Carta a ti, Cristiano

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Terça-feira, 19 de Novembro de 2013.

Esta não foi uma noite como são todas as outras, pelo menos não o foi para nós, portugueses, para todos os que sentem no peito o hino nacional, mesmo não sendo patriotas acérrimos, que sentem orgulho em ver o desfraldar daquela bandeira diferente de todas as outras…
Em campo entraram duas equipas à procura da mesma “terra prometida”, desta feita, vestida de verde e amarelo num jardim maravilhoso, cheio de encantos mil e de ligações de que os suecos nem sequer sonham e, sobretudo, não imaginam que este talvez seja o campeonato do mundo em que os portugueses mais quiseram e sonharam estar presentes… no Brasil!
As razões históricas que se encavalitam neste desejo são mais do que conhecidas e seria uma perda de tempo estar a falar sobre elas, por isso, vou ao essencial, vou direitinho a ti capitão, comandante, GENERAL! A ti, Cristiano Ronaldo!
Não se avizinhava uma noite fácil para ti…
Do outro lado, com missão idêntica à tua estava um adversário sobre o qual recai a minha enorme admiração. É um jogador extraordinário, que, carrega nas costas a responsabilidade e o peso de um país frio demais para um jogador tão explosivo, escaldante e fantástico, o Zlatan, o Ibra. Sabes, ele é verdadeiramente brutal (creio que é a palavra mais adequada para o descrever), tem uma colecção de “golos” de outro mundo, mas, e porque tem de haver sempre um mas, felizmente ele é uma ilha deserta num oceano de… nada! E mais do que isso, felizmente que na Suécia não existe um… João Moutinho!
Admiro muito o Zlatan, desde os tempos do Ajax. É certo que ele não tem os teus números, nem a tua superior e quase predestinada capacidade de pulverizares tudo o que são recordes, feitos, marcas, mitos, para REESCREVERES A HISTÓRIA.
Aliás, não há neste planeta futebolístico, nenhum jogador, NENHUM, que tenha essa capacidade constante de se superar, de se ultrapassar, de fazer e ser mais, de ser e se tornar maior e… caramba “Cris”, que noite, que jogo!! A tua segunda parte foi Inenarrável!
Há hoje, em Nós, o teu povo, um sentimento diferente desde que aquele senhor, já velhinho e meio “jarreta” veio gozar contigo naquela universidade pomposa.
Parece que passaste a ser, de uma vez por todas, o General deste nosso exército temerário e assustadiço. Mas no fundo, creio que todos nós – onde me incluo sem vergonha – estamos numa fase da nossa vida/história, em que precisamos decididamente de um herói, de alguém que nos faça sentir um pouquinho melhor e mais fortes, de alguém que corra por nós até à exaustão, à esquerda, à direita, que “sue que nem um porco” só porque no peito tem o escudo do seu país e que, quando foge aos que o “vigiam” e marca, não tem qualquer problema em dizer: “EU ESTOU AQUI!”. E estás mesmo, e nós sabemos agora, mais do que soubemos alguma vez, que estás mesmo!
Sabemos perfeitamente que sem os teus 4 golos (Marcaste-os todos neste playoff, não sobrou nada para ninguém) o Brasil 2014 corria o sério risco de… não ter piada nenhuma, de não ter as tuas arrancadas, as tuas fúrias, os teus “nós cegos”, as tuas assistências, os toques de calcanhar, os livres e as suas coreografias… E, se o Mundial sem o Zlatan não tem tanto interesse, sem ti, NÃO SERIA UM MUNDIAL!! Seria um bacoco encontro de selecções de futebol. Curioso é, que o senhor “jarreta” parece andar com a consciência pesada e agora decidiu, assim, sem mais nem ontem – porque ele pode decidir e dizer aquilo que bem lhe apetece – que a votação final para a Bola de Ouro se prolongará até 29/11, para que os jogos dos playoffs possam ser tidos em conta – já viu que apostou no cavalo errado este ano – na votação… A hipocrisia não conhece limites junto das entidades que te avaliam e decidem se te entregam a porcaria da bola ou não… Deixa lá, o futebol é isto mesmo, já o era antes de ti e vai continuar a sê-lo depois.
No entanto, hoje ganhaste um prémio bem maior e mais soberano do que a porcaria da Bola de Lata…
Ganhaste o Teu povo, a Tua gente, a Tua pátria! Ganhaste uma legião de apoio considerável, capaz de se curvar perante a tua notória entrega, a tua abnegação e a tua capacidade de sofrer, sim, porque não nos esqueçamos nunca que foste “trabalhar” no dia em que soubeste que o teu pai tinha falecido!
E por isso, por tudo isto, te digo, em meu nome e em nome de todos nós: Obrigado!
Obrigado por me encheres de orgulho, ainda que seja este um sentimento ridículo e comezinho, é meu, é nosso, é teu! E nessa liberdade ninguém toca! Tiram-nos o dinheiro, os empregos, levam-nos os amigos para fora, tiram-nos a esperança, mas que nunca se lembrem de atacar aquilo que para muitos é o tesouro de uma vida, o orgulho em ser e falar português e sobretudo que não nos tirem o gozo, a possibilidade de te ver assim, de quando em vez, marcar mais dois ou três! Obrigado Cristiano, três vezes obrigado!

(Texto publicado em versão mais curta no site do Público – P3)
http://p3.publico.pt/actualidade/desporto/9933/carta-ti-cristiano

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À conversa com o Medo – Parte II

medo

Faço questão de retomar exactamente do ponto em que te deixei.
Não que pense que esta seja a atitude certa a tomar, até porque sempre fui o oposto desta resolução.
Sempre fui de deixar as coisas a meio, de começar uma e depois partir para outra, começava uma brincadeira, desarrumava metade dos brinquedos (também não eram tantos assim…) para exasperação da minha santa mãezinha, para não muito depois me sentar em cima destes, a ler um qualquer livro das Aventuras de Tintim, e assim brincava o Martim.
Como dizia, sempre fui desorganizado, sempre me organizei na minha própria desorganização, frase tão cabalmente utilizada por todos os “desarrumados” e “desalinhados” ao longo dos tempos.
Mas como como comecei por dizer, vou pegar exactamente onde te deixei… Deixei-te a meio da tua brincadeira, do cobarde e inacreditável ataque que ousaste disferir-me, sem me avisares, sem sequer ao menos te teres dado ao trabalho de perceber o que estavas a fazer e onde estavas tu a mexer, meu cabrão! Sabes? Irritas-me!
Creio que não preciso sequer de te dizer que te vou tratar por tu novamente, na verdade, não vejo outra forma de me poder dirigir a quem me tenta, perdão, a quem me tentou foder de forma tão suja como tu tentaste…
Mas, e agora vem a parte deliciosa no meio de tudo isto, falhaste meu porco de merda, falhaste, falhaste, falhaste! Sim, 3 vezes, porque não me vou cansar nunca de te gritar bem alto dentro desses ouvidos de filho da puta, que falhaste tão redondamente quanto aquilo que alcançaste primeiramente!
Não sou injusto e cada dia mais não suporto injustiças, e por essa mesma razão reconheço que não falhaste na totalidade, não falhaste, por exemplo, na natureza do que me fizeste, falhaste sim na vontade, falhaste porque foste curto de vista e eu, mesmo vendo mal, vi bem melhor do que tu, vi mais longe, mais fundo, mais para lá e para mais longe e vi que te foste deliciando a ver-me, a ver-nos, a ver-me na cara o sofrimento, a desconfiança, a dúvida, a incerteza.
Esfregavas as mãos de contente e recostavas-te na tua cadeira de pele, apetitosamente moldada à falta de espinha da tua existência.
Falhaste porque me subestimaste, porque pensaste, e foi aqui que na verdade te “esmerdaste”, que me tinhas deitado abaixo quando me deste aquela tareia há três meses atrás, pouco depois de ter feito trinta anos.
Conheces-me mal rapaz, conheces-me muito mal e esse foi o teu grande erro, pensaste saber já tudo o que havia para saber sobre a minha pessoa.
Pensaste que me vergarias como vergas o melhor dos homens e mais forte das mulheres à tua passagem, julgaste-te dono e senhor da situação e quiseste divertir-te um pouco, não foi?
Confesso que conseguiste em determinados e mais variados momentos deitar-me por terra, é certo, como seria de esperar, fiquei sem reacção quando percebi que aos trinta anos, com poucos dias, estava perante um cancro, eu.
Fiquei atónito, não queria crer nos sons, nas palavras e no seu significado.
De repente quis não entender uma palavra do que me disse o médico, quis não ser português, não entender uma palavra desta língua absolutamente maravilhosa, quis sorrir sem querer chorar, quis crer que não estava a acreditar.
Agiste como ages sempre. Sorveste-me a fé e imiscuíste-te no meu corpo, na minha alma, no corpo e na alma dos que me amam e me rodeiam. Não pensaste, talvez…
Não pensaste de todo!
Bem sei que não tens quem te ame verdadeiramente, que nunca tiveste, que nunca vais ter, mas isso não te dá o direito de brincares com quem te respeita, de humilhares quem cedo acorda e quem tarde se deita.
Pensaste que um cancrozinho de merda servia para me atirar ao chão e ali me deixar!
Pensaste que eras tão mais forte que eu que nem ponderaste sequer dares-te ao trabalho de ver se eu continuava a respirar.
Foste sobranceiro e arrogante ao ponto de achares que tinhas ganho, que tinhas fodido mais um e que agora era só sentares-te de bracinhos cruzados, copo na mão, as pedras de gelo balouçando e dançando alegremente em corropios coordenados, em coreografias tão densas quantos os teus próprios intentos, mas… deste-te mal e comigo dar-te-às sempre mal, pelo menos no que a este tipo de merdas diz respeito.
Estou especialmente violento na linguagem?
Desculpa, estás a ficar ligeiramente sensível e com requintes de burguês apalaçado de bigode aparvalhado!
Aquilo que me fizeste merecia muito mais, merecia que te desfizesse um dos maxilares, mas, infelizmente, és tão físico como o ar que respiramos e, como tal, nada feito.
Estou certo que assim te dói mais… e o prazer sádico que isso me provoca é simples e absolutamente delicioso!
Segunda-feira, 11 de Novembro de 2013, pela primeira vez desde que decidiste vir “brincar” com a minha vida, olhei-te verdadeiramente nos olhos, com a alegria de quem vence, com a raiva de quem dobra uma tormenta maior do que inicialmente se aguenta. Soube que não tenho mais nada a fazer para te expulsar do quotidiano que me levou de mão dada pelo tempo dentro. Pelo tempo em que parei e te enfrentei, olhos nos olhos, cão!
A primeira coisa em que pensei, depois das lágrimas de alegria, comoção e alívio que derramei, foi em escrever-te.
Diz lá que não sou um querido, não me esqueci de ti, viste?
Deves ter muitos assim, deves… deves, deves!
Pensei no imediato instante em que o doutor de nome importante me serenou a alma em esfregar-te nessa cara imunda, porca, sem expressão, sem nada.
Tens uma tromba de um porco sádico e trocista, trocismo reles todavia, insalubre e descabido.
Sempre me foi dito que é feio, muito feio brincar com os sentimentos das pessoas e tu, mais do que ninguém nesta vida, brincas e brincas como bem te apetece, com o que te apetece, quando te apetece, mas para mim, por agora, chega! Estou farto, ouviste?
Foste, decididamente, longe demais, consegues entender isso?! Que não és, de modo algum, inocente, “Não há inocentes. Há apenas diferentes graus de responsabilidade” e tu és tremendamente responsável por grande parte do mal que há na vida das gentes.
Apertaste-me. Vergaste-me, mas não me partiste, isso não, isso nunca.
Durante três meses a minha vida sofreu uma rude mudança e a mudança, como é sabido, implica encaixe, implica transformação, percepção, compreensão, entendimento, aceitação e também sofrimento.
No entanto louvo-te a resiliência e capacidade invulgar de resistência, uma resistência quase maquiavélica, perturbado e profundamente insensível, que não pode ser explicada por palavras curtas, que pode até não ser explicável de forma alguma, pois se existe coisa subjectiva nesta vida é a relação do homem com o medo e com o amor.
Se no amor e na paixão testamos os nossos limites metafísicos e as nossas capacidades desconhecidas em cada novo fulgor da alma, junto a ti, somos pequenos e percebo o quão penosos e ridículos te devemos parecer, acagaçados com um problema de saúde, atarantados com o nome que significa o que tu sabes que significa.
Consegues ao menos entender a dimensão da palavra cancro?
Consegues perceber que as pessoas possam ter medo de morrer? Possam não gostar de sofrer? Que possam, em tempos cada vez mais agradáveis, agarrar-se à vida e ao amor, sem que para isso tenham que caminhar diariamente a teu lado?
Porque não és tu capaz de perceber o quanto és mal amado? Porque não vais chatear os cornos do teu pai?
Se soubesses o quão desagradável consegues ser, o quão inconveniente e mau sabes e gostas de ser… às vezes julgo na verdade estar a falar com alguém que ouve e que vai para casa pensar em tudo aquilo que lhe gritam aos ouvidos, mas depois, depois…
Análises, ecografias, raio-x, TACs, cirurgia, remoção, prótese, cicatriz, grande, enorme, agrafada, isenção, oncologia, impressão, dor instalada, pânico, sofrimento, alma assustada, MEDO, MUITO MAS MUITO MEDO!
Bem sabes que a minha relação contigo é saudável e não tens tão pouco a coragem para o desmentir, certo?
Tive sempre para contigo um trato que foi sobretudo digno e de alguma admiração até, nas alturas em que te sabes comportar e que não és verdadeiro parasita que és, a sanguessuga vampiresca, o monte de esterco indecoroso que na verdade todos sabemos que és.
És com toda a certeza a sensação mais aterradora que experimentei na minha vida.
Estou certo que esta não é a última vez que tenho de te encher as fuças de verdades e coisas que não gostas de ouvir.
És aquele miúdo estúpido com que ninguém brinca e por isso roubas a bola e furas com uma faca, bates em todos só porque és maior e mais velho, ameaças, roubas, fazes chantagem, mas no final dos dias, vais-te sempre embora sozinho. Choras de noite e ninguém te acode. Tens raiva de tudo o que sorri e tem vida. Tens raiva de quem tem saúde e por isso… metes-me nojo!
Já eu, de uma forma ou de outra, sozinho nunca fico, percebes?
Percebes, meu filho de uma grandessíssima puta porque é que nunca me vais dobrar? Percebes ou não? Foda-se!!! Havia alguma necessidade desta merda? Havia?
Com tanto assassino, violador, pedófilo, político, banqueiro à solta, vens escolher-me justamente a mim para me tentares arruinar a vida?
Mudaste tudo! Estragaste muito e muita coisa! Tornaste os meus olhos mais duros, a minha cara mais fechada, o meu pensar mais puro.
E deixo-te com isto: não destruíste o mais importante, a minha vontade de viver, le joie de vivre, (pode ser que em francês entendas melhor) de querer sempre mais, melhor, ser mais, ser maior, ser feliz, mais feliz, ontem, hoje e sempre.
Não foste capaz de aniquilar o sorriso com que acordo e me deito, não foste nem nunca serás, meu rapaz!
Por isso sugiro-te que agora vás fazer a tua vida para outros lados e que não me faças ter de vir desancar-te publicamente tão cedo, ouviste? Porque da próxima vez prometo-te que o espectáculo não será bonito.
Não tenhas… não é caso disso.
Mudaste-me e agradeço-te por isso, mas… já chega.
Já diz o ditado que, tudo o que é de mais enjoa!
E agora, ficas aí, de bico calado!
– Mas..
– Pschhht… está calado! Está caladinho.

Barbaridades – Rodrigo Guedes de Carvalho

O texto que se segue vale bem o seu tempo!

“Pior inconveniente de se ser uma figura pública (sim, também os há, e tantos…)? Sem dúvida, o dia do escândalo. O dia em que, por culpa nossa ou não, somos a manchete do jornal, pelas piores razões. Assim sendo, há que concluir imediatamente que é terrível ver capas e capas de revistas e jornais gritarem-nos na cara estupefacta que Bárbara Guimarães acusa o marido de lhe dar pancada, e que ele, ex-ministro e também reconhecível na rua, por sua vez, contra-ataca chamando-lhe alcoólica? Sim e não. Sim, terrível porque se imagina o inferno em que a vida destas pessoas e, sobretudo, dos seus filhos se transformou nos últimos dias. Mas, por outro lado, pode ter vindo daqui qualquer coisa de bom, por estranha que pareça a conclusão.
Antes de prosseguir, aviso que conheço Bárbara Guimarães desde que nasceu. Tenho por ela a amizade e carinho que só se reserva aos próximos. Será fácil concluir que a notícia me indignou, e sobretudo chocou. Sinto-me inclinado a acreditar na sua versão da história, sem surpresa. Mas sei que muitas coisas na vida nem sempre são exactamente o que parecem. Por isso, o que tenho para dizer, apesar da minha fé nas suas queixas, será sempre utilizado no condicional, ou seja, reservo uma racional parte de mim para dar a Manuel Maria Carrilho uma hipótese de ser inocente, esperando, acima de tudo, que uma investigação das queixas traga conclusões, para um lado ou para o outro. Caso contrário, o resultado de tanta notícia poderá ser apenas o de manchar a vida destas pessoas, só com prejuí-zos e sem um lucro prático ou justo. E porque pode vir da escandaleira qualquer coisa de bom, se, e no essencial, e como quero acreditar, Bárbara conta a verdade? Porque isto deixou um país inteiro atento às movimentações do seu alegado agressor.
É uma “sorte” (palavra parva para a questão…) que milhares e milhares de mulheres por esse mundo fora não têm. A notícia mostra-nos também, se preciso fosse, que a chamada vida real também apanha nas curvas as estrelas que parecem levitar acima dos problemas dos normais mortais. E demonstra-nos, acima de tudo, bem acima de tudo, que a violência doméstica é um problema em crescendo, mas num crescendo nojento que parece incontrolável. Meses, semanas e dias antes das notícias sobre Bárbara, dias, meses e anos depois de Bárbara, continuam e continuarão a surgir pequenas notícias com a chamada gente anónima, mulheres espancadas, agredidas, abatidas a tiro com os filhos ao colo, tantas vezes porque o companheiro “não aceitava a separação”. E aliás, o que é isso de não aceitar a separação? Como é que se quer ficar com alguém à força? Porque se quer ficar com alguém que diz que já não nos quer? Para viver que vida?
Homem que é homem pega nas trouxinhas e vai à sua vida. O problema é que estes homens não querem realmente ficar com a companheira. O que se passa é que o amor, se é que realmente chegou a haver algum, já deu lugar a outra coisa: insistem em permanecer ao lado de quem diz que já não os ama para poderem agredi-la e agredi-la sem parar. Já não se chora por um coração partido, é já só vingança pura e descontrolada. O caso de Bárbara só vem dizer, mais uma vez, que há uma barbaridade à solta no mundo. Os homens que batem em mulheres vêm do mesmo sítio do que os homens que violam crianças ou maltratam animais: do escuro primitivo onde manda apenas a lei do mais forte fisicamente. Do escuro da cobardia mais deplorável.”

Rodrigo Guedes de Carvalho – TV Mais – http://tvmais.sapo.pt/tv/tv_cronicas/2013/11/04/cronica-de-rodrigo-guedes-de-carvalho-barbaridades#ixzz2k0Z3tYnU

Quem tudo quer… tudo raspa!

Quem tudo quer… tudo raspa!

Por estes dias dei de caras com mais um acontecimento insólito e desprovido de qualquer sentido, que não seria ou teria chegado a ser um… acontecimento, se não fosse tão absurdo!
Parece que uma senhora, de seu nome Maria, apresentou uma queixa-crime (atenção que isto é coisa séria) contra o administrador executivo do Departamento de Jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). O melhor vem já a seguir.

Segundo consta, “sô dona” Maria, “diz-se” (não foi proclamada, proclamou-se) viciada em lotaria instantânea, o nome fino e quase nobre da ofendida, a raspadinha.
Devo dizer que me parece uma enorme falta de respeito para com a raspadinha, que assim como quem dá cá aquela palha agora lhe mudem o nome só para parecer melhor junto dos senhores das notícias e dos tribunais. Raspadinha não tem classe suficiente, é isso? A pobre coitada não faz mal a uma mosca.
Já com a “cueca”, no futebol, fizeram a mesma coisa. A palavra era muito forte, associada à humilhação de quem a “leva”, aos uis, eish e gargalhadas de quem está à volta, tornava-se um “cocktail” brutal, vai daí, a bem do espectáculo e de modo a não ferir qualquer susceptibilidade, muda-se o nome à “cueca”, e foi então que se lembraram de lhe chamar… “túnel”, para doer menos… ou “uma maldade”, muito mais digno e menos jocoso.
Não tenho presente que a associação de futebolistas de favela, ou mesmo que a liga dos amigos da rabia se tenham insurgido contra a indústria, numa tentativa de impedir ou de reclamar do que quer que fosse.
Nem tão pouco alguém alguma vez viu ou ouviu “um gajo” que passe a vida a levar “cuecas” (sou pelas coisas como elas são e com os nomes que elas devem ter!) a processar a FIFA, a UEFA, a marca das bolas com que joga, ou das chuteiras que calça, por culpa das suas pernas, constantemente… abertas.
Aos 39 anos, a “sô dona” Maria diz que estoira em raspadinhas uma grande parte do que ganha a trabalhar como prostituta. Diz que as que mais a… seduzem são as “mini Pé-de-Meia”, que têm como prémio máximo 500 euros/mês durante cinco anos. É de salientar que não há qualquer rancor da “sô dona” Maria para com a raspadinha. Trata as mesmas com uma afectividade quase comovente… não fosse o facto de estar agora a processar quem considera ser responsável pelo seu “vício”.

Numa primeira fase, os advogados que a representam trabalharão quase como voluntários. Esta dupla de justiceiros pouco ou nada interessados em honorários, decidiram invocar “publicidade enganosa e ausência de política de jogo responsável” para defesa da sua cliente. Na verdade ainda não percebi porque razão a Raspadinha, o Euromilhões ou os Casinos não têm letreiros acessórios a dizer:
“Por favor não jogue! Isto vicia quase tanto como cocaína! Jogar na raspadinha pode matar e até ajudar a desenvolver doenças como a tendinite dos indicadores ou queda das unhas”.
Os doutos advogados avançaram então com um pedido de indemnização de valor equivalente em realidade à génese desta mesma queixa, um milhão de euros, mai’ nada! (Só para não voltarem a brincar com os sentimentos e debilidades das pessoas.)
Acabaram, todavia, por avançar com uma queixa-crime, convencidos de que atrás da lotaria instantânea há uma burla. Eu também estou convencido de que há burlas diárias no país, muitas debaixo dos olhos do Estado e não é por isso que vou agora processá-los a “torto e a direito”, ainda para mais quando a senhora ministra da Justiça passa a vida a dizer que os tribunais estão atafulhados até às orelhas, de processos insignificantes que complicam a engrenagem. Que falta de bom senso, “shôtores”!

Dos “malandros” da Santa Casa, “esses pulhas”, apenas a seguinte reacção: “A SCML explora jogos sociais responsáveis, uma vez que estes são geridos em nome do Estado, [pronto, com esta é que estragaram tudo!! “Geridos em nome do Estado”, então vocês apresentam um argumento destes? Agora é que arranjaram a bonita!] nos termos da legislação e da regulamentação aplicável, sendo as receitas do jogo devolvidas à sociedade, sob a forma de prémios, de financiamento de políticas sociais e receitas fiscais.”

(Está a ver “sô dona” Maria, “devolvidos à sociedade”… Mas a senhora não consegue esperar, não é? Não lhe parece óbvia a natureza destes jogos de… sorte/azar. É mesmo viciadinha não é? Sua malandreca! E como não consegue fazer o óbvio, não jogar, pimba: processo para cima deles! Quem processa assim… não é gago.)
Quero deixar aqui uma palavra de conforto à “sô dona” Maria.
Não é bonito viciar uma pessoa só por… maldade! Não se faz! De tanta gente no país foram viciar justamente a senhora, os patifes… Pense que pode ter sido a primeira a ter coragem para “dar a cara”… Uma moeda tem sempre dois lados, não desanime!

Deve ser isto a que o Governo se refere quando diz para sermos empreendedores e criativos e nos pede que ponhamos a criatividade ao serviço do país. Aqui está uma obra de arte.

Pelo sim pelo não… talvez não compre uma raspadinha tão cedo. Nos dias que correm todo o cuidado é pouco.

Escritas escrevinhadas

escritas

Escrever consome energia de uma forma absolutamente incomparável. E é incomparável quer na forma quer na génese e natureza da mesma energia, consumida de forma voraz por cada poro da pele de quem cria seja lá o que for com recurso aos segredo ínfimos da literatura! Há como que uma espécie pouco usual de crepitar sonolento da ponta dos dedos, que, debaixo de uma insaciável urgência, se debatem com a impotente incerteza do rumo que podem vulgarmente permitir-se seguir.
A cabeça de quem escreve tem três trabalhos: pensar e decifrar o que lhe percorre o pensamento; pensar novamente e encadear a balbúrdia do mesmo dando-lhe, ou tentando dar-lhe algum sentido, tantas vezes sem saber bem como ou porquê; por fim, e pasme-se, num terceiro momento, escreve exactamente o que o pensamento ordena aos dedos que tacitamente registem tudo o quanto lhes enfia pela goela abaixo. Por isso quem escreve é forçado a deparar-se uma e outra e ainda mais outra vez com os pensamentos a que não pode dar liberdade e “ordem de soltura”.
Os braços robustos da criação apoderam-se das ideias que deixam de ser ideias e passam a ser conceitos, verdades, demências, numa espécie de confirmação, mais do que justificada, do pensar e do ser, isto sem terem sequer de estar em parte alguma que não na cabeça desregrada e iluminada de quem tenta.
Se, na incapacidade de encontrar porto onde atracar a barcaça de palavras que me atravessam com fulgor o pensamento descontrolado, me permitisse a Divindade encontrar um abrigo assim bem abrigado onde pudesse descansar as ideias, e se não fora pedir em demasia, que esse descanso mais não fosse do que um intervalo soluçado, no meio do respirar ofegante de quem corre e não se senta, de quem desiste e nunca tenta verdadeiramente, nunca prova o tentar próprio de quem tenta querer ser coisa alguma ou alguma coisa que seja… agradeceria como quem simpaticamente pestaneja dizendo que sim em silêncio! Não resta muito mais ao homem que a sua educação.
Falta-me a força que me a tira a dor física de não saber.
Porquanto escrevo e vou encontrando nisto uma forma certa de encontrar, por isso decido-me a continuar.
Nas palavras busco o sentido do sentido que aprendo a dar às coisas estranhas e rebuscadas do viver.
Enervo-me e perco-me pelos caminhos a que não dou palavra alguma. Há que as guardar para contar as coisas dos outros mundos, e mesmo esses são suspeitos.
Os mundos criados nascem já eles deformados pelas realidades que se absorvem indubitavelmente pela fome dos olhos, porque para viver preciso sempre de olhar em redor e ser o próprio redor dos outros que olham para o seu redor em que inadvertidamente me insiro!
Tem-me confidenciado a vida que as esperas permitem que conheças o domínio, tantas vezes ensombrado, da paciência, da capacidade invulgar de saber aguardar pelo que te reserva o tempo futuro que tantas vezes temes.
Temendo e destapando os dias que trago nos pés, sou apanhado na ardilosa e enredada incompreensão dos fragmentos do tempo, que se congregam religiosamente numa aparição inevitável e inebriante que fragiliza o mais resistente dos guerreiros.
Sangue na cara, dedos rasgados, olhos meio inchados, a boca remetida ao emudecimento forçado pelos hematomas que a amordaçam! Raiva! Muita! Resta-me pouco que não tu e a bendita literatura! Resta-me menos que não a desventura tresloucada de anotar, de dizer sem pouco mais mexer que os dedos e os ombros em solilóquios arrogantes! Que bela merda. Por isso dizem que escrever é fácil, que não dá trabalho algum, essas coisas que escreves são o quê? Ah, tssss! Ganha juízo mas é!
A insensatez e a falta de vergonha são hoje epidemias coléricas que se disseminam a um ritmo mais vertiginoso que a capacidade reprodutora dos pombos emporcalhados que nos sobrevoam desafiadoramente em voos rasantes e empertigados!
Se houver essa possibilidade quero ser dito como um “homem que está atrás do seu tempo”.
O meu tempo não é este dos corvos disfarçados de saias, calças, casacos e sobretudos.
De maldade e avareza se maquilham estas pérfidas almas que, a pouco e pouco, se distendem em movimentos tão repentinos que não lhes chegam as beliscadelas rapidas e tenazes das palavras que escrevo dentro da minha fúria de menino mimado, isto claro, tudo desenrolado à estrondosa velocidade que as mãos, ainda frescas da idade, me permitem escrever, letra atrás de letra, sem esquecer o intervalo a que se destinam os assentos e os marcos de pontuação!
Folheando o mestre Lobo Antunes tento compreender porque lhe dói tanto a literatura que lhe corre nas veias e vai que vai debruço-me sobre isso mesmo, sobre as veias que transportam as ideias em desengonçadas centopeias desprovidas de uma outra ilustração que não aquela que o meu sangue lhes dá! Quando trabalhas tens menos tempo para alinhar, para equilibrar o que te assalta e te pede que lhe dês vida, o que te espanta e te abraça de seguida!
Quando não pensas, não és tudo o que sabes ser!
Quando não pensas, ficas mais perto da inquietação dos que têm medo de o fazer.
Quando não escrevo sou eu na mesma. Não sei em que língua me falo ou me dirijo a mim mesmo, sei que escrevo e para isso, não preciso de pedir licença.
– Por favor, importa-se que passe à sua frente? Tenho coisas imensas para escrever e isto não pode esperar.
– Ora essa menino, por quem é, faça a fineza de passar.