O regresso dos Pastéis de Nata

O regresso dos Pastéis de Nata

Escrevi e publiquei este texto em 2009. E agora, praticamente 6 anos volvidos, e porque a frase “Naquela tarde Lisboa cheirava abundantemente a pastéis de nata” nunca mais se desamarrou do meu pensamento, resolvi voltar a ele e nas últimas semanas tenho-o trabalhado de forma intensiva e exaustiva, tanto quanto o tempo que me sobra o permite. Lendo, relendo, escrevendo e reescrevendo, parando e recomeçando, afinando o gosto e sabor do pastel, o cheiro da massa, o óleo que impregna o papel de arroz e nos engordurece as pontas dos dedos que gostamos de lamber sofregamente para aproveitar cada bocadinho de sabor que o pastel de nata bem feito nos oferece. A sensação de incompleta satisfação que advém depois de se comer o primeiro e naquele espaço de tempo tão curto e imediato, qual reflexo pavloviano, que nos conduz ao desejo de ir atrás do segundo, sem medos, sem receios, guiados apenas pelo desejo feroz de insaciabilidade que nos força a voltar ao balcão e a pedir mais um, perante o olhar satisfeito mas ao mesmo tempo inquisitório do empregado de balcão, que, invejoso, consciente do que está a vender, nos observa e nos inquire com os olhos e se morde, de boca fechada, com as papilas gustativas encharcadas e num pré afogamento salivar de tanta cobiça. Foi tudo isto que me fez recuar no tempo e dar a todo este tempo mais tempo do que o tempo que já tem.
Por que razão é que se volta a trabalhar um texto tanto tempo depois de o ter escrito? É simples. Para ficar melhor. Para ser melhor! Porque pode sempre ficar melhor em qualquer uma das milhentas partes da miríade de sensações  e imagens que o compõem. Porque cada um de vós merece que o faça. Assim, foi com gozo e alegria que voltei aqui, para tentar ser o mais real e fiel possível dentro da enormidade da situação que vos trago. Quis que o texto ganhasse mais cheiro e mais sabor, mais gordura, quis também que a parte queimada se tornasse tão nítida que parecesse mesmo que o estavam a cheirar, a ver, a provar, que estavam a sujar os dedos e a encher os intervalos dos dentes de pequenas partículas enegrecidas como o carvão e que tanta gargalhada provocam em quem orgulhosamente exibe a boca cheia de “escorbuto”.

Voltei para aprimorar a descrição do tom da massa folhada e do cheiro inconfundível que o pastel nos oferece e dar-vos a possibilidade de, através da visualização a que vos tento fazer chegar, e com palavras abundantemente carregadas de descrições insistentemente pormenorizadas quanto as que vos trago, fazer com que seja onde for que estejam a ler, consigam sentir, reter e imaginar o cheiro e sobretudo o delicioso sabor que provamos na incrível experiência que é a de comer um pastel de nata dos verdadeiros.
Quis pretenciosamente tentar fazer-vos sentir a textura e a gordura que dele pinga quando o apertamos na segunda trinca, naquele momento que tem tanto de arte como de puro lambusar, e com tudo isso permitir que a construcção imagética a que vos remeto e que alcançam remetidos que estão à vossa individualidade, não seja irremediavelmente comprometida por uma distorção da matéria prima com que a estão a trabalhar, isto é, se não for capaz de vos conduzir ao caminho que pretendo que consigam seguir, abrir-vos-ei as portas para uma errada projecção mental que vai deturpar por completo o sentido mais profundo do que quer que seja que eu estou para aqui a tentar dizer, ou melhor, a tentar (re)escrever.
Ora, feitos que estão os imperiosos e indispensáveis esclarecimentos, retome-se então a corrente da acção que ia a cheirar tão bem.

É. Era para ser uma tarde normal mas acabou por ser exacta e precisamente o contrário.
Foi pois naquele magnífico e amarelado entardecer que a imperial e majestosa cidade de Lisboa foi supreendida na sua beleza, por um cheirar impressionante e abundante a pastéis de nata. Atenção que quando digo pastéis de nata, são mesmo pastéis de nata e não pastéis de Belém ou tartes de nata, ou outros tais que se tentem assemelhar aos primeiros.
Importa que se perceba desde já, neste preciso e exacto momento, do que é que vos estou a falar.
Seria um erro tremendo e de proporções incalculáveis tentar vir para aqui a cantar à desgarrada melodias apaixonadas e saborosas dedicadas aos pastéis de nata sem que fosse capaz, ou tivesse em atenção, a necessidade imperativa de delimitar a ideia e a imagem que brota desta mesma junção de palavras e que forma caprichosamente a imagem magnífica de um suculento, ainda morno e ligeiramente chamuscado pastel de nata, humildemente pronto para o próprio fim de vida que se lhe conhece, que compreende um desaparecimento frugal e regra geral muito apetitoso dentro da boca e depois a sua amaragem nos recantos agradecidos e emocionados do estômago de alguém esfomeado ou, tão casuisticamente de um guloso qualquer.
Podem pensar que se trata de um preciosismo pateta este, ligeiramente despropositado até, ou mesmo que estão diante de uma intransigência infantil e, sobretudo isso, de um discorrer trapalhão, feito mais com a boca do que com a razão. Ou então talvez pensem na verdade que se trata tão somente de um manifesto anti-pastéis de Belém, ou algo que teimosamente se lhe assemelhe… Mas não! Não é absolutamente nada disso. Posso desde já garantir-vos que se alguma destas coisas vos passou pela moleirinha então estão profunda e redondamente enganados, se por acaso vos passou algum destas cogitações pela Alma então digo-vos que estão equivocados. Adoro pastéis de Belém, com sumo, com chá, sem sumo, sem nada, com açúcar, sem canela. Mornos. Estrelicando e crepitando com a sua indecência por entre os dedos tremelicantes.
Mas não era de todo esse o cheiro que estava a tentar colonizar Lisboa naquela tarde pachorrenta, como tantas são as tardes de ócio despudorado que Lisboa conhece no pico do Verão.
Se não pensaram em absolutamente nada e estão simplesmente presos à imagem que já vos dei de um pastel de nata acabadinho de sair do forno e já ligeiramente menos quente e assim possível de se comer, então tudo vos está a correr na perfeição. Caso contrário também… não é caso para desanimarem. Não se esqueçam é de não limpar as mãos às calças ou à camisola, que o bom do pastel é sempre extrema e agradavelmente gorduroso.

Naquela tarde, Lisboa cheirava impressionante e abundantemente a pastéis de nata. Um cheiro quente. Um enebriante e perturbador odor que provocou, na primeira instância da sua constatação, uma reacção primeiro de espanto particular entre grupos distintos de pessoas, e depois uma reacção geral mas controlada e em cadeia de milhares que foram, com o passar dos minutos, sendo “apanhados” na doçura incomparável do cheiro que se propagava pelo ar e por toda a cidade, como se brotasse de todas as chaminés, de todas as casas, de todos os bairros, de todas as ruas da maravilhosa Lisboa. Foi como se a capital deste Império de Sol e de bem receber encostado aos braços do Atlântico e com o tapete do Mediterrâneo cabalmente deitado a seus pés, tivesse sido invadida por um Exército furioso, armado até aos dentes com tabuleiros metálicos, devidamente compartimentados e untados, prontos para receber as iguarias feitas de massa folhada e recheio adocicado de creme de natas.
Quente, mas não muito, assim a modos que mais para o morninho… e com um cheirinho que o acompanha que faz crescer no palato cascatas intermináveis de saliva que, de forma ansiosa, escorrem dentro da boca de um guloso. Se não era isso só se podia tratar de alguma tentativa a que previamente foi garantido o alcance de sucesso, de bater um daqueles recordes do Guinness, dos quais nós, portugueses, somos especiais adeptos, uma vez que parecem não se passar sequer três semanas sem que alguém tente bater um record qualquer, por mais estúpido e (in)digno que o mesmo possa ser na profusão da sua génese sem sentido.
Desde as feijoadas, aos pães com chouriço, das tigeladas às broas enfarinhadas, sempre em proporções hercúleas e homéricas. Das bandeiras humanas, aos logotipos colossais, às peregrinações de magotes a Fátima, ao maior coro, o maior rancho, a maior abóbora, a maior couve, a maior papa de sarrabulho, valha-nos Deus Nosso Senhor pela estrondosa sorte que tivemos com o bendito nascer do Entroncamento
Mas dizia então que Lisboa estava e se apresentava naquela tarde deliciosamente apetecível, com açúcar e canela e talvez também com uma limonada gelada acompanhada da folhinha de hortelã que timidamente lhe faz melhorar o sabor tão típico do calor latino que nos encrosta a pele. Fresca, gelada se possível. A limonada e não a pele, claro está.
Estava pois um dia quente de verão, daqueles que Lisboa tem tantas vezes, várias vezes, abençoadamente tantas vezes durante os vários meses do ano, o que faz de tudo isto uma “coisa” mais aceitável e menos sofrível, isto claro para quem consegue encontrar nestas pequenas coisas valores maiores e que permitam soltar com desenvoltura um sentimento de conformismo para com o destino que aqui e ali vamos traçando com afinco.

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Os estrangeiros que cá nos chegam iam aparecendo e saindo de todo o lado; saídos a granel dos cruzeiros, dos comboios, dos aviões; dormindo amontoados nos andares já cansados e empoeirados, até ligeiramente pestilentos das residenciais das avenidas velhas e famosas da cidade, ou então, nos novíssimos e arejados hostels e hotéis, isentos que estão da taxa vigente de bafio que vem incluída no preço do primeiro grupo que referi. Lá vinham então todos eles, excursionistas e exploradores, saindo alegremente dos autocarros, entrando afogueados nos centros comerciais, deitados (tantas vezes vestidos) nas praias, ou sentados em grupos por esses passeios e miradouros fora, ou simplesmente em pares românticos e apaixonados nos e pelos bancos de jardim dos magníficos jardins da cidade, ou mesmo até nos tapetes fofos e hipnotizantes a que a relva dos mesmos se assemelha; trazem as caras coloridas por tons fortes de vermelho ou rosa carmim que com muita certeza chegam a fazer inveja a quem anda atarantado no corre-corre de um dia fastidioso de trabalho e que, de estrangeiros, pouco fala, sabe ou quer saber. Apenas sabe que sente no recôndito e envergonhado recanto do seu ser, uma coisa também ela muito portuguesa, a INVEJA.

Havia um grupo em particular que estava acantonado no chão perfeitamente esculpido e polido do luminoso e absorvente Miradouro de São Pedro de Alcântara, ali nas costas no Bairro Alto, com a sua varanda “aberta” e escancarada, estrategicamente edificada ali mesmo de frente para a encosta brilhante da Mouraria e do Castelo que guarda Lisboa. Ali estavam eles sentados e muito atentos a todos os que chegam e também aos que partem, sorvendo, delicada e deliciadamente o eflúvio paladino e adocicado que o ar quente de Lisboa lhes fazia chegar com leveza aos narizes. Subitamente um deles, curioso, astuto, perspicaz, detecta no ar uma emanação atrevida e persistente de um cheiro que não é das árvores, não é da terra, não é do chão molhado pela rega do jardim, e não é também do tabaco e da mistura do hash que estão a fumar, é antes um cheiro que desconhecem, que nunca sentiram entrar sossegadamente pelas narinas acima em qualquer outra ocasião das suas vidas.

De seguida ele fecha os olhos e procura, dentro do cérebro, em fracções trôpegas de segundos, identificar e catalogar o cheiro magnífico que lhe chega ao nariz. Mas não consegue. Não consegue ter o mais pequeno vislumbre esclarecido do que se está ali a passar. Não percebe. Cheira-lhe à mistura perfeita de natas queimadas e cozinhadas com aquela massa de ir ao forno, massa folhada, que a pouco e pouco, ali sentados nas cavalitas do Tejo e no colo da velha Lisboa lhes ia invadindo e conquistando as vias nasais, como se o emanar da essência viesse munido de perigosíssimas e ameaçadoras baionetas que os obrigavam a cheirar ostensivamente toda aquela pornográfica abundância.
Por sua vez, lá mais para baixo, junto à margem direita do Tejo, a nossa, a lisboeta, alguns grupos de estrangeiros menos interessados nas subidas e descidas frenéticas e dolorosas das colinas íngremes de Lisboa, regozijavam-se por verem os olhos serem invadidos por imagens das majestosas e amonstroadas taínhas do Tejo que se aburguesavam e se escamavam de delírio diante de um plácido e desenvergonhado rodízio gigante de merda, gentilmente servido pela enorme boca de esgoto que a traz direitinha ao rio.
No meio de todos estes entretantos bebiam-se refrescos geladíssimos e comiam-se gelados de pauzinho de madeira e embalagem colorida e o cheiro, esse, já dobrava esquinas no Cais do Sodré e começava a encaminhar-se para a parte superior da cidade. Devagarinho que há tempo para chegar a toda a gente.
Toda esta orgia de sabores e odores era emoldurada por um ténue e estranhamente agradável nevoeiro quente que pairava teimosamente pelas principais artérias e veias da cidade.
Da Avenida da Liberdade à Almirante Reis, da Fontes Pereira de Melo à Rua da Escola Politécnica, de Santos a Xabregas, da Estrela a Alvalade, de Monsanto a Algés, de Benfica aos Olivais. Tudo. Em todo o lado. Coberto. Repleto. Uma inundação gasosa e insolente, esbranquecida e quase crepuscular, que escondia dos olhos os adornos dos metros e metros de rua que, com este nevoeiro, se deviam ver da Lua. Era na verdade uma estranha e impassível aura que beijava Lisboa e que esta nunca havia antes visto.
A cidade tinha sido invadida por uma estranha e pegajosa praga de boa disposição e simpatia, de educação e alegria, que tinha crescido com o passar vagaroso mas feliz das horas.
Pessoas sorridentes, bem educadas, simpáticas, cordiais, carinhosas e gentis. Corria também pelas ruas o boato (que carecia de oportuna confirmação) de que ainda não se tinha ouvido sequer uma buzina, nem tão pouco sequer uma simples apitadela, nem carros, nem autocarros, nem camiões, nem táxis (os tipos mais rápidos a soltar a chamada apitadela do sinal verde), durante toda a manhã. Nos relatos dos transeuntes que vagueavam ciclica e orgulhosamente pelas ruas de passeio gasto da Capital, parecia que nunca se tinha visto ou sentido tal coisa.
Não se passaram multas, não se ofenderam as mães de ninguém, não se estacionou em cima do passeio ou nas passadeiras, os restaurantes e os cafés estiveram cheios, a comida foi boa durante todo o dia, os políticos não discutiram nem se ridicularizaram mutuamente na casa da Democracia… Enfim, o prólogo inverosímil de um dia quase perfeito.
Esperem, consigo melhor do que isto: os políticos estavam sentados no chão do miradouro do Adamastor, no Bairro mais Alto, com as mangas das camisas desajeitadamente arregaçadas, gravatas ligeiramente lassas e amarfanhadas, perdidos no deleite refrescante das imperiais que vertiam como verdadeiros comensais…

Continua…