Cenas do meu casamento

Cenas do meu casamento

Tenho como missão tentar transmitir-vos alguma coisa que seja por si só minimamente entendível e desejavelmente palpável, encarregando-me assim de vos mostrar, da forma mais pura que conheço, um pouco daquilo que por estes dias me invade alegremente a alma. E a alma essa vai-se sentindo absoluta e estrondosamente radiante, com tudo aquilo que lhe vai sucedendo e sido oferecido com a delicadeza de sonhos em xailes de seda, sorrateiramente coberta pela permissividade atenta e benévola dos olhos gigantes do Criador que as guarda.
Não nos conhecemos assim há tanto tempo… embora pareça de facto que ela tenha sido pensada e amadurecida ao longo da sua vida para, algures pelo obstinado caminho, acabar por me encontrar por ali perdido, no destroçado deserto que compunha o carreiro desfeito das vidas de cada um de nós, e fazer aquilo que fez e faz por mim e para mim, que é, um pouco de quase Tudo.
Pode um homem com os tais dois dedo sde testa não casar com alguém assim? Claro que pode, mas seria tremendamente estúpido se não o fizesse.
Voltando ao caminho, o tal que se faz caminhando.
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Creio mesmo que comecei a conhecê-la somente depois de ela ter entrado, à força, na violência tremenda de uma tormenta brutal, hedionda, com a altura fantasmagórica de um gigantesco prédio de 1000 andares, que ensombra com a sua majestática imponência a existência de tudo o que inadvertivamente se atreve a rodeá-lo e ladeá-lo. Bem sei que não existe um prédio de 1000 andares, mas as palavras permitem-me pensar, dizer e acreditar que sim, pelo menos aqui, nesta história, que escrevo e dobro à minha caprichosa e apaixonada vontade.
Até mesmo Sua Majestadade, o Astro dos astros, se vê obrigado a rondá-lo para conseguir dar luz a alguém.
Foi vítima de uma perda irreparável. Sovada brutalmente e posteriormente embrutecida por uma queda absurda e desamparada desde o alto desse mesmo prédio, que de tão grande que era se desmanchou como se fosse feito de papel e nao de aço frio e morto. Não lhe resistiu e tombou por ali abaixo, caindo atrás dela.
Precipitou-se num amontoado sem forma, um remoínho de vidro, betão e aço amassado numa espécie de papel de embrulho desprezado e amachucado com o gosto com que se amachuca o papel de embrulho desprezado e amassado. Um amontado de uma altura bestial e que se destroça inadvertidamente sobre os minúsculos homenzinhos que lá em baixo fogem por onde podem, aterrados, incrédulos ao verem o descontrolo físico do gigante, com o comprimento de um milhão de intermináveis autoestradas, de montanhas encadeadas, de encostas escarpadas.
Sim, creio mesmo que foi por aí que a conheci.
Desde então que me coube e que me vai cabendo a difícil mas absolutamente mágica e apaixonante missão de a fazer crer que a vida era e é aqui, aqui mesmo, no chão irregular e calcetado dos nossos dias; na passadeira estendida que é a estrada encurvada e marreca de uma vida que se quer longa, forte, perene e sempre em conjunto, edificando-se na suficiente insuficiência da imperfeição de ambos que, trabalhada, lapidada, aceite e compreendida, daria e dará já dando, sem dúvida, uma história com páginas a menos e capítulos sempre em falta. Sempre em falta.
Aos 31 anos, vivo com Ela (refiro-me referir-me-ei sempre a Ela assim, com um maiúsculo e pomposo E, dos grandes e em bold, claro, porque apesar do seu adorável metro e pouco mais de meio de altura, a grandeza desta mulher é avassaldora e de uma envolvência e viciação que são absolutamente intraduzíveis até para quem escreve tanto assim e se julga capaz de dizer tudo com o aparentemente simples exercício de juntar letras para fazer palavras e palavras para fazer frases). Juntos há três anos.
Tinha ela 26 quando começou lentamente a erguer-se do chão. Espezinhada. Suja. De rastos. Com a roupa rasgada e escortinhada.
Aos 28 chega agora à idade com que se vai casar. Com ele. Comigo. Com tudo o que isso alegre e tristemente significa. Com uma vontade inderrubável e que carece de qualquer explicação ou justificação que não se encerre na simplicidade do amor que sentem um pelo outro, e que anseiam ver consumado e consubstanciado perante os olhos dos familiares e amigos que se vão juntar para os ver a fazê-lo, do único modo que creio ser possível fazê-lo. Perante Deus, perante a fé, perante a certeza de que o Homem, mesmo perante toda a sua própria e incomparável grandeza não quebrará os votos jurados e entregues ao Criador, que se encarregará de zelar pelos mesmos, os votos, que do resto tratamos e cuidamos nós. Contudo, porque a vida dos outros e as suas decisões me merecem todo o respeito, não tenho qualquer intenção de escsrnecer e criticar a opção que toma quem se decide a casar pelo “cívil” (que civilizados nem todos somos). Muito longe disso. As coisas existem porque as pessoas as pedem e a elas aderem, porque não temos de ser todos gomos de uma mesma laranja que a árvore tem laranjas que não acabam.

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Antes de mais o que verdadeiramente me apraz dizer é que acredito que o casamento é, só pode ser (ou assim deveria ser), apenas para quem verdadeiramente quer casar, para quem se quer comprometer com a mais longa relação a que o ser humano voluntariamente se propõe e se entrega acreditando que a mesma está destinada a conhecer o firmamento e a finitude da vida que um dia chegará sem avisar. Como ela chega sempre.
Quem não quer, não acredita, não está para isso, não se sente capaz, não se identifica, não se vê a, não concorda, ou acha que não significa absoluta e rigorosamente nada, que não passa de um papel pelo qual muito se paga, vale mais esquecer a ideia e viver feliz e alegre para sempre em regime de concubinato libertino que não merece críticas ou elogios. É o que é. As pessoas são o que são, como são e como querem ser. Penso assim, que pau que nasce tordo muito dificilmente se endireita. Ou seja, quem casa sem vontade muito dificilmente encontrará um dia a desejada e almejada felicidade. Em vez disso, castra-se a liberdade e proclama-se um futuro rodeado de tristeza ou mesmo com poucas hipóteses de o chegar sequer a ser.

E assim se muda a Estação

Sou do Verão e para o Verão. Do calor e para o calor, mesmo que isso signifique que passe os dias a transpirar das mãos como se tivesse panos amarelos a revestirem-me as patorras. Sou do sol, do mar, dos rios, das árvores com fruta, das ondas de calor no asfalto, do olhar interminável para o sol que se põe para lá deste ou daquele planalto. Das noites quentes. Dos passeios a pé, de carro, ou noutro transporte qualquer. Da Lua cheia como um balão que se larga para o ver subir alto, bem alto, mais alto, lá longe nos céus deste mundo. E por isso, por tudo isso e tanto mais, casar a 4 de Julho vai ser um princípio de Verão verdadeiramente inolvidável.

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Tenho 31 anos e estou irremediavelmente ansioso por casar contigo. Por poder usar, pela primeira vez na vida, um anel no dedo, grande, de ouro, simbólico, representativo da vontade que partilhamos, que me identifica como um homem comprometido com uma mulher a quem jurei amor eterno. Estou ansioso por garantir que vou ser teu para sempre, para a eternidade, pela vida fora e por ela adentro. Com todas as doçuras e agruras que isso implica e vai implicar. Mas, sobretudo, com uma inabalável certeza de que este é o caminho que quero fazer, descalço, se assim tiver de ser.

Quanto a nós, não se pode dizer que é uma daquelas histórias lindas e poeticamente idílicas, pintada a oléo sobre tela, numa abundância de amor interminável meu e dela, começada na pureza abundante e ainda virgem da infância.

Nem tão pouco uma promessa de amor eterno tão própria da adolescência ou até mesmo da saudosa meninice que, já ligeiramente distante e afastada, poderia tê-los juntado mas… não, também não, também não foi isso.
Há simplesmente um amor bem próprio de quem já sofreu (e muito) por amor, com o amor, pelo amor, a favor e contra ele, mas que continua a acreditar que só apoiando-se nele se pode efectivamente viver uma vida em plenitude e conseguir, no fundo, dar-lhe sentido, dar-lhe significado, dar-lhe razão e justificação para continuar a querer viver a vida bem vivida. Então pergunto: De que serve a vida sem o amor de alguém? De que vale a vida sem a possibilidade e o desafio de se construir um caminho com alguém que nos queira tanto como nós a/o queremos de volta? Não sei, mas deve andar próximo de não servir para coisa absolutamente nenhuma.

O objectivo deste texto não foi e não é, de todo, escrever mais um tratado sobre o noivado, ou um decreto sobre o matrimónio, nada disso, de coisas dessas estão o mundo e a Internet já cheios e com pouca paciência para mais devaneios.
Cheio de Manéis e Marias capazes, de muitas raparigas e rapazes, que se procuram sem falhas, sem deméritos, sem defeitos, com preceitos e despeitos e cheios de jeitos para fazer o que ainda não foi feito. Perfeito.
O que verdadeiramente pretendi fazer foi, de algum modo, explicar-vos aquilo que sente um tipo com 31 anos que se prepara para casar com uma mulher absolutamente maravilhosa, incrível, filha de Deuses talvez, igual a nenhuma outra, que gosta tanto ou mais dele do que ele gosta dela e que não se cansa de o dizer, de o mostrar, de o repetir, sem nunca se esgotar na doçura das palavras.

Devia ser assim tão simples a beleza bela e adorável de um acto tão simbólico e prazeroso como é o casamento. Mas não é. Não o é muitas vezes. Não é quando há doenças. Não o é quando há desavenças. Não o é quando há mentira e não é quando a própria alma já não se admira.
Amar é muitas vezes difícil porque é díficil gostar mais de alguém do que de nós próprios.
É difícil ganhar uma superior vontade de oferecer ao outro e não pensar em si, nele, em nós, no satisfazer da individual pretensão egoísta do próprio umbigo ao invés de pensar primeiramente no do/da companheiro(a) e nas suas necessidades, mimos, exigências e pecaminosos prazeres, lugares tão comuns do amor puro entre duas pessoas.
Pois é.

Vou casar e não podia estar mais feliz.
Vou casar no dia da Liberdade.
Vou casar e não foi porque Deus quis.
Vou casar inundado de felicidade.
Vou casar e os bebés não vêm de Paris.
Vou casar sabendo que vida é a mais linda cidade.

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Vamos casar sim e vamos ter meias no chão, porcaria no fogão e molas soltas no colchão.
Vamos ter a mesa da sala desarrumada, a loiça mal lavada, alguma roupa estragada, tingida, debotada, o frigorífico vazio, noites de calor e de frio, tardes de sol e fastio, discussões e desculpas, e tudo o que temos direito.
Toda a gente sabe que nenhum ser humano é perfeito por isso não o será também o casamento.
Mas acima de tudo vamos casar, sabendo que um tem o nome do outro a bater leve, forte e ciclicamente no peito, naquele delicado jeito de bater que os corações dos amantes encontram.
Não há outra forma de viver o amor que não com a totalidade das forças, com a plenitude da coragem e do arrojo, com a consciência por vezes inconsciente de que na verdade somos bem mais do que um bocadinho de gente.
Porque também há quem nem sequer tente e invente que no fundo todo o amor se faz da vontade da gente.
Sim, faz. Mas faz-se sobretudo de sentir, de pensar no que se sente e de viver, viver tão intensamente que não chega a ser preciso fingir o amor que deveras se sente.
Porque também será sempre, como disse o poeta, um contentamento descontente, uma ferida que dói, e não se sente.
Será chuva? Será gente? Gente não é, certamente, e a chuva não bate assim.
E falta já tão pouco para que se case a Ana com o Martim e o Martim com a Ana. Que um amor assim raramente se engana!

O estranho caso do Verão de 2014

O estranho caso do Verão de 2014

O problema começa exactamente na existência diáfana das manhãs frias de Verão. Ora, desta forma, começa logo tudo mal. As coisas têm de ser postas nos seus devidos lugares e as manhãs frias não pertencem de todo ao quadro matinal que se idealiza para a estação referida. São essas manhãs, as que aparentemente se esquecem de levar pela mão o Sol que se quer quente, que aqueça a gente, que se quer quente, dito novamente, porque há mesmo quem tente, de forma mais, ou menos convincente, arranjar espaço suficiente para frescuras injustificadas.

Não constou em momento algum que o Sol tivesse perdido o comboio, que se tivesse esquecido das chaves em casa e tivesse voltado atrás, para se assegurar que tudo estaria perfeitamente fechado para o dia do seu regresso, que, curiosamente, calha em ser precisamente o dia em que me sentei para começar a escrever sobre a estação do Sol. O dia que marca oficialmente o final do Verão. Porém, que não se pense que tamanha empreitada se consegue resolver em apenas um dia, ou melhor, em apenas uma sentada em frente ao teclado.

Agora vão ter de me desculpar, mas não resisto mais. Tenho mesmo de fazer um esforço Hercúleo a fim de tentar compreender toda e qualquer (i)lógica explicação que possa residir por de trás daquilo que fez deste um Verão absolutamente mi-se-rá-vel. Parece haver uma espécie de ausência de princípio e, sobretudo, uma inexplicável incoerência naquilo a que tão frequentemente chamamos “Os desígnios de S. Pedro”. O que não se percebe é, principalmente, a razão pela qual se chega mesmo a colher a leve e estranha sensação de que se está na presença de um caso de absoluta má vontade. No entanto, talvez esteja redondamente enganado e não se trate de nada mais que pura e simplesmente um caso paradigmático de azar, vontade divina e muito mau tempo.

Estávamos no princípio de Junho.

Ele sabe e sente e ouve e promete e mente. Mente pois. Diria mesmo mais, diria que não tem vergonha nenhuma naquela cara e se dispõe a mentir com quantos são os dentes que tem e mesmo afónico, rouco, com a voz comida pelo orvalho fresco da hora a que se ergue para afinal não fazer rigorosamente nada. Mesmo aí e durante os três meses da sua permanência anual entre nós, não deixa de tentar a mentira e o engano em modo supersónico, disferidos numa assustadora e desavergonhada cadência que embalada e hipnotiza os que por ele esperam.

Está tudo a mudar e o tempo, esse, é e será eternamente uma grandeza impossível de controlar. Graças a Deus. É bom que assim se deixe estar. São, ou não as coisas que não controlamos aquelas de que mais gostamos e por que mais suspiramos, rezamos e apelamos? São, ou não as coisas que queremos perceber e não podemos, que tentamos ver e não conseguimos, aquelas que na verdade mais tememos e menos entendemos? É preciso coragem para viver. É preciso audácia para viver e amar alguém com a mesma força com que se ama a própria da vida.

Importa primeiramente deixar claro que este texto não é inteiramente meu, pertence-me, pois claro, mas não o compus inteira e totalmente sozinho. Claro que fui eu que o pensei, fui eu quem o ouviu correr desenfreado no pensamento como a água do rio corre da montanha para o mar, serpenteando alegremente por entre pedregulhos, pedras e pedrinhas mais pequenas, tremelicando por baixo dos ramos das árvores que nas margens se encostam e se deixam ficar assim para a ouvir e admirar, para escutar todas as histórias que ela traga para contar. Certo é que, para conseguir entrar “nisto”, contei de facto com o preciosíssimo contributo de quem me lê, de quem me fala e de outros que nem por isso, mas que, mesmo assim, de imediato se dispuseram a ajudar, num gesto puro e genuíno, que me deixou tremendamente comovido. Ou seja, resumindo e baralhando, sem a vossa ajuda não valeria de todo a pena perder sequer um fugaz fragmento de tempo (esse bem, essa relíquia, esse material quase celeste e divino que se transforma num raro e incrível ornamento preciso e precioso da existência e que parece, é isso, parece mesmo conhecer apenas um sentido, o da aparentemente inevitável finitude) a tentar fazer o que quer que fosse, fosse de que forma fosse.

Ora, é precisamente no ser que reside o possível centro de interesse de alguma coisa possivelmente interessante que possa estar para sair daqui. O que é. O que foi. O que devia ter sido. Ah e claro, o que não volta ser. Seja como for, não foi, não houve, e bem que devia ter havido, existido, sido. Oh, se devia.

Voltemos, então, a Junho e ao seu princípio, ao seu começo e aos sonhos que conheço de tantos e tão poucos que não sei ao certo se mereço sequer a veleidade de desafiar algo assim, mas cá vou.

Era Junho.

Estávamos ali no seu princípio e já eles faziam os primeiros esboços das férias tão ansiadas. Afinal de contas, fora um ano bastante complicado, esquizofrénico (dizendo isto com a clara consciência da dor que o familiar significado da palavra lhe traz) mesmo. Foi, sobretudo, um ano que os revoltou, que a ele, sobretudo a ele, o tornou mais ausente, o deixou amargurado, que o vestiu de um sentimento de revolta atroz. Como revoltado, andou e tem andado este tempo, o tempo que o viu ficar doente até ao mais profundo recanto da sua existência, que tanta tormenta tem sofrido, tormentas essas tantas vezes sem qualquer sentido.

E se ele esteve doente… Não foi uma constipação, nem tão pouco um desarranjo intestinal, nada disso. Esse tipo de coisas nem chegam bem a ser doenças. São mais maleitas. Incómodos. Transtornos. Chatices. Coisas que vão e vêm com a mesma facilidade com que vai e vem o vento, com que vai e vem o alento e o sofrimento, com que chega e parte o sumo mais puro espremido da incauta árvore do pensamento. Sabem, um homem envergonha-se quando lhe faltam as pernas, as palavras, as ideias e outras capacidades que tais. Envergonha-o a incapacidade bem maior do que a dor física que o atormenta e entorpece, irrita-o a profunda e inaceitável inoperância, a falência absurda de partes que até então sempre, ou quase sempre o assistiram, que sempre, ou quase sempre, ou muitas vezes ali estiveram para o ajudar a fazer-se mais homem, para fazer dele o homem que é, o homem que sempre foi. É natural que se envergonhe, pois claro. É natural que deixe até, momentaneamente, de acreditar que continua a ser o mesmo homem, que foi, que era, que costumava achar ser.

– Infelizmente as notícias não são as melhores. Devo dizer-lhe, meu caro, que lamentavelmente nada pudemos fazer para que o senhor continuasse a ser quem era até então. Posso assegurar-lhe que teve a atenção máxima de toda a equipa, que na verdade foi inexcedível, mas, olhe, vai ter de habituar-se à ideia de que daqui para a frente terá de aprender a viver a sua vida de outra forma, como o homem que não era e que terá de conhecer.

– Ora essa, doutor, não precisa de me justificar o que quer que for. Asseguro-lhe que cá me arranjarei.

Pouca, ou nada sabe quem acredite que um(a) homem/mulher não muda o seu comportamento, a sua atitude, o seu pensar, o seu andar, a forma como come, como bebe, como dorme, ou como se despe e faz amor com quem ama, depois de passar por uma experiência traumática, qualquer que seja a natureza da mesma. Não me restam quaisquer dúvidas quanto a esse facto. Tudo muda e na verdade… Mudou e acrescentou à vida coisas que, com grande dose de probabilidade, nunca lhe haviam sequer visitado o pensamento, mas não era altura para estar com pensamentos tristes e conformados, estava ali o Verão caramba!

Tudo o que era e tinha sido menos bom, para não dizer muito mau, tinha de ser devidamente arrumado no seu sítio, no seu cabide. Era tempo – isso sim – de viajar, de passear, de levar os esqueletos (o seu e o dela) a conhecer sítios lindos, mágicos, imaginados e escolhidos com a comunhão e concordância feliz da única companhia que queria e sonhava ter nessa viagem, a dela, pois claro. Era tempo de oferecer, de oferecerem à própria vida um novo rumo. Até mesmo ela precisa de oferendas feitas de quando em vez. Uma espécie de compensação retardada por todas as provações a que a submetemos.

Foi com esse espírito que se fizeram ao caminho, carregando no corpo a felicidade provocada pela sensação de que estavam a preparar-se para o embarque animado num princípio de férias perfeito, ou pelo menos julgavam eles que estavam. Mais do que isso, sonhavam-no com uma incomparável e saborosa ternura que os fazia sorrir até em sonhos. Sonhavam-no com aquele desejo tão próprio do amor que para sempre dura, daquela forma tão pura e tão absolutamente convincente e inquestionável que encanta e embevece os olhos de quem olha, que são diferentes dos olhos de quem vê.

Sonhavam-no com aquela parvoíce encantadora que é atribuída aos devotos do amor, que não se esgota, como não se esgota a água que corre no ribeiro mesmo atrás da casa e que treme desconfiada, quando nela entramos, pé ante pé, para não custar tanto. Como não se esgota o encanto do vento a fazer baloiçar os ramos verdes no verdejante prado coberto por centenas de árvores de frutos, guardadas por cercas e folhas caídas no chão, perdendo-se e desvanecendo-se da vista e vagueando pelas encostas recortadas das traseiras da quinta velha.

Definiram a data da partida. Concordaram de imediato que só poderiam fazer esta viagem de carro. Afinal de contas, continua a ser o meio de transporte que mais gostam de usar juntos. Ele conduz e ela vai ali, mesmo a seu lado, com aquela graciosidade incomparável que o deleita, que o embevece, que o apaixona e o faz escutar cada respiração, perceber cada sorriso, cada suspiro, cada gesto, cada toque. É de um carinho e de uma dedicação como ele nunca encontrou em momento algum da vida que leva já alguns anos. Prende-o à sua doçura, com a simplicidade do sorriso que lhe dá de barato e com a felicidade que lhe serve numa bandeja de prata trabalhada e desenhada por mãos de artista. Pura.

Sul de Espanha. É essa a decisão.

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Traçam a rota com regozijo e alegria e vão imaginando os locais por onde fazem ideias de passar. Espreitam-nos na net para perceberem ao que vão, o que vão encontrar, o que vão ver, mas não prestam, na verdade, muita atenção. Afinal de contas, vem lá o Verão e o Verão tem sempre o condão de nos aquecer o coração. Não?

Lá chega a semana que antecede a semana das férias. Ele está excitado, entusiasmado e até ligeiramente ansioso. Tem dormido menos, sonhado mais, mas não está cansado, nada disso, sente-se como um tigre que atravessa vagarosamente a selva bem no auge de toda a sua corpulência e animalidade, sabendo-se quase indestrutível, o tigre, não ele. Ela está feliz, mesmo feliz. Ansiosa por ver as praias de pedra escura, as estradas intermináveis e as paisagens áridas que caracterizam a Extremadura espanhola, tão diferente, tão grande e imponente. Depois há o Tinto de Verano, as tapas, a paella e os espanhóis.

De tão feliz que está começa a fazer a mala com uma semana – mais dia, menos dia – de antecedência. A mala para os dois. As malas. Ele, como sempre, espera até ao último dia, até à véspera, onde regra geral também não consegue dormir lá grande coisa.

A primeira semana de Verão trás pouco calor e as seguintes trazem mais do mesmo e mais ainda. Vento. Trazem vento, muito vento, fresco, acompanhado de temperaturas que em nada dignificam o seu “senhor”. Não tem problema nenhum. Em Espanha, vai estar bem melhor, pensam em conjunto, sem tocarem sequer no assunto.

Damos um salto mais alto e já estamos na manhã da partida. Está sol e a temperatura parece meio perdida. Já sabem por onde vão. Já viram a estrada, mas antes, antes de cruzarem a linha que define a mudança de língua, param em Elvas. Alentejo quente e bom.

Nas ruas do centro histórico desta histórica cidade, existem reguladores de frescura, que é como quem diz, pequenos regadores, ou mangueiras, ou chuveiros, que têm como significado de existência a nobre missão de tornar menos infernal a vida de quem ali vive, durante os meses de Verão, naquela espécie de forno a lenha gigante, que tem a agravante de estar já longe da água do mar. Em Elvas, tomam o segundo pequeno-almoço. Hábito bom este das viagens desta estação. Comes em casa e, antes de mudares de língua, dás à mesma um último vislumbre dos sabores que conhece tão bem.

Assim, acabam de comer e seguem viagem. Ainda lhes falta mais de metade do caminho. Felicidade que transborda para lá das quatro portas, dos seis vidros, dos quatro pneus, das malas e sacos e mochilas que seguem deslizando pelo asfalto no Opel Corsa valente que está feliz e contente por estar a passear. Um carro também gosta destas coisas, de se sentir útil, de permitir que a sua utilidade e que o seu significado de existência, andar e transportar, seja o veículo que faz crescer estes dois num amor que se respira para lá dos seus 55 cavalos e 1000 cc.

Entram em Espanha e logo começam a sentir o ar quente e seco do Verão do país hermano. Até o Opel repara. Pudera, faz um calor respeitável e a estrada é interminável, mas bonita.

Vão direitos a Córdoba! Quase 600 km em oito horas.

Opel Corsa do caraças!

(texto publicado no site: http://www.reportersombra.com)

Eu sei, e tu?

Admito a completa quietude que me respeita, porque espero dela algo mais e maior que o descanso por si só. 

Espero da quietude a sabedoria e a ela me curvo por larga simpatia.

Enebriado e acossado pelo bafo aquecido que arfa nas noites de verão, (ou será pelo bourbon envelhecido em casco de carvalho?) envolvo os pés no calor arrefecido das meias, que pela noite dentro me afagam terna e carinhosamente os dedos, esperando por novas directrizes e indicações. 
Digo-lhes nada, dou-lhes menos ainda.

Remeto-me à leve e quase burguesa sensação de presunção de sabedoria que me invade, nesta candura diáfana tão própria da madrugada e deixo-me estar sossegado, só assim, quieto, só a saber. Como eu sei. 
E, senhores, há tanto e é tanto o quanto eu quero ser e saber!
Quero. 
Mas quero que seja simplesmente com a vontade única de ser eu, de ser assim, de ser quem sou.
Costumava perder-me em gestos de carinho, ternura, meiguice e preocupação verdadeira para com a grande maioria daqueles que me circundavam nos dias e nas noites. Confundi noções, sensações, espaços e opções. Pensei coisas e cai da escada aos trambolhões.
Troquei as voltas e voltas das voltas já pouco redondas e olhei, acordei, para a profunda e (su)real dimensão dos mesmos. Zero!
Gente estranha que se entranha como um vírus, gente esquisita que me irrita e que se enrosca nas paredes da  necessidade e que ali espera e te ladeia, tão somente para te ouvir pedir por favor, para te vir dar de beber à dor, para te ouvir implorar em surdina.
Continuo por aqui a deixar-me ser e a saber, que é algo que tão bem faço. 
Sei o que eles não sabem, e quando sabemos, então aí sentimos e viramos costas à podridão, à pequenez, à completa insensatez.
Será que não vês os porquês ou pura e simplesmente passas e não te arrependes nem só uma vez?

E por pouco ou tanto assim deixei de ser para passar a ser, e meu caro, quando passas a ser para deixares de o ser mudas o paradigma e confundes quem julga que sabe da verdadeira dimensão do que está para acontecer. 
Não estás bem a ver.

Enganam-se, mas olha, deixa lá, não lhes ligues que são tolos, que de tão pouco que sabem e de tão tortos que são jamais se endireitarão. Quem tira a presa da boca do Leão? 
Não, não, não! 
Não há aqui qualquer espécie de confusão. 
Há quem faça da amizade um grande bastião ou um slogan de apresentação, preferível antes lembrar Kant que nos diz que “é no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade”. 
No fundo lidamos com bandos organizados de anormais mal educados.
Quando tiveres calçado os meus sapatos saberás por onde andei, mas nunca terás passado pela estrada que tracei!
Tem vergonha de ti mesmo, tem vergonha de abrires a boca para de forma trôpega deixares as palavras embaraçadas pelo uso que lhes dás!

Psssssttt, não vês que isso não se faz!
É preciso dizer tudo mesmo quando não há mais nada para contar. 
Isso, isso, vale mais pores-te a andar.
Eu fico. 
Do banqueiro ao escritor todos pedem por favor. 
Do padeiro ao professor com todos a coisa resulta, não há forma de contornar um pedido de desculpa.
Porque o homem ama, sente, chora, mente, finge ser constantemente uma criatura bem diferente, mas para um homem poder ser, cedo tem de perceber que a vida é muito mais, que a vida é bem maior, que não pode valer tudo para seres mais e maior!
Se não gosta, temos pena… 
Olhe,

 
que não deve doer grande coisa!