Metrópole

A minha cidade não é mais a mesma cidade.
A minha cidade é cada vez mais um aglomerado de vontades contraditórias que se empilham em cima dos desejos de quem a viu nascer, crescer, há séculos atrás e sobretudo de quem nela nasceu e cresceu e que agora, como eu, tem uma enorme dificuldade em identificar-se com ela. É realmente triste quando não nos conseguimos identificar com uma coisa que sempre tivemos como nossa, como parte pertencente e integrante de nós, sendo que nós, somos obviamente, parte integrante dela. São as pessoas que constroem as várias Lisboas, são as pessoas que destroem as mesmas Lisboas. Pessoas, mais uma vez, o mal é irremediavelmente o mesmo e advém sempre da mesma fonte. Pessoas e vontades, conflitos e verdades. Pessoa, esse sim, fazia falta a Lisboa.
Dorme bem Lisboa, quando acordares acorda-me também a mim. Estarei sentado, como é costume, num banco de um teu jardim.

Sensações

Abandono o transporte, sinto-me pesado, frio, amargurado, apático e amorfo, no fundo sei que estou indiferente a tudo o que à minha volta acontece, acções, palavras, movimentos, pessoas também, a praticamente tudo.
Lentamente vou caminhando, atordoado por uma inexplicável inércia, que me obriga a caminhar muito devagar, enquanto tento perceber, porque razão estou eu a caminhar se na realidade o meu corpo não quer andar. Encontro facilmente o meu inimigo e adversário natural, o meu pensamento, o meu cérebro. O que posso eu fazer para o contrariar?? Resposta óbvia, NADA!!!
Dobro a esquina e encosto-me à parede, tentando descansar, sinto-me exausto ao fim de cinco minutos de caminhada, falta-me o ar, circula lentamente e mais pesado do que eu. Subitamente, aproxima-se de mim um estranho ser caminhando a alta velocidade, detém-se à minha frente e pergunta-me as horas, cabisbaixo, fingo não perceber uma única palavra daquilo que aquele velocista me diz, como se de facto ele estivesse a falar um qualquer idioma que nunca antes tivesse eu escutado, mas o homem, não contente com ausência completa de uma simples resposta, resolve retorquir a pergunta, desta vez, acompanhada de um pequeno mas incomodativo toque no braço esquerdo. Desculpa, tem horas que me diga por favor? Tamanha educação, mas no entanto não me apetecia sequer abrir os olhos, mas eis que o meu inimigo resolve tomar o controlo da situação. Subitamente os meus ouvidos ouvem lá longe: São 21h30, exactamente, era eu a responder, contra a minha própria vontade, inicia-se então um conflito utópico, capaz de durar por horas, ou mesmo dias, dependendo da dimensão da minha apatia e da minha falta de vontade, despoletadas pela tristeza que me cola os pés ao alcatrão.
É tarde, mas não me apetece mexer para lado algum. Dou-me por vencido e deixo que o meu inimigo me conduza, seja lá para onde for que o traste queira ir, não tenho outro remédio senão baixar os braços, e simplesmente caminhar na direcção por ele tomada, vou a contragosto, mas vou.
Boa noite, dorme bem Lisboa, agora que de ti me afasto, ao menos diz-me se gostaste da minha não companhia.
Aquele beijo para ti, limpa-te, estás tão suja, essa cor não te favorece.

Pensas, mas no fundo não existes

“No leito de vida o poeta julgava a inconsciência do seu ser, condenava-o veemente por cada acto ou punia-o severamente por cada pensamento. Cansado de ser vítima da crueldade irrevogável do seu pastor, o pequeno cordeiro resolveu deitar-se, prostrado, pronto a morrer, deixando o velho poeta, sem ideias e sem capacidade sequer de exprimir as mínimas vontades, desejos, intenções ou simples actos mecânicos e normais numa coisa dita, humana. Foi o abandono total dos pensamentos da cabeça do homem. Invariavelmente, o homem apenas coabita neste mundo porque pensa, ou pelo menos, devia fazê-lo, tal como os outros homens. É isso que o torna brilhante e tão audaciosamente superior a todos os outros seres vivos, a quem submete as suas vontades fascistas, ou pelo menos é nisso que o homem acredita, isto é, que é superior a todos os outros seres vivos. Rídiculo para um ser vivo, que se afirma e se sabe ser inteligente, ser capaz de menosprezar toda a comunidade viva da terra apenas para se auto denominar como superior atribuíndo-se a si próprio direitos que ninguém lhe concedeu, olhando para si próprio como uma divindade que um dia ao mundo desceu. Vergonha, isso sim, vergonha era o que cada um de nós deveria sentir pelas barbaridades que a espécie humana, atroz e sádicamente comete dia após dia, ano após ano, século atrás de século. Nada nos distingue hoje em dia dos povos bárbaros de há milénios atrás, dos caçadores recolectores, dos homens das cavernas dos tempos das guerras pelo fogo. Mas esta é a realidade, o homem é o dono do mundo, e o que pode ele fazer sem pensamentos?? Nada, apenas ser ciclicamente sodomizado, como são todos os restantes habitantes, deste pequeno lugar, que tem tanto de belo, como de monstruoso, e que um dia alguém resolveu apelidar de mundo. Pobre mundo que sofres muitas vezes em silêncio, com tanta merda que vês passar diante dos teus olhos, não chores mais, em breve tudo estará terminado. Acredita em mim.”