Quando a morte escolhe à sorte

Quando a morte escolhe à sorte

Sem dó nem piedade nem tão pouco uma simples súmula de dignidade.
Escolhe a Morte, a dedo, ou à sorte, alguém a quem tomar de assalto a vida, com uma imprecisão aterradora e cruel tão própria dos mercenários a soldo, dos carrascos guilhotineiros, dos que executam olhando a vítima nos olhos, bem lá para dentro, direitinho até à porta das traseiras que dá para o pátio onde está sentada a nuca.
Chega na forma mais intrépida e arrogante, no momento mais… no momento mais inapropriado (posso usar esta palavra aqui?)… Credo que me faltam as palavras! Qual momento qual quê…!
Continuamos a mais não ser do que de máquinas elegantes (umas mais do que outras) mas estúpida e avassaladoramente falíveis. Com tempo e duração extremamente limitados.

E na verdade dias há em que fica extraordinariamente difícil para um homem conseguir aguentar-se de pé.
É. Pois é. De pé. Com fé.
Mas nem sempre se consegue e de repente levas um obtuso e doloroso pontapé! Redondo. Disferido com uma violência primitiva e obscena. Em cheio. Na boca. A vida está louca.

E lá foi ela.
Lá foi ela de abalada, tão estupidamente decidida e determinada a alcançar o seu ideal celeste e inexistente de liberdade.
Sim, era, era ainda tenra na idade, é verdade, mas cansou-se e fartou-se das bofetadas impiedosas da sua própria e tão pungente condição que não encontrou mais remédio que não o da partida sem volta, sem retorno, sem regresso. Sem nada.

Quantas vidas tem o pensamento? Quantas?! Até onde aguenta ele? Como?! Quantos anos vivemos de verdade? Quantos?! Quanta vida tem a tua mente de verdade? Está tudo doido majestade! Tudo doido!
Menina do campo e da cidade.
Até onde aguenta o cérebro na realidade?

É verão e chove com teimosia.
É verão e chora toda a noite numa melancólica e encurvada sinfonia.
É verão e não se percebe bem onde acaba a noite e começa o dia.
Não me fales de magia que truques destes não iludem, não me fales de paz sequer!!
Parece-me óbvio que tantas, mas tão demasiadas vezes, a Morte, perdão… já chega!! Já escrevi esta palavra com M grande vezes a mais! Vezes demais! Palavras fatais! Chega. Não escrevo mais!
Estou a escrever há 3 dias e não me ocorrem dois pensamentos iguais ou outras coisas que tais…
Mesmo estando mais do que certo de que esta é a estação final de qualquer viagem pelos caminhos sagrados da existência, mesmo aceitando-a como a mais normal e natural consequência da vida dos homens, a sua antecipada e previsível finitude, não consigo compreender, com ou sem tempo para o fazer, porque o tempo nem sempre traz o que se diz que ele há-de trazer! não, não consigo compreender este apetite voraz e insaciável que se ergue tantas vezes com um ódio e uma cólera exageradamente desmedidas, e sobretudo esta invencibilidade que lhe permite levar tudo à frente e deixar um rasto de destruição massivo e arrepiante para aqueles que lhe ficam atrás e ela, ela bem sabe, ela bem sabe que isso não se faz! Que não está certo!! Que não se deixam feridas de carne sarar a céu aberto.

A realidade é o choro da vida numa chávena de café.

A realidade é o horror de uma vida que termina sem que quem a viveu se possa sequer lembrar do que fez enquanto viveu, a realidade é a frieza do destino para todos os que cá ficam, e a quem tudo lhes parece incerto, deserto. E para quê? Com que fim?
Com que lata é que se faz uma coisa destas e se escapa impune, uma e outra e mais outra vez!
Já chega, não vês? Não vês?!
E as horas que passam indiferentes a toda esta desgraça.
Os dias que correm soltos e embalados pelo vento e pelas ondas do mar e as noites que se transformam invariavelmente no desassossegar do espírito atormentado pelo comboio de palavras atoladas em sentimentos diversos, em medos dispersos, em tristeza absoluta. Nenhum pai deveria ter de travar tamanha luta. Bem sei que digo isto e a morte não me escuta, não o fará nunca.

No esperado e protector sossego de uma sala me falta a voz à fala e não sei tão pouco onde as palavras me vão encontrar.
Sei que entre a dor e o horror que nos atinge pouco mais conseguimos fazer a não ser tentar inventar uma falsa protecção, num conjunto de almofadas que, estrategicamente, vamos colocando pelo caminho a fim de nos encostarmos com jeitinho.

Mas nem sempre a almofada te abre os braços daquela forma que só os braços têm de se abrir para dar e receber…

Os homens, esses, choram sozinhos nas madrugadas que os abraçam, fustigados pelas lágrimas de um desespero surdo de ver desaparecer alguém com tamanho estrondo, com tamanha violência, com a crueldade própria da morte que escolhe e aponta sem critério, com a inqualificável constatação de que tantas vezes a morte escolhe à sorte.

E depois é num eleito cemitério que acabamos todos por ficar a morar, que ficamos todos por ficar a… viver!?
Não, não posso usar esta palavra aqui… julgo eu… ou será que… será que os mortos também vivem?
Será que as coisas sem vida deixam de facto de viver?
Será que quem morre perde o direito que tem de poder ser? Vá-se lá saber.

Saudade.

Palavra tão de cada um de nós, dos netos aos avós.
Com toda a certeza que é uma das mais pesadas palavras da língua portuguesa.
Carregando eternamente nas costas o peso dos sentimentos de quem gosta, de quem sente, de quem sofre e de quem mente.

Saudade. É o que teremos sempre. Saudades.

Do riso e do choro. Da piada e do gozo.
Das birras.
Dos gritos.
Dos cuidados para com os aflitos.
De como a vida não te escolheu no seu escolher sem razão.
De como o caminho te doeu.
Doeu porque te foi sendo dificultado. Doeu porque a razão te atraiçoou e te falhou. Doeu porque a doença que te vergou foi a pior de todas elas.
Foste vergada pela força superior da tua mente cansada e revoltada, perdida e desencontrada.
Foste traída pela vida e foste escolhida numa tarde sem sentido.
Foste levada sem um som, sem um aviso. Sem tempo para te darmos um beijo de despedida. Sem tempo para nos rirmos mais um pouco do pouco que vai havendo para nos rirmos na vida.
Foi de tarde que a morte te escolheu e foi também de tarde que o teu último sorriso se deu.
Aqui estaremos sempre para te lembrar.
E tu leva-nos contigo no teu pensar.
Beijos, do teu irmão mais velho.
Beijos também do mais novo.
Beijos do teu povo que insistirá em nunca te deixar.
Descansa agora pequenota, que a vida já te foi pesada por demais.
Descansa que agora é o tempo do barco do teu tempo não mais voltar ao cais.