ser humano.
Existem várias, e é minha crença, nos dias que correm, que a liberdade é tão mais vasta em formas quanto mais formas conseguimos para ela criar, na vastidão de uma curta vida.
A vida é mais curta ou mais longa, divertida ou aborrecida, mas no centro de tudo isso estão as escolhas, as certas e as perdidas.
E é de escolhas que trata a liberdade, pelo menos a liberdade dos tempos modernos.
Não quero pôr-me aqui com pretensões neo-filosóficas ou pós-modernistas, julgando que para isso tenho qualquer tipo de competência, nada disso, simplesmente se vai tornando cada vez mais evidente que tudo assenta aí, nas escolhas que fazemos, nos tempos que damos à nossa própria vida, aos pensamentos, sentimentos, vontades, verdades, mentiras, empregos, trabalhos, ocupações, bens materiais, imateriais, objectivos, rupturas, fracassos, falhanços e desesperos, vitórias e tantas outras histórias, memórias, lembranças e certezas incertas.
Mas de facto temos o poder de escolher, de mudar, de escolher para o que vamos mudar, de escolher igualmente o que não queremos, não gostamos, não temos e onde não vamos!
E ao ir, chega toda uma variedade de possibilidades e na escolha reside a vida.
Somos nós próprios, reflexo de uma escolha de outras duas pessoas, ou de uma apenas, mas somos escolha, escolhemos e seremos as escolhas que fizermos.
Na vida, amamos, perdemos, ganhamos, odiamos, magoamos, ajudamos, tratamos, cuidamos, protegemos, agredimos, batemos e somos batidos, surpreendemos e somos surpreendidos, vivemos e somos vividos e sobretudo passamos toda uma vida a escolher entre o que queremos e o que não queremos, por isso, tantas vezes sofremos tanto com o que não queremos, porque já o pensámos tanto anteriormente.
Isto não é sequer condenável, nem criticável, é factual, facilmente constatável e adquirido como algo que é assim mesmo. Não há volta a dar, e pensar nisso tempo demasiado, é dar ao tempo, claramente o destino errado.
Somos a vida que vivemos, por isso estamos obrigatoriamente condicionados pelas ligações, conexões, automatismos, amizades, amores, desamores, felicidades e horrores, tristezas e dissabores que nela conhecemos.
Não há como fugir disso.
Somos o meio e o produto desse meio, somos reflexão e conhecimento e sobretudo creio que devíamos (e é de forma propositada que não utilizo o tempo verbal no presente (devemos), mas apelo antes para uma sonhadora visão… enevoada pela forma como olho a vida) ter todos uma dívida para com o pensamento, devíamos todos ser mais do que sinceros para com a Alma que carrega o corpo debaixo do braço (João Pedro de Carvalho).
A vida é diária, não tem folgas e não é “dia sim, dia não”, é feita do girar da terra e da diferenciação forçada entre Noite e Dia, escuro e claro e as diversas tonalidades que pelo meio se misturam, são todas elas vividas, e as vivências, tantas há que não perduram.
O que será que procuram os que ao pensamento fogem?
Que escolha faz quem desiste de si mesmo?
Que forma é essa de cheirar a Liberdade?
 

Este sou eu… Madalena!

No decorrer dos dias que passam…
Não.
Não posso começar isto assim.
No passar dos dias que correm…
Bem melhor agora.
No passar dos dias que correm e passam por nós como se de torpedos se tratassem, é cada vez mais certa a certeza de que actualmente se conversa muito, mas fala-se pouco.
As conversas são tantas vezes inócuas, inconclusivas, insípidas, insólidas, ilíquidas, incorrectas, disparatadas, vazias, fechadas, estúpidas e desconexas.
Conversa-se sobre tudo, mas não se fala sobre nada.
Diz-se tanta coisa, mas tanta coisa fica por dizer, é deixada por dizer, propositadamente com o despropósito de esconder, não revelar, proteger uma qualquer estúpida ideia de privacidade, de “só a mim me diz respeito”, “ninguém tem nada a ver com isso”, e para quê?
Com que finalidade?
Com que propósito viramos costas à significância da palavra, do desabafo, do aconselhamento, do simples partilhar, com vista a um secretismo secular de igreja, que na verdade a única que coisa que faz é isolar, segregar, magoar, e tantas outras anormalidades terminadas em AR.
Somos animais de partilha.
Partilhamos comida, dinheiro, roupa, pensamentos, ideias, personalidades, desejos, interesses e até esses, são mantidos na escuridão.
De que temos afinal medo?
O que receamos ao certo, para, a céu aberto, nos embrenharmos no mais puro deserto de companhia, pelo mais pantanoso lodo de solidão.
Voltando a Madalena.
Voltando a Madalena, tanto se acrescenta ao pensamento que alimenta.
Os dias também passam por ela a correr, também tem conversas em que não fala, mas vive e olha a vida de uma forma atrevida.
Madalena sorri ao acordar, portanto, uma autêntica anormal dirão muitos, mas eu digo que ela sim, a Madalena vive, sonha e acorda feliz, simplesmente porque acordou, porque abriu novamente os olhos e lá fora o sol já aquece novamente, os livros cantam o seu nome em letras de surdina orquestrada e dele não sabe ela mais nada?
Soube.
Soube que se chama Francisco. Que mora na rua paralela à da casa onde trabalha.
Que escreve, ri e conta com uma alegria infantil.
Atenção, quando lhe atribuo essa mesma, alegria infantil, não o faço com o sentido depreciativo que o fazem os tristes que não falam.
Faço-o porque poucas coisas se comparam à alegria virtuosa de uma criança feliz.
Ao sorriso entregue e puro nos olhos de um petiz.
E quem discorda, é tolo ou não sabe o que diz.
Madalena e Francisco falam, conversam, sorriem como duas crianças, observados de perto por cachos de bananas, molhos de agriões, montanhas de laranjas, maçãs e limões, com o tempo contado, mas todo ele tão bem aproveitado, tão dedicado, como um namoro confirmado, que brilha em qualquer lado, sem medo do passado, com o futuro pela frente, sem pensar nele constantemente, assim vivem no presente.
Para quê pensar em mais, enquanto não é tempo de o fazer?
Para quê estragar tudo, com desejos impossíveis, vontades impostas e sonhos delirantes?
Para quê acabar o que pode estar somente a começar?
Para quê conversar sem sequer falar?
Para quando o compromisso para com a verdade, não a dos outros, mas a nossa própria verdade, escavada daquilo a que chamamos de realidade.
– Está na hora Madalena, tens de voltar para cima, diz Francisco com os olhos meio molhados e pensativos de quem se vai ver afastado de tudo o que de maior e melhor tem na vida.
Madalena pestaneja vagarosamente, como vagarosos e revoltados são os passos que dá rua acima, em direcção ao dever, afastando-se do querer, porque é assim que tem de ser.
Por estes dias, Madalena cresceu, amadureceu e tornou-se uma mulher linda, de mãos suaves e pequeninas, dedos finos e desenhados, que com os de Francisco entrelaçados, criam um tricô de felicidade e pureza.
É amor pois com certeza.
Aos 23 anos, Madalena brilha, como nunca antes brilhou, ama, como nunca sonhou, lembra o que para trás já ficou, e sabe que a felicidade chegou.
Francisco espera diariamente pela Deusa que vê descer a rua, brilha num tom que está entre o sol e a lua, olha-a como se a visse a cada dia pela primeira vez, uma e outra vez, sofre com a partida, leva horas a recompor-se, não come se ela não aparece, não adormece sem lhe falar.
Francisco e Madalena sabem bem o que é amar.
Se para sempre é medida tempo, eles não o querem contar.
Dizem: “Que o para sempre seja o tempo, do tempo que o para sempre durar!”
E dizem-no tantas, vezes, muitas delas, falando tão somente com o olhar.
Tem o sonho de casar. De branco, de véu, tem o sonho de ter sonhos que não deixam de a encantar, ver Francisco à sua espera no altar, e esse dia, irá chegar?
Francisco adivinha o seu pensar.
De anéis percebe pouco, precisa de quem o possa orientar.
De sua mãe, Madalena ouve os conselhos preocupados, de quem vê a filha e o namorado, num bairro bem falado, de orgulhos e maledicências.
Para a Madalena só a verdade e não há consequências.
Francisco pede ajuda, mas não sabe nem sequer por onde começar?
De uma coisa tem ele a certeza.
É Madalena.
A pequena está na biblioteca.
Devora livros sem parar.
Tudo graças a Francisco e a todo o seu “maroto” cortejar. 
Se na vida há mais que isto, onde está então escondido, onde se deve procurar?
Dizem que o amor é um livro.
Quantas páginas pode ter?
De que género deve ser?
Em que língua se deve ler?
O amor é lindo em português.
Francisco vai pedir, mas não sabe bem como…
Começa a conversa dizendo…
– Este sou eu Madalena… Sou assim como tu sabes que sou.
– E eu que gosto tanto… desse, deste que tu és Kiko.
Ele diz tudo o resto ao ouvido.
Ela fecha os olhos. Arrepios. Acenos com a cabeça, sorrisos, olhos esbugalhados… olhar já encharcado e estende os abraços para o abraçar.
Um abraço é um beijo desenhado.



 

 
 

Nos olhos de Madalena

Nos andares do pensamento vive o tormento do tentar.
Nas noites de esquecimento chega ver-se no seu olhar.
E só quem sabe o que é ter medo, sabe onde eu quero chegar,
Não é triste o meu pensar, é a dor de não falar.
Escrevo com letras as palavras que penso querer dizer, e acabo por lê-las uma e outra vez sem sequer perceber o que está com elas a acontecer.
Rasgo uma e outra folha.
Mentira.
Não se rasgam folhas a escrever num computador, faz-se delete e retrocede-se com a merda das setinhas…
Há dias em que as setinhas se desorganizam e as palavras se empurram para cima umas das outras e ao encavalitarem-se produzem cacafonias literais de pura violência, de confusão, afinal, como podemos nós ter a pretensão de pensar, que as letras nas palavras não se indignam quando dão origem a uma em detrimento de uma outra!?
As palavras não são estáticas, são móveis, não de pinho, mas de veludo.
A estranheza será tão maior quanto maior for o numero de palavras caminhantes empregues no decorrer de uma conversação, declaração, afirmação, exclamação, indignação e como se diz em espanhol, A lo mejor, é a total confusão.
Gira e volta a girar o carrocel efervescente das ideias de gente e volta a subir pela escada, com a alma já pesada e a vida já tombada, a fiel empregada da família Vasconcellos.
65 anos, a servir desde os 14.
Veio para “a cidade” sozinha, foi posta pela tia no autocarro, que a mãe estava também ela a servir mas numa embaixada na Lapa.
9 horas de viagem e um pão com manteiga depois, chegou finalmente a Lisboa. 
Qual pardal curioso logo se pôs a andar e a perguntar onde poderia a mãe encontrar. Da lapa nunca ouvira falar, da Infante Santo muito menos, da Basílica da Estrela havia ouvido uns senhores falarem de missas na rádio, e sabia que “é assim muito grande e bonita, é a modos que como a paróquia da minha aldeia, mas em muito grande!”.
Não sabia muito bem o que fazer com as palavras, quanto mais pensar na complexa complexidade que reside na criação das mesmas palavras.
Há um jogo curioso de palavras que se chama Scrable, que consiste em formar palavras partindo de letras que temos ao dispor, letras essas que se encontram despidas e envergonhadas, esperando ansiosamente poder passar despercebidas, quando finalmente combinadas para formar uma qualquer coisa, que tão pouco lhes interessa.
Ora Madalena pouco percebia de palavras. 
Vinha para Lisboa para fazer camas, passar a ferro, pôr a mesa, levantá-la, limpar o pó, dos livros, com letras, tantas, montes delas.
Madalena não tinhas livros em casa, ou os que tinha, estavam em muito mau sítio, em muito mau estado.
Da escola saiu quando tinha apenas 10 anos, com a 4ª classe. Deu-lhe para aprender a escrever o nome, a fazer contas, o alfabeto, a tabuada, e, e mais nada. Ficou por ali. Também aprendeu o que são seres vivos, animais, plantas, insectos, bla, bla, bla.
No entanto.a
Sempre gostou muito de livros.
Em casa dos Vasconcellos, a parte preferida da sua semana era o momento solene de limpeza da biblioteca.
E não era de todo uma biblioteca qualquer, onde se amontoam livros em prateleiras impessoais, fazendo vizinhos à força pessoas que nunca na vida poderiam sequer tolerar ser vistos juntos, quanto mais partilhar obra numa prateleira.
Era uma espécie de tempo literário, criteriosamente organizado e catalogado na correcta corrente em que cada um se refere, separados por nacionais e internacionais, com prateleiras específicas para autores específicos.
Madalena, depressa se afeiçoou às lombadas, às capas, contracapas, badanas, edições, correcções, ensaios e romances prosaicos.
No entanto, nunca leu sequer uma frase de livro algum.
Dos 14 aos 18, foi povoando a imaginação com a curiosidade, cada vez mais perpetuada na impaciência com que anseia as sextas-feiras. 
Um dia deixou cair um livro do alto de uma prateleira situada ao nível de um 1º andar de um prédio de Lisboa, e ficou para morrer.
Chorou durante toda uma semana pelos cantos. Pobre Madalena, não tem mal pequena, disse-lhe o Drº Vasco em Roupão de Inverno, pijamas e chinelos, é só um livro.
E ela, muito indignada respondeu-lhe:
– Não schenhor dotôr, cada livro é um livro diferente, ninguém sabe a dor que sente o livro, por passar a vida fechado e esmagado contra outros tantos. Como pude eu castigá-lo desta forma, dando-lhe a esperança de ser folheado e escutado por alguém  e depois espeto com ele no chão… Despeça-me se quiser shôtor, que eu não merecho trabalhar aqui.
– Ó Madalena, p’amor de Deus, mas acha que eu a vou despedir por tão pouco, ó messa.
E esta foi para Madalena uma experiência traumática com a Leitura, com as palavras, com as letras.
Irritava-se com o facto de não conseguir de deixar de quase sibilar quando falava, por isso falava pouco. Queria ler depressa e estava sempre a parar na letra que não conseguia juntar à outra, nas duplas consoantes, nas duplas vogais, perdia a paciência e cansava-se muito a fazê-lo.
Por isso, certo dia, desistiu.
No dia que se seguiu ao dia em que Madalena desistiu, Madalena transpirou, tremeu e suspirou.
Sentiu calores onde nunca os tinha, apercebeu-se que recebia no cérebro mensagens de músculos e tendões do corpo que desconhecia sequer que existiam, corou, sorriu, baixou os olhos, pensou que ia morrer.
Foi no mercado da fruta.
Foi buscar Morangos, Bananas, Laranjas, Limões, 1 Ananás, e cerejas, e na espera desassossegada na fila da banca onde comprava a fruta, conheceu-o.
Ele estava apreensivo, olhava, mas nada via, trauteava palavras engalfinhadas em desalinho, socorria-se dos olhos para encontrar novamente o caminho, e deu por si perdido dos olhos e encontrado no cheiro dos cabelos de Madalena.
Parou, voltou, sorriu, limpou as mãos transpiradas às calças e estendeu amavelmente a mão na sua direcção.
– Bom dia. 
– Ela estendeu a mão de volta ainda sem olhar bem, mas parou a mão do caminho quando o olhou nos olhos. Tinha verde na cor dos olhos, falava com letras e letras aos molhos.
– Olá Madalena.
Como sabia ele o seu nome? Teria seguido o seu caminho? Pode sempre ser seu vizinho.
Sacos de plástico para um lado, moedas e notas para o outro, soltam-se palavras entre contas e pesam-se bananas e morangos entre perguntas pelos meninos e pelos patrões.
Adeus menina Madalena, diz a Rosa Maria.
Ele ali está, encostado à florista. Abismado. Encantado. Ela é simplesmente, deliciosa.
Cabelos soltos deixando ver o pescoço, olhos verdes de um mar inatingível e de uma sinceridade surpreendente e nos lábios o sorriso de Deus.
Ela pára e ele fala-lhe, de livro na mão esquerda.
E ela fica aqui, no livro.
Ele continua a trautear os aglomerados cacafónicos que para ela não são mais do que isso mesmo, enquanto ela fixo os olhos que mais parecem dois Kiwis cortados pela metade, sumarentos, sequiosos, sedentos de curiosidade.
Ele repara que os olhos dela estão bem mais longe do que julgava e repara, tal não é a discrição de Madalena, que ela segue lentamente o livro com os olhos como um animal segue um pedaço de comida.
Decide divertir-se com o inusitado interesse de Madalena no livro que mantém ainda firme na mão esquerda, lentamente faz subir a mão até ao queixo e observa aquela cabecinha a girar até marcar novamente o encontro que desejava com os Kiwis, com os olhos.
Param.
Ele pergunta-lhe o que tem o livro de especial?
Letras diz ela, tantas, em tantas formas diferentes…
Queres que te leia algumas perguntou, e ela sorriu.
E aqui o romantismo de todo o cenário que para trás ficou, leva-nos a pensar que realmente ele lhe contou uma história, leu, ensinou-a a ler, e um dia casaram-se e foram felizes para sempre, e tiveram um exército de filhos a correr pela casa e a desenhar hipopótamos nas paredes da sala com cera de velas, as vermelhas do natal.
Ou então.
A mente de cada um permitirá criar todo um desenlace deste clímax na história.
Quanto a mim, ele não diz absolutamente nada do que no livro está escrito.
Disfarça o nervosismo que a responsabilidade do momento transporta. 
Afinal, está perante uma linda, maravilhosa, deliciosa, pura e casta Deusa e isso provoca-lhe um quase colapso nervoso. Ao fingir que está a ler, tem na verdade tempo para construir um enredo de continuidade que obrigue a que tenham de começar a encontrar-se novamente, às escondidas, nos “retiros” que a profissão permite que tenha, nas deslocações quase diárias à mercearia, ao mercado, aos correios.
Aos comentários das vizinhas, das outras empregadas internas de outras famílias abastadas, envoltas em reboliços e cegadas, tramóias orquestradas, suspeitas bem fundadas.
Não havia amor serviçal que não terminasse ora a bem ora a mal.
E Madalena? Que fez ela afinal?
Escutou atenta as palavras que queria.
Sonhou, sentiu e viveu-o de novo no nascer de mais outro dia.
Sabia de cor que não ouvia as palavras escritas.
Mas escutava apaixonada o amor nas leituras bem ditas!
Não dormia, pensava em dizer tudo o que sentia. Pensava nele a todas as horas do dia, pensava em amor fora da mercearia.
Mas afinal que amor era esse que Madalena perseguia?
Calmo, louco, esforçado, encantado, dedicado, lendo e recitando o que foi toda a noite ensaiado, pobre coitado.
Esperas um beijo que seja e não há beijo que se veja.
E o dia demora mas acaba por chegar, ela beija-o uma e outra vez e o saco da fruta ao lado a esperar.
E sentados num banco lá vão dando descanso merecido ao amor, é de letras que se fala quando histórias se contam no coração do escritor.
E a mãe que ela começou por procurar?
Faltou-me dizer que o embaixador para o qual a mãe estava interna a trabalhar, era o pai do rapaz que Madalena estava a namorar.
E dizem que o amor não se diverte quando anda connosco a brincar.
Pois não.
Basta vê-lo a dançar!