Pesadelos de crescidos

Pesadelos de crescidos

Nunca estamos verdadeiramente preparados para os enfrentar no exacto momento em que, noite após noite, nos precipitamos na decisão sensata de dar ao cérebro umas horas de descanso. Partamos do princípio académico que o sono é reparador (pode ser exactamente o oposto, mas vamos partir de um ponto de vista positivo), que nos permite carregar baterias para enfrentarmos mais um dia neste mundo. E se é preciso andar de baterias carregadas nos tempos em que vivemos…

Voltando ao essencial, como dizia, ninguém está verdadeiramente à espera de enfrentar um pesadelo quando se atira de cabeça e empranchado para a almofada, caso contrário, não me parece de todo admissível que alguém se fosse deitar alegre e contente da vida, sabendo de antemão que mal ferrasse no sono mais que profundo, iria enfrentar um carrossel de terror, impotência e surdina. Um cenário mais negro que a escuridão. Se assim fosse, poderíamos esperar ver quantidades absurdas de gente sem querer pregar olho, hospitais cheios de mortos-vivos, de gente que havia perdido a eira e a beira e que, com a falta de sono, tinham sido transportados para a zona cinzenta onde não é possível distinguir a realidade do sonho, a verdade da mentira, a acção da inoperância, o dia da noite, o amor do ódio. O mundo seria outro. Se seria…

É-nos ensinado desde muito pequenos que dormir é bom, é obrigatório, quem não dorme não pode brincar, quem não dorme não sonha e sonhar é mágico, o sonho comanda a vida, mas porque é que ninguém se lembrou de fazer canções pedagógicas e ladainhas amistosas com a parte mais negra do sono dos homens? E não me pareceria de todo despropositado, ora então vejamos:

Na verdade, atrevo-me a dizer que, para mal dos nossos pecados, os pesadelos são muito mais marcantes e interessantes do que a grande maioria dos sonhos bons, felizes, cheios de amor e carinhos, de abraços e beijinhos, de saltos e pulinhos, de azul no céu, de amarelo no sol, de diferentes tons de verde nas folhas e os magníficos castanhos das belas copas das árvores e sobretudo das folhas malandras que rodopiam em coreografias lá delas pelos pés das árvores que as mandam à sua vida. Servilismo natural poderá dizer-se, ou mesmo falta de amor próprio, mas não. É só um bando de folhas caídas que o funcionário da junta de freguesia haverá de empurrar para dentro da pá e despejar para o caixote imundo e obscuro. As que se safarem e se pirarem dali para fora talvez tenham outra sorte.

Nos pesadelos não há folhas malandras, não, não há sequer folhas, as árvores não têm sequer ramos, são-lhes cruelmente arrancadas as folhas; da mesma forma que as rotundas não têm flores, as estradas não têm linhas, nada tem qualquer ponta de lógica aparente e é tudo tão diferente naquela parte da mente. Porque simplesmente, sonhos e pesadelos não podem vir da mesma fonte. A montanha não dá água e depois vinho. A videira não dá azevinho. Juizinho.

E porquê tanta coisa com os pesadelos? Porque esta noite foi noite.

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Esta noite fui surpreendido por um daqueles malditos e aterradores pesadelos que permanecem na fita ininterrupta do pensamento durante todo o dia. Estive todo o dia à espera do momento em que me viria sentar em frente às teclas para escrever sobre isto. Catarse. Pois claro. Mas amanhã, amanhã bem sei que ele vai por cá andar e no dia seguinte será exactamente a mesma coisa. Por que digam o que quiserem, chamem-me o que quiserem, esta é a grande vantagem dos pesadelos sobre os sonhos: Não desaparecem! Não se esfumam no estender tantas vezes tortuoso do dia que se tem pela frente; não se evaporam no reboliço constante que nos ocupa o pensar, que nos gasta nos dias em que vamos sendo aquilo que temos de ser e não o que na verdade queríamos poder ser.

Não pode ser.

Passaram quase 24 horas e ainda vejo a cara daquela mulher sentada no chão da rotunda, com a árvore despida e envergonhada. Ainda vejo aquela pobre alma por quem passo no meu carro já quase sem qualquer réstia de velocidade, como se tivesse parado, num super slowmotion como os que hoje se fazem nos jogos de futebol, nos jogos todos, nos desportos… quase todos.

Estou a chegar a casa.
O corpo parece trazer consigo uma dureza própria do cansaço. O dia terá sido duro.
Parece-me que sou inspector ou detective. Não tenho farda, mas mando.
Venho a descer a rua e, como todos nós, relaxo, desligo o botão da concentração absoluta naquilo que foi o meu dia (o caso Sócrates tem de estar na origem desta minha profissão), desengato a mudança e desço o que falta em “ponto morto”. São dois segundos, não muitos mais.
Olho para o banco do pendura para ver qualquer coisa nos papéis e, nesse exacto momento, apercebo-me que no breu da noite sem luzes acabo de passar com duas rodas por cima das pernas que a mulher do chão da estrada já não tem, ou não, esperem, não eram as pernas dela, havia já alguém deitado na rotunda quando lá cheguei. Morto, pensei.

O carro que não consegui identificar estava desfeito, deitado, de barriga para cima, também ele horrorizado com o meu horror.

De súbito, no exacto momento em que passo por cima da pessoa que está deitada no asfalto negro e sem linhas, consigo ver tudo, os meus olhos estão milagrosamente (deixem-me encontrar alguma coisa de divino no meio disto tudo para a coisa ser mais fácil de entender) debaixo do carro, ou pelo menos um deles foi lá abaixo ver o que se passava. – É inacreditável como o detalhe não se foi. – A mulher tinha cabelo preto, pelos ombros, meio despenteada e com uma franja, colar com um adorno qualquer, lábios pintados de vermelho já esborratado e dois pequenos carreiros lânguidos do seu próprio sangue a escorrerem-lhe da testa em direcção ao maxilar inferior.
Tem as mãos apoiadas sobre a parte superior das pernas, a parte que lhe sobrou, uma vez que o restante havia ficado já para trás. A mulher insistia em gritar aterrorizada um chorrilhão de coisas que eu não conseguia ouvir ou perceber. Tudo é surdo. Alguém tirou o som à televisão.

Até me despistar, cerca de 20 ou 30 metros mais à frente, consigo ver plo canto esquerdo do mesmo olho um carro da polícia a descer a rua paralela aquela em que sigo, fixo-o e ordeno ao meu cérebro que dentro de alguns segundos faça o obséquio de mo recordar para que possa apitar e chamá-los em auxílio desta gente toda.
Sim, disse gente toda, nos dois ou cinco segundos que se seguem a este primeiro impacto de horror consigo ver mais três corpos na estrada, ajudado pelo facto de passar de seguida por cima de mais um, que já não tem um sapato, volto a ver novamente tudo o que se passa por baixo do meu carro, como se de facto conseguisse lá meter a cabeça e voltar cá acima de seguida.

Na tentativa de me desviar do terceiro gajo estampo-me contra um daqueles blocos de betão que se costumam ver a vedar o acesso a estradas inacabadas. Apercebo-me de que me vou espetar e não consigo fazer nada, passam-se vários minutos enquanto percorro os 30 metros entre o primeiro corpo que “piso” e o separador, bato, nem um ai e começo a tentar imediatamente buzinar a plenos pulmões… esta operação parecer durar uma eternidade.
O volante do meu carro tem 2 pequenas buzinas pensadas para os polegares de cada mão, perfeitamente identificado com o símbolo universal para as buzinas de automóveis. Obviamente que não os encontro, nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira. Por fim lá acerto e começo a buzinar que nem um elefante mas o estúpido do carro não emite um som, um sonzinho que seja, nada. Zero. Nem um arranhar. Nem uma pequenina chiadeira.
Raios me partam que nem um simples trim trim de uma bicicleta vilha, nada! ABSOLUTAMENTE NADA! QUE DESESPERO! E o carro da polícia a desaparecer e a minha aflição a atingir níveis insuportáveis e é nesse preciso momento que começo a gritar, dentro do carro e, claro está, na cama, pois claro, na cama. Onde mais haveria de ser?É ali que durmo. Eu. Eu e a Ana.
A pobre coitada acorda num disparate dum sobressalto assustadíssima com os meus gritos e uivos e lágrimas e tremores e terrores. E na verdade, estava tão bem quando me fui deitar. Como poderia imaginar?

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Volto a adormecer meio a medo e com a mão dela no meu peito. Assustei-me. Assustei-a. Isto é de facto assustador. Tenho o coração esbaforido de tanto trabalhar.
Bem sei que não me adiantará de nada ter a mãozinha dela no peito pois se tiver de voltar a encontrar aquilo tudo novamente, vou lá parar da mesmíssima forma que fui há uns minutos atrás, mas ainda assim, aproveito o mimo e deixo-me ir novamente.
Não volto a ver aquela gente.
Pesadelos.
Sei que voltarei a tê-los, a lê-los, a vê-los.
Faz e fazem parte. Assim se faz esta arte. Não tem muito que saber.
É dormir para crer.

O estranho caso do Verão de 2014 – Parte II

O estranho caso do Verão de 2014 – Parte II

Chegar à cidade de Córdoba a meio de uma tarde de Julho é uma experiência no mínimo invulgar e marcante. Não só por tudo o que se vê, mas igualmente pelo surpreendente e inesperado vazio de gente, de movimento, de reboliço, de corrupio, de desvario, acima de tudo é isso, impressiona pela ausência bastante significativa de gente nas ruas. Tal coisa só pode, no entanto, ser inesperada para quem não vive ali, nem tão pouco sequer alguma vez ali esteve, em particular, naquela época do ano tão exageradamente quente.

Antes de chegar a Córdoba, percorrem quase 100 quilómetros por entre uma estrada de rectas intermináveis e secas, com pequenos adornos em forma de curvas que se fazem em 5ª velocidade, tal é a pequenez do ângulo que as mesmas descrevem. É impossível ver o fim a uma destas rectas num dia de calor, em que o asfalto se maquilha com vestes prateadas, que se assemelham a lagos perfeitos no horizonte escaldado. Sentiram que estavam a caminhar alegremente para o interior negro e queimado de um caldeirão, que estavam a penetrar lenta e pesarosamente num vale quente, tórrido, abraçado por áridos vislumbres das vizinhanças e largado ao desinteresse por montanhas que nunca dormem.

A Sierra Morena lembra os visitantes que esta era uma cidade estrategicamente plantada neste local, defendida pela natureza que lhe ergueu montes, montanhas, serras e vales e que, em tempos distantes, esta foi a Urbe mais importante da Terra. Chegar a uma cidade onde nunca se esteve, sentado ao volante indeciso de um carro que, também ele, parece perdido e desorientado no emaranhado de ruas e ruazinhas, de “vira à esquerda, não, afinal vira à direita, Ah porra, que não era por aqui, viste bem o mapa?” é, sem sombra de dúvida, uma experiência que testa as capacidades e, sobretudo, a resistência de uma parelha única, com espírito de missão e com uma vontade absoluta e insaciável de novidade, de conhecimento, de descoberta, de vida. Acima de tudo isso, isto é, distinguem-se pela vontade que têm de fazer tudo em conjunto, sempre, só é somente. Isso.

Bem sei que estão a estranhar o recurso a um mapa de papel, nesta Era da tecnologia, que faz tudo por nós, mas ainda há quem orgulhosamente se sirva de um mapa da Península, para viajar por ela adentro. Um mapa, em papel, exactamente, um daqueles que estão fantasticamente dobrados em partes simetricamente iguais (acho mesmo que os mapas são feitos com o objectivo pérfido de complicar a vida seja de quem for, porque, sejamos honestos, é preciso aprender a ver mapas, é preciso arte para nos conseguirmos guiar por um mapa, sobretudo, se estivermos confinados ao interior de um Corsa dos mais crescidos), que, regra geral, vivem espalhados sabiamente por tudo o que é estação de serviço, de Norte a Sul de um país e que fazem com que para alguns artistas, como é o caso, não dêem para passar uma viagem sem rasgar um pedaço de qualquer estrada, ponte, ou linha de comboio, na tentativa pateticamente furiosa de devolver o mapa ao seu caótico emaranhado de rios, vias secundárias e principais, auto-estradas, vilas, aldeias, cidades e povoações, caminhos de terra, serras, lagos, pontes e todas as suas ligações, dobradinho como se tivesse sido engomado a preceito com um ferro de caldeira.

Claro está que ao fim de algumas centenas de quilómetros já se pode ver, entre Portugal e Espanha, um joelho e o pedal do travão. Amor… Sim querido? Estás a ver o mapa ao contrário! Cala-te não sejas parvo… ahahahahaha… pois estou! Lá vão eles – ligeiramente indecisos nos próprios silêncios, também esses tão realisticamente particulares e tão próprios dos dias de calor absoluto e infernal – entrando, maravilhosamente cansados, mas felizes, nas entranhas tórridas de Córdoba, sem conseguirem ver praticamente vivalma, nem tão pouco um puto montado numa bicicleta.

Antes de encontrarem o hotel, entregam desavergonhadamente cerca de meia hora às ruas desconhecidas e às avenidas largas, que aos seus olhos se cruzam respeitosa e cavalheirescamente umas com as outras, sem malícia, ou maldade alguma. São serviçais, existem tão simplesmente para servir quem delas se serve. O calor, esse, parece recebê-los com entusiasmo, pois a temperatura aumenta estupidamente à medida que a velocidade do carro diminui. Tudo, ou praticamente tudo, parece acontecer em slow motion. Os carros circulam devagar, os que circulam, não vêem mais que três, durante a deambulação gratuita que empreendem pelas ruas cordobenhas. Os cumprimentos à entrada do hotel, as árvores que balouçam ao sabor de um tímido soprar de um vento aquecido, os passos dos hóspedes, os carros que circulam no parque de estacionamento, as folhitas que se habituam a viver junto aos pneus dos carros parqueados saltitam como se procurassem tirar as costas do chão em brasa.

O hotel parece-lhes muy bien.

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Facto: os portugueses gostam de chegar a qualquer país e ouvir a sua língua e, quando viajam de carro, sentem um natural e reconfortante prazer se conseguem ver o P por baixo das estrelas da bandeira da União Europeia de uma matrícula qualquer, seja em que veículo for. É inexplicável. É uma sensação de segurança misturada com… sei lá o quê mais. É o que é e como é. Podem nem se falar, durante toda a estadia, podem perfeitamente cruzar-se apenas no trânsito, num semáforo, numa praça, num restaurante, ou numa esquina qualquer, mas a sensação de pertença e de identificação com aquele P sentado por baixo das estrelas não deixa de ser curiosa. E moderadamente agradável.

Voltando a Córdoba. Conseguem um lugar não muito longe da porta do Eurostars Las Adelfas, um hotel tipicamente andaluz, amarelo, com as janelas de todos os quartos divididas com os arcos e as colunas em mármore branco… lindo. Perfeito! “Que horas são?” Para a piscina, já! Check-in feito em 20 minutos, depois de dois casais de espanhóis quase se terem pegado ao estalo para decidirem quem tinha chegado primeiro à fila. Transpiram desalmadamente com as roupas já coladas a algumas partes do corpo. Ele não deixa de olhar para ela, com aquele ar malandro de quem tem o fogo na alma, de quem a ama com a paixão louca das páginas ocres dos livros que guardam na alma.

Sentem o Verão e a sua alegria no coração da Andaluzia.

Instalam-se. Trocam de roupa. Brincam nus pelo quarto. Vestem-se rapidamente e rapidamente vão até à piscina. Procuram um pedaço de relva que ainda permita estender duas toalhas, já que as espreguiçadeiras estão com lotação esgotada. Aninham-se atrevidamente à sombra de um chapéu-de-sol que protege dois ingleses e, sem mais demoras que não as do duche obrigatório antes de enfiar o corpo assado dentro de água, vão com tudo o que ainda lhes resta de energias, depois de uma viagem de 670 quilómetros, e mergulham como as lontras para dentro de água. Férias dizem os olhos de um para o outro. Férias, meu amor. Férias!

Amo-te respondem depois com o sorriso nos lábios, embelezado por um abraço que deixa apenas as cabecitas fora de água e o coração cheio novamente. O coração é assim mesmo, caprichoso, de hábitos pouco redondos. Alimenta-se destas coisas. De vez em quando, assume alguma modéstia e não complica o que é simples, quando é simples. De vez em quando, o coração deixa-se ser apenas isso mesmo, coração. Ela parece-lhe extraordinariamente perfeita debaixo daquele calor quase insolente e dentro da água, então, é um vislumbre de maravilha e de felicidade, que se quer eterna. Tenta parar o tempo, ali, naquele preciso instante. Tenta. Não consegue, para já. Voltará a tentar.

Dão pela fome quase em simultâneo, depois de cerca de 20 minutos de molho, a marinar. Sem pressas de maior, voltam ao quarto, para um banho fresco, uma muda de roupa e aproveitar o guifi (Wi-Fi) gratuito, a fim de perceberem mais ou menos onde vão jantar, ou pelo menos onde é que podem estacionar o carro para poderem depois perder-se à vontade nas vielas floridas e encantadoramente alegres da Judiaria de Córdoba, agraciados e confortados pelo seu estrondoso entardecer. Estacionam numa rua interior, onde já chega mais fraco o calor das 19:30. Que grande Verão que se adivinha pensa ele, feliz, simplesmente feliz.

Por vezes é tão simples a felicidade. Quando o teu corpo e alma se encontram tão abundantemente satisfeitos e completos, que sentes uma leveza estranhamente agradável e constante, que não se esfuma no deitar e no dormir, que se renova a cada beijo, a cada abraço, a cada nova rua desta cidade nova nos olhos, quando sentes isso, estás bem, estás feliz. Simples. É.

Flores. Pátios. Branco. Gente. A gente que se esconde nas tardes abrasadoras abandona as tocas e aparece ao final da tarde/princípio da noite, como se de facto só se pudesse viver verdadeiramente nesta terra, quando o sol nasce e mais tarde quando ele se começa a despedir, deixando para trás a pintura maravilhosa de um céu tingido de um laranja absolutamente memorável. No entanto, ela começa a queixar-se de dores na garganta. Na verdade, já as traz consigo desde Lisboa. Param junto à velhinha ponte romana e admiram a entrada na parte antiga e moura da cidade. Ele não resiste ao céu polvilhado de pó de tijolo e limão ressequido que, misturado com os cabelos dela e o reflexo da luz quente que se despede nos óculos que traz no rosto para não ferir os olhos com o brilho quente da estrela amarela e redonda, fazem a anunciação de uma fotografia perfeita. Enquadra, abre, foca, espreita, sorri-lhe pelo canto da boca e dispara, uma e outra vez, enquanto a vai vendo mexer-se imaculadamente à luz do final de tarde perfeito no Sul da vizinha Espanha.

Vão andando. Nem muito depressa, nem muito devagar. Andando. Parando. Olhando. Admirando. Falando, agora menos. Já lhe custa falar e não o consegue esconder. Ele preocupa-se e dá-lhe a mão. Vamos jantar, diz-lhe baixinho e com todo o amor que lhe tem encrostado dentro daquelas duas palavras. Tapas e Tinto de Verano, pois claro. Ali ficam até aquilo fechar.

Ele nota-lhe o esforço tremendo que faz, durante toda a noite, para esconder o desconforto que as dores na garganta lhe estão a provocar. Já ela, pobrezinha, aproveita até os mais breves silêncios para descansar. Até o pestanejar se vai já tornando pesado, cansado, marcado pelo latejar da dor que a transtorna.

Fazem o caminho de volta ao carro, com um pequeno desvio para pararem exactamente no mesmo sítio onde horas antes ele a fotografou, estarrecido com a beleza da pintura que os seus olhos viam. Admiraram tudo com esponjas sôfregas nos olhos, a fim de guardarem tudo aquilo nos recantos puros e escondidos das memórias boas que nos trazem este tipo de viagens. Selam a vista com um beijo abraçado e, de mãos dadas, atravessam a rua e voltam a encontrar a pequenina e apertada ruela interior, onde pararam o Corsa. É sempre uma festa, quando se encontra o carro à primeira, no primeiro dia em que conduzimos numa cidade onde nunca tínhamos posto as rodas, ou os pés.

Por esta altura ela já se calou.

(continua…)

Texto publicado no site  www.reportersombra.com