hoje..

Hoje, vem sempre no seguimento descompassado do ontem, numa cadência enjoativa, que nos condena terminantemente a correr, vivendo a vida, que é bem diferente de viver a vida a correr.
Correr vivendo a vida, traduz-se essencialmente, num passar a vida a correr, mas vivendo mais propriamente a corrida do que a própria vida. Isto está errado, ou pelo menos deveria estar.
As pessoas nem se apercebem deste desporto mundial, que poderia mesmo ser apresentado como nova competição olímpica. Sei de fonte segura, que só não o é, porque não haveria mãos a medir pela competição feroz que desencadearia. Todos os praticantes das mais diferentes modalidades se aperceberiam da verdadeira dimensão do desporto proveta, e de imediato, desistiram das suas gloriosas (ou nem por isso) carreiras, para se alistarem nos quadros desta modalidade. Haveria assassinatos nas aldeias olímpicas, a máfia passaria para a competição mais depressa do que nos passa o vento pela cara, nas manhãs de Inverno.
Ora, deste modo temos então a noção, ou pelo menos deveríamos ter, de que não há, ainda, porque não faltará quem se lembre, de começar a comercializar isso na net daqui a uns anos, prolongamentos contratuais com o Senhor, para o prolongamento do tempo que podemos ter neste planeta. Por isso mesmo, é mais do que hora de realmente percebermos se andamos a correr vivendo a vida em simultâneo, ou se andamos a viver a vida a correr. Nenhum dos dois é bom, caso ainda não tenham percebido, mas esse é de facto, o ponto crucial da parvalheira sobre a qual acabo de dissertar. Abandonem as duas hipóteses correctas e transformem as vossas vidas. É difícil eu sei, acordar bem disposto, não nos enervarmos com os taxistas e com as mulheres e velhos no trânsito que temos de atravessar para chegarmos ao emprego, onde o patrão, que muitas vezes nem sabemos bem quem é, está sempre a ameaçar com cortes nas despesas e despedimentos colectivos, não saber o que havemos de almoçar, pedir uma Coca-Cola e levar com uma pepsi(a letra pequena é propositada, não se trata de desatenção do palerma que escreveu isto), chegar a casas e ter o marido, ou a mulher, a dar-nos um “chá preto” porque não fizemos a cama, não fomos levar o lixo, deixámos acabar o leite, não pagámos a luz, bla bla, tudo isto é complicado, eu sei, mas não é por correrem a ver passar a vida, ou por passarem a vida a correr, que isso vai aliviar a pressão. Nem tão pouco é por andarem com caras trancadas e de sorrisos no bolso, para dar de quando em vez, tal como fazemos com os elogios, as prendas, os carinhos, os abraços, os bom dia, boa tarde, boa noite e até amanhã, que a situação vai melhorar.
O que me dizes tu quanto a isto?

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amanhã

Ele diz que isto é uma espécie de coisa nenhuma, sem jeito para nada, que encontra na rua toda uma variedade de sacos vazios, papeis em branco, moedas que não mais têm valor, pessoas, que não mais têm nome, ou voz, ou olhos, ou verrugas proeminentes.
Diz que este mundo, está assim digamos para o, esquisito, perdidamente alucinado, com uma prisão de ventre absolutista, que se traduz na total ausência de seja lá o que for.
Mas no meio de tudo isto, ele há coisas que são deveras caricatas. Então não é que mesmo o mundo estando neste estado, ele ainda continua todos os dias a saír à rua para encontrar mais sacos não tão vazios, papéis ligeiramente riscados, moedas que têm afinal um pouquinho de valor, pessoas que afinal ainda têm nomes, embora curtinhos, como Tó, Zé, Jo, Ana, que continuam a olhar-nos, e algumas ainda têm pequeníssimas verrugas tímidas. Ou seja, há sempre um amanhã pelo qual vale a pena acordar, ainda que seja, para se repetir aquilo que se fez ontem, mas pode sempre acontecer algo, subitamente, que transforme o hoje, num grande futuro.
Ora se isto não é ser positivo, então não tenho mesmo jeito para nada, nem para esvaziar os sacos que o gajo tanto quer ver cheios de qualquer coisa que não seja o já repetido nada que lá tem todos os dias.