O estranho caso do Verão de 2014 – Parte II

O estranho caso do Verão de 2014 – Parte II

Chegar à cidade de Córdoba a meio de uma tarde de Julho é uma experiência no mínimo invulgar e marcante. Não só por tudo o que se vê, mas igualmente pelo surpreendente e inesperado vazio de gente, de movimento, de reboliço, de corrupio, de desvario, acima de tudo é isso, impressiona pela ausência bastante significativa de gente nas ruas. Tal coisa só pode, no entanto, ser inesperada para quem não vive ali, nem tão pouco sequer alguma vez ali esteve, em particular, naquela época do ano tão exageradamente quente.

Antes de chegar a Córdoba, percorrem quase 100 quilómetros por entre uma estrada de rectas intermináveis e secas, com pequenos adornos em forma de curvas que se fazem em 5ª velocidade, tal é a pequenez do ângulo que as mesmas descrevem. É impossível ver o fim a uma destas rectas num dia de calor, em que o asfalto se maquilha com vestes prateadas, que se assemelham a lagos perfeitos no horizonte escaldado. Sentiram que estavam a caminhar alegremente para o interior negro e queimado de um caldeirão, que estavam a penetrar lenta e pesarosamente num vale quente, tórrido, abraçado por áridos vislumbres das vizinhanças e largado ao desinteresse por montanhas que nunca dormem.

A Sierra Morena lembra os visitantes que esta era uma cidade estrategicamente plantada neste local, defendida pela natureza que lhe ergueu montes, montanhas, serras e vales e que, em tempos distantes, esta foi a Urbe mais importante da Terra. Chegar a uma cidade onde nunca se esteve, sentado ao volante indeciso de um carro que, também ele, parece perdido e desorientado no emaranhado de ruas e ruazinhas, de “vira à esquerda, não, afinal vira à direita, Ah porra, que não era por aqui, viste bem o mapa?” é, sem sombra de dúvida, uma experiência que testa as capacidades e, sobretudo, a resistência de uma parelha única, com espírito de missão e com uma vontade absoluta e insaciável de novidade, de conhecimento, de descoberta, de vida. Acima de tudo isso, isto é, distinguem-se pela vontade que têm de fazer tudo em conjunto, sempre, só é somente. Isso.

Bem sei que estão a estranhar o recurso a um mapa de papel, nesta Era da tecnologia, que faz tudo por nós, mas ainda há quem orgulhosamente se sirva de um mapa da Península, para viajar por ela adentro. Um mapa, em papel, exactamente, um daqueles que estão fantasticamente dobrados em partes simetricamente iguais (acho mesmo que os mapas são feitos com o objectivo pérfido de complicar a vida seja de quem for, porque, sejamos honestos, é preciso aprender a ver mapas, é preciso arte para nos conseguirmos guiar por um mapa, sobretudo, se estivermos confinados ao interior de um Corsa dos mais crescidos), que, regra geral, vivem espalhados sabiamente por tudo o que é estação de serviço, de Norte a Sul de um país e que fazem com que para alguns artistas, como é o caso, não dêem para passar uma viagem sem rasgar um pedaço de qualquer estrada, ponte, ou linha de comboio, na tentativa pateticamente furiosa de devolver o mapa ao seu caótico emaranhado de rios, vias secundárias e principais, auto-estradas, vilas, aldeias, cidades e povoações, caminhos de terra, serras, lagos, pontes e todas as suas ligações, dobradinho como se tivesse sido engomado a preceito com um ferro de caldeira.

Claro está que ao fim de algumas centenas de quilómetros já se pode ver, entre Portugal e Espanha, um joelho e o pedal do travão. Amor… Sim querido? Estás a ver o mapa ao contrário! Cala-te não sejas parvo… ahahahahaha… pois estou! Lá vão eles – ligeiramente indecisos nos próprios silêncios, também esses tão realisticamente particulares e tão próprios dos dias de calor absoluto e infernal – entrando, maravilhosamente cansados, mas felizes, nas entranhas tórridas de Córdoba, sem conseguirem ver praticamente vivalma, nem tão pouco um puto montado numa bicicleta.

Antes de encontrarem o hotel, entregam desavergonhadamente cerca de meia hora às ruas desconhecidas e às avenidas largas, que aos seus olhos se cruzam respeitosa e cavalheirescamente umas com as outras, sem malícia, ou maldade alguma. São serviçais, existem tão simplesmente para servir quem delas se serve. O calor, esse, parece recebê-los com entusiasmo, pois a temperatura aumenta estupidamente à medida que a velocidade do carro diminui. Tudo, ou praticamente tudo, parece acontecer em slow motion. Os carros circulam devagar, os que circulam, não vêem mais que três, durante a deambulação gratuita que empreendem pelas ruas cordobenhas. Os cumprimentos à entrada do hotel, as árvores que balouçam ao sabor de um tímido soprar de um vento aquecido, os passos dos hóspedes, os carros que circulam no parque de estacionamento, as folhitas que se habituam a viver junto aos pneus dos carros parqueados saltitam como se procurassem tirar as costas do chão em brasa.

O hotel parece-lhes muy bien.

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Facto: os portugueses gostam de chegar a qualquer país e ouvir a sua língua e, quando viajam de carro, sentem um natural e reconfortante prazer se conseguem ver o P por baixo das estrelas da bandeira da União Europeia de uma matrícula qualquer, seja em que veículo for. É inexplicável. É uma sensação de segurança misturada com… sei lá o quê mais. É o que é e como é. Podem nem se falar, durante toda a estadia, podem perfeitamente cruzar-se apenas no trânsito, num semáforo, numa praça, num restaurante, ou numa esquina qualquer, mas a sensação de pertença e de identificação com aquele P sentado por baixo das estrelas não deixa de ser curiosa. E moderadamente agradável.

Voltando a Córdoba. Conseguem um lugar não muito longe da porta do Eurostars Las Adelfas, um hotel tipicamente andaluz, amarelo, com as janelas de todos os quartos divididas com os arcos e as colunas em mármore branco… lindo. Perfeito! “Que horas são?” Para a piscina, já! Check-in feito em 20 minutos, depois de dois casais de espanhóis quase se terem pegado ao estalo para decidirem quem tinha chegado primeiro à fila. Transpiram desalmadamente com as roupas já coladas a algumas partes do corpo. Ele não deixa de olhar para ela, com aquele ar malandro de quem tem o fogo na alma, de quem a ama com a paixão louca das páginas ocres dos livros que guardam na alma.

Sentem o Verão e a sua alegria no coração da Andaluzia.

Instalam-se. Trocam de roupa. Brincam nus pelo quarto. Vestem-se rapidamente e rapidamente vão até à piscina. Procuram um pedaço de relva que ainda permita estender duas toalhas, já que as espreguiçadeiras estão com lotação esgotada. Aninham-se atrevidamente à sombra de um chapéu-de-sol que protege dois ingleses e, sem mais demoras que não as do duche obrigatório antes de enfiar o corpo assado dentro de água, vão com tudo o que ainda lhes resta de energias, depois de uma viagem de 670 quilómetros, e mergulham como as lontras para dentro de água. Férias dizem os olhos de um para o outro. Férias, meu amor. Férias!

Amo-te respondem depois com o sorriso nos lábios, embelezado por um abraço que deixa apenas as cabecitas fora de água e o coração cheio novamente. O coração é assim mesmo, caprichoso, de hábitos pouco redondos. Alimenta-se destas coisas. De vez em quando, assume alguma modéstia e não complica o que é simples, quando é simples. De vez em quando, o coração deixa-se ser apenas isso mesmo, coração. Ela parece-lhe extraordinariamente perfeita debaixo daquele calor quase insolente e dentro da água, então, é um vislumbre de maravilha e de felicidade, que se quer eterna. Tenta parar o tempo, ali, naquele preciso instante. Tenta. Não consegue, para já. Voltará a tentar.

Dão pela fome quase em simultâneo, depois de cerca de 20 minutos de molho, a marinar. Sem pressas de maior, voltam ao quarto, para um banho fresco, uma muda de roupa e aproveitar o guifi (Wi-Fi) gratuito, a fim de perceberem mais ou menos onde vão jantar, ou pelo menos onde é que podem estacionar o carro para poderem depois perder-se à vontade nas vielas floridas e encantadoramente alegres da Judiaria de Córdoba, agraciados e confortados pelo seu estrondoso entardecer. Estacionam numa rua interior, onde já chega mais fraco o calor das 19:30. Que grande Verão que se adivinha pensa ele, feliz, simplesmente feliz.

Por vezes é tão simples a felicidade. Quando o teu corpo e alma se encontram tão abundantemente satisfeitos e completos, que sentes uma leveza estranhamente agradável e constante, que não se esfuma no deitar e no dormir, que se renova a cada beijo, a cada abraço, a cada nova rua desta cidade nova nos olhos, quando sentes isso, estás bem, estás feliz. Simples. É.

Flores. Pátios. Branco. Gente. A gente que se esconde nas tardes abrasadoras abandona as tocas e aparece ao final da tarde/princípio da noite, como se de facto só se pudesse viver verdadeiramente nesta terra, quando o sol nasce e mais tarde quando ele se começa a despedir, deixando para trás a pintura maravilhosa de um céu tingido de um laranja absolutamente memorável. No entanto, ela começa a queixar-se de dores na garganta. Na verdade, já as traz consigo desde Lisboa. Param junto à velhinha ponte romana e admiram a entrada na parte antiga e moura da cidade. Ele não resiste ao céu polvilhado de pó de tijolo e limão ressequido que, misturado com os cabelos dela e o reflexo da luz quente que se despede nos óculos que traz no rosto para não ferir os olhos com o brilho quente da estrela amarela e redonda, fazem a anunciação de uma fotografia perfeita. Enquadra, abre, foca, espreita, sorri-lhe pelo canto da boca e dispara, uma e outra vez, enquanto a vai vendo mexer-se imaculadamente à luz do final de tarde perfeito no Sul da vizinha Espanha.

Vão andando. Nem muito depressa, nem muito devagar. Andando. Parando. Olhando. Admirando. Falando, agora menos. Já lhe custa falar e não o consegue esconder. Ele preocupa-se e dá-lhe a mão. Vamos jantar, diz-lhe baixinho e com todo o amor que lhe tem encrostado dentro daquelas duas palavras. Tapas e Tinto de Verano, pois claro. Ali ficam até aquilo fechar.

Ele nota-lhe o esforço tremendo que faz, durante toda a noite, para esconder o desconforto que as dores na garganta lhe estão a provocar. Já ela, pobrezinha, aproveita até os mais breves silêncios para descansar. Até o pestanejar se vai já tornando pesado, cansado, marcado pelo latejar da dor que a transtorna.

Fazem o caminho de volta ao carro, com um pequeno desvio para pararem exactamente no mesmo sítio onde horas antes ele a fotografou, estarrecido com a beleza da pintura que os seus olhos viam. Admiraram tudo com esponjas sôfregas nos olhos, a fim de guardarem tudo aquilo nos recantos puros e escondidos das memórias boas que nos trazem este tipo de viagens. Selam a vista com um beijo abraçado e, de mãos dadas, atravessam a rua e voltam a encontrar a pequenina e apertada ruela interior, onde pararam o Corsa. É sempre uma festa, quando se encontra o carro à primeira, no primeiro dia em que conduzimos numa cidade onde nunca tínhamos posto as rodas, ou os pés.

Por esta altura ela já se calou.

(continua…)

Texto publicado no site  www.reportersombra.com

O estranho caso do Verão de 2014

O estranho caso do Verão de 2014

O problema começa exactamente na existência diáfana das manhãs frias de Verão. Ora, desta forma, começa logo tudo mal. As coisas têm de ser postas nos seus devidos lugares e as manhãs frias não pertencem de todo ao quadro matinal que se idealiza para a estação referida. São essas manhãs, as que aparentemente se esquecem de levar pela mão o Sol que se quer quente, que aqueça a gente, que se quer quente, dito novamente, porque há mesmo quem tente, de forma mais, ou menos convincente, arranjar espaço suficiente para frescuras injustificadas.

Não constou em momento algum que o Sol tivesse perdido o comboio, que se tivesse esquecido das chaves em casa e tivesse voltado atrás, para se assegurar que tudo estaria perfeitamente fechado para o dia do seu regresso, que, curiosamente, calha em ser precisamente o dia em que me sentei para começar a escrever sobre a estação do Sol. O dia que marca oficialmente o final do Verão. Porém, que não se pense que tamanha empreitada se consegue resolver em apenas um dia, ou melhor, em apenas uma sentada em frente ao teclado.

Agora vão ter de me desculpar, mas não resisto mais. Tenho mesmo de fazer um esforço Hercúleo a fim de tentar compreender toda e qualquer (i)lógica explicação que possa residir por de trás daquilo que fez deste um Verão absolutamente mi-se-rá-vel. Parece haver uma espécie de ausência de princípio e, sobretudo, uma inexplicável incoerência naquilo a que tão frequentemente chamamos “Os desígnios de S. Pedro”. O que não se percebe é, principalmente, a razão pela qual se chega mesmo a colher a leve e estranha sensação de que se está na presença de um caso de absoluta má vontade. No entanto, talvez esteja redondamente enganado e não se trate de nada mais que pura e simplesmente um caso paradigmático de azar, vontade divina e muito mau tempo.

Estávamos no princípio de Junho.

Ele sabe e sente e ouve e promete e mente. Mente pois. Diria mesmo mais, diria que não tem vergonha nenhuma naquela cara e se dispõe a mentir com quantos são os dentes que tem e mesmo afónico, rouco, com a voz comida pelo orvalho fresco da hora a que se ergue para afinal não fazer rigorosamente nada. Mesmo aí e durante os três meses da sua permanência anual entre nós, não deixa de tentar a mentira e o engano em modo supersónico, disferidos numa assustadora e desavergonhada cadência que embalada e hipnotiza os que por ele esperam.

Está tudo a mudar e o tempo, esse, é e será eternamente uma grandeza impossível de controlar. Graças a Deus. É bom que assim se deixe estar. São, ou não as coisas que não controlamos aquelas de que mais gostamos e por que mais suspiramos, rezamos e apelamos? São, ou não as coisas que queremos perceber e não podemos, que tentamos ver e não conseguimos, aquelas que na verdade mais tememos e menos entendemos? É preciso coragem para viver. É preciso audácia para viver e amar alguém com a mesma força com que se ama a própria da vida.

Importa primeiramente deixar claro que este texto não é inteiramente meu, pertence-me, pois claro, mas não o compus inteira e totalmente sozinho. Claro que fui eu que o pensei, fui eu quem o ouviu correr desenfreado no pensamento como a água do rio corre da montanha para o mar, serpenteando alegremente por entre pedregulhos, pedras e pedrinhas mais pequenas, tremelicando por baixo dos ramos das árvores que nas margens se encostam e se deixam ficar assim para a ouvir e admirar, para escutar todas as histórias que ela traga para contar. Certo é que, para conseguir entrar “nisto”, contei de facto com o preciosíssimo contributo de quem me lê, de quem me fala e de outros que nem por isso, mas que, mesmo assim, de imediato se dispuseram a ajudar, num gesto puro e genuíno, que me deixou tremendamente comovido. Ou seja, resumindo e baralhando, sem a vossa ajuda não valeria de todo a pena perder sequer um fugaz fragmento de tempo (esse bem, essa relíquia, esse material quase celeste e divino que se transforma num raro e incrível ornamento preciso e precioso da existência e que parece, é isso, parece mesmo conhecer apenas um sentido, o da aparentemente inevitável finitude) a tentar fazer o que quer que fosse, fosse de que forma fosse.

Ora, é precisamente no ser que reside o possível centro de interesse de alguma coisa possivelmente interessante que possa estar para sair daqui. O que é. O que foi. O que devia ter sido. Ah e claro, o que não volta ser. Seja como for, não foi, não houve, e bem que devia ter havido, existido, sido. Oh, se devia.

Voltemos, então, a Junho e ao seu princípio, ao seu começo e aos sonhos que conheço de tantos e tão poucos que não sei ao certo se mereço sequer a veleidade de desafiar algo assim, mas cá vou.

Era Junho.

Estávamos ali no seu princípio e já eles faziam os primeiros esboços das férias tão ansiadas. Afinal de contas, fora um ano bastante complicado, esquizofrénico (dizendo isto com a clara consciência da dor que o familiar significado da palavra lhe traz) mesmo. Foi, sobretudo, um ano que os revoltou, que a ele, sobretudo a ele, o tornou mais ausente, o deixou amargurado, que o vestiu de um sentimento de revolta atroz. Como revoltado, andou e tem andado este tempo, o tempo que o viu ficar doente até ao mais profundo recanto da sua existência, que tanta tormenta tem sofrido, tormentas essas tantas vezes sem qualquer sentido.

E se ele esteve doente… Não foi uma constipação, nem tão pouco um desarranjo intestinal, nada disso. Esse tipo de coisas nem chegam bem a ser doenças. São mais maleitas. Incómodos. Transtornos. Chatices. Coisas que vão e vêm com a mesma facilidade com que vai e vem o vento, com que vai e vem o alento e o sofrimento, com que chega e parte o sumo mais puro espremido da incauta árvore do pensamento. Sabem, um homem envergonha-se quando lhe faltam as pernas, as palavras, as ideias e outras capacidades que tais. Envergonha-o a incapacidade bem maior do que a dor física que o atormenta e entorpece, irrita-o a profunda e inaceitável inoperância, a falência absurda de partes que até então sempre, ou quase sempre o assistiram, que sempre, ou quase sempre, ou muitas vezes ali estiveram para o ajudar a fazer-se mais homem, para fazer dele o homem que é, o homem que sempre foi. É natural que se envergonhe, pois claro. É natural que deixe até, momentaneamente, de acreditar que continua a ser o mesmo homem, que foi, que era, que costumava achar ser.

– Infelizmente as notícias não são as melhores. Devo dizer-lhe, meu caro, que lamentavelmente nada pudemos fazer para que o senhor continuasse a ser quem era até então. Posso assegurar-lhe que teve a atenção máxima de toda a equipa, que na verdade foi inexcedível, mas, olhe, vai ter de habituar-se à ideia de que daqui para a frente terá de aprender a viver a sua vida de outra forma, como o homem que não era e que terá de conhecer.

– Ora essa, doutor, não precisa de me justificar o que quer que for. Asseguro-lhe que cá me arranjarei.

Pouca, ou nada sabe quem acredite que um(a) homem/mulher não muda o seu comportamento, a sua atitude, o seu pensar, o seu andar, a forma como come, como bebe, como dorme, ou como se despe e faz amor com quem ama, depois de passar por uma experiência traumática, qualquer que seja a natureza da mesma. Não me restam quaisquer dúvidas quanto a esse facto. Tudo muda e na verdade… Mudou e acrescentou à vida coisas que, com grande dose de probabilidade, nunca lhe haviam sequer visitado o pensamento, mas não era altura para estar com pensamentos tristes e conformados, estava ali o Verão caramba!

Tudo o que era e tinha sido menos bom, para não dizer muito mau, tinha de ser devidamente arrumado no seu sítio, no seu cabide. Era tempo – isso sim – de viajar, de passear, de levar os esqueletos (o seu e o dela) a conhecer sítios lindos, mágicos, imaginados e escolhidos com a comunhão e concordância feliz da única companhia que queria e sonhava ter nessa viagem, a dela, pois claro. Era tempo de oferecer, de oferecerem à própria vida um novo rumo. Até mesmo ela precisa de oferendas feitas de quando em vez. Uma espécie de compensação retardada por todas as provações a que a submetemos.

Foi com esse espírito que se fizeram ao caminho, carregando no corpo a felicidade provocada pela sensação de que estavam a preparar-se para o embarque animado num princípio de férias perfeito, ou pelo menos julgavam eles que estavam. Mais do que isso, sonhavam-no com uma incomparável e saborosa ternura que os fazia sorrir até em sonhos. Sonhavam-no com aquele desejo tão próprio do amor que para sempre dura, daquela forma tão pura e tão absolutamente convincente e inquestionável que encanta e embevece os olhos de quem olha, que são diferentes dos olhos de quem vê.

Sonhavam-no com aquela parvoíce encantadora que é atribuída aos devotos do amor, que não se esgota, como não se esgota a água que corre no ribeiro mesmo atrás da casa e que treme desconfiada, quando nela entramos, pé ante pé, para não custar tanto. Como não se esgota o encanto do vento a fazer baloiçar os ramos verdes no verdejante prado coberto por centenas de árvores de frutos, guardadas por cercas e folhas caídas no chão, perdendo-se e desvanecendo-se da vista e vagueando pelas encostas recortadas das traseiras da quinta velha.

Definiram a data da partida. Concordaram de imediato que só poderiam fazer esta viagem de carro. Afinal de contas, continua a ser o meio de transporte que mais gostam de usar juntos. Ele conduz e ela vai ali, mesmo a seu lado, com aquela graciosidade incomparável que o deleita, que o embevece, que o apaixona e o faz escutar cada respiração, perceber cada sorriso, cada suspiro, cada gesto, cada toque. É de um carinho e de uma dedicação como ele nunca encontrou em momento algum da vida que leva já alguns anos. Prende-o à sua doçura, com a simplicidade do sorriso que lhe dá de barato e com a felicidade que lhe serve numa bandeja de prata trabalhada e desenhada por mãos de artista. Pura.

Sul de Espanha. É essa a decisão.

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Traçam a rota com regozijo e alegria e vão imaginando os locais por onde fazem ideias de passar. Espreitam-nos na net para perceberem ao que vão, o que vão encontrar, o que vão ver, mas não prestam, na verdade, muita atenção. Afinal de contas, vem lá o Verão e o Verão tem sempre o condão de nos aquecer o coração. Não?

Lá chega a semana que antecede a semana das férias. Ele está excitado, entusiasmado e até ligeiramente ansioso. Tem dormido menos, sonhado mais, mas não está cansado, nada disso, sente-se como um tigre que atravessa vagarosamente a selva bem no auge de toda a sua corpulência e animalidade, sabendo-se quase indestrutível, o tigre, não ele. Ela está feliz, mesmo feliz. Ansiosa por ver as praias de pedra escura, as estradas intermináveis e as paisagens áridas que caracterizam a Extremadura espanhola, tão diferente, tão grande e imponente. Depois há o Tinto de Verano, as tapas, a paella e os espanhóis.

De tão feliz que está começa a fazer a mala com uma semana – mais dia, menos dia – de antecedência. A mala para os dois. As malas. Ele, como sempre, espera até ao último dia, até à véspera, onde regra geral também não consegue dormir lá grande coisa.

A primeira semana de Verão trás pouco calor e as seguintes trazem mais do mesmo e mais ainda. Vento. Trazem vento, muito vento, fresco, acompanhado de temperaturas que em nada dignificam o seu “senhor”. Não tem problema nenhum. Em Espanha, vai estar bem melhor, pensam em conjunto, sem tocarem sequer no assunto.

Damos um salto mais alto e já estamos na manhã da partida. Está sol e a temperatura parece meio perdida. Já sabem por onde vão. Já viram a estrada, mas antes, antes de cruzarem a linha que define a mudança de língua, param em Elvas. Alentejo quente e bom.

Nas ruas do centro histórico desta histórica cidade, existem reguladores de frescura, que é como quem diz, pequenos regadores, ou mangueiras, ou chuveiros, que têm como significado de existência a nobre missão de tornar menos infernal a vida de quem ali vive, durante os meses de Verão, naquela espécie de forno a lenha gigante, que tem a agravante de estar já longe da água do mar. Em Elvas, tomam o segundo pequeno-almoço. Hábito bom este das viagens desta estação. Comes em casa e, antes de mudares de língua, dás à mesma um último vislumbre dos sabores que conhece tão bem.

Assim, acabam de comer e seguem viagem. Ainda lhes falta mais de metade do caminho. Felicidade que transborda para lá das quatro portas, dos seis vidros, dos quatro pneus, das malas e sacos e mochilas que seguem deslizando pelo asfalto no Opel Corsa valente que está feliz e contente por estar a passear. Um carro também gosta destas coisas, de se sentir útil, de permitir que a sua utilidade e que o seu significado de existência, andar e transportar, seja o veículo que faz crescer estes dois num amor que se respira para lá dos seus 55 cavalos e 1000 cc.

Entram em Espanha e logo começam a sentir o ar quente e seco do Verão do país hermano. Até o Opel repara. Pudera, faz um calor respeitável e a estrada é interminável, mas bonita.

Vão direitos a Córdoba! Quase 600 km em oito horas.

Opel Corsa do caraças!

(texto publicado no site: http://www.reportersombra.com)