Contraste(s)

Já faltou bem mais para me ver livre de ti!

O Que Dizes Tu?!

Contaste – Diferença profunda entre coisas e pessoas; oposição.

medoAcorda.
São 9:00 e chove copiosamente. Descaradamente copiada de todos os outros dias com chuva. Contraste.
A chuva perdeu a vergonha e contrastou com a vergonha dos meus olhos amedrontados e desconfiados.
Primeira vez, não, segunda vez, assim é que é. Segunda vez e a segunda de tantas outra vezes que ainda estão para chegar. Contraste.
10h00 e vamos lá a espetar a primeira agulhinha no bracinho. Não custa. Não dói. Mas pica. Corredor e mais uns metros.
As pessoas doentes ficam mais chatas? Contrastam com a falta de paciência que reina numa sala de espera. Quem espera sempre alcança, certo?
Senha. Admissão. Espera. Paciencia. Bate bate coração. Não gosto disto, não gosto mesmo, não gosto nada desta saga não encomendada.
– Já alguma vez fez este tipo de exames?
– Com contraste? Já.
Contrasta igualmente a confiança. A tua, claro…

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O estranho caso do Verão de 2014 – 3ª e última parte

O estranho caso do Verão de 2014 – 3ª e última parte

Regressaram ao Hotel onde o próprio do sossego tinha chegado pouco tempo antes e se tinha imposto amigavelmente sobre as almas serenadas dos turistas ali hospedados. A noite, essa, havia trazido consigo uma frescura bastante saborosa e salutar naquelas paragens e tinha trazido também mais alguns carros com o P na matrícula… o que provocou mais um esgar cúmplice na boca deles.

Ele está ligeiramente preocupado, mas o que o faz preocupar-se verdadeiramente é a preocupação de tudo fazer para não deixar transparecer a preocupação que realmente o incomoda, a fim de não a preocupar e maçar ainda mais a ela que já está, por si só, preocupada. Está até um pouco triste. Tristeza essa que, aliada à preocupação, transformam a tarefa de disfarçar tudo isso numa luta interessante.

Têm tido azar com as viagens que têm feito, ela em particular, pobrezinha, parece talhada para as maleitas que constantemente a aborrecem a cada nova saída do país. É verdadeiramente inexplicável, mas, porque há sempre um mas em cada contrariedade com que a sorte tão amável e docemente os brinda, quando algo assim acontece, fora do país, entregues que estão aos cuidados e mais que tudo ao amor que têm um pelo outro, é a relação que se fortalece, mas, mais do que isso, tornam-se praticamente devotos um do outro. É assim que é e não existe por certo uma explicação científica que consiga resumir melhor o que acabo de dizer. É assim que é, ponto. E pronto.

Ela está exausta do esforço homérico que fez durante toda a viagem até Córdoba e particularmente do esforço levado a cabo neste final de dia. Ainda assim, assoma-se-lhe uma presença de espírito notável e lembra que têm de procurar pousio para a noite seguinte que será já em Granada, no sopé da Sierra Nevada. Por enquanto, por ali, o Verão atinge o seu esplendor e o Outono parece de facto ainda uma miragem agradável, mas de palpação inexistente. Fizeram a reserva, lavaram os dentes e ela adormeceu extenuada nem cinco minutos passados. Ele ficou acordado, como sempre.

Acordaram cedo, pelas 08h00. Tomaram o pequeno-almoço, arrumaram as coisas e foram novamente à parte velha da cidade, para a encararem com os olhos ainda semicerrados pela luz do sol já quente do meio-dia, embora protegidos pelos óculos, mas bastante mais atentos aos pormenores que só a luz nos mostra. De facto, Córdoba tem muito para ver, seja de noite ou de dia. Tiram fotografias, várias, mas não exageram. Querem dar ao cérebro a missão de guardar o que os olhos servilmente lhe entregam. Dão as mãos e regressam ao carro. Preparam-se alegremente para mais duzentos quilómetros de alcatrão distribuído por um conjunto de estradas que nenhum dos três conhece, fez, ou sequer ouviu falar, mas não se encolhem, qual quê. Os dois que falam e pensam sacam do mapa e tentam perceber por onde vão, o terceiro limita-se a ir, a obedecer, está ali para os levar, para responder de forma mais ou menos eficaz aos intentos do dono, seja com maior ou menor dificuldade, mas surpreende-os sempre e oferece-lhes uma fiabilidade que os descansa. Ah, Corsa do caraças!

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Ele procura rapidamente pontos de referência que se traduzirão em placas, restaurantes, áreas de serviço, pois com certeza, mas que ajudam bastante a perceber se estão a ir por onde devem e, digamos, que conferem aos viajantes um certo capital de confiança que lhes permite navegar no desconhecido de cabeça levantada e nariz arrebitado. Afinal de contas, não é todos os dias que o ser humano se testa assim, que se coloca debaixo da pressão natural de estar a conduzir tão longe de casa, tão longe das estradas de conforto, da ajuda de um amigo, em último caso, do auxílio precioso do reboque enviado pela sua seguradora.

Chegam bem e mais depressa do que julgavam, sendo que pelo caminho ainda pararam em Alcalá la Real para almoçar.

Domingo em Granada e traz-lhes uma tarde de piscina no terraço do hotel e uma noite bem mais complicada. Ela começa a sofrer bastante com as dores de garganta. Já praticamente não fala, a não ser quando os sons que vai reproduzindo para dar origem às frases se tornam impercetíveis e indecifráveis para ele. Porra para o Verão, pensa ele pela primeira vez. Percorrem as ruas da cidade em direcção ao centro, não se enganam, julgam. A sua princesa já só comunica por sons, numa linguagem que depressa se torna corrente e normal. Interrompem o caminho, porque ela apercebe-se da luta de um pequeno e jovem pardal que não consegue voar. Tenta ajudá-lo, mas ele defende-se assustado, dando-lhe uma bicada no dedo. Tentam levá-lo, ou força-lo a saltitar até uma zona com menos pernas e rodas, embora se tratasse de um jardim. Acabam por certificar-se de que está em segurança e haverão de regressar em sua procura mais tarde.

Ele tenta amorosamente adivinhar-lhe as intenções ainda que aqui e ali se enerve, porque não a consegue compreender e porque na verdade é complicado comunicar desta forma. Faz-se, claro que se faz, nem que seja com a ajuda de papel e caneta, ou do campo de texto da aplicação Notas do IPhone, mas é contranatura e isso é inegável. A noite está quente, graças a Deus, valha-lhes isso para lhes alegrar o espírito. Jantam. Aviam uma caneca de tinto de Verano cada, enquanto o diabo faz o que faz sempre ao olho e depois comem pausada e descansadamente numa praça cheia de gente, repleta de gente. Ele bebe mais outra. A vida no coração quente da Andaluzia começa depois das 20h00, com toda a certeza. Até as crianças de colo ficam na rua até depois da meia-noite, as geladarias estão abertas depois disso, vive-se e sorri-se sem fastio, bebe-se e celebra-se a amizade, a felicidade dos homens e o compadrio. Boa vida, pois com certeza. É o Verão e o quão grande e imensa é a dimensão real da sua grandeza.

No dia seguinte, arrancam cedo a caminho de Málaga. Ainda tentam visitar a Allambra, mas as filas assemelham-se a inacreditáveis lagartas que serpenteiam por entre horas e horas de espera e autocarros cheios de turistas de boné branco e meia da mesma cor.

A viagem é serena, como serenas são as paisagens e as montanhas por onde vão ziguezagueando. Deslizam por viadutos altíssimos, enormes, estradas de uma qualidade assinalável, largas, limpas, de boa visibilidade. Dirigem-se agora a Almuñecar, pequena vila balnear, de um sossego e simplicidades perturbadoras. Praia de areia escura, água morna, pouca gente, pombos na areia, estacionamento gratuito e paellas dos dois lados das ruas: resumindo, de chorar! Estendem-se ao sol em modo fotossíntese. A aquecer o sangue como fazem os crocodilos. Despedem-se da areia ainda molhados e vão esganados para a esplanada que ainda serve almoços, claro que serve almoços. Em Espanha, almoça-se e janta-se tarde e a boas horas.

Planeiam de alguma forma os próximos dias. Definem, quanto mais não seja, as paragens a fazer: o que resta da tarde vai ser na bela Málaga de Picasso e na sua Playa Malagueña, depois dali a ideia é seguir para Torremolinos (barbaridade da qual mais tarde se arrependem tremendamente em função da porcaria de sítio que encontram. Há quem goste. Eles não. Detestaram e colaram-lhe o autocolante de pior sítio de Espanha, de mãos dadas com a desagradável Isla Cristina) e passar lá a noite, no dia seguinte, fazem-se novamente ao asfalto aperaltado e rumam a Marbella e à elitista praia de Puerto Banús, o jantar será já nas ruas que fazem a histórica história de Ronda, a seguir, quando acordarem e depois de terem passeado pela frescura matinal desta cidade fortificada, seguirão directos até Tarifa! Porém, meus amigos, a estrada que liga Marbella a Ronda é… inacreditavelmente perfeita. Se há estradas que dão ao condutor de um automóvel o prazer de as percorrer, esta é uma delas, seguramente. Os olhos dele iam devorando com rigor fotográfico o espectáculo a que estavam a ser convidados a assistir, sem bilhete, sem nada mais, só com a pureza cristalina da beleza que simpaticamente os enche de cores, inclinações, rochas, árvores que se embalam como se embalam as crianças com canções, enchem-se também destas coisas os corações. O pôr-do-sol que encontram já sentados na varanda rústica do quarto onde vão passar esta noite é de ver e chorar por mais, verdadeiramente estrondoso.

Na manhã seguinte, ainda em Ronda ela está pior. Consideravelmente pior! Ele pondera seriamente a possibilidade de interromper tudo, de acabar imediatamente com a viagem para a levar para casa e consequentemente para um hospital. Tem febre e as pastilhas para a garganta não estão a servir de grande coisa.

Partem para Tarifa, o ponto mais a sul de toda península ibérica. Esperam-lhes 170 quilómetros e mais 2h30 de caminho. Ele espera, sobretudo, que ela descanse. Ela não quer perder pitada das paisagens que ele adora, dos caminhos e das coisas que se veem por essa estrada fora.

Em Tarifa, tudo os surpreende. Desde a descida pela serra onde se vê o mar e se nota lá em baixo o mar de despenteado pela escova do vento que sopra, quase ininterruptamente por estas paragens, num espectáculo que enche o horizonte de praticantes de kitesurf e windsurf.

 

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Almoçam na praia, com os olhos postos lá ao fundo, no recorte fino e escondido por entre a bruma que se adensa com o adensar do calor que o sol traz, nas montanhas do Atlas, em África. Nessa noite, vão dormir a Jeréz de la Frontera e, na noite seguinte, já se encostarão aos lençóis em Monte Gordo.

Já no Algarve português (ou assim se quer continuar a crer), as dores voltam a piorar, chegam a tempo de um arroz de lingueirão quase obsceno e de verem o céu trocar-lhes as voltas.

Começa aqui o princípio do fim do Verão de 2014.

No dia que se segue, percorrem toda a estrada nacional 125, ou seja, fazem o Algarve de costa a costa, parando apenas em Lagos para almoçar. Na outra ponta do caminho de alcatrão, que percorrem com sofreguidão, estão uns amigos, em Vila Nova de Milfontes, que os esperam para uns banhos de sol (a réstia boa do que sobrou do tempo em Espanha) ao entardecer, antes do regresso final a Lisboa. Já na praia, ela faz um esforço incrível em que ele não deixa de reparar, sobretudo, para tentar falar com os amigos, para tentar brincar com o pequeno Afonso, que, com quase 1 ano, está deliciado com a praia.

Regressam ao final da tarde e chegam a Lisboa pelas 22h00. Entram em casa e chamam um médico de imediato, daqueles que se desloca a casa de quem o chama, à antiga, qual anjo da noite. Diagnóstico: Faringite aguda com febre e antibiótico para uma semana, depois de uma semana inteira em viagem, em sofrimento, a aguentar, a aguentar, estoica e heroicamente. Estávamos em Julho e o bom tempo esfumou-se logo depois. Estávamos em Julho e daqui para a frente o céu entristeceu-se a um ritmo quase diário, como que anunciando a vinda de coisas menos boas, coisas tristes, coisas que não são de todo coisas que possam ser permitidas de acontecer, em particular nesta época do ano.

O Sol fez greve. A vida fica mais triste com o sol longe da vista. Os olhos precisam dessa luz que só o sol nos traz e logo nós, portugueses, de Portugal, habituados que estamos a ter do Sol a bondade de nos presentear quase em constância com a sua sempre alegre companhia.

O Verão deixa de o ser, quando o sol teima em não querer aparecer, quando o calor se torna numa lembrança dos anos que já não fazem senão parte do calendário sempre difuso e saudoso que vai sendo a nossa memória. O Verão não se quer frio, quase soviético, ausente, distante e sem graça. O Verão não se quer Inverno, não se quer uma estação bipolar em que de manhã está patente a sua felicidade, o seu brilho, a radiante expressão máxima da sua existência, o céu azul e o tempo quente, e à tarde chove, alaga, entristece, esfria e entorpece o descanso da alma.

No entanto, o que é certo é que o Verão deste 2014 nunca o foi na verdade. Não foi só pelo tempo, ou pela falta dele, até porque, na verdade, foi já perto do seu fim que as coisas ficaram mais claras.

Foi num dia que começou feliz. Foi num dia em que as nuvens negras se juntaram para fazer ribombar os trovões com lágrimas de incredulidade e incompreensão. Foi com uma notícia infeliz, daquelas com que o próprio fim tende a antecipar, que o fim do Verão acabou assim por se confirmar.

Com ele foram também as coisas que se acercam da incompreensão própria das tragédias pessoais, que ditam estes traumáticos e inexplicáveis finais. Na verdade, não foi só mais um Verão que passou. Na verdade, foi o fim pior de um tormento que até ao estômago nos chegou. E eles, eles lá foram, lá andaram, lá continuaram, juntos, pois claro. Não sabem já viver de outra forma. Com a triste certeza de que há mais lágrimas para chorar, mais vida para viver e como diz o Palma, enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar. Para o ano, para o ano haverá mais com certeza, ou não fosse o amor uma certa certeza.

Texto publicado em primeira mão no site: http://www.reportersombra.com 

Repórteres… na sombra… dos dias!

Repórteres… na sombra… dos dias!

Repórteres… na sombra… dos dias!

Ayrton Senna: Já foi há 20 anos

Ayrton Senna: Já foi há 20 anos

Esta história começa pelo fim, porque foi precisamente esse mesmo fim que precipitou tudo o resto. Não sei bem precisar quantos ao certo, mas foram penosos e longos os minutos que nos mantiveram colados à caixa que sempre se disse mágica. Tristeza, horror e uma inexplicável certeza de que o pior estava a acontecer, ali, em directo, na Televisão. Estávamos os 3, como era costume. A Mãe, o mano e eu. Para quê? Para ver o Senna, pois claro. Porém, desta vez, ele morreu, ali, em Ímola, numa pista que conhecia de sobeja. Não era o seu Mónaco, é verdade, mas sabia-a de cor. Já lá tinha vencido por 3 vezes e subira ao pódio noutras duas ocasiões, sendo que levava já 5 poles naquela pista nefasta. Aquele ano não estava a correr particularmente bem. Num carro que não conhecia, mas que admirava (Williams), que não reagia como ele queria, que tinha sido privado de vários equipamentos electrónicos, que mudaram por completo o comportamento do mesmo em pista. Senna tinha conquistado a pole position nos 2 primeiros GP’s do ano, mas não tinha terminado nenhuma das corridas (Brasil e Pacífico).

Num fim-de-semana que teve mais uma morte (Ratzenberger) e um acidente grave (Barrichello), Senna voltou a ser o melhor nos treinos de sexta-feira, porque no sábado, após a morte do piloto austríaco, Senna não quis treinar mais. Naquela altura víamos tudo. A primeira e a segunda sessão de treinos e depois, claro, a corrida.

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Voltando ao Domingo, àquele 1 de Maio de 1994. Almoçámos na sala, como era costume. Tabuleirinho com uma sandes e um copo de batido para cada um. A tradição da F1 era antiga. O meu tio costumava fazer as narrações na televisão e, como tal, começámos a ver assim, porque o tio estava a falar na “caixinha mágica” e nós podíamos ouvi-lo ao Domingo. Era uma alegria. Foi também dele que partiu a paixão e a admiração pelo Ayrton e a consequente e mais do que natural, chamemos-lhe, antipatia, para ser cordato, por Alain Prost, o eterno rival. O tio já não narrava as corridas, mas nós continuávamos a ver o nosso herói. Eram sempre dois Sennas nas corridas de carrinhos que fazíamos no chão do quarto, ou na rua. Até a correr, fingíamos que éramos carros de F1 e imitávamos os barulhos com a boca e, claro, éramos o Senna, ou o Mansel vá, que era um tipo simpático. Eu, mais velho, lá convencia o meu irmão a ser o Berger, que era amigo do Senna. De vez em quando, deixava-o ser o Senna, durante um bocadinho, só para ele ficar contente.

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Contudo, naquele Domingo, sentia-se na cara dele, antes de começar a corrida, que alguma coisa não estava bem. Tu conheces o teu herói. Lês-lhe os olhos e a expressão e ele estava preocupado com qualquer coisa. Talvez sentisse que algo não estava bem. Nunca tinha visto morrer ninguém. Com 10 anos, também não é suposto ver-se morrer gente, mas aconteceu naquele 1º de Maio e em directo na televisão que, pobre coitada, se foi esforçando para lidar com a situação. Lembro-me de ter percebido imediatamente que era grave, muito grave. Grave naquela forma fatal, terminal e incontornável, que a gravidade tem por característica maior. Grave daquele jeito que tira as pessoas da vida e tira a vida às pessoas.

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2 ou 3 minutos, que pareceram uma eternidade… E a televisão a mostrar… E ele que não sai do carro. “Porque é que ele não sai do carro? Mãe, porque é que ele não se mexe? Hã? Porque é que não o ajudam? O que é que se passa? Façam qualquer coisa.”De repente, já lá está gente, muita gente, tanta gente que só lhe vemos as perninhas. De repente, toda a gente sente. De repente, o corpo cede. De repente, ele foi embora. O capacete verde e amarelo tombou vagarosamente, num gesto de adeus consentido pela sua alma. Nunca tinha visto morrer ninguém na televisão, nem na televisão nem em parte alguma. Só nos filmes e nos filmes eles não morriam de verdade. Nos filmes, era sempre tudo a fingir. Isso eu já sabia, à data. Já me tinha apercebido.MM_senna6

Preparava-me para fazer 11 anos nesse Verão. Este pormenor tem alguma relevância no sentido em que com 10 anos já tens amores, paixões, ídolos. Mesmo que não percebas os amores que sentes, as paixões que desenvolves, sabes por que razão tens um ídolo, porque ele é o maior, o melhor. Assim como sabes bem qual a razão de seres de determinado clube, porque ele é o melhor, pelo menos para ti, e valha-nos esta liberdade de procurar inspiração. Senna era assim. Apaixonante. Idolatrável. Total e completamente idolatrável. De sorriso terno e maroto. Aquele punho erguido e cerrado, que trouxe tanta alegria à minha vida, à minha casa. À minha e a tantos outros milhões de casas espalhadas por esse mundo inteiro. Tinha pósteres. Carrinhos da Burago. As miniaturas. Os desenhos do capacete pendurados na parede. O capacete verde e amarelo que espreitava sempre, ou quase sempre na frente de cada curva. Depois, a chuva. A capacidade inacreditável que o homem tinha de deslizar pelas pistas alagadas, mais rápido, travando mais tarde, roçando sempre os limites que nenhum outro tinha a audácia de ousar tocar. Ayrton Senna da Silva era tudo isto e morreu dentro do “objecto” que o fez maior.

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Naquele momento, em que ainda o têm deitado no chão da curva Tamburello, em Ímola, naquele momento em que o corpo dele finalmente relaxa, sem um único osso partido, sem um arranhão, atingido “apenas” na cabeça, pelo azar, por um braço da suspensão do carro, que lhe perfurou o capacete e lhe pôs fim aos sonhos, aos objectivos, à vida. Naquele preciso momento, apercebi-me de que nada voltaria a ser como era até então. Nesse ano, acabou o amor pela F1. Nesse ano, acabaram-se os almoços de sofá aos Domingos. Nessa tarde, chorámos eu, a mãe e o mano. Depois passou, como passa sempre. Agora, 20 anos depois, continuo a não ver F1, continuo a não almoçar no sofá ao Domingo, mas continuo a não me esquecer daquele capacete. Continuo a olhar todos os dias para a miniatura do carro que o levou. Continuo a trazê-lo por perto deste jeito tão humano, que felizmente ainda vamos tendo. Neste jeito de recordar. Neste jeito de lembrar, de não esquecer e um dia, porque o Youtube assim me permite, vou mostrar ao meu filho, ou à minha filha aquela volta mágica em Donington Park, o punho erguido, a força, ou a falta dela, como quando mal se aguentou em pé para erguer o troféu da vitória em Interlagos, em 1991. São recordações com mais de 20 anos, mas que nunca se apagaram da cabeça daquele menino que, com 10 anos, viu morrer o seu herói. É disto que são feitos os grandes homens da nossa história. Da capacidade inata que têm de permanecer para sempre na nossa memória. Na nossa própria história. 20 anos depois, obrigado Ayrton Senna, por tudo o que foste para tanta gente.

(texto publicado em http://www.reportersombra.wordpress.com)

O que é para mim o 25 de Abril?

O que é para mim o 25 de Abril?

Seria normal e expectável que respondesse, logo assim, sem pensar muito: Liberdade, mas não. Julgo que mais do que Liberdade, para mim, 25 de Abril significa Poder. A conjugação absoluta do verbo que hoje se faz com um sentido prático e tecnicamente perfeito do que o mesmo significa. Eu posso, Tu podes, Ele pode, Nós podemos, Vós podeis, Eles podem tudo, se podem… Sou mais novo do que ele. Temos uma diferença de 9 anos e uns mesitos. Já o conheci, quando estava, por isso, na idade da traquinice, quando ainda não era uma memória tão vincada, mas sim uma lembrança, uma recordação seguramente inesquecível para todos os que a viveram. Pensar em 25 de Abril é, no meu caso, sempre isto: um recordar convicto das muitas e tantas histórias que fui ouvindo ano após ano, à medida que os anos iam passando por eles, não por mim. Eu sonhava e imaginava. Quando sonhas não cresces tão depressa. Muita história. Sobretudo, muita memória, daquela que fica, para sempre lá. Ao longo dos anos (meus e não dele) fui ouvindo dos “mais crescidos”, que hoje em dia os jovens não dão valor a nada. “Têm tudo de mão beijada e depois não sabem o que custa a vida, é o que é. Isto agora é uma rebaldaria… Ai se isto fosse no tempo da Ditadura… Ai aí é que eles iam ver o que era bom prá tosse. Malandros.”

De facto, talvez não tenha mesmo a capacidade de perceber, ao certo, o que significa não ser Livre. Talvez não entenda o que significa não ter nas costas a ideia de que, se quero e posso, logo, faço e vou. Como não ver a vida assim? É estranho para quem não sentiu. Quer-me parecer que sentir, ou ter sentido é capaz de ter muita importância nesta história toda. Sentado no sofá, pernas “à chinês”, portátil na frente, persianas levantadas em dia de folga e a árvore que procura livremente o encosto na proximidade da minha varanda, (a marota) e, no meio de tudo isto, estou para aqui a tentar encontrar algo de significativo para escrever sobre o 25 de Abril e só me vêm à memória (lá está) as comemorações, as reivindicações, as opiniões, os prós e os contras, as histórias que se contam, essas sim, de verdadeiro valor (lá está novamente). O contrabando. O desafiar das regras. A clandestinidade. Os namoros à varanda. É assim que a vida manda.

A busca incansável pela suprema e, até ali, aparentemente utópica ideia de Liberdade. É certo que a Liberdade não tem sabor, cheiro, cor, peso, forma, ou qualquer outra mundana parecença, mas tem, de forma inegável, associada a si uma grandeza superior ao entendimento humano. Uma sensação extrema que extravasa dos poros para o cheiro que traz o vento, para o toque, para o olhar, para a verdadeira razão de ser de cada um de nós.

A vida. A escolha. Mais, ou menos condicionada, mais ou menos livre, mas Liberdade é tanto mais do que o marco de um dia só. No fundo, conquistou-se muito e ter-se-à perdido outro tanto, conquistou-se o direito de se ser livre, para falar, ou estar calado, fosse em pé, ou sentado, dormindo, ou fingindo estar acordado, sem passar por mal criado. Uma ideia. Um conceito. Um acontecimento histórico. Um marco. Uma revolta. Uma revolução. Ou a fuga, ou a rendição. Ou talvez não, que neste dia mudou-se a face a uma Nação.

O castigo das mãos

O castigo das mãos

E logo haveria de ter sido no dia do Pai…
Não sei bem o que lhes deu, sinceramente.
Ainda estou para aqui aos caídos a tentar perceber o que foi que lhes passou pela ponta dos dedos, mas a diabrura foi tal que me foram ao centro da memória, que conseguiram remexer-me na história e no final das contas o resultado foi tenebroso e roçou mesmo a deselegância, pouco comum na minha pessoa.
Levou inclusivé a que tivesse de me retratar publicamente, tal não foi a dimensão da escandaleira que estas duas aprontaram.
Mas vamos por partes.
O dia até começou de forma relativamente aceitável, mas depois veio tudo por aí abaixo, aos escabrosos trambolhões, mas não foram cambalhotas inofensivas e apalermadas, foi um espalhafato de tal forma, que se pôs “a gente” a comentar, pudera, não era coisa para menos…
Aparentemente o dia do Pai mexeu com as “meninas”, coitadinhas, que se começaram a enervar, e com todo esse nervoso miúdo, foi como se subitamente tivessem ganho vida, como se de repente tivessem assumido o controlo de tudo.
A partir desse instante infeliz, desataram numa fúria consertada de escrever palavras à estalada, a eito, sem parar sequer para reflectir, sem se questionarem sequer sobre a legitimidade ou mesmo a lógica do que iam escrevendo com a voracidade de um incêndio a lavrar mato dentro. Verdadeiramente diabólico.
Nem dei por nada. Devo ter “adormecido” por uns instantes e elas foram por ali fora, com uma crueldade galopante e sobretudo com a insolência e desobediência própria não da infância, mas sim da adolescência…
Que raio de mal vos fizeram os pais e os filhos, para merecerem tamanha desconsideração? Que raio de bicho vos mordeu? Apanharam-me distraído e fizeram com que levasse tempo a perceber que já me tinha espalhado ao comprido… Quando percebi a verdadeira da dimensão da “brincadeira”, já era tarde de mais, tinha acabado de rasgar de alto a baixo, algo que une tão verdadeiramente filhos e pais. O dia dos segundos. Sem qualquer justificação, o que torna tudo ainda mais… estúpido.
Fiquei doido, azul de raiva.
Ainda tentava perceber que raio se tinha passado aqui e já elas transpiravam amedrontadas (pudera, já conhecem o suficiente do “pai” para perceberem que fizeram asneira… da grossa), quando me começo a preparar para as desancar de forma colérica, enfiaram-se dentro dos bolsos das calças e juraram a… mãos juntas, que não mais haviam de sair dali enquanto eu não me acalmasse.
E assim foi, passaram quase meia-hora escondidas no escurinho protector da “algibeira”, por onde iam espreitando a medo, a ver se conseguiam encontrar-me os olhos, se conseguiam ver se o sobrolho ainda arregalado. Claro que o tinha. Fiquei desvairado com o que estas duas aprontaram…
É que não se faz.
Passado um bocado apanharam-me a olhar para o lado e pimba, saltaram cá para fora, refugiando-se atrás de um cruzar de braços firme e decidido. (É que estas duas quando armam um putedo deste género, têm alguma dificuldade em chegar-se à frente para serem responsabilizadas pelas lindas embrulhadas em que se/me metem)
Lá as consegui convencer de que fugir não era de todo a melhor solução, e elas quietinhas, à espera… Não lhes podia dar uma palmada, isso é totalmente anti-pedagógico e violência só gera violência.
Depois pensei em castigá-las, claro, era quase imperativo tomar uma posição de força e autoridade para que percebessem que isto pode ser à vontade, mas não à vontadinha, que a palavra final na publicação de um texto, não é delas, mas minha, que se isto não é respeitado, está o caldo entornado.
Ainda tentaram gracejar dizendo: “Sim, mas sabes que uma mão lava a outra…”
Viram que não esbocei sequer a tentativa de um esgar moribundo e arrumaram a viola no saco.
Disse-lhes que tão depressa não voltavam a escrever.
Que tinham passado das marcas, sem direito a piadas…
Ficaram muito tristes.
Expliquei-lhes que me estava cagando para a tristeza delas, que me envergonharam, desrespeitaram, que me usaram para um fim que de nobre teve pouco ou quase nada, bem sei que nenhuma delas é mal intencionada, mas… não se pode dar corda a um desrespeito deste tamanho, disse-lhes ainda, e aqui acho que também me excedi (mas caramba, estava nervosíssimo e irritado, e um homem irritado às vezes fica um pouco descontrolado), que, por exemplo, no Irão, eles cortam as mãos a quem é apanhado a roubar… A quem se apodera do que não é seu…
Ficaram brancas, estarrecidas, a suar em bica, parecia que de facto estavam a chorar desalmadamente diante dos meus olhos, inertes, imóveis, congeladas, com a mais vil sensação de arrependimento que lhes vi nos olhos nos últimos tempos.
Sim, as mãos também vêem.
Prometeram-me mundos e fundos, mas castiguei-as. Fui severo? Não fui não, fui justo, fui pedagógico e sobretudo, fui formador.
Tenho a certeza de que tão cedo não voltam a tomar-me as dores e a servirem-se dos meus pensamentos para dar voz aos seus intentos.
Um dia também eu hei-de ser pai e rejubilar com as coisas boas dos filhos, com as más também, com a amor da minha mãe, com a ternura da minha linda e adorada mulher, a vê-los comer sopa com a colher, e quando esse dia vier, escreverei, e para isso precisarei delas, concentradas, focadas, resolvidas e bem encaradas, porque nada há de pior para o escritor que ter as mãos desavindas, que ter nas mãos um obstáculo, é quase como o Polvo quando não pode contar com um tentáculo, espectáculo de comparação, pssssccchhhtttt, está quieta, que já chega de brincadeira por hoje.
E agora?
Passaram toda um a tarde de penitência. Não tocaram no telefone. Não folhearam as páginas do Vargas Llosa. Só se mexeram para se sentarem à mesa com os pais da Ana, que respeitinho é muito bonito e as outras pessoas não têm que ser incomodadas por um par de mãos mal educadas.
Entretanto já nos acertámos e entendemos. Daqui para a frente, veremos se se conseguem comportar.
O castigo? Esse é simples, basta não as deixar sonhar.
Ao dia e aos Pais peço eu desculpa uma vez mais, prometo não tornar a chatear.
Até já.
Nós vamos indo…
Adeusinho…
Digam até amanhã às pessoas, se fazem favor!!
– Até amanhã!
– Ah bom. Está bonito isto, ai está está.

E tu?
Quem? Eu?

Sim, tu.
Oh, deixa ver no que isto dá.
Vais ver que aprenderam a lição.
Espero que sim, não quero ter de as castigar novamente.
Castigos são coisa de gente.