Invulgar.. vulgaridade

Transpiras que nem uma maratonista, cheiras a doce e a cansaço ao mesmo tempo, emanas por ti acima um odor forte e activo, teu, até assim cheiras bem, ou mesmo que por ti abaixo escorram gotículas perversas de uma humanidade tão real, não chegas nunca a estar suja, assim te vejo no jardim do meu pensar.
Tens as maçãs do rosto rosadas do esforço que acabaste de fazer.
As mãos, poisadas esforçadamente em cima dos joelhos, ajudam o teu corpo a não se desmanchar num amontoado de peças de um puzzle desfigurado!
E gosto tanto de ti assim. Cansada e acabada de correr.
E quando acordas despenteada, com o cabelo levantado de um lado, os olhos quase colados e ainda adormecidos da violência do regresso ao mundo real e não deixas de ser a mais bela mulher que a eternidade alguma vez conseguiu enviar à Terra.
Mesmo na vulgaridade do quotidiano tens a invulgar autenticidade que faz de ti um ser único.
E por ser assim é que sei.
Tenho a nítida sensação de que na verdade todos somos invulgares até na vulgaridade, todos somos geniais dentro da estupidez, todos somos capazes de ser admirados mesmo quando erramos e nos espetamos e espalhamos, com as mãos atrás das costas e com força suficiente para partir um dente ou dois, ou abrir a cabeça que também uma coisa bonita de se ver.
Dizia que tenho a nítida sensação de que o ser humano, na sua especial capacidade de lixar tudo o que de bonito e belo está à sua volta consegue surpreender o seu semelhante a cada nova acção que desencadeia, seja qual for a natureza da mesma.
Esta imprevisibilidade própria da descoberta e do risco, faz com que nos admiremos, espantemos, choquemos, amemos, odiemos, e nos lembremos de cada um daqueles que nos tocam por motivos tão inacreditavelmente diferentes.
Quanto mais tiras ao outro para guardares para ti, maior é a lembrança futura que terás do que viveste com ele. 
Tiras o que gostas, o que não gostas, o que queres e o que não queres. Quantas e tantas vezes tiras sem saber que o estás propriamente a fazer.
Tantas.
Quantas vezes tiraste sabendo que estavas a armazenar para um dia lá voltar?
Pensaste que se o dia chegasse e não te soubesses lembrar, isso sim era triste e isso não, não podias tolerar.
E é assim que fazes.
Vives, aproveitas, acordas e deitas, guardas, tiras, dás, dás mais do que tiras, deitas e viras e quem dá vai e tira e assim fazes.
E um dia dás por ti a recordar aqui e ali, como e onde, quando e porquê, com quem e em quê, mais tudo o que por lá se vê.
E no meio de tudo o que lembras e os sorrisos que saem e as lágrimas que caem, contas horas já contadas de vidas já passadas e de sonhos lá vividos. E como é bom ter memória.
Se não é de memória que fazemos a nossa vida, a nossa profissão, o nosso pensar e querer, amar e viver, então de que é?
Somos a matéria viva e expressa do sentimento que nos atravessa.
Caminhamos rumo a algo e vamos progredindo com base na segurança que nos traz o passado que para trás fica, construímos a vida pela vida fora e o que para trás fica, tantas vezes nos acompanha, mesmo quando se vai embora.
Somos únicos e encantadoramente singulares, numa proporção que só nós mesmos podemos e devemos ter.
Devemos ser os maiores conhecedores das nossas vulgares invulgaridades, e sobretudo da nossa vulgaridade invulgar, essa sim, verdadeira mensageira da autenticidade e genialidade do ser.
Considera, relembra, guarda, mantém, fala, escreve, liga, diz, conta, deixa ir, cala-te, escuta, desaparece e aparece quando a espera menos espera.
Mas sobretudo faz um compromisso com a lembrança e não te deixes esquecer.
Faz por não seres esquecido.
Torna-te tantas vezes lembrado, quão aberto for o sorriso.
E tu, tu podes continuar despenteada, transpirada e desmaquilhada, que na vida nunca haverá nada que supere a força e a beleza de uns olhos que querem ver a vida não vivida.
Não é pois de miopia que se trata.
Mas sim do quanto se dá e quanto se gasta.
Quantas vezes conseguem os olhos olhar daquela forma tão… única?
Quantas?
Os olhos cansam-se de olhar? Ou cansam-se de tentar?
É possível que alguém se canse? Ou que deixe de tentar, de procurar, de encontrar, de acertar e falhar, haverá algum dia em que se diga, chega!?
O cérebro não chega a todo o lado, ou pelo menos não temos consciência de até onde é que ele consegue alcançar, logo não temos a percepção do que lhe pode escapar, e pode acontecer que lhe escape, o pobre coitado tem tanto em que pensar.
É por isso mesmo que cada vez mais, conta mais contigo, confia mais em ti, conhece-te melhor.
Vai viver sozinho. 
Passa noites calado, completamente calado e sem abrir a boca durante 5 horas.
Entretém-te, cativa-te, fortalece-te e lembra-te, lembra-te sempre e para sempre, lembrando-te saberás sempre quem foste, de onde vieste, quem conheceste, com quem estiveste, o que aprendeste, no que te tornaste, para onde queres ir e até onde já chegaste.
É pouco, ou achas que ainda não fizeste que baste?
Quando levantas o olho por cima do ombro, vês metade do que queres ver e a outra metade imaginas, fantasias, crias e inventas um cenário de possibilidade que te possa inicialmente parecer adverso, mas potencialmente contornável.
E só o fazes, porque sabes quem és, e o que queres ou não ver e enfrentar, e sobretudo como e quando é que o vais fazer.
Quando as mãos te tremem e falham, e a boca se seca e não se quer abrir, sentes o medo entrar-te inicialmente pelo estômago, quando ele de resto já te apanhou de raspão há horas.
Nesses instantes, tens-te a ti mesmo, e ou te encontras, ou… já sabes, não já?
Sem medos. 
Enfrenta as situações em que não és mais do que o pouco que és, no imenso em que vives, mas não deixes que essas sejam menos que invulgares vulgaridades, no mundo das liberdades e dos pensares recordados, recorda, lembra-te e carrega contigo quem queres levar para a estrada.
Horas contadas, histórias passadas e vidas cruzadas em estradas, desenhadas por quem nos permite assim chegar a cada novo encontrar.
Tens mesmo a certeza que dá para parar de olhar?
 

 

Anúncios

Catarina!

O sumo espremido de um olhar é tanto mais que a simples proveniência da matéria prima.
Um olhar é, foi e será sempre, um olhar.
Não vale a pena perder-me em conjecturas romanescas e prosaicas que versem por entre o entrosado e emaranhado novelo do sentido, porque no fundo a palavra olhar, será e terá sempre um significado tão diferente e simultaneamente semelhante para cada um de nós.
Senti-o em Dezembro, no frio do Natal e voltei a senti-lo ontem, à noite, pois claro, que não posso ter vida noutras horas, que não as altas horas da noite.
Estavas linda, doce, meiga, ensonada, mas o que mais me despertou a atenção e novamente me prendeu a ti, foi a tua enorme e tão delicada curiosidade.
Queres aprender tudo, queres saber sobre tudo, e amaste, adoraste, ainda que actualmente não disponhas de todo o vocabulário próprio para te poderes explicar… esteve e estava tudo no teu olhar, no amoroso e singular olhar fixo com que me presenteaste, quando te dei a conhecer a textura e a temperatura de uma pedra de gelo.
Como derrete?
O que a faz derreter?
O que é… derreter?
A mão tem calor?
Vamos esperar para ver.
É o teu mundo.
O mundo das pessoas como tu.
Estudei-o.
Sei muito sobre ele.
Tive de “repreender” a minha mãe, que já te estava a querer englobar, não por culpa dela, mas por culpa de uma qualquer força proteccionista que desconheço, no saco dos meninos a quem se diz sempre… “Não faças, não mexas, não toques, olha que te queimas, olha que isto, olha que aquilo, olha que o não sei o quê…!”.
Felizmente bastou-me um…”MÃE..!”, de olhos ligeiramente arregalados, como que a dizer, “Lembre-se do curso que tirei, e lembre-se que sei perfeitamente o que estou a fazer… estou a educá-la em 5 minutos”
É maravilhoso poder olhar para ti e ver-te a devorar novidades, a trincar conhecimento e sobretudo ver os teus olhos, a olharem para os meus.
Educar é viver com, é ajudar a , é mostrar que, é dizer se, é explicar como, dizer quando, e sobretudo, mostrar porquê…
Não basta dizer “Não porque não, ou sim porque eu quero!”.
O mais belo na relação com uma criança de 4 anos, é o ter de transformar o discurso na forma mais simples e convincente, de modo a que o cérebro pequenino e com tanto espaço em branco consiga apreender tudo o que o mundo, a vida e os outros têm para lhe mostrar.
Não sei bem porquê.
Nem sei bem porque razão.
Sei sim, que gosto muito de estar contigo, de te ver, de te ensinar e de aprender.
Que venham tantas mais puros e livres momentos em que te possa ter por perto e te possa ter no meu colo, minha querida e pequenina prima.
Tens menos 25 anos que eu, mas ao mesmo tempo, parece que percebes que os meus olhos têm para ti, todo o tempo, toda a paciência, que são para ti um espelho do mundo dos sonhos em que ainda vives.
Aqui estarei para o que de mim quiseres levar.
Aqui estarei contando que a tua mão me queiras dar.
Obrigado Catarina.
Obrigado por me deixares de ti gostar!
Com um beijo do teu primo grande.
Martim

Tens medo? Compra um cão!

MedoDo latim metu, sentimento de inquietação que surge perante um perigo real ou aparente, terror, susto, temor, receio e apreensão.
Assim tentou, o senhor que redigiu o grande Dicionário da Língua Portuguesa, definir um sentimento que, neste caso, é tão sobejamente maior do que a (perdoe-me caríssimo senhor que redigiu o grande Dicionário da Língua Portuguesa) pobre definição da palavra em si.
Em livros, filmes, poemas, peças de teatro, canções, sinfonias, sonhos, histórias, vidas, vividas, com tanto e tão pouco e aquele que fica louco e a loucura que mais não é que a vitória do medo!
O medo é por ventura, a par da saudade, possivelmente a mais forte das sensações que o ser humano experimenta.
Ter medo é terrível, mas também pode ser benéfico.
Ter medo é viver aprisionado ou numa diferente liberdade.
O medo aparece ao homem nas mais variadas formas e complexidades, nos mais absurdos e disparatados contextos, momentos, e nas mais diversas situações, grandezas e dimensões.
Muito se fala sobre a sociedade controlada pelo medo, que nunca deixou de ser sentido nas democracias modernas, que é a mensagem subliminar do poder para manter unido o “rebanho” (e esta é uma clara referência bíblica).
Mas isso são outros quinhentos e com o mal dos outros posso eu bem, ou não.
Ora o medo é todo ele igual e a diferença situa-se somente no receptor da sensação.
O medo a todos apavora, diminuí, enfrenta, sonega, consome, tira o sono, a fome, a sede, a vontade, a lucidez, a calma, a alegria, a felicidade, a saúde.
O medo a todos faz retrair, recuar, parar, pensar, sentar, deitar, levantar, fechar os olhos, tremer, ter frio, ter dores de barriga, dores de cabeça, prisão de ventre e exacto oposto, assim é o medo.
Vem, ou melhor, advém potencialmente de situações que na sua maioria, são por nós criadas, pretendidas, desejadas, assumidas, mal pensadas, mal geridas, mal tratadas, mal resolvidas.
O medo entra logo a ganhar, quando em muitas situações, nos chega pela simples equação de ter medo, de vir a ter medo do que quer se seja.
Ora, logo por aqui estamos a encher a mala.
Depois vem, o medo por si só.
O menino nem pede licença, chega e é tudo dele, é assim uma espécie do amigo grande do liceu, que como não queremos que nos parta a cara, o convidamos para ir almoçar lá a casa e jogar playstation, ou outra merda qualquer, e a besta chega e fica com a tua cadeira, com o teu comando, dás-lhe o teu copo, mexe nas tuas coisas, começas a ganhar o jogo e dá-te um caldo, e tu vais e pimba, laxante no copo de sumo, vai buscar.
E depois o gajo passa-se e parte a sanita em dois, e quase desmaia e tu ajudas o ogre, e o o animal fica-te agradecido para a vida, e ganhas um guarda-costas que podes subtilmente manipular, sem nunca deixares de ter medo que ele perceba e de parta a cara.
Por isso, o medo ganha… quase sempre.
Quem sofre tem medo de voltar a sofrer, quem perde, tem medo de voltar a perder, quem erra tem medo de voltar a errar, quem sonha tem medo do que consegue sonhar e do que quer que o sonho possa significar, mas fica por certo a pensar e com medo de arriscar, quem deseja tem medo daquilo que quer encontrar. Que direito tem o medo de me paralisar?
Ora te conto em segredo do que o medo é capaz.
É capaz de te sorrir, de te beijar, e de te dizer como se faz.
Ele é capaz de te acordar e de te adormecer, de te amar e de te fazer sofrer, de te fazer chorar, de te fazer perder, é, é capaz de te fazer corar, de te fazer dizer, de te fazer calar, de te fazer tremer, de te fazer sonhar, e sobretudo de te descontrolar, de te enganar, de te matar, de te salvar, de te ajudar, de te prejudicar, de te fortalecer, e também te pode congelar, cegar, e consegue ainda impedir-te de acreditar que na vida a chuva pode parar, o calor pode voltar, o homem pode sorrir e sonhar, a música pode continuar a tocar, a brisa voltar a soprar, o sorriso não sair do lugar, e a lua continuar a mudar.
É o medo e sua ânsia de te tocar, talvez o medo também tenha medo de não ter a quem chegar… 
O que seria se desaparecesse o medo de todo e qualquer lugar? Que me dizes?
O teu medo também traz luta e formas de o ultrapassar, traz oportunidade e possibilidade de avançar, de aprender, memorizar, compreender, ultrapassar, descobrir, valorizar, perseguir, continuar, evoluir, melhorar… É de medo que estou a falar, certo?
Como pode a definição fazer jus ao seu significado, se de medo tão pouco está ali falado.
O medo é duro em português, e também o é noutras línguas, é sempre medo, o meu, o teu, o dele, o dela, deles, delas, dos outros, daqueles, e ainda mais.
De onde vem o medo?
Caminha de mão dada com a insegurança do indivíduo e isso é inegável.
Namoram, passam muito tempo juntos, diz até que se conhecem desde sempre, que nunca existiram em separado.
Se perguntar a alguém: “Diz-me, achas que o medo tem um papel relevante na vida do ser humano? Na tua vida?” tenho a certeza absoluta que a primeira expressão facial será rígida, dura, sofrida e apreensiva, os primeiros 2 segundos são essenciais, a partir daí, cada um irá pensar numa situação, possivelmente das mais recentes, em que sentiu medo, em que verdadeiramente teve medo de alguma coisa, e vai lembrar-se rapidamente, num milésimo de segundo, do que sentiu quando se amedrontou, quando esse medo o consumiu vivo, de dentro para fora. Em segundos qualquer me vai dar uma resposta sincera, os que fugirem à questão, vão fazê-lo com um sorriso, ou com respostas do tipo, “eu não tenho medo de nada nem de ninguém”, “o medo é uma cena que a mim não me assiste, ahahaha”(dois chapadões e ainda era pouco) e esses são os que verdadeiramente têm receio de falar sobre o medo, porque é grande e é muito feio e mau.
Como lidar com o medo?
Cada medo é um caso específico, clinicamente falando.
Os medos/fobias clássicos(as) de bichos, plantas, animais, sítios, sons, tipos de pessoas, paranóias, obsessões, são todos eles precedidos de medos e experiências iniciais, nossas, que nos tenham sido relatadas, oralmente, ou fruto de informação que nos tenha chegado por outras vias (televisão, internet, livros, etc. 
Porque é que termino uma frase com etc? Podia perfeitamente dizer, e não me lembro de mais possibilidades, mas não quero ser intelectualmente respeitado e por isso uso um etc. ‘Tá bonito, ’tá!
Tive medo, foi o que foi.
Sem segredo, o medo é delicado, merece atenção, luta, ajuda, precisa de ser combatido, de uma ou de outra ou de outra maneira, forma, com tácticas, regras, desafios, pensamentos, experiências, reflexões e sobretudo, conclusões.
“A chegada é apenas mais um ponto de partida”, humildemente citando uma empresa de transportes públicos, que tem esta enorme lona com esta frase por cima de duas meninas que são muito amiga, mesmo no centro do Porto.
É uma frase que atira para o pensamento e para a lembrança, pede coragem e bravura, pede luta e dedicação.
Dou por mim diante de situações em que tenho medo, tenho receio, de não ser capaz, de não conseguir, não outra vez, de não suportar, de não me apetecer, de não querer quando devia querer, de querer quando devia não querer, sobretudo de falhar, de querer muito alcançar e não conseguir alcançar, de querer segurar e deixar escapar, de querer muito e mais ainda e mesmo assim não chegar.
Se assim for, terei com que me ocupar.
Caso contrário, saberá bem deliciar-me com uma orgulhosa.
Porque quando se vence o medo tem-se todo o direito de celebrar, festejar e marcar essa vitória a ferros, outras lutas virão, depressa, bem depressa, para não te deixar baixar os braços.
Tens medo?
Compra um cão.
Sempre me disse isto a minha mãe. A minha santa mãe sabe tudo.
Compreende o medo, questiona-o, interpreta-o e analisa-o, sem medos.
O medo faz da alma refém, o medo toca sempre em alguém, terá medo quem para além de viver não tenha mais ninguém?

Trabalha.. E fala!

Ora portanto, vá lá ver, quer com isto dizer-se… é isso mesmo, pois na sequência da ordem de trabalhos atrás referida, a concordância maioritária foi conseguida e pois portante estamos a modos que conversados.
Quantidade de palavras utilizadas numa frase que não diz completa e absolutamente nada a não ser que de facto é possível escrever sobre nada, falar sobre nada, falar e não dizer nada, escrever e não dizer nada, falar e não falar, escrever e não escrever, escrever sobre o que se fala e falar sobre o que se escreve.
Agora sim, já se vai escrevendo alguma coisa que se leia, ou fazendo alguma coisa que se veja neste pouco profícuo arremessar de palavras para esta folha de papel abstracto, que me tenta enganar e fazer crer que estou de facto a escrever ou lá o que é que isto é.
Não escrevendo e pensando, não querendo e somente desejando, dou soltura aos dedos e deixo-os teclar com a violência que se exigem às grandes frases ou às frases grandes.
Quão grande é a distância que separa o silêncio da solidão do ruído da imensidão desconhecida?
Quão ruidosas são as palavras que soltas parecem folhas que das árvores caiem e juntas se amotinam em guerras de significado e sentido, como prisioneiros no pátio, amontoados juntos às “máquinas de encher”, vulgo de musculação…
As palavras rosnam a quem por elas passa com a leviandade de quem nem repara sequer no que está a dizer, ou no que está importantemente a ser dito, ou superiormente a ser escrito.
Quem das palavras foge, nelas tropeça e cai, aleija-se, magoa-se.
De resto o Sol nem sempre brilha para todos, e as palavras não chegam para toda a gente nem chegam a quem não as procura.
Como de resto não chega a vida, a sorte, a felicidade, a tristeza, a alegria, a paz, a harmonia, a serenidade e a resolução.
Nada “disto”, nada destas coisas… não palpáveis e simplesmente sentíveis, são suficientes para aquecer o corpo ao homem e alma ao portador do corpo.
Corpo e Alma são supostamente indissociáveis, mas em boa verdade estão e passam tanto tempo separados.
Na quietude da solidão se regenera o pensamento e se reconstrói, debaixo da égide da batalha incontornável entre o ser e o ser-se, todo o ser humano ferido.
É preciso errar para perceber como se faz melhor, é preciso ser-se mais pequeno para que se possa na realidade compreender a dimensão do que é crescer, ficar mais alto, maior, mais forte, melhor.
Não quero com isto legitimar toda e qualquer forma de sofrimento como imperativo condicional para a evolução, mas sem dúvida que nos faz ter a capacidade inata de resistir, a invulgar habilidade para dar a volta à adversidade consumada.
Somadas todas as parcelas, subtraídas as diferenças, os erros, os devia ter feito assim e não assado ou cozido, multiplica-se o resultado final pela unidade e o que temos?
Temos novamente a pessoa que somos.
E o que somos nós afinal?
Somos com toda a certeza mais do que éramos quando iniciámos a caminhada rumo ao cume da nossa própria personalidade, somos sem dúvida mais fortes, mais crescidos, mais humanos, mais reais, mais sérios, mais ponderados, mais calmos, mais serenos e conformados, e acima de tudo, mais experientes e conscientes que há muito mais na vida do que a vida já vivida.
Somos matéria em transformação, somos a frase sem pontuação, somos a ideia em construção com o peso da emoção de quem sabe bem o que significa viver à luz da sensação.
E isso faz de nós algo a mais ou a menos?
Não, não mesmo!
Faz de nós a aceitação daquilo que vivemos.
Faz de nós a compreensão dos erros que cometemos.
Faz de nós o encaixe do que sabemos e a oposição feita em redor do que não conhecemos.
E onde termina esta viagem?
Se Deus quiser não há-de terminar nunca.
E espero bem qu’Ele não queira de facto que tudo termine sem se alcançar, ainda que seja com a pontinha do mindinho, o objecto imaginário da viagem…
Bem sei que o Senhor é uma pessoa ocupada, que tem muito para fazer, que tem de ter milhões de olhos, pelo que não me parece de todo descabido que subcontrate pessoal para o ajudar, ou melhor, que delegue funções.
Digo-lhe no entanto que isto de termos sempre de nos referir a Si com letra maiúscula tem que se lhe diga, no meio de uma frase é estranhíssimo Senhor, veja lá isso…
Por agora vou, mas volto com certeza.
E voltarei diferente por certo, melhor assim espero, sempre melhor.
Com mais de mim e menos de assim assim.
E com tudo isto acabou por se fazer alguma coisa de tudo isto, que inicialmente mais não pareceu do que um batalhão de letras abandonadas à sua própria sorte, com a missão difícil de dar sentido a tanta ideia disconexa.
Nos dias correntes têm sido várias as conclusões, alienações, participações, acções, reacções, confusões com multidões, algo está mal, algo está seguramente bem pior do que aquilo que pensaram, pensavam, e logo aí está o erro, o pensar tem de ser evolutivo, abrangente, largo, longo, cuidado. Estamos num beco sem saída criativo, numa pequena amostra daquilo em que tudo se pode tornar caso não se faça alguma coisa, com muita, elevada, extrema urgência.
E isto é para todo e cada um de nós, homens, seres pensantes e concludentes, gente da gente, filhos de gente que também não percebe o que se passa, todos temos de abrir os olhos rapidamente e fazer mais e melhor, de forma constante, porque isto não está nada fácil.
Bem sei que muitos ainda vivem no paradigma do “Eu não pedi para nascer, tenho direito a um trabalho, à mas a Constituição diz que…, esqueçam!
É o dizias.
Trabalha malandro que a vida não é brincadeira. Hoje alguém dizia algo que já tantas vezes se disse, e foi dito, e volta a ser pensado e falado. Estamos seguramente a atravessar o pior período da história económica mundial desde o final da Segunda Grande Guerra. Exactamente 67 anos depois do fim da ocupação Nazi, temos de novo instalado o caos e a loucura, o desemprego, a fome, a miséria, a pobreza, a seca, os bancos sem dinheiro, as empresas sem dinheiro, salários em atraso, atrasados com salários equivalentes à grandeza da sua estupidez, enfim, um real e portentoso quadro de miséria, que brota todo da mesma fonte, o dinheiro e a (in)capacidade de o gerir e gastar.
É verdade, temos um cenário bastante complicado à nossa frente. 
Digo nossa e falo sobretudo para a geração do pós 25 de Abril, que neste momento é a força de trabalho do país, que tem um desafio enorme pela frente.
Contaremos, claro está com o apoio da geração acima da nossa, que nos transmitirá as orientações morais, espirituais, e sobretudo toda a experiência adquirida na própria experiência da vida,  e contamos sobretudo, connosco, comigo, contigo, com ele, com ela, eles contam com os deles e nós com os nossos e contamos uns com os outros.
O mundo tem muito para dar e nós temos mais ainda, a austeridade e adversidade sempre existiram, como diria Ricardo Araújo Pereira, “(…)claro que isto está difícil, isto sempre esteve difícil, isto está difícil desde 1143, estamos em Portugal.”, portanto meus caros, a crise não é desculpa para a malandragem, para a papalvice, para reclamar do que quer que seja. Trabalha, luta, ajuda-te, ajuda os teus, be a better men than your father, e se assim for, estarás por certo a trabalhar para deixar marca, para deixar obra, para deixar rasto.
Ser pessoa é por certo ser mais do que as pessoas pensam que são.
Ser-se gente é bem mais do que andar com os olhos no chão.
Levanta-te mandrião!
São horas de trabalhar!
Ai não te apetece?
Então olha..
Deixa-te andar.