O que é para mim o 25 de Abril?

O que é para mim o 25 de Abril?

Seria normal e expectável que respondesse, logo assim, sem pensar muito: Liberdade, mas não. Julgo que mais do que Liberdade, para mim, 25 de Abril significa Poder. A conjugação absoluta do verbo que hoje se faz com um sentido prático e tecnicamente perfeito do que o mesmo significa. Eu posso, Tu podes, Ele pode, Nós podemos, Vós podeis, Eles podem tudo, se podem… Sou mais novo do que ele. Temos uma diferença de 9 anos e uns mesitos. Já o conheci, quando estava, por isso, na idade da traquinice, quando ainda não era uma memória tão vincada, mas sim uma lembrança, uma recordação seguramente inesquecível para todos os que a viveram. Pensar em 25 de Abril é, no meu caso, sempre isto: um recordar convicto das muitas e tantas histórias que fui ouvindo ano após ano, à medida que os anos iam passando por eles, não por mim. Eu sonhava e imaginava. Quando sonhas não cresces tão depressa. Muita história. Sobretudo, muita memória, daquela que fica, para sempre lá. Ao longo dos anos (meus e não dele) fui ouvindo dos “mais crescidos”, que hoje em dia os jovens não dão valor a nada. “Têm tudo de mão beijada e depois não sabem o que custa a vida, é o que é. Isto agora é uma rebaldaria… Ai se isto fosse no tempo da Ditadura… Ai aí é que eles iam ver o que era bom prá tosse. Malandros.”

De facto, talvez não tenha mesmo a capacidade de perceber, ao certo, o que significa não ser Livre. Talvez não entenda o que significa não ter nas costas a ideia de que, se quero e posso, logo, faço e vou. Como não ver a vida assim? É estranho para quem não sentiu. Quer-me parecer que sentir, ou ter sentido é capaz de ter muita importância nesta história toda. Sentado no sofá, pernas “à chinês”, portátil na frente, persianas levantadas em dia de folga e a árvore que procura livremente o encosto na proximidade da minha varanda, (a marota) e, no meio de tudo isto, estou para aqui a tentar encontrar algo de significativo para escrever sobre o 25 de Abril e só me vêm à memória (lá está) as comemorações, as reivindicações, as opiniões, os prós e os contras, as histórias que se contam, essas sim, de verdadeiro valor (lá está novamente). O contrabando. O desafiar das regras. A clandestinidade. Os namoros à varanda. É assim que a vida manda.

A busca incansável pela suprema e, até ali, aparentemente utópica ideia de Liberdade. É certo que a Liberdade não tem sabor, cheiro, cor, peso, forma, ou qualquer outra mundana parecença, mas tem, de forma inegável, associada a si uma grandeza superior ao entendimento humano. Uma sensação extrema que extravasa dos poros para o cheiro que traz o vento, para o toque, para o olhar, para a verdadeira razão de ser de cada um de nós.

A vida. A escolha. Mais, ou menos condicionada, mais ou menos livre, mas Liberdade é tanto mais do que o marco de um dia só. No fundo, conquistou-se muito e ter-se-à perdido outro tanto, conquistou-se o direito de se ser livre, para falar, ou estar calado, fosse em pé, ou sentado, dormindo, ou fingindo estar acordado, sem passar por mal criado. Uma ideia. Um conceito. Um acontecimento histórico. Um marco. Uma revolta. Uma revolução. Ou a fuga, ou a rendição. Ou talvez não, que neste dia mudou-se a face a uma Nação.

Gabriel… Se ha ido

Gabriel… Se ha ido

Vou começar isto de uma forma diferente. Vou tentar.
Tenho 30 anos (que original), e, como tal, as grandes referências da minha existência são, eram e foram, muitos deles, homens e mulheres que rondam hoje a notável estação dos “entre os 70 e muitos e os 90”. Porquê? Fácil.

Quando comecei a ler, a ouvir música, a ver cinema e televisão e mais tarde a escrever, procurei sempre seguir os vivos, aqueles que produziam obra e que estavam cá para falar dela, mas muito mais do que isso, estavam cá para nos surpreender com algo fantástico na vida de um Autor, a sua obra, a continuidade na mesma, a criação.

Lamentavelmente, a vida é finita, tangível, fantástica e sobretudo, tão curta, para quem tem dentro de si uma imensidão de coisas para deixar a quem cá fica e a todos os outros que hão-de vir.
Escritores, músicos, arquitectos, pintores, todos eles têm comum uma e uma só coisa, o legado, a obra, o ter obra.
E ter obra não é para todo e qualquer “artista”. Quantos são os artistas que vivem toda uma vida envoltos em “artes” sem obra e que no final não deixam sequer uma obra de arte que mereça a pena ser destacada, ouvida, lida, observada?
Quantos são os vigaristas com almas de artistas em capas de revistas?

Esta semana, talvez pela primeira vez em muito, muito tempo, comovi-me com a morte de um destes mestres. Com a morte do Coronel das palavras, do artesão das histórias bem contadas, das mais bem contadas que alguma vez tive o prazer de ler e ouvi-las posteriormente a saltitar no meu imaginário, no pensar atabalhoado de quem quer guardar sofregamente tudo o que as letras têm para dar.

Recordo-me do primeiro que li, o inimitável Cem Anos de Solidão. De uma simplicidade de processos, de uma capacidade de prender, de agarrar, de desviar do caminho. Recordo-me de ter a sensação de estar a ser chamado em voz alta por García Márquez para ir ler, para continuar a história. De estar sentado nas aulas e desatento, a pensar nele, na casa, na terra, no cheiro do ar e das manhãs ensolaradas.
De pensar e sonhar com uma Colômbia onde nunca estive.
De Medellín a Bogotá, passei-lhe os dedos e os olhos pelas letras vezes sem conta. Quem conta uma coisa dessas?

Depois seguiu-se a crueza e a virilidade de Crónica de uma Morte Anunciada. E depois disso pensei para comigo: Quero escrever e contar assim, desta forma a que não consigo sequer dar adjectivos. Quero que um dia as pessoas falem nos livros e nos contos do Martim. Escrever daquela forma é escrever quase em absoluto. É magnífico e magnânimo. Para quem lê, é desejar que os livros não tenham fim e as personagens nunca se “resolvam”. Que a realidade do que ali está nos apareça ao próximo Bom Dia. É acordar com a sensação de ter a boca cheia de ideias e o cérebro cheio de gritos, de urros, de uivos, de loucuras e desventuras de personagens que não são nossas, mas que nos são gentilmente emprestadas, sem a chatice do V de volta, sem o problema comezinho de ter de devolver toda aquela vida e aquele sem fim de sensações que nos inundam os olhos e nos amassam o corpo, rendido ao despretensioso estilo de narrativa com que este Homem nos moldou.

Fiquei triste no dia da sua morte.

Sem o saber ou entender.
Sem o ter inicialmente percebido. Sem ter percebido ainda porquê. Percebendo apenas que um homem destes, alguém que entra tão completamente na cabeça das pessoas, não pode deixar de ser chorado, lembrado, recordado, porque foi alguém que foi amigo, companheiro, professor, de todos os que o leram com vontade ou com curiosidade apenas, dos que guardaram o bocadinho de si que quis oferecer, em cada manuscrito que se dispôs a partilhar com o mundo, que, feliz, o agarrou e publicou de toda e cada vez que quis dar mais um pouco.
Não era obrigado a fazê-lo, claro está. Podia simplesmente ter guardado as histórias para os filhos e netos, para caminhos desertos sem homens cobertos da infelicidade que os livros tantas vezes ajudam a atenuar.
Mas fê-lo. Com vontade.

Vou recordar a última imagem que dele vi e a última notícia que dele ouvi:
“García Márquez disse aos jornalistas para irem trabalhar, para fazerem qualquer coisa de útil!”

A sabedoria de quem alcança a idade dos Mestres com lucidez.
Quem o leu vai recordá-lo para sempre.

E hoje, num tempo em que a memória se vai alojando em espaços virtuais de armazenamento, em que guardamos cada vez menos e registamos e partilhamos cada vez mais, guardar García Márquez numa das gavetas mentais em que arrumamos e atafulhamos tudo é, sem margem para dúvidas, um risco, mas que pode sempre ser compensado com a possibilidade de o procurar na estante e escolher um qualquer, só porque sim, só porque me apetece, só porque quero ouvi-lo falar para mim durante uns minutos. Os livros têm esta força. Podemos conversar com o autor de quando em vez e de vez em quando. Ontem, hoje, amanhã, ou noutro dia qualquer de uma vida que é curta, mas que dá para ler. Sem hora marcada. Sem a força forçada do tempo que corre tantas vezes ao contrário, que pura e simplesmente não pára. Não pára, é certo, mas enquanto corre, permite-nos a veleidade de podermos admirar o que escrevem estas nobres e altruístas criaturas, de podermos enriquecer a língua, o olhar, o estar e o pensar. Permitem-nos viajar seja a que horas for, onde for e como for. Acompanham-nos e sobretudo marcam-nos com a aquela soberana capacidade de marcar que só as palavras têm. Bem ditas. Tão bem escritas. A ecoarem no tempo como notas plenas de perfeição.

Quando um escritor nos agarra ao que escreve, ganha tudo. Quando nos faz comprar às cegas, é Rei na terra de quem lê.

Obrigado Gabriel García Márquez. Até logo, no sofá, possivelmente.

Co-Adopção – Tu tens pais e eu não! (Versão completa)

Co-Adopção – Tu tens pais e eu não! (Versão completa)

A co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo foi chumbada no Parlamento no dia 14 de Março deste 2014.
O documento previa a possibilidade de que um dos membros de um casal homossexual pudesse legalmente adoptar o filho do cônjuge (esta palavra não me entra…). Os deputados votaram artigo a artigo, mas a direita acabou por conseguir uma maior votação que a esquerda em cada um, o que levou a presidente da Assembleia da República a abdicar da votação final global. Assim, neste 14 de Março de 2014, Portugal escolheu ficar no minúsculo grupo dos que, na Europa, não garantem que as crianças (o ponto fulcral de toda esta historieta) que vivem com casais do mesmo sexo tenham os seus direitos garantidos e iguais às crianças que vivem com casais heterossexuais, ou ditos “normais”. Com a co-adopção pretende-se apenas garantir que uma criança criada por um casal gay não fica órfã, não é forçada a ir viver com os avós ou não é entregue por um tribunal a um lar caso o pai, ou a mãe biológicos morram. É apenas e tão somente isso que está em causa. Garantir que quem “cá fica” continue a cuidar da criança a quem chama filho.

Posto isto e porque sou formado em Educação de Infância, decidi fazer uma espécie de exercício criativo, onde me propus compreender, através dos olhos de uma criança institucionalizada, o que significam estas barreiras jurídicas que foram levantadas com o chumbo da co-adopção. Ora então aqui vai disto…

Sábado. 6h00 da manhã. O despertador toca. Toca sempre. Toca quer seja Sexta, Sábado, Domingo, ou outro dia qualquer. O pequeno-almoço, esse, é servido às 06h30, na mesma sala de sempre, de todos os dias, com os mesmos e as mesmas de todos os outros dias. Todos diferentes, todos iguais, todos eles ali vivem, porque não têm pais.
Todos eles têm de estar, impreterivelmente, a pé, às 06h25, em frente ao lugar onde comem todos os dias. Ao fim-de-semana, podem ficar de pijama, é a benesse dos dias sem escola. Tic-tac, tic-tac. 06h25! Contagem matinal da “prisão” em que vivem. Já houve quem fugisse (ai a fuga do Marcos…) e quem simplesmente não aparecesse, porque tinha adormecido noutro sítio qualquer com uma companhia qualquer.
O João tem 7 anos. Já está um homenzinho. Como se espera de toda a criança de 7 anos, anda na escola, pois claro. Numa escola pública. Ele, a Jéssica, a Maria, o Edi e a Marta. Todos eles vivem desde sempre, ou quase sempre, num Abrigo para Crianças, no centro do país (o nome não interessa para nada, não é sequer relevante). É um antigo palacete. Os últimos mil e duzentos metros fazem-se por um caminho empoeirado e ladeado por muretes de vegetação bem cuidada e emproada. À esquerda, do caminho, claro está, fica um pequeno e amedrontado lago, que parece chorar de infelicidade na passagem de cada pequenino barco, que, com os remos, lhe faz festas no pêlo, ou de cada vez que uma criança lhe atira uma pedra, na infindável esperança que a mesma lhe volte à mão que a arremessou.
De volta ao palacete que bem merece a visita. É grande, é enorme e muito, mas mesmo muito, bonito e superiormente bem cuidado. Está impecavelmente vestido num amarelo-torrado de veraneio, mas um torrado leve, não muito berrante, assim a atirar para o amarelo-torrado com amarelo-limão, dá para perceber? De mangas largas e folhos empertigados e brancos, à volta das janelas sorridentes à sorte dos tempos. Tem portadas verdes, pois claro, como o verde das árvores que o rodeiam e circundam e lhe trazem a luz do sol num rendilhado quentinho das manhãs de final de Primavera, quando já está aquele calor abafado, aquele bafo com som de mar, sabor de praia e cheiro de Verão. Depois tem uma entrada simples e convidativa, amistosa, serena como serenas são as linhas dos espaçosos degraus cinzentos e engalanados, que conduzem à porta de vidro por onde se entra no casarão. Porta essa que se deixa adornar e amavelmente empresta espaço às madeiras, pintadas de branco, que oferecem à porta suas pequeninas quadrículas de janela. Uma maçaneta dourada, uma campainha que se propaga pelos campos e montes e vales em redor e uma entrada impecavelmente florada… Não falta mais nada. Até o canteiro cheio de rosas rosadas e outras tantas encarnadas, brancas e amareladas, todas tão lindas, tão demasiadamente bonitas, como se às flores não se lhes fosse conhecido qualquer limite para a sua beleza e excentricidade, que roçam, não poucas vezes, a conjugação perfeita de balanços e equilíbrios. Que casa bem pintada, logo se pensa, quando se estaca de pronto na porta de entrada. Ao menos está bem maquilhada…
Tem um imenso manto verde bem cuidado e protegido, que lhe serve de tapete e que lhe dá a volta, dando voltas e voltas à volta daquela casa tão grande, tão forte. Árvores. Tem muitas. Tem várias. Altas, densas, ramadas, bonitas. Pouco se vê de fora, de longe então, é uma cegueira absoluta.
Com baloiços pendurados, pneus velhos sustentados por cordas fortes e entroncadas, pássaros que por ali assistem ao raiar de mais um dia que se prevê mexido como o são os Sábados naquela casa aburguesada que “guarda” uma das mais tristes realidades que pode tentar “guardar” na vida humana. A orfandade.
[Final da 1ª parte]

Com 23 crianças, entre os 2 e os 18 anos, esta é uma família enorme, fora do comum, em todas as variáveis possíveis, mas, sobretudo, em variáveis intermináveis. O João é o mais crescido. Já começa a perceber as coisas. É atento. Muito. Lê que se farta e não se farta de ouvir. Ouve com atenção as coisas que dizem os senhores da televisão. Está num abrigo. Há 5 anos. Uma vida para quem tem sete. Era pequeno demais, quando aqui chegou. Continua a ser pequeno demais para aqui estar. Às vezes, cansa-me e entristece-me que assim seja, que aqui estejam, que ninguém os pegue e os leve para uma casa de verdade, com uma família que os ame como se ama um filho, como tem de se amar um filho.
A escola é para o João uma “bênção”, mas, ao mesmo tempo, a mais bruta e cruel das confrontações a que se sujeita dia após dia. A escola é pública e o João está no seu 2º ano. Não precisa de apoio escolar, ou de falar seja com quem for, porque é esperto, perspicaz e vivo. Sabe que é diferente. Já percebeu que é diferente e, sobretudo, já entendeu perfeitamente qual é a diferença que o distingue dos outros. A diferença está nos olhos. Não nos dele. Nos olhos dos meninos que vão para casa com os pais, ou com as mães. Nos olhos dos avós. Não todos, mas muitos. Nem todos vão com os pais. Às vezes, quando não está a chover, o avô do Pedro traz a cadela, a Maguie, para brincar com os meninos, que depressa se esquecem da bola de futebol, abandonando-a ali, atordoada de tanto pontapé que esteve prodigiosamente a suportar ao longo dos últimos 20 minutos, e deixando-a escorregar lânguida para a sargeta entupida de folhas que o Inverno obrigou a rastejar pelo pátio da escola.
(De volta ao pequeno almoço do moço) O pão não sabe assim tão bem ao Sábado. Apetecia-lhe sabe lá ele o quê… talvez uma taça de cereais, ou os croissants de que fala a “sua” Teresinha, com doce de morango e sumo de laranja, feito mesmo das laranjas, numa máquina que tira o sumo de dentro das laranjas. “Caraças, quem me dera beber um sumo desses! Será que a Irmã Natércia tem laranjas cá em casa? A Teresinha diz que bebe aquele sumo de manhã, porque a mãe diz que tem vitaminas e dá energia. Também quero ter energia. Estou sempre cheio de sono. Pudera, a acordar à hora a que tu acordas.”
– Irmã Natércia!
– Sim, João – diz a responsável pela casa sem sequer tirar os olhos do feijão-verde que descasca impiedosamente há quase 2 horas. Tem de fazer a sopa para o almoço daquele regimento de Infantaria. Se eles acordam às 6:00, ela muito provavelmente, ou não se deita, ou acorda às três ou quatro da madrugada.
– Posso beber sumo de laranjas?
– Desculpa? – Pergunta ela admirada com a natureza da pergunta que lhe chega ao ouvido já meio surdo dos anos.
– Se posso beber um copo de sumo de laranjas. A Teresinha diz que tem vitaminas e dá energia. Posso? Vá lá…
– Que raio de ideia João, já viste se me ponho a fazer sumo de laranja para ti e os outros meninos todos também querem. Sabes quantas laranjas tenho de arranjar, para fazer sumo para vinte e três pessoas? Faz as contas João, faz as contas! Que ideia! Volta para a mesa, que te arrefece o leite e depois vem cá dizer-me que não queres o leite, porque está frio, que eu logo te digo.
Meia volta nos calcanhares, cabeça erguida e testa franzida. Ele vai arranjar alguma forma de beber um copo de sumo de laranja esta semana, dê lá por onde der. Nem que tenha de as espremer ele mesmo. Subitamente sente-se triste, sozinho. Quer estar sozinho. Olha para as outras mesas, para os outros copos de leite, para as caras de sono até à alma, as caras de todos os dias, dos amigos, dos companheiros, da tribo de meninos que não têm pais, que aqui e ali vão perdendo a esperança. Mas hoje é Sábado. Dia de visitas.
Roupas catitas, banhos tomados, perfumes e desodorizantes emprestados e partilhados, numa lufada de aromas misturados que se propaga pela casa, que voa e sobrevoa todos os metros quadrados daquela manhã de Inverno, no centro do país. Muitos deles não têm idade para perceber a importância daquele dia. Com 3, 4 e 5 anos, uma criança não percebe que vai conhecer adultos que talvez consigam levá-la para as suas casas. Adultos, um homem e uma mulher. Às vezes vem só um deles, o outro tem vergonha e fica escondido. Não é nada fácil enfrentar o olhar puro de uma criança pela primeira vez e não deve ser nada fácil enfrentar pela primeira vez o olhar puro de uma criança a quem se vai chamar filho. Para sempre, se tudo correr bem. No meio de tudo isto, ficou ali o João. A pensar. Nas laranjas. Na Teresinha. Nos pais da Teresinha.
Entra o primeiro casal e o João nem se vira. Nem se mexe. Está ali como que petrificado a lembrar-se da conversa que teve com a melhor amiga, dois dias antes. Ela disse-lhe que era “segredo João. Daqueles que não podes contar a ninguém”. A mãe casou com outra mulher e o João ri, sorri. A Teresinha gosta mesmo muito dela. É como se tivesse duas mães, mas elas dizem que agora aqueles senhores do Governo, os que mandam em tudo, não deixam que a outra mãe dela, também possa ser mãe, porque não é um homem (mas um homem não pode ser mãe? E uma mãe pode ser pai?). Então, se acontecer alguma coisa à mãe da Teresinha, a outra senhora que também é mãe, não pode cuidar dela e a Teresinha vem para um Abrigo como este!?
E as laranjas. Onde vai ele arranjar as laranjas? Como vai ele ajudar a Teresinha? Será que algum dia ele vai ter pais também? Porque é que a outra mãe da Teresinha não há-de poder chamar-lhe filha? Que parvoíce. Que estupidez. Se acontece um acidente daqueles em que o carro fica de pernas para o ar, a deitar fumo, a Teresinha fica sozinha, como eu? Porque é que os senhores do Governo e da Assembleia da República não gostam da outra mãe da Teresinha? Porque é que não me deixam ter uma família? Só de pais, ou só de mães, quero lá saber. Só quero uma família. É mais do que tenho agora. Ninguém quer saber se tenho frio, se tenho sono, se tenho fome, se tenho boas notas, se quero sumo de laranja. Quero ter um quarto para mim. Com o meu nome na porta. Quero ter tudo assim como tem a Teresinha. Como têm as crianças felizes. Até nos livros das histórias há sempre famílias. Porque é que eu não posso ter uma? Porquê?
[Fim da Segunda Parte]

11h30 e entram em casa dois homens, simpáticos, de mão dada e trazem um menino, também pela mão. A irmã Natércia faz uma cara estranha, mas acaba por sorrir ao fim de uns segundos. Eles chegam junto de mim e um deles, o mais alto, agacha-se à altura dos olhos do João e pergunta-lhe:
– Como te chamas?
– João. E tu?
– Pedro e este é Afonso (puxando a mão do pequenote que viera com eles). Afonso cumprimenta o João, diz olá.
Aperto de mão para aqui e para ali, logo o João trata de pôr o Afonso à vontade, que lhe pede para ir ver o seu quarto. O João hesita. Não tem um quarto dele. Com os seus próprios brinquedos e gavetas cheias da sua própria roupa. Tem antes um armário com uma prateleira identificada com o seu nome e uma cama decorada com a mesma intenção. Os olhos colam-se ao chão. Os nervos são muitos. O João começa a ficar ansioso com tanta visita. Está farto. Cansado. Só quer uma família e não percebe porque continua a ficar ali. Todos os Sábados. Gostou muito de conhecer o Pedro e o Afonso. Sente que eles podiam ser o seu pai e o seu irmão. Que as suas tardes podiam ser todas elas com aquelas duas personagens e com o Manel que está a falar há mais de meia hora com a irmã Natércia. E com a Teresinha claro. Acaba a hora da visita e aproxima-se a hora de virarem costas uns aos outros e de sonharem todos com o mesmo na noite que se aproxima a passos largos. Está calor.
– João. Vamos tentar cá passar no próximo fim de semana.
– Está bem… Já vi este filme. Agora não botam cá os pés. Nunca mais nesta vida.
A noite não corre bem. O João faz xixi na cama. O Afonso também. O João tem pesadelos horríveis. Com um incêndio na casa. Todos morrem e ele fica ainda mais sozinho na vida inteira que tem pela frente. 7 anos não são nada. Acorda a chorar convulsivamente e, a alguns quilómetros dali, a mesma coisa acontece com o Afonso e o Pedro e o Manel… Estão estranhamente ligados.
– Ele tem de vir cá para casa. Não pode ser de outra maneira. Ele vem. Ponto final. Abraçam-se, aninham-se e a voltam a adormecer. O Afonso saltou para a cama deles entretanto. No entanto, há aqui um espanto. O Pedro e o Manel têm direitos distintos. O Pedro é o pai. O Manel, o companheiro. A mãe do Afonso morreu sem deixar qualquer família. O Manel só quer perfilhar, co-adoptar o Afonso. Portugal não deixa.
Na semana seguinte, fica tudo tratado. O João tem o quarto preparado. Roupas novas. Mobília moderna. Livros. Amor. A cama do Afonso ali por perto. Passam a ser irmãos. Passam a ser quatro. A felicidade invade-os, como nos invadem os olhos as cores da Primavera e o calor fresco do Verão. No fim-de-semana seguinte, eles lá estão. Prontinhos para adoptarem o João. Ele, ali está, malas na mão. Roupita lavada. Vida arrumada e olhos arregalados no futuro. Será melhor? Será o que tiver de ser, mas será qualquer coisa, em família. Um adeus emocionado a todos que aqui me vou.
– ADEUS!!
Aos que ficam renova-se a esperança de ainda conseguirem ser felizes na infância que se quer sempre assim, feliz. De serem felizes no tempo em que tem de imperar a felicidade e não a ausência de tudo e alguma coisa. No tempo em que é deles o mundo e nos cabe a nós, adultos, esses seres tão iluminados e sábios, tornarmos a sua vida melhor, em todas as formas possíveis.

Não quero, de modo algum, menosprezar tudo o que é feito num abrigo, num Lar, ou numa Casa, mas todos percebemos que esses são espaços propositadamente criados como soluções, medidas para evitar que a situação seja ainda mais dramática, triste, injusta e imerecida. Criança nenhuma devia passar por tudo o que passa aquela que cresce sem pais. Sem uma família que não aquela que lhe “conseguiram arranjar”, quando a salvaram da desgraça do abandono, ou da orfandade. A normalidade, essa, há muito que se diluiu. Quem tem afinal o direito de decidir sobre algo desta dimensão? Podia ser assim, não podia? Mas não é. Não é e não vai ser. O meu país continua a não querer. Apresenta-se agora como o país que vetou a co-adopção. Talvez se orgulhe, como se orgulham o Ruanda, a Somália, a Etiópia e aqui mais perto, a Rússia, a Roménia e a Ucrânia, tudo excelentes exemplos daquilo que é o fenomenal funcionamento da democracia e do reconhecimento dos Direitos Humanos. Portugal volta a estar na vanguarda do humanismo.
No meio de tudo isto existe uma incongruência que não entendo: Porque é que os casais homossexuais podem casar, mas não podem co-adoptar, ou adoptar, ou ter uma vida com direitos conjugais iguais/idênticos aos do restante rebanho heterossexual? (esse sim, o rebanho de ovelhinhas brancas…) Se tudo muda e evolui, porque razão se insiste na incoerência de permitir mas só até certo ponto? Para além desta incongruência, está ainda a natureza da minha estupefacção. Porque é que nenhum destes senhores iluminados e cheios de poder, nenhum destes senhores a quem o “sistema” confere a magnânima posição de decisão e, sobretudo, o poder de legislar e decidir “como vai ser”, um lugar na mesa de Deus que lhes permite decidir a vida de tanta gente, porque é que nenhum deles se preocupa com o que deveria verdadeiramente importar num assunto que não devia sequer ter direito a discussão pública: o superior interesse das crianças! Como se pode chumbar algo assim? Não será esta mais uma forma de assinalar e acentuar a diferença? Como pode ser possível que se permita que uma criança se possa manter órfã de pai/mãe, pelo capricho ideológico de manter o “provincianismo de origem contrária à canhota”?
Não era dos adultos que se falava e se tratava, mas sim de possibilidades oferecidas a estas crianças, em particular. No entanto, esta “Gente” acha sempre que sabe tudo, que eles, sim, sabem o que é a vida e como e em que moldes ela deve e tem de ser vivida. Depois, vejo autênticas barbáries escritas por mais gente que tem o poder de escrever para o público, em sítios de leitura massificada, gente essa que, enfim… Perdoai-lhes Senhor, que eles não sabem o que fazem…!
Talvez um dia consigamos perceber que os pés não são para dar tiros e que adopção e co-adopção não são temas para discussão em praça pública. Estamos a discutir o destino de muitas pessoas. Não é o presente, é o futuro. Estas crianças ficam marcadas a sangue. Para o espaço público devem ficar reservados temas que merecem verdadeiramente a opinião de toda a Nação. O BPN, o BPP, as PPP, os submarinos, as obras públicas, os estaleiros, os aeroportos, os estádios, a corrupção, a fraude, as multas dos milionários que prescrevem e os velhotes condenados por roubo de pão, não a vida das crianças e das suas famílias, ou da possibilidade de virem a ter uma família. Sobretudo, não pode ser esta lógica subvertida a decidir todo o curso de uma vida, porque quem o decide e determina, acreditem que sim, está a fazê-lo de forma totalmente irreversível.