Cartas da Palestina – A resposta

Cartas da Palestina – A resposta

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O conflito armado (em parvo! só pode ser mesmo isso) Israel vs Palestina (e não o Hamas) deste ano já leva (se é que se pode sequer utilizar esta palavra aqui, neste sítio onde a pus…!) mais de 2000 mortos (mortos! vejam bem… é assim que este menino resume toda aquela gente que perdeu a vida… por que razão mórbida deixarão as pessoas que morrem aos magotes de ser pessoas para passarem tão somente a ser… mortos?), dos quais pelo menos (pelo menos… a ligação à quantidade devia ter, em português, alguma palavra mais bruta) 600 eram… custa tanto, confrange-me dizer isto, crianças.
Há uns dias falava com alguém que me dizia:
– Deixa de ser utópico. Que guerra é que é justa?
– Sim eu sei, mas são mais de 600 crianças mortas caramba! Já para não falar de todas as que não morreram, essas ficam cá, perdidas, vítimas do maior dos roubos, da maior das atrocidades que contra elas poderia alguma vez ter sido cometida, o roubo da própria infância que é, ou pelo menos em teoria ocidental romanesca deveria ser, a fase mais bonita da vida de todo e qualquer ser humano.
– Tudo bem, até percebo o que estás a dizer, mas é o preço a pagar… Israel é e tem de continuar a ser o “tampão”… que não permite que o mundo islâmico se coloque às portas da Europa… e que por lá fique.
E aqui me detive porque, na verdade, há em mim um qualquer e sobretudo inexplicável (porque já tentei e já percebi que não sou na verdade capaz de o explicar, de o exprimir apenas por palavras) bloqueio que não me permite olhar para esta palhaçada toda como quem olha e fala de outra merda qualquer (mesmo que agora não me ocorra coisa alguma que me possa parecer banal ao ponto de aqui falar dela), com pouca ou até mesmo nenhuma importância. E atenção que, quando digo merda estou a fazê-lo de forma convicta e profundamente consciente do tipo de merda de que se trata. Não me interessa absolutamente nada apontar culpados e defender posições seja de quem for (é merda que não quero pisar), aquilo que me vai corroendo ferozmente as entranhas e os sonhos das noites de verão são as mortes constantes de tantas e tantas crianças em tudo o que é guerra estúpida deste mundo, que aparenta estar cada vez mais assustadoramente debilitado.
Nas crianças está, esteve e vai estar sempre o futuro de qualquer família, qualquer aldeia, vila, cidade, região, país ou mesmo continente. Porquê? Essa pergunta pode apenas ser respondida com a simplicidade pueril e tão própria e tão óbvia das crianças: Porque são mais novas! Logo, vivem mais… “duhhhh”!
E se as matam como se matam moscas então é que o futuro fica definitivamente comprometido, seus anormais… de merda!
Por isso só olho para este ponto do conjunto de todos os pontos e vírgulas que este assunto compreende. Olho para o ponto de vista que literariamente me é mais conveniente porque o posso fazer, porque em vez de vir para aqui discutir se a culpa é de A ou B, fico-me tão somente pelo mundo das crianças. Sem crianças não há futuro. Ponto. Sem contraponto.

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“Olá Mounir.
Desculpa só responder agora mas confesso-te que tenho passado grande parte do meu tempo a brincar e nunca mais pensei sequer no trabalho de verão que a minha professora nos passou.
Num destes dias resolvi abrir o caderno porque sabia que havia qualquer coisa de importante para fazer. Abri então o meu caderno e logo fui pegar no iPad do meu pai para poder ir abrir o email da escola e ver se tinha lá alguma coisa. Sabes, sou assim um bocado distraído e às vezes preguiçoso, por isso demorei tanto tempo a responder às tuas cartas… Por isso e não só…
Olha, eu sou e vou ser sempre sincero ao longo destas conversas que vou tentar ter contigo. Acredita em mim porque isto é uma promessa.
Os meus pais e a minha professora sempre me ensinaram que nunca, mas nunca, se deve mentir, seja lá a quem for e seja lá qual for a razão que possamos achar suficiente para enganar alguém. As pessoas boas não mentem e por isso de uma coisa estou certo, pessoa má pelo menos não sou.
Quando li a tua primeira carta, disse logo cá para mim que tinha de te ensinar a escrever o nome do Ronaldo, com O e não Ronaldu, como tu escreveste na tua camisola. Se conseguires muda rápido, para não gozarem contigo e dizerem que não sabes escrever. Não é difícil, basta fechares o U para ele ficar um O.
Mounir. Meu amigo. Posso chamar-te assim? Espero que sim. O teu nome é Mounir e o meu é… Martim.
Estou há vários dias a pensar em qual será a melhor forma de falar contigo sem falar…aaaaa… nas… mortes eeeee… nas… pessoas feridas e nas casas partidas… e na guerra. Nessa tua guerra má.
Sim, eu sei isto tudo.
Quando disse aos meus pais que ia começar a trocar cartas com um menino da Palestina, eles pensaram que eu estava a brincar e que devia ter visto qualquer coisa na televisão ou na internet e que não se devia brincar com coisas tão sérias como estas, disseram-me muito zangados. E eu respondi-lhes que não era brincadeira nenhuma.
Foi então que o meu pai se lembrou da amiga que conheceu quando andava na faculdade e esteve em Erasmus, em Londres. Recordava-se do nome dela, porque era muito fácil de memorizar… Azza… como as que fazem voar os pássaros, mas sem S e com Z, aliás com dois Z, que para voar são precisas duas asas, sem Z e com S; cabelos pretos, sempre tapados, tímida e religiosamente cobertos, que só desprendia em casa, quando dava jantares. Era uma excelente aluna, muito inteligente, muito sorridente e cheia de vontade de voltar para casa para poder ensinar as crianças dos campos de refugiados palestinos da Jordânia.
– Vou falar com ela – disse ele.
No dia seguinte depois do jantar, o meu pai chamou-me à sala, ao sofá, pediu-me que me sentasse e disse-me que a professora Azza lhe tinha respondido e que já tinha tudo tratado e que ia então enviar as duas primeiras cartas. Fiquei maravilhado. Nunca tinha conhecido nenhum menino de outro país, a não ser pela televisão. Nunca tinha falado com ninguém que não fosse português.

O combinado foi então que a tua professora traduzia as cartas escritas por ti, para inglês, e o meu pai traduziria depois então de inglês para português, para que eu pudesse então ler finalmente tudo o que tu contavas.
Ora, uns dias depois, vou dar com o meu pai a chorar, no escritório, com o computador aberto, a ler a 2ª carta que a tua professora tinha mandado.
Perguntei-lhe o que se passava, porque estava a chorar? Nunca tinha visto o meu pai a chorar.
Respondeu-me de uma forma estranha:

– Estou a chorar porque nós temos muita sorte meu filho, muita sorte mesmo… Vais ter de ser muito forte para leres as cartas que o teu amigo da Palestina te escreveu e vai escrever – disse-me o meu pai muito comovido e com uma vez de fundo de poço, enquanto ia escrevendo numa folha branca, a tradução de tudo aquilo que me ias contando.
Confesso-te que quando vi aquilo tive medo, tive mesmo medo de ler a primeira, quanto mais pensar em ler duas cartas seguidas, cartas que puseram o meu pai a chorar como eu nunca tinha visto.
Os adultos às vezes choram e ficam estranhos…
Então, nessa noite, resolvi que não ia dormir. Queria, quis ficar toda a noite a ler as tuas cartas. Queria mais do que tudo perceber o que é que tinha deixado o meu pai tão perturbado e sobretudo tão triste.
E assim foi, acabei por não dormir de noite.
Acabei por adormecer com as tuas cartas na mão quando já o sol se espreguiçava para nos dar os bons dias.
Chorei. Chorei com pena de ti. Chorei porque não faço a mais pequena ideia do que é uma guerra.
Só conheço as guerras nos jogos de computador. Só conheço as guerras de que nos falam os senhores doutores, as guerras dos outros países, as guerras mundiais, e outras guerras que tais. Não conheço nem nunca vi um tanque, um míssil, ou uma casa desfeita em pedacinhos por um míssil ou uma bala de canhão. Não sei o que é isso.
Levei dias e dias a pensar em guerra. Em mortes, em feridos, em amigos perdidos, em familiares desaparecidos e no meio de tudo isto chega a terceira carta, a mais violenta, a mais bruta, a mais nojenta.
A culpa não é tua Mounir, não é mesmo. Mas só tenho 9 anos e tu também. E com a nossa idade ninguém, NINGUÉM devia ser obrigado a passar por tudo isso que te estragou a vida.
Também eu tenho um melhor amigo… O Miguel. Vive aqui na janela em frente à minha, do outro lado da minha rua.
Andamos de bicicleta, jogamos à bola, jogamos consola (sabes o que é?), pintamos, brincamos na piscina, montamos legos, andamos juntos no Karaté (e isto sabes o que é?), no inverno calçamos as galochas e vamos brincar para as poças…
Mas de que raio estou eu para aqui a falar? De brincadeiras… quando tu vives numa casa sem janelas… quando tu perdeste familiares, colegas de escola, amigos, vizinhos, a tua casa, tudo… E eu aqui a falar de brincadeiras…
Está a ser muito difícil ter alguma coisa para dizer, ou pelo menos alguma coisa que eu ache que te interesse a ti saber. Estou bloqueado. Só consigo imaginar-te com a camisa e a cara cheia de sangue, com a cabeça cheia de pó e com o coração cheio de medo. Posso contar-te um segredo?
Vou pedir aos meus pais para te tentarem tirar daí… Gostavas de vir viver para aqui?
Aqui não há bombas Mounir. Não há guerra. Há uma coisa que se chama “A Crise” mas que não rebenta as casas de ninguém, não põe tanques na rua, nem submarinos ou porta-aviões ao largo da costa portuguesa.
E podes tomar banho no Oceano Atlântico sempre que quiseres!!!
Sou filho único e os mais pais nunca pensaram em ter mais nenhum. Sabes, aqui os pais não têm assim muitos filhos.
Por um lado não é mau porque fico com as batatas fritas só para mim, mas por outro lado passo muito tempo a brincar sozinho… e isso é muito… chato. Ia dizer triste, mas triste é a vida que tu tens…
Também tenho um cão. O Rex. Ele é muito brincalhão e meu amigo. Gostas de animais? Deves gostar claro.
Olha amigo, agora tenho de ir jantar. Qual é a tua comida preferida? Tenho tanta coisa para te perguntar e tanta para responder. Bem sei que por estes dias não terás ninguém com quem falar nem nada que fazer, mas prometo-te que isso vai mudar, ou pelo menos prometo-te que vou tentar fazer alguma coisa para te tirar daí. Sim?

Um grande abraço (depois, se vieres para cá, arranjamos um “passou bem” secreto e especial, está bem?) deste teu amigo novo… 

Martim entregou a carta ao pai que tem a difícil missão de a traduzir e de a enviar para a professora Azza. A carta do seu filho emocionou-o também.

Pensou que de facto só mesmo as crianças são capazes de – naquele(s) mundo(s) que constroem em seu redor e onde imperam as suas próprias regras, os seus próprios códigos de conduta e de acção – tratar um assunto desta dimensão de uma forma tão pura, tão doce, tão meiga, com tamanho entendimento daquilo que é um ser humano semelhante, igual, de pele diferente e a viver um drama que é verdadeiramente indecifrável aos seus olhos, mas que aparenta ter uma solução tão simples quanto eficaz: Se ele está mal na Palestina, vamos trazê-lo para Portugal! Porquê? Porque ele é meu amigo e na rua dele caem bombas e morrem pessoas todos os dias.

– Já imaginaste se aqui fosse assim pai? Não gostavas que nos salvassem? Que nos ajudassem? Não gostavas que um amigo teu te tirasse da guerra?
– Sim meu filho, tens razão.
– Então vê se traduzes a carta rapidinho que o Mounir está à espera dela. Ouviste? Não te esqueças.
– Deixa comigo. Fica descansado, sim?

Levou-lhe a noite inteira. Não quer traduzir mal a primeira carta do seu filho para esta sua nova e tão importante amizade. Liga desde logo o iPad e vai ao facebook ver se Azza está ou esteve online nas últimas horas. Descobre que não, não está, mas esteve online há 16 horas. E deixou um post sugestivo: “waiting for the world to change… waiting for words to come”.
O pai do Martim assim fez. Não quis que Azza e Mounir tivessem de esperar mais tempo pela carta do seu filho.
– Não quero dar a ideia ou a impressão de que nos escolheram em vão! Vamos a isto.

Às 4h00 da manhã terminou a tradução e juntou-lhe, à carta, algumas imagens bonitas de Portugal, bem como um texto pessoal, muito particular e emotivo para Azza. No fim perguntou-lhe…

– O que vai ser da tua, da vossa vida?

Continua (…)

Cartas da Palestina – Também tu?

Cartas da Palestina – Também tu?

(…)

Os dias que se seguiram ao envio da primeira carta de Mounir foram aterradores para quem vive na faixa de Gaza e efectivamente não tem mais sítio para onde ir. Tudo o que se assoma por diante dos olhos dos ridiculamente pequenos territórios da Palestina é Israel e a sudoeste é Egipto (País de origem de Arafat). Importa não permitir que nos esqueçamos que estamos a falar de um Estado (dividido em 2 partes fisicamente afastadas) juridicamente equivalente ao Vaticano, assim reconhecido pela esmagadora maioria dos países membros da ONU em 2012, Portugal inclusive.
As informações que chegam de quem está no terreno apontam para mais de 1500 mortes do “lado palestiniano”, das quais me atrevo a afirmar que 80 ou 90 por cento são, por certo, civis, gente que nada tem a ver com todo este jogo de “mija mais longe” indesmentivelmente desmedido entre Israel e… o Hamas.
E aqui há algo que me parece evidente e que devia ser o ponto de partida para a grande maioria das análises que se fazem no sofá, na cadeira da esplanada, na mesa do escritório, ou seja lá onde for; uma coisa é o Hamas e os seus braços e pernas armados, repletos de extremistas (muitos deles de outros países árabes que também não reconhecem o Estado de Israel) que se alimentam de lançamentos de rockets, que os escondem em escolas, em mesquitas, em hospitais, em pátios de casas de famílias, que fazem escudo do próprio povo e que, também eles, matam de forma indiscriminada, civis que nada têm que ver com o exército israelita; outra coisa completamente diferente é o povo palestiniano, subjugado à força deste extremismo terrorista (em metade do território palestiniano, ou mais…).

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Meus senhores, não serão nem mais nem menos, nem tão pouco melhores ou piores do que ninguém por reconhecerem este mesmo facto, por reconhecerem que a (des)proporção com que as mortes se vão somando de um lado e de outro da mesa é totalmente assimétrica e desigual e, passe a redundância desavergonhadamente assumida, desproporcional, porque o é.

É também fantástico ver como se pode fazer da guerra, de um sem fim de mortes em catadupa, uma coisa pura e ordinariamente matemática. Uma coisa simples e sobretudo simplificada pela distância a que as televisões, os jornais e todo o tipo de ecrãs onde hoje vemos as notícias nos remetem.
De resto, talvez seja mesmo essa a única forma de não nos importarmos sequer com toda a merda que acontece naquela terra.

Na verdade, os números são o medidor oficial e por excelência simpática da gravidade das guerras recentes. Pelo menos para quem está longe das mesmas e apenas sabe delas através de imagens mostradas na televisão, servidas à pressão com um texto tantas vezes escrito quase a correr, num esforço para pelo menos destacar numa narração séria e fidedigna os números que são “avançados” por quem lá está, por quem consegue estóica e condecoravelmente realizar a tarefa de apurar e conferir informação num cenário de rebentamentos, explosões, trocas de tiros, corpos mutilados, esmagados, despedaçados, aos caídos no que resta das ruas que aos poucos vão perdendo a forma e deixando de o ser para serem agora empilhados de entulho. E chora-se. E grita-se, um pouco por toda a parte. E depois há ainda o gemido surdo da terra que chora em vão… um choro pachorrento sai das pedras e dos montes que estas formam, que ainda bem há pouco eram casas adultas e viçosas, e sobretudo de pé como devem estar os homens e as casas. Agora velam-se umas às outras e choram desconsoladas por mais não serem  do que tão somente montes de pedras encarquilhadas e funestas.

Esses homens e mulheres que o fazem, que lá andam à procura de informação, não sabem, mas com os dados que nos fazem chegar são os principais causadores de discussões, de controvérsias, de trocas de opiniões, de debates acesos, de incompreensões e consensos naqueles que ainda se dão ao trabalho de falar sobre isto, de pensar em tudo isto, de sentir que este mundo está a atravessar dias cada vez mais escuros, de pensar que de facto a maldade e a ganância do homem são grandezas quase absolutas que não conhecem limites.
Quem lá anda tenta dar expressão a tudo o que vai  sentindo, sabendo, conhecendo, presenciando, ouvindo e observando… para contar aos que cá ficam e esperam, sem grande ponta de preocupação ou de interesse mas com vastíssima curiosidade opinativa. Porque é essa a missão. É esse o dever. É matemática. É vontade. É uma luta pessoal. Uma escolha. Com riscos. Mas é sempre uma escolha e eles… escolhem.

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 Ora isto são 1500 + 70 + 135 + civis + fogo cruzado!  é preciso cuidado! diz o senhor presidente daquele  país que manda o exército invadir e semear a morte  por (quase) tudo o quanto é lado… Ah pois que  ele(s) sabe(m) bem onde é que não pode(m) meter o  bedelho. É tudo matemática. Até quando partes um  espelho.

 Crianças. São as mortes das crianças as que me  corroem as vísceras, que me rasgam o pensamento.  As crianças são a esperança que resta a este planeta  doente de que de facto tudo pode ainda vir a ser  diferente. As que não morrem, crescem com a  morte bordada na pele, na roupa que veste, na  comida que comem, nos livros que lêem, nos jogos  que fazem.

É impossível não se crescer com desejo de vingança quando nos dizimam a família, os amigos, os vizinhos. Quando nos rebentam com as escolas, com os hospitais, com as mercearias e tudo o mais.

E se fossem vocês? Se esta fosse a vossa vida, como seria?
Já deram a vós mesmos 1 minuto que seja para pensar nisso? Somos animais e somos instintivos e protectores dos nossos, como são todos os animais deste planeta agraciado com a existência de vida… animal.
Pensem por um momento que era aí, na vossa rua, no vosso bairro, na vossa aldeia, na vossa vila, na vossa cidade.
Pensem. Quanto mais não seja para… não ser como é sempre, para não acharem que não têm nada a ver com isso, que é na Palestina, que é em Israel e… azar o deles, que se amanhem e se resolvam e sobretudo, que não sobre nada cá para o meu lado.
Por uma vez (perdoem-me aqueles que já o fazem) tentem de facto fechar os olhos, olhem que não vos toma muito tempo, uns minutos bastam para tentarem imaginar a vossa realidade, o vosso quotidiano, o vosso mundo a ser devastado diária e ciclicamente desta forma atroz e inexplicável. Até que um dia… Pum! Matam-vos a mulher, a mãe, o pai, a amiga, a filha, o filho, a neta, o neto, sei lá mais quem! A vocês. Aos vossos amigos. Aos vizinhos. Não é na televisão é mesmo ali, aí, no prédio, na rua, no bairro, na vila, na cidade.

FOTO: LEFTERIS PITARAKIS/ASSOCIATED PRESS
FOTO: LEFTERIS PITARAKIS/ASSOCIATED PRESS

 Até o cheiro é familiar, é o sangue do nosso  sangue, são as lágrimas dos que amamos, são as  roupas que lhes conhecemos que agora se  despojam no chão empoeirado, rasgadas,  esventradas e empapadas do sangue do nosso  sangue. E agora? E agora?! Olhem nos olhos de  quem amam e pensem… e se fosses tu? E se  amanhã nos bombardeassem a rua, o que  fazíamos? Temos medo de morrer e pouco ou  nada disto nos atormenta, como será viver  assim? Adormecer abraçado à morte e não      saber se amanhã se dorme ou sequer se se volta    a acordar.
E a chuva lá fora vai chovendo como é, de resto, seu dever. Devagar, devagarinho, lânguida e funerária, como o sangue que escorre pelas ruas de Gaza, de Rafa, por vezes de Tel Aviv e de Ramallah.

Sangue por toda a  parte. E o cheiro que dele emana ao fim de uns dias a coalhar pelas esquinas desfeitas, pelos cantos desencantados, pelos diferentes e variados amontoados de escombros, esse cheiro que se entranha na pele, que viaja à boleia no pó que do chão se ergue caprichosamente para nos cobrir da cabeça aos pés, para se barricar no interior das narinas durante dias e dias a fio. O cheiro a podre e a morte. E nos olhos? Nos olhos corre desenfreado um rio mortiço e conformado que carrega nas costas todos os seus afluentes e faz desaguar neles uma tempestade de lágrimas impossível de suster. São feridas que não podem ser estancadas com a velocidade que o mundo pede. São olhos de dor. De raiva. De medo. De alegria. De vida. De crença. De quem só quer sair dali e voltar a casa, poder voltar a ser homem, a usar os olhos para olhar bem dentro, lá no fundo dos olhos da mulher, lá onde ela arruma a alma diariamente; quer olhar os filhos e abraçá-los, dizer-lhes que os ama enquanto os volta a olhar ainda de sacola no ombro, acabado de chegar de mais um dia de trabalho. Tem a guerra múltiplos capítulos, sem ordem, mas com vidas dentro… e com vidas que mete fora… ou dentro… depende sempre da perspectiva.

“Olá outra vez.
Como não respondeste resolvi escrever-te novamente até porque não me resta praticamente mais ninguém com quem falar.
Passaram-se muitas coisas feias desde o dia em que entreguei a carta anterior à minha professora até… agora, aqui, sentado em cima daquilo que costumava ser a casa do M. Fallah e da sua família. A escrever com um lápis numas folhas que tinha dobradas no bolso. Disse que esta costumava ser a casa do M. Fallah porque ela está completamente destruída. Há 2 dias, num dos bombardeamentos que Israel fez naquela noite, a casa do Fallah, que é, era mesmo em frente à minha, foi atingida por uma bomba enorme, maior do que eu, e olha que não sou nenhum pequenote. Era tão grande e tão exageradamente forte que não só rebentou com a casa dele como destruiu mais 3 que estavam ao lado e atrás. Morreram todos. Morreu o Fallah, os irmãos, os pais e a avó que vivia com eles. Acordou o bairro inteiro com a violência da explosão. Eles não dormiam no bunker. O pai dele recusava-se. Dizia que homem nenhum pode ter medo de dormir na sua cama, no seu quarto, ao lado da sua mulher. E olha o que lhe aconteceu.

O Fallah nunca fez mal a nenhum israelita. Nunca falou mal sequer mal deles. Era o tipo mais calmo que eu conhecia. Só queria brincar. Não se zangava. Não se irritava. Não se chateava. SÓ QUERIA BRINCAR E SER FELIZ!! Porque é que o mataram? Porquê? Porque é que Alá, Deus, Maomé, ou seja lá quem for permitem que isto aconteça, aqui? Todos os dias morre alguém. Tenho as mãos cobertas de sangue que não é meu. Sangue seco e grosso e escuro.
Perdi todos os meus amigos. Perdi a minha escola. Perdi o campo de futebol. Tenho a camisola do Ronaldu vestida há uma semana. Não tenho mais roupa.

FOTO: AFP - Mohammed Abed
FOTO: AFP – Mohammed Abed

O meu melhor amigo. Juntos aprendemos a andar, a comer, a falar, a jogar à bola, a andar de bicicleta, a pescar, a nadar, tudo. Não é justo. NÃO É JUSTO!!! E eu a dormir no bunker.

Recordo poucas coisas desse dia. Lembro-me sobretudo que era bem cedo quando comecei a ouvir o choro dos meus pais.
Levantei-me para ir ver o que se passava e fiquei parado à porta de casa. À minha frente só havia um gigantesco monte de entulho, de pedras, chapas, paus, ferros, roupas, sapatos, pneus e junto à janela pequena, azul e mal pintada, que ficava do lado direito da porta da rua, e que era a janela do quarto dos rapazes, nesse sítio, estava o Fallah, com metade do corpo tapado por umas pedras e com as pernas limpinhas de fora, sem um arranhão.
Puxei-o, gritei, chamei-o, mas ele não se mexia.
Depois os meus pais puxaram-me para casa e não me lembro de muito mais. Há dois dias que só ouço gritos e tiros e explosões e choro e depois dos tiros o silêncio e chora a rua e cheira mal em todo o lado.
Cheira a morte em todo o lado. As ruas já não são ruas, são caminhos estranhos e perigosos.
Foi muito triste. É muito triste. É horrível!! Não quero viver assim. Não quero estar aqui. Não tenho amigos.

Vou andando até casa da professora para ainda voltar antes de ficar escuro. Não sei como vou lá chegar nem sequer sei se ela lá está. Ficámos sem telefone por isso não consigo telefonar para casa da professora, tenho de ir a pé…
Vou ver se a minha mãe me deixa lá ir…
Grrr… não me quer deixar sair. Mas eu vou na mesma. Vou pela janela, não custa nada. Depois conto-te como é que faço isto… Vou ali chamar o… Não posso. Ele morreu…

Vou entregar a carta à professora.
Adeus e espero que desta vez respondas.
Peço-te que digas qualquer coisa por favor… peço-te que não sejas igual à grande parte do mundo que não quer saber de nós. Que tem muita pena mas… não faz nada. Tu podes fazer alguma coisa.
Não tenho mais ninguém com quem falar. E tu? Também és igual aos outros?
Um abraço,

M.”

Continua (…)