Já nem a pobre ceifeira canta, senhor Pessoa.

Acabo de ler uma crónica sobre “o menino que Vítor Gaspar não conhece“.
Pertinente, o ângulo.
Real, a situação.
Simples, o enredo.
Pouco comum ou novidade? Nada disso.
Passa-se há muito tempo, noutros hipermercados e centros comerciais deste país, há anos e anos. Já me aconteceu a mim.
Nas Amoreiras acredito que seja novidade. 
Mas o que de facto é, “muito preocupante”, é na verdade o assumir que porventura este é “o preço a pagar pelo ajustamento”, como refere e muito bem o autor.
Portugal está mal. 
Está muito mal. 
Mesmo.
Há dias conversava com uma amiga daquelas que passam que tempos longe dos olhos, mas perto do coração, daquelas que por muito que não se pense, nunca se esquece.
É madeirense, vive em Câmara de Lobos.
Tem trabalho, na área em que se formou, na área que a obrigou a vir para Lisboa estudar.
Mas está assustada e eu conheço bem, a sua expressão assustada.
Vivemos juntos, na Holanda.
Diz-me que a nós, aqui (por “aqui” entenda-se, no continente) não nos passa pela cabeça o que se vive por lá.
Que não há trabalho. Não há mesmo.
Não há construção.
Não há emprego para todos os construtores civis e empregados de construção civil que durante anos a fio modernizaram a Madeira.
As pessoas a viverem autênticos dramas.
Que as pessoas não sabem o que fazer da vida.
E estão a ir embora, as que podem.
Ouviram bem?
A ir embora, a abandonar uma pátria que dizem ter-lhes virado as costas.
Com empréstimos por pagar. Que os bancos nunca mais irão ver.
Com vidas a começar, ou a decorrer. Acima de tudo com vidas que não conseguem adiar.
Os que a têm a acabar, resignam-se e choram. E trabalham o que podem.
Ceifam, debulham, colhem, plantam, regam, cavam, choram, não cantam, isso não senhor Pessoa, há muito que quem ceifa deixou de cantar.  
Lavam, estendem, secam, apanham, engomam, dobram, arrumam e tornam a caminhar, têm no dia constância do vagar.
As crianças que não comem nas escolas, e as escolas que deixam de ter o que lhes dar de comer. 
As marmitas já nãorefeitório algum que não as convide a entrar e a sentar-se numa mesa das boas.
Vagueiam pelos corredores das empresas, será que falam umas com as outras, será que tudo isto é uma orquestração de marmitas e que elas conhecem as histórias dos seus “donos”?
Vivemos tão informativamente assoberbados que somos forçados a fazer selecções naturais de conteúdos, de modo a que já vivemos num segmento que retém apenas aquilo que lhe interessa realmente.
Por isso, tantas vezes, as imagens passam ao lado e a realidade… 
Realidade é a palavra, por vezes frívola, que empregamos para esgrimir e apresentar como definição de “o meu mundo!”.
E escuta-se, aqui e ali, os prantos da fome e da tristeza, os rostos carregados de incerteza, a lúcidez que, esguia, se esgueira por entre os olhos que tudo vêm e não se conseguem fechar, que não têm como não chorar.
Triste não é chorar, triste é deixar de sorrir.
Triste é ser velho e não ter sossego, nem companhia, nem amigos, nem dinheiro, nem comida, nem fome. Triste é viver tanto e esperar o fim, assim, desta forma horrorosa e vã.
E ser novo e não saber o que lá vem e ver preocupação nos olhos da mãe, lágrimas da madrugada que se prolongam em surdina até à alvorada.
A máquina já não calcula, está avariada e no frigorífico? Sopa, leite e água. 
É duro, é
É muito violento.
Intriga-me o porquê de se falar tão pouco na Islândia…!
Talvez seja por não fazer parte da União Europeia..
Tavez por ter resolvido a questão de outra maneira…  
O que sei é que os tempos são frios.
E apertados.
Restam os sonhos e as memórias!
E os receios e desejos de bolsos cheios!
Talvez seja de facto necessário redefinir os ideais!
Abandonar cidades e assentar praça no interior.
Alguém me explica se isso é possível, por favor?
No entanto, de cima, já nos mandaram embora e continuam a ordenar dia após dia, em jeito de mensagem subliminar.
Já repararam que as medidas e os anúncios, são feitos sempre a uma qualquer das diferentes horas do dia em que nos sentamos à mesa para “enfardar”?
É sempre, ao almoço, ao lanche e, ou, ao jantar, e também quando joga a seleção.
Das duas uma, ou estão apenas à espera de entrar em directo num dos jornais, ou agem com um superior requinte de malvadez, daqueles que, como se diz amiúde, não lembra nem ao menino Jesus, e existe de facto a permissa de: “Deixa cá anunciar isto quando eles estiverem todos à mesa, que é para ver se se engasgam, pimba, e se têm de engolir pão pela goela abaixo, para passar… e arrotar de preferência, ou pior do que isso, que FIQUEM COM SOLUÇOS durante o resto do dia/tarde/noite… Que isto é a doer e agora é que vamos lá a ver então quem é que manda aqui!
Ou seja, não basta cortarem no dinheiro que as pessoas têm para comer, como ainda têm o despudor de, de quando em vez, se lembrarem de se porem com divulgações e comunicações ao país, à hora da refeição, ou do jogo do futebol… Que é preciso ser desmancha prazeres hein!?
P’amor de Deus...
Não se pode brincar com tudo.
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