UCRÂNIA e VENEZUELA e a vida que era tão bela

UCRÂNIA e VENEZUELA e a vida que era tão bela

Como não ficar espantado? Como não ficar preocupado, triste, alarmado, inquieto, intrigado?
A Ucrânia é uma espécie de fronteira entre o mundo real e o desconhecido e sempre enevoado mundo… russo.
É também um gigantesco gasoduto. E um gigantesco país emparedado por outros não menos pequenos, tais como a Bielorussia, a Polónia, a Hungria, a Moldávia (este sim, pequenino), a Roménia a Eslováquia e o Mar… que é Negro…
Contudo, e voltando ao que me motivou a escrever e a dedicar tempo a tudo isto prende-se com a tentativa de perceber o que está por trás desta recente onda de violência sem limites? O que está por trás de tanta contestação, de tanta chama de revolução? O que está por trás de tanta morte? O que está por trás do desnorte e da revolta, da violência da alma e da falta de calma?
Dinheiro. Sempre. Uma e outra vez. O mal de sempre que afasta a gente, mas que cada vez mais nos grita aos ouvidos, a nós, mundo indiferente, repleto de gente que não diz nem sente.
Uns com tanto e outros sem nenhum. E morre mais outro e mais um.
Hoje, mais do que em qualquer outra altura deste novo século, esta é uma situação, à nossa direita, que nos deve espantar, preocupar, que nos deve alarmar, entristecer, inquietar e intrigar, porque temos, nós, portuguesinhos simpáticos e acolhedores, históricos amantes de amores e dissabores, uma grande e vasta comunidade de emigrantes ucranianos, mais próximos que nuestros hermanos, que aprendem rápido a falar como Camões nos ensinou, que absorvem e bem a cultura do país que os abraçou, mas também, porque é uma guerra na velhinha e cansada Europa, que é uma guerra dos fracos contra os fortes, da pobreza contra a corrupção e a avareza, contra o poder instituído e imposto. A guerra do desespero de quem já nada tem a temer, de quem não tem emprego, de quem tem fome, de quem luta porque já não come, uma guerra de homens e mulheres contra o totalitarismo, contra a imposição, contra a vontade que se quer fazer cumprir pela força.
Talvez por ter ouvido tantas vezes estes amigos ucranianos a falar português, correcto, limpinho, educado e trabalhado, talvez por saber que é gente que largou tudo por uma vida melhor, médicos e engenheiros, professores e enfermeiros, quantos deles para cá vieram e acabaram a trabalhar para… empreiteiros.
Tenho medo, tenho medo deste mundo em que vivemos e devemos, devemos sim, ter medo de um mundo assim. Mas calma, porque ainda não acabei, falei apenas dos problemas à direita (isto se estivermos virados para Norte, onde se busca, regra geral, o caminho para a sorte), falta a esquerda, que nos traz problemas graves em castelhano.
Falo pois da Venezuela, essa terra tão bela, que nos abraçou com alegria, e nos permitiu sonhos de uma vida… “mais boa”, do Funchal a Lisboa, são cerca de 500 mil, a falar a língua de Pessoa.
Medo, preocupação, temor e insegurança, de gente que parece apenas querer viver os sonhos de criança. São homens e mulheres como nós, que parecem cada vez mais esquecidos pelo imediatismo do mundo novo em que vivemos.
Lutam pela Liberdade, esse conceito que parece cada vez mais vendido como se vende tudo o que pode ser comercial.
Liberdade que é usurpada, dia após dia, e a defender esse roubo escandalosamente permitido estão, as forças armadas, que gente tão bem intencionada. Gente eleita sabe Deus como…
Facebooks, Twitters, Iphones, Gadgets, partilha, gosta, comenta e ninguém lamenta o que se vive por lá, pois pudera, quando não conseguimos sequer perceber o que se passa por cá.
À esquerda e à direita, a violência espreita e aproveita a raiva de quem tudo vai perdendo, de quem pouco já vai tendo e se entrega à massa que contesta. Resta-me apenas uma conclusão, o homem, por vezes, não presta. O que nos resta? Acreditar.
Em quê? No futuro melhor. Que Deus não dorme, só descansa, que não se pode perder a esperança. Então e se de repente todos os nossos que estão fora, tiverem de voltar? O que vamos fazer para os “encaixar” se passam a vida a mandar-nos… emigrar? O mundo está a mudar, está sim, mas não me parece que seja tanto assim, os problemas de que aqui falo, esses, já os havia, mas enquanto no passado a preocupação ficava e a luta era reconhecida, hoje a preocupação fica-se pelo número de gostos que tem a minha fotografia, ou a página dos bolos da minha tia…
São vidas que se tiram com a facilidade de um dedo leve no gatilho, de um corpo que tomba, um atrás do outro, é isto. Partilho. Da Ucrânia à Venezuela, sim, aquela, da bandeira azul, vermelha e amarela. Não gosto. Não quero. Ninguém merece viver em tamanho desespero.

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NÃO QUERO MORRER – Júlio Isidro

Apareceu, por mão amiga, este texto de Júlio Isidro que dá para este fim de semana dar ânimo a todos os que bem pensam sobre o nosso futuro.

NÃO, NÃO ESTOU VELHO!!!!!!
NÃO SOU É SUFICIENTEMENTE NOVO PARA JÁ SABER TUDO!
Passaram 40 anos de um sonho chamado Abril.
E lembro-me do texto de Jorge de Sena…. Não quero morrer sem ver a cor da liberdade.
Passaram quatro décadas e de súbito os portugueses ficam a saber, em espanto, que são responsáveis de uma crise e que a têm que pagar…. civilizadamente, ordenadamente, no respeito das regras da democracia, com manifestações próprias das democracias e greves a que têm direito, mas demonstrando sempre o seu elevado espírito cívico, no sofrer e ….calar.
Sou dos que acreditam na invenção desta crise.
Um “directório” algures decidiu que as classes médias estavam a viver acima da média. E de repente verificou-se que todos os países estão a dever dinheiro uns aos outros…. a dívida soberana entrou no nosso vocabulário e invadiu o dia a dia.
Serviu para despedir, cortar salários, regalias/direitos do chamado Estado Social e o valor do trabalho foi diminuído, embora um nosso ministro tenha dito decerto por lapso, que “o trabalho liberta”, frase escrita no portão de entrada de Auschwitz.
Parece que alguém anda à procura de uma solução que se espera não seja final.
Os homens nascem com direito à felicidade e não apenas à estrita e restrita sobrevivência.
Foi perante o espanto dos portugueses que os velhos ficaram com muito menos do seu contrato com o Estado que se comprometia devolver o investimento de uma vida de trabalho.Mas, daqui a 20 anos isto resolve-se.
Agora, os velhos atónitos, repartem o dinheiro entre os medicamentos e a comida.
E ainda tem que dar para ajudar os filhos e netos num exercício de gestão impossível.
A Igreja e tantas instituições de solidariedade fazem diariamente o miagre da multiplicação dos pães.
Morrem mais velhos em solidão, dão por eles pelo cheiro, os passes sociais impedem-nos de sair de casa, suicidam-se mais pessoas, mata-se mais dentro de casa, maridos, mulheres e filhos mancham-se de sangue , 5% dos sem abrigo têm cursos superiores, consta que há cursos superiores de geração espontânea, mas 81.000 licenciados estão desempregados.
Milhares de alunos saem das universidades porque não têm como pagar as propinas, enquanto que muitos desistem de estudar para procurar trabalho.
Há 200.000 novos emigrantes, e o filme “Gaiola Dourada” faz um milhão de espectadores.
Há terras do interior, sem centro de saúde, sem correios e sem finanças, e os festivais de verão estão cheios com bilhetes de centenas de euros.
Há carros topo de gama para sortear e auto-estradas desertas. Na televisão a gente vê gente a fazer sexo explícito e explicitamente a revelar histórias de vida que exaltam a boçalidade.
Há 50.000 trabalhadores rurais que abandonaram os campos, mas há as grandes vitórias da venda de dívida pública a taxas muito mais altas do que outros países intervencionados.
Há romances de ajustes de contas entre políticos e ex-políticos, mas tudo vai acabar em bem…estar para ambas as partes.
Aumentam as mortes por problemas respiratórios consequência de carências alimentares e higiénicas, há enfermeiros a partir entre lágrimas para Inglaterra e Alemanha para ganharem muito mais do que 3 euros à hora, há o romance do senhor Hollande e o enredo do senhor Obama que tudo tem feito para que o SNS americano seja mesmo para todos os americanos. Também ele tem um sonho…
Há a privatização de empresas portuguesas altamente lucrativas e outras que virão a ser lucrativas. Se são e podem vir a ser, porque é que se vendem?
E há a saída à irlandesa quando eu preferia uma…à francesa.
Há muita gente a opinar, alguns escondidos com o rabo de fora.
E aprendemos neologismos como “inconseguimento” e “irrevogável” que quer dizer exactamente o contrário do que está escrito no dicionário.
Mas há os penalties escalpelizados na TV em câmara lenta, muito lenta e muito discutidos, e muita conversa, muita conversa e nós, distraídos.
E agora, já quase todos sabemos que existiu um pintor chamado Miró, nem que seja por via bancária. Surrealista…
Mas há os meninos que têm que ir à escola nas férias para ter pequeno- almoço e almoço.
E as mães que vão ao banco…. alimentar contra a fome , envergonhadamente , matar a fome dos seus meninos.
É por estes meninos com a esperança de dias melhores prometidos para daqui a 20 anos, pelos velhos sem mais 20 anos de esperança de vida e pelos quarentões com a desconfiança de que não mudarão de vida, que eu não quero morrer sem ver a cor de uma nova liberdade.