Águas furtadas

Na minha rua são tantas, tão formosas, airosas e bem dispostas. Regadas a sol pela manhã e por luares de noite inteira.
Eu? Moro na cave. Mas tenho um belo hábito de morador de bairro lisboeta. Passar algum do pouco tempo que passo em casa, de portinhola escancarada.
Não poucas vezes que escuto os desejos dos transeuntes que encaixam fielmente ao que também por mim passa.
“Gostava tanto de viver numas águas furtadas.”
Talvez a fixação por este espaços curtos, mas de vistas largas se baseiem tão exclusivamente nos livros que líamos em crianças, ou dos desenhos animados britânicos, mas o que é certo é que não deixam no entanto de ser espaços singelos e simpáticos, de encantos tamanhos que apaixonam quem com os olhos as namora.
Sonhar é tanto mais possível quanto impossível se torna não o fazer.
Sonhar é um acordar solarengo de um cheiro a café fresco.
É ouvir bom dia metro a metro, é sorrir de olhos fechados.
Sonhar é querer ter mais e ser maior, é ser quem és mas mais, é isso sim, por favor.
Num café bem cheio se desperta a cidade e se levantam as almas.
Dos sonhos poucos guardam, talvez nada tragam, mas de águas, de águas furtadas não se rouba não a ideia magistral de uma vista anormal.
É bom morar na cave e ver-vos de baixo, porque é com submissão que se admiram as belas obras, e com sede que se furta a vista às águas.
Tenho sede e durmo, mas ao alto hei-de chegar.
Invariável semelhança a minha com a da casa da vizinha, que me olha lá de cima e me pensa pequeno.
Sou tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura, disse isto a pessoa de Pessoa, que às pessoas ensinou, que mais não é o homem que um guardador de pensamentos, se não sonhas e os transformas, não me maces com os teus lamentos.
Vive homem, vive! Vive, que no acordar se ganha tanto e se arruma ao deitar, amanhã é de novo dia, águas furtadas? Sim pois, não custa nada sonhar.
Será que depois de bebidas, perdem o dom de encantar.
São águas como as outras, que tentam refrescar.
Sonha homem que ainda é cedo, não te queiras levantar.
Abro a janela, branca, de vidros meios foscos e divididos, meio simples no olhar, o que queres de mim Ó dia, deixa-me apenas acordar.