Palavras, para quê?!

Passam-se e seguem-se.
Olhares de redoma, transcritos numa fonética imperceptível.
É normal, não sou de cá, e demoro a perceber o que dizem todos estes… habitantes do mundo que não conheço.
Tenho tempo.
Café? Não obrigado.
Chega-me um bolo e um sumo.
A manhã ainda é curta e o tempo não escasseia.
Meto a mão ao bolso e procuro a…
Aqui está, nunca saio de casa sem ti.
Chego a ter a sensação que nunca chego a sair de casa, e se saio, não me dou conta de onde parei e de mim me esqueci.
Sou quem sou e tu quem és?
Apresso-me e lembro-me que vou trabalhar.
Chego de cara fechada, e tu também, com um intervalo de cerca de dois sinais vermelhos, um acidente na faixa da direita e dois eléctricos cheios, tudo isto dá um total de aproximadamente dez minutos, mais coisa menos coisa, mais buzina menos buzina, mais trânsito na esquina, e a senhora de idade na passadeira, que segura com força a carteira.
Convergimos de maneira estranha mas em simultâneo observamos que é redondo o prisma torto do local onde nos sentamos.
Passam-se as horas, o trabalho preenche o vazio do esquecimento, mas não deixa de ser um tormento ter que te aturar.
No relógio está a constância perene da vida, que te informa, que a passos largos há mais um dia a passar, e tu, meu caro, tu que continuas sem saber como o dia vai acabar.
Parece pouco importada em conversar contigo, mas também é melhor assim, não terias grande coisa para lhe dizer, pois não? Na verdade, não terias nem sequer nenhum tipo de conversa aprazível para ter com ela.
Do tempo não sabes falar, de comida? Não sabes cozinhar. Da vida, não saberias sequer por onde começar.
O que estou para aqui a dizer? Sou suficientemente pessoa, para conseguir conversar com outra pessoa qualquer, até com ela…
Sou suficientemente alguém para poder dizer também aquilo que o mestre (Pessoa) disse:
“Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?”
Posso até ter vergonha, posso até corar de lamento, dar a entender que sou fraco e não aguento, mas no fundo, sei que sim, que posso, que consigo dizê-lo assim, porque sei quem sou, e sei o que é feito de mim.
Tentarei de novo amanhã, conversar, porque para amar é preciso bem mais do que um atraso no trânsito, bem mais do que a senhora na passadeira que se agarra à carteira.
Conversar não, isso é bem mais simples, basta abrir a boca e seja o que a conversa quiser, seja homem, mas sobretudo, seja aquela mulher!
Conversamos tantas vezes, e tantas outras não o fazemos, limitamos a conversa à falta de assuntos porque não é conversa que queremos, nem para conversa que estamos.
É um jogo este, o paradigma de viver, e por isso assim eu escrevo, porque há tanta coisa para ver, e sobretudo há tanto para dizer.
Nas margens, de rios, de folhas soltas, de conversas, de olhares, de sons e cheiros, reside tantas vezes o oposto que se aproxima, o perto que se afasta e se torna irremediavelmente distante e longínquo, que nos remete para a lembrança.
Quando partimos e viramos costas ao centro, deixamos para trás tanta coisa, mas há algo que sempre me faz lá voltar, as palavras.
Essas ninguém te as tira, ninguém te as leva, são tuas, sob direito inalienável de propriedade, porquê?
Porque sim.
Porque o que é teu às tuas mãos vem parar, e as palavras, caem-te nas mãos como se de folhas das árvores se tratassem.
Não julgo os acontecimentos, julgo os momentos que levam às realidades congénitas que atravesso e, assim cresço, assim assimilo o que o real me reserva.

E assim, é bom poder dizer, que leva tempo a perceber, mas que quando chegas ao R/C da compreensão, e olhas o topo visto de baixo, sabes que o caminho é longo e arrebitado, mas que ao caminho estás interiormente ligado e vinculado, com ele fazes o teu compromisso, e ao mesmo, te manténs quase fiel.
Deixa-te ir, apodera-te dos fins-de-tarde, e adormece a teu lado as noites frias, que no mundo há sempre lugar para mais um sonho.




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184 dias

Dias, noites, tardes, manhãs, madrugadas, alvoradas, palhaçadas.
Revolta, tristeza, fúria, lamuria, convulsão, depressão, aceitação, compreensão, entendimento, desenvolvimento, lamento profundamente, dor permanente.
Quem não sabe do que falo, não sabe o que se sente.
É o que é, e aqui estou de pé.
Só um momento, tenho de interromper.
Há um copo meio cheio que está sozinho, e sem mim não se volta a encher, e Meu Deus, à dor, a essa sim tenho de dar de beber, é só um instantinho.
E vai mais um golinho…. ahhhhh.
Retomemos.
Duvido e duvidei tantas vezes, esfrego os olhos que não abro e, não os sinto, há um certo prazer na loucura que só o louco percebe, há um certo temor na tristeza que só o triste consegue, há um certo pesar na forma como se escreve, mas há também uma dose de sobriedade que advém da busca do entendimento, de que nem sempre o triste se lembra.
Na verdade, procura pensar de menos nas coisas a mais, procura perceber quais foram os erros fatais, busca na amargura a frescura das figuras leais, e encontra na sombra a resposta para os dias, que tais.
Nem sempre consegue achar a resposta mais certa, nem sempre se lembra que dorme de janela aberta, é torta a linha que segue e que há-de seguir, o desencanto que sente no amor que deixa partir.
Ah poeta, palerma que sonha que há-de vencer, 
o terror dos dias de dor que jura jamais perceber.
Herói acabado de rosto tapado que teima em sorrir, olhando o futuro, guardando o passado, sonhando acordado com o que há-de vir.
Quem promete, repete, tal qual a cassete da fita comida,
É triste pensar, no horror de enterrar um ciclo de vida.
Mais dias virão, tens o caminho na mão, não sejas tristeza,
Serás o melhor, sabes isso de cor, com toda a certeza.
Poesias à parte, que para isso não há arte que explique a destreza,
De em parte montar, um fio de pensar, com toda a clareza.
E que melhor para completar aquilo que julgo dizer, com as palavras de alguém que na vida soube bem como custa, o sofrer.
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
 
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Contados, um após o outro.
Andei e andei e até aqui cheguei,
Ao longe conto as vezes que sozinho me perdi.
Sozinho, de pé, sentado, deitado, bem sei, o que é viver sem ti.
Acredito e sei que repito, talvez porque custa aceitar,
Que o futuro possa ser um lugar, onde tu não vais estar.
Mas no final de contas, olho, vejo, penso e sorrio,
Mesmo que por dentro o que sinto, seja o mais puro vazio.

Eu cresço. Dele? Não quero saber

Crescer sem ser de forma positiva é algo que me causa alguma estranheza, mas aceito.

A palavra crescimento tem como significado – desenvolvimento progressivo.
Eu cresço, tu cresces, será que crescemos todos?
Será que aprendemos alguma coisa na verdade, enquanto conjunto separado do indivíduo?
O amanhecer é tortuoso por estar envolto numa tremenda incerteza.
Alguém disse um dia que o melhor de acordar a cada manhã, é que nunca sabemos o que vamos encontrar desde que abrimos os olhos, até os fecharmos ao final do dia.
E eu que gosto de tanto da cegueira…
No mais puro recanto do pensar existe matéria que só o mais atento consegue alcançar.
Passamos a mão pela cara e esfregamos os olhos com veemência, queremos ver mais e melhor, entender o que vemos, perceber o que na verdade não compreendemos de todo, e assim fazemos este gesto repetidamente, vezes e vezes sem conta, e tantas são as vezes em que as contas não chegam.
Em que nada chega.
Em que gostar não chega.
Trabalhar não chega.
Olhar não chega.
Errado.
Há momentos em que do pouco se chega a tanto.
Há momentos em que basta apenas o encanto.
Há momentos em que não se pede nem mais nem menos, apenas aquilo que fazemos, os sonhos que temos, o quanto queremos, as voltas que demos, o tanto que fizemos, aquilo que quisemos, onde nos perdemos, o que éramos em pequenos, os sorrisos a menos, desses não nos lembremos.
Somos mais do que os livros.
Somos nós que os escrevemos.
Do espelho se projecta a imagem que queres ver, ou aquela que queres ter.
Nunca um espelho te enganará, nem tão pouco te dirá, que aquilo que vês, não é o que de facto ali está.
Por isso meu amigo.
Torna-te de facto aquilo para o qual estás destinado.
És o maior, o melhor e o mais forte e capaz.
Prova-o, mostra-o, ri-te de quem te diz o contrário.
E um dia tudo o que é teu às tuas mãos virá parar.
Seja como for, tens de estar pronto.
Cara lavada, barba aparada, camisa engomada, olhos felizes, sorriso que é teu, mãos frescas, és tu rapaz.
Tudo parece avançar ao seu tempo certo.
O tempo pára por vezes, o relógio conta-os, mas eu não, puxo o isqueiro, acendo mais um, mudo a faixa, e mantenho os olhos fechados, sou eu e a minha cegueira.
Mudam-se os tempos mas não muda a vaidade.
E assim cresço como homem.
Eu cresço, tu não sei e dele não quero saber.

Cegueira das vaidades

 CegueiraEstado de quem é cego, ou privado do sentido da visão. Em sentido figurado, é o estado de uma pessoa com o raciocínio perturbado, com falta de lucidez, ou ainda, e desta gosto particularmente, cegueira é também uma certa dose de obstinação ou paixão extrema por algo ou alguma coisa.

E não é que a excelência que criou o belo dicionário da língua portuguesa foi sem dúvida alguém que, das duas, três, ou teve muita ajuda, ou passou por largos pedaços de vida, de merda.
Ora a vida de facto estes pedaços de merda, espalhados, a espaços, pelos trilhos que se percorrem e nem sempre estão no chão, esperando fervorosamente que os pisemos com a força titânica com que pisamos o alcatrão.
Ser cego é tantas vezes uma virtude como uma estupidez.
Vamos à virtude.
Ser cego é ver bem mais, é sentir bem mais, é olhar para a vida com os olhos da alma, é sentir a mesma, com a tenacidade de quem tem no pensamento a ilusão de um futuro que sorri, sorri como sorri uma criança feliz, que tantas vezes não sabe, não ouve, não percebe o que vida lhe diz.
Sim, sou cego, na medida em que desenvolvo paixões extremas por algo ou alguma coisa.
Não sei ser de outra maneira, não sei ser senão cego, e tenho orgulho na minha cegueira, a cegueira da vaidade, por assim dizer.
E por assim dizer, o que é a vida de quem tudo vê?
Como é a vida de quem não é cego?
Como é a vida de quem acha que as cataratas não o afectam, e que pensa tão somente ser detentor de uma visão perfeita?
Não sei, não consigo imaginar, não consigo sequer conceber uma vida dentro de mim, que não seja mais ou menos assim.
Nas horas que passam no corropio dos dias, sinto-me tantas vezes solto e com as mãos tão frias.
O vento gélido e o intenso nevoeiro, são as primeiras palavras, e o pensamento, o grande conselheiro.
As deambulações citadinas nas altas e madrugadoras horas, aparecem-me como vislumbres claros de sustentabilidade mental necessária, mas tantas vezes fugaz e perdulária, desperdiçada, ou mal aproveitada em ideias recônditas que se esvaem com o avançar dos ponteiros no relógio.
No entanto, mesmo vendo pouco ou sendo quase cego, lá vou encontrando o caminho que procuro tantas vezes às apalpadelas.
Sou cego sim senhor, mas um cego orgulhoso.
Vejo o que quero ver, sei o que quero ser.
Mais do que isso, orgulho-me, a cada dia que passa, do que vou construindo mesmo com os olhos tapados.
Aprender a viver tem destas coisas, crescer tem coisas bem melhores.
De cada vez que caímos, há um trabalho messiânico que tem de ser feito, o levantar.
E não é apenas o discurso metafórico implícito na tormentosa frase acima escrita, mas sim o que implica o erguer, o que implica o despertar.
Quando de facto és cego, pouco te importa, custa porque não vês, mas sentes como ninguém, e é esse o teu trunfo, é essa a tua força, é assim, não porque queres, mas porque é mesmo assim, tem de ser assim, para teu próprio bem.
Vais cair muitas vezes, vais pois.
Mas vais levantar-te mais ou menos depressa, isso, por certo que isso não interessa, e quando te levantas, voltas mais cego do que eras antes de caíres, mas sorte têm aqueles para quem olhas.

O que sou ou fui afinal?

Por certo sei que fui alguém.
Por certo sei que sou mais do que ninguém.
Com toda a certeza me refiro a mim mesmo como um prolongamento do que penso, do que faço e de tudo aquilo em que acredito, ou em que me meto.
Fernando Pessoa disse certo dia que, “Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que eu gosto, gostem de mim, nem que eu faça a falta que elas me fazem. O importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível, e que esse momento será inesquecível”, ora é pura esta ideia completa, é mágica a mente do poeta, e alguma coisa dita faz sentido numa vida meio perdida?
Tantas vezes se busca o irreal nexo das palavras, contrapondo-as ao surreal sentido da verdade dos actos, na tentativa louca de perceber qual o resultado da soma de uns com os outros, divido as emoções e subtraindo as experiências, as horas de vida, os momentos inesquecíveis, as noites não dormidas, os sorrisos de cumplicidade atirados ao vento que nos banha a cara.
Não tenho de facto a pretensão de querer que todas as pessoas de quem gosto, gostem de mim da mesma forma, até porque ninguém gosta exactamente da mesma forma, há sempre uma parte que é superior num todo, há sempre uma fatia maior em duas retiradas de um bolo.
Tenho sim, o desejo interior de que ao menos gostem de mim, não porque gosto, não porque peço, não porque demonstro, mas sim porque faço, aconteço, sou, estou, vou, e mostro sempre, tudo!
De facto, coloco acima de todo os patamares possíveis a vontade de ser ou de ter sido, em determinado(s) momento(s), inesquecível, único, incomparável, inigualável.
Posso ser presunçoso, ganancioso, egoísta, ou tudo o que nesse campo me quiserem chamar, mas tenho a certeza que fui, que sou e que hei-de voltar a ser tudo isto, porque de facto, não sou mais um, sou alguém, não mais do que ninguém, nem parente de quem tem a vontade de ser alguém.
Eu sei que sou, que fui e que certamente voltarei a ser.
Todos os momentos em que o fui, sinto-os como únicos, como primordiais, como momentos irrepetíveis, e é isso que têm de ser, que vão ser, porque não deixarei que sejam menos do que isso, mas permitirei que sejam sempre mais e mais qualquer coisa, que cresçam à dimensão construtiva e sonhada de tudo aquilo que foram momentos de sonho, e é o sonho que comanda a vida, não é mesmo?
Como tal, é de sonhos que se alimenta a alma, mesmo em dias de uma aparente calma, comanda pela tenaz madrugada limpa, que ao céu oferece a lua envergonhada, e deixa cair a humidade a espaços, o amor em abraços e o gostar em olhares puros e cristalinos.
Obrigado senhor Pessoa, porque…por…
Por tudo.
Obrigado.
Nada do que parece é na verdade uma parecença da real realidade crua.
Nada do que se assemelha ao que na verdade existe, se torna mais do que aquilo em que pensas sentado na tua rua.
Pensa bem, e torna-te insubstituível.

O que é na verdade!?

Contentamento descontente? Fogo que arde e não se sente? Seres alma e sangue e vida em mim, e dizê-lo cantando a toda a gente?
Quantas e quantas vezes me perco nas deambulações cáusticas da palavra, nas expressões desencontradas da racionalização do sentimento, ou nas intemporais buscas de razões ou vocábulos, que melhor definam o que é tantas vezes inexplicável, se não quase sempre, impossível de verbalizar.
Os caminhos são estradas sinuosas, cobertas de tudo o que são elementos de tempo e espaço.
As manhãs de nevoeiro, as tardes solarengas, as madrugadas quentes de borralho, as noites intermináveis de chuva forte e desmedida, que nos acerca e ensopa, e nos faz perceber que igualmente ensopada e cercada é tantas vezes, a própria vida.
Mas há caminho, há toda uma via rápida de incerteza que não deixa de ser igualmente sensitiva e deslumbrante.
Crescer é de facto uma maravilha aos pés de quem, descalço, se atreve a sair à rua.
Tão sabiamente alguém um dia escreveu, que dar de beber à dor é o melhor, e tem noites que sim, tem tarde que nem tanto, e manhãs em que é um pouco de qualquer coisa do género.
Aproximo-me das 04h00, sem saber para onde caminho, sei que vagueio aqui sentado, mais sereno, ligeiramente encostado, em pose altiva de conselheiro revivalista do passado a que me apego.
Dele não vivo, mas dele me sirvo, a ele sim dou eu de beber.
É nele que vive a réstia de amargura, que não teima mas perdura, sem saber onde se esconder.
Não te vejo, mas pressinto-te, sem o vinho eu não me minto, que de fugas se faz o sobrevivente.
Querer ser inteligente, passar ao lado, seguir em frente, mudar o ar, ser diferente, é pedir demais a quem não segue as estradas principais.
Na poesia sonora das ruas por onde passo, encontro de tudo um pouco, e em tudo, absolutamente nada.
No nada descubro porquês, descubro ainda mais, descubro-me a mim.
E é de mim que preciso.
A ti vejo-te tanto, como tão pouco sinto que o faço, sei bem o que te chamo, chamam-lhe amor ou chamem-me louco, por mim é apenas mais uma frase num pedaço.
Estranhamente desligamos uma parte do cérebro que nos permite manter o fiel, sempre necessário e de preferência conveniente raciocínio, quando nos apaixonamos, ou quando simplesmente assim estamos.
Não raramente sofre, não frequentemente sente, que é aquilo que mostra a toda gente, a alegria permanente, de quem sente o que mais ninguém desmente.
Viver é aprender, amar, errar e sofrer, é perceber, que no entanto, não há nada que não se tente, se é isso que deveras se sente.
Vida, mostra lá que não és pequena, que não enganas quem te ama, nem te mostras tão serena, que acalmas quem te chama, e que de facto vales a pena.