Pesca (as) dores

Pesca (as) dores

Se fosses um qualquer que não aquele que és quem pensas tu que serias?
Pescador de rede descosida, cansada, gasta, encrostada de tanto sal que lhe temperou os fios, finos como cabelos, juntos fazem tanto mais do que fariam na solta soltura que lhes reservava a vida futura, se rede não tivessem sido, o que lhes teria acontecido, não teriam sequer tido um nome devido, seriam fio fosse o que fosse que tivessem vivido. Fio, que nome mais aborrecido. A vã glória de ser qualquer coisa não te deixou sequer ser corda. Acorda que vais ser fio para toda a vida!
Se não pescasses e com as redes nada quisesses o que seria de ti nos dias em que dificilmente te reconheces?
Sim aqueles em que ouves e não escutas, em que pensas que pensas e não… não nada, absolutamente coisíssima nenhuma. Mais uma? Pode ser.
Sabes e não esqueces que o peixe te traz aos olhos o mar e os cheiros da maré permanentemente descontente, ora sobe, ora desce, não sabe por ventura ela o que é tudo aquilo que sente.
Se do mar voam os sonhos dos marinheiros que nos valeram, dos heróis que lá pereceram e de todos aqueles que lá chegaram, bem como dos que foram e nunca mais voltaram, porque lhe queremos nós tanto e tão bem, porque será que sinto nele o choro de quem foi e já não vem?

“Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal!”

Se fosses homem normal, outro que não o homem que és, quem seria o animal que gostarias de ver nos teus pés?

São os olhos que abrem e fecham, são os dias que fazem o mesmo, são as noites que de silêncio se fazem doces e na meiguice me desejam um outro, um novo, um qualquer pensar que me faça acordar de novo com os olhos a abrir, a fechar, a parar para pensar, imaginar, sorrir, sonhar, não gostar. São os olhos que fazem sonhar os peixes também, isso e os outros peixes, que eles gostam de se imitar e de fazer tudo em grupinho, como meninas à casa de banho.

Se não fosse este que vou sendo seria sempre de um lugar onde o tempo me levou. Pior do que querer ser é lamentar nunca ter sido. Pior do que não saber ser é desejar nunca ter sido.
Peixe? Prefiro grelhado, sempre sabe melhor que o cozido que na verdade se torna sempre um pouco desenxabido. Faz sentido? Não.
É melhor assim.
Talvez seja, sim.
Aqui para nós, que ninguém nos lê, grelhado fica o caso arrumado, já lá vem o molho para poisar na mesa, aí sim, de lado, que não fique o caldo entornado, que isto é peixinho bom, essa riqueza portuguesa.
Com franqueza!
Pescar não pescaria com certeza que para isso é preciso nobreza e essa não a tenho por certo.
Tenho nos dedos a irreverência que me permite o pensamento, seja mais rápido ou mais atento. Junto palavras à mesa e o peixe, esse… deixa lá isso homem, o peixe sabe bem, o resto… é como diz o outro, é merda que não interessa a ninguém. Leva a cana, já sabes, podes sempre pescar as de alguém!
Hã?
Deixa lá isso. São dores. Minhas tuas. O mar também as tem

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Num ano, tu(do) muda(s)

Curiosa é a vida. E curiosa é a sua passagem por nós homens.
1 ano atrás, exactamente há 365 dias por esta hora, dormi na minha nova casa pela primeira vez.
Foi de facto um daqueles casos de paixão assoberbada, de encantamento imediato, que me conferiu a noção clara de que a minha vida iria mudar aqui dentro.
Nem eu, a casa e tão pouco a vida, sabíamos o que nos estava reservado, talvez a vida soubesse e não tenha querido dizer, é sempre melhor levar uma bofetada nas trombas ao invés de alguém te dizer, olha que levas uma bofetada nas trombas.
Tudo se precipita e se agita perante a possibilidade infinita de felicidade.
E quando a alma grita e clama por liberdade, que lhe fazes?
Corre!
Corre atrás do que é teu! Corre atrás da tua vida, não deixes que ela passe por ti a correr.
Num ano tu(do) muda(s), num ano tanto acontece.
Vamos então fazer contas:
Ora, se um ano, que se conta e mede (como se de altura e palavras estivéssemos a falar) em 365 dias, pode parecer uma eternidade, ao mesmo tempo, na diabólica realidade dos dias que atravessamos, onde trabalhamos em dias de loucos, em horários de maratonista e corremos pela vida fora, parando para perceber que temos um ano a mais quando recebemos todas as chamadas, mensagens, posts no facebook, que de facto acaba de passar mais um ano, e nesse ano, olha bem o quanto se passou.
Saí de casa, contente, alegre, feliz porque estava a dar um passo confiante e largo rumo ao meu futuro, à minha vida, entretanto tudo mudou. Qual olho do furacão, fui sacudido para lá e para cá, para cima e para baixo, de um e de outro lado, em vários lados, em vários sítios, caí, admito, caí redondo.
De facto senti-me como o Mini que é abalroado pelo camião cisterna com as suas 150 rodas e 300 milhões de quilos.
Mas… Nestas coisas há sempre um mas, porque a vida não é dia sim, dia não, a vida é aqui e agora.
Certo? É para ti é!
E ainda bem que apareces porque mais lá para a frente já tenho coisas para te dizer. Ou talvez deixe para mais logo.
=)
Mas deixa-te estar…
Sim, claro, quero!
Mas dizia eu que num ano tu(do) muda(s).
E mudas mesmo.
Em particular, se depois de saíres dos “cuidados intensivos“, voltares para o “pós-operatório” e não seres esperado por nada mais a não ser paredes, armários, palavras surdas, copos, garrafas, sim, muitas e muitas garrafas cheias, depois… jazidas junto aos pés, não da cama, os meus.
Cais ao chão e por lá ficas, é bom que fiques, julgo eu, mas admiro os que não saltam da cadeira.
Eu fiquei, no chão, e mesmo quando me levantei, fiz questão de garantir que os meus olhos por lá ficavam. 
Sabe Deus o que eles não encontraram, durante o tempo que por lá andaram.
E aí pensas, pensas, pensas e repensas e às tantas já nem sabes o que hás-de pensar ao certo, é incerto o rumo que vais seguir, mas segues, tens de o fazer.
Tornas-te mais forte, sólido, cru, puro, aprimoras e lapidas arestas que te fizeram mal e te fizeram falhar. Por certo não queres passar pelo mesmo sítio de onde acabaste de vir, mas se tiver de acontecer será inevitável, assim como é inevitável concluir, que quando olhas para trás, ao fim de algum tempo, claramente que o tempo desempenha o principal papel na reconstrução.
Pintas as paredes novamente, compras mobília nova, tiras o gesso das pernas, arrumas o quarto, a casa, trocas e baldrocas, sorrisos e caras larocas, saias havaianas e pernocas e de repente, encontras o que não procuras!
E pareces aquele cão, aquele pequeno cão que levou tantas no focinho que agora antes de se chegar junto de alguém, avança e recua vezes e vezes sem conta, porque tem medo de apanhar mais, por fim lá vais a medo, rabo entre as pernas, inseguro, mas vais!!!! 
E mudas muito, depois de um desgosto brutal a mudança é-lhe equivalente, mesmo que não seja exteriormente visível, dentro dos olhos, da cabeça e da alma, tudo é novo e requer calma.
Mas ao mesmo tempo, tens tanta vontade, tanta saudade, tanta liberdade e sobretudo tens o mais importante, toda uma vida à frente.
Nunca tenhas pena de quem não tens, tem pena de quem não te tem a ti!
Entre portas e janelas, fechadas ou entreabertas, com frestas de luz matinais que te inundam os anormais amanheceres frescos.
Estás na Lapa, tudo é fresquinho, bonito, super querido e fofo, e sei lá…
A ‘ssoa tem toda uma distinção, pe’favor.
E a imperatriz que não me larga o pulso, por Deus. Sim, é mesmo, não sai, nem tão pouco quer sair. Já viste isto? Amanhã vou lá outra vez…
E é isso.
Vives e descobres.
E é bom que o faças consciente do que estás a fazer.
Nunca me conheci como hoje me conheço, nunca me lembrei de mim como hoje me esqueço, mas sobretudo, não chegarei ao fim sem ter tentado, porque tenho a certeza que o caminho que sigo me levará ao melhor lado.
1 ano.
Tudo muda e tu mudas.
E falas e sorris e calas, respeitas e estás ali, é pois isso que esperam e te pedem, a ti!
Hoje, sou um… qualquer coisa orgulhoso.
Mais sereno e palavroso, menos estúpido e mais curioso.
Dizes que sou “furioso”, sim, sou e serei sempre assim, e sabes porquê?
Sou o Martim!
E a sou eu que passo pela a vida e a marco e não ela a mim.
Hoje tive de dizer a um homem de 56 anos (acho que é, penso, não sei, nunca pensei bem nisso, nunca o coloquei nessa categoria) que, “gostar só não chega, descobri isso aos 28 anos… e agora que tem exactamente o dobro da minha idade, ainda não percebeu isso, lamentável” e que dia este…
Por isso, concluindo, se num dia te pode acontecer tanto, mas tanto, mas tanto, que na tentativa de proteger, quando acordas, nunca sabes o que vais ver, ou dizer, multiplica todas essas ínfimas possibilidades por 365, e tenta perceber o que te pode acontecer em 365 dias de novo viver.
É loucura o simples pensar em tentar perceber.
Deixa-te levar, deixa-te andar, devagar, mas deixa, permite, deixa que o mundo te arrebite e te mostre como a vida é tão fantasticamente maravilhosa quanto aquilo que os teus olhos quiserem ver!
Sei do que falo quando falo em Amor, sei ao que vou quando saio de casa… Casa! =)
Desde o seu primeiro dia que acho e tenho a confiança plena que 2012 vai ser o ano da mudança, o ano da viragem, talvez um dos anos mais importantes da minha vida. E da tua também.
Mas, este método do “vives o hoje” e amanhã viverás também, sem qualquer messianismo freak ou carpe diemesco, simplesmente viver o amanhã acordando para ele num outro novo bom dia!
Gosto mais de ti assim.
Gosto mais deste Martim.
A SéRiO.. Muito a SéRio!
A vida não é mistério, é jogo de cintura!
Para vivê-la não dispenses a seriedade nem valentes doses de loucura e descompostura, seriedade e aventura, descoberta e frescura, sobretudo sem sequer pensares em quanto tempo dura.
Vive p’amor de Deus.
Não há nada que o tempo não sare, mesmo que nem sempre cure!

Das noites.. para os dias!

Cresce do vento a esperança fresca da manhã, de um novo e revigorado suceder de horas, acontecimentos, realidades, reais adversidades, responsabilidades e seu contrário.
Da avenida de sempre vem o burburinho sussurrado das árvores, que anunciam a chegada do dia. Ele aí está. Um, e mais outro. E… mais outro, na sucessão dos dias e dias que se seguem.
Chegam cedo logo depois das noites quentes e frias, mais escuras e sombrias, depende sempre, não se sabe bem de quê, é o que se percebe do que de pouco se vê.
São agora 06h15, Ele desce a rua calmamente, mãos nos bolsos, com luvas de cabedal, grossas, quentes, negras como o alcatrão, ásperas do uso, das longas e épicas, titânicas batalhas contra o frio, a chuva, o vento, os bolsos, o calça e descalça frenético, o poisa aqui e poisa ali e volta a calçar, caiem ao chão, apanha, tem de sacudi-las uma e outra vez, fazendo-as embater violentamente uma contra a outra, sem qualquer demonstração de respeito, afecto, carinho para quem por ele dá a cara à luta.
Continua rua abaixo em direcção ao carro.
Pensarão já mal do gajo, só pelas luvas e porque vai trabalhar de carro?
Que mal tem isso?
Não pode ter um carro porque é um molestador de luvas de cabedal negras como o alcatrão?
E quem é que disse que ele tinha um carro?
Não falei em carro nenhum…
Ele caminhava rua abaixo em direcção ao carro, não existe aqui nenhum elemento que permita concluir que o carro é dele, a não ser que ele tire a chave do bolso quando chegar à porta do mesmo.
Passa ao lado do carro e segue para a paragem. 
(A pensarem mal do homem que bate nas luvas, se calhar agora é crime bater em objectos inanimados, que só servem para proteger as mãozinhas do menino do frio que lhe causa gretas nos intervalos dos dedos.)
Está frio, está bastante frio, e sei isso porque estou na rua, do outro lado da rua, a ver, a olhar, a pensar se me vou deitar ou levantar.
Tem luvas mas não tem cachecol, nem um daqueles gorros todos sopimpas que tapam as orelhinhas, ou daquelas camisolas de gola alta, na, nada disso.
Tem simplesmente o casaco frágil e justo ao corpo, que aparenta verdadeiros problemas de credibilidade e afirmação perante a intempérie e que o torna de tal moda frágil que chega a dar pena. 
E o que vai aquele homem fazer às 06h30 da manhã?
Pergunto eu que estou para aqui sentado, sem saber o que vou fazer, limitando-me a observar e… assim faço correr o tempo e descanso os pés que me doem de uma forma indescritível. Frio. Que frio. Escolheste bem o calçado, valha-te isso, palerma.
E ele ali está, vai para mais de 10 minutos, trauteia uma esquisitice qualquer, não percebo o que diz, está do outro lado da avenida e aqui chega-me apenas em formato de murmúrio tímido e codificado. 
Penso cá para comigo: “Que é que estás a fazer pá? Olha bem para ti, tu não és certo, não podes ser, desculpa mas não podes ser, e não digas que és porque isto só mostra que não és.
Não tens nada melhor para fazer do que estar para aqui a olhar para aquele atrasado, o Par de Luvas com um homem agarrado, acorda e vai para casa.
E eu lá vou.
Esqueço o Par de Luvas com um homem agarrado por uns momentos e sigo. Para casa. Acho.
Chego a casa e lembro-me dele, não vou dizer outra vez, não me apetece escrever outra vez aquilo.
Mas passa-me.
Que interessa saber mais da vida dele? 
Poderá sequer existir um objectivo por trás dessa curiosidade sombria?
Não interessa. Sento-me a rever as fotografias, eternas melodias da lembrança que cantam aos olhos de quem as tira.
Sabem bem.
O Par de Luvas? Encontro-o amanhã pela manhã cedo, ou perto do anoitecer da despedida, na descida da rua, a caminho do carro, que parece não ser dele, e o mundo não acaba, e do outro sei pouco ou quase nada.
Quero fazer mais e bem melhor.
Amanhã talvez não venha vê-lo ao deitar, ou ao levantar, tenho de parar de andar.
Não venho por certo.
Antes ficar assim, mas sem ver, imaginando o anoitecer irrepetível e disperso, maravilhoso e controverso, como a escrita de um verso que se pode revelar sofrível.
Deito as linhas à ponta dos dedos, converso com o teclado e percebo que as frases são extensões directas do pensamento, será que o Par de Luvas tem medo?
A simbiose poética do acontecimento com o prévio pensamento do mesmo é, por si só, motivo mais que suficiente para se adorar a sequência dos entardeceres, a conversa das árvores pela noite dentro na avenida vazia, o acordar em burburinho da cidade.
Não há como não admirar a realidade, nem como tirar os olhos dela!

1 ano… E que vida!

As manhãs de nevoeiro são bonitas.
Em especial aquelas entre Dezembro e Janeiro, com frio, luz suspeita e iluminação duvidosa, essas tornam-se conscientemente sedutoras e envolvem-nos naquele manto de algodão gasoso que torna as estradas místicas e nos dá a sensação de estar a caminhar rumo ao vazio.
Será essa uma prenda da natureza aos homens?
Será essa a resposta a tantas preces, pedidos deveras sentidos que encostam o homem aos beirais do pensamento sonhador?
Não. É simplesmente nevoeiro. Não vale a pena pores-te já com fabulações e recriações de cenários biblícos, porque na verdade nevoeiro é apenas nevoeiro, chuva é apenas chuva, e por aí fora.
Mas é bonito…
Pois é.
E queres com isso dizer que todas as coisas bonitas têm de ter explicação?
Não têm, não devem sequer ter que ter, para não perderem parte dessa mesma beleza.
Há na vida momentos para apreciar, momentos para questionar, momentos para indagar e muito especialmente momentos para contemplar.
E na contemplação reside parte do sumo espremido para o copo do encantamento.
E é o encantamento que me traz ao que aqui me trouxe.
1 ano. Passou exactamente 1 ano, e parece que foi há tão pouco, mas ao mesmo tempo a tanto.
É estranho pensar num sem o outro, estranho conceber a realidade, é bem mais simples entender a ideia.
O meu carácter transformou-se muito devido a si, a tudo o que bebi dessa fonte inesgotável de verdades formativas, de conhecimentos adquiridos, de sentido de justiça, de trabalho, de missão, de obra, de estratégia, cálculo, conselhos, orientações, e sobretudo nessa fonte inesgotável de vida, de resistência, de luta, de capacidade de regeneração, abnegação, sobrevivência, nome, olhar a direito, pensar mais longe, que se traduziam numa FONTE INESGOTÁVEL DE VIDA!
Muito me admiram as grandes obras, as grandes resistências, as grandes ideias, os grandes e mais altos pensamentos, mas espantava-me a capacidade que tinha em racionalizar os factos e sintetizar os procedimentos, ao caminho único e possível a seguir.
Era de ficar com o sangue gelado e envergonhado dentro das veias, com vergonha de correr, com a verdade que transbordava pelos seus olhos, a emoção nas palavras duras e muitas vezes revoltadas e dirigidas ao centro da fúria, a injustiça, a desonestidade, a mentira.
Era um pouco como ter acesso a um daqueles clássicos da literatura que figuram em colecções privadas, a que poucos têm acesso, e poder devorar com o olhar, toda a autenticidade do que temos diante dos humildes olhos que gravam tudo o que vêem com precisão cinematográfica.
Costumava sair daquela magnífica e tão significativa casa, com a sensação de que tinha estado numa espécie de câmara intemporal, onde o mundo parava e eu simplesmente tinha a oportunidade de conversar durante o tempo (este sim aquele normal, o verdadeiro, dos relógios) que quisesse, sem que ninguém me cobrasse nada por isso, só porque me apetece, sem ter de dividir essa mesma oportunidade com ninguém, era meu e por isso me sabia tão bem.
E de facto foram vários anos de conversas, de ensinamentos, palavras sábias, perguntas, histórias, personagens, a moral de cada uma sempre melhor e mais certa do que a anterior, hoje percebo que feito de forma intencional, consciente, adequando-as aos conselhos que eu procurava sem pedir.
Faz hoje 1 ano. E as palavras continuam a aparecer-me na cabeça, os olhos, a expressão, o sorriso, a lágrima, a dor, a vontade, o passo largo, as mãos, aquelas mãos…
Saudades. Sou mesmo assim, um saudosista, e então? Reflexo da entrega e da paixão, com que amam os olhos.
Tenho saudades dos anos que passaram antes do ano que hoje faz. Tenho saudades e a elas volto, aos sítios, aos olhos, às mãos, às palavras, vejo tudo, gosto de olhar para trás.
Gosto de me lembrar de calçar os chinelos em pequeno, e andava com eles em casa, enquanto não chegava, já em pequeno queria na verdade calçar os seus sapatos, ver o que via, saber o que sabia, havia em si uma espécie de magia silenciosa, que rodeava os gestos, o caminhar, o tom da voz, era uma coisa muito boa de se sentir em miúdo.
Já crescido eram conversas longas, eu sabia que sempre que ia ter consigo, não poderia haver compromissos para depois, só seus, nunca meus, porque a conversa era mais valiosa que qualquer outra possível naquele preciso momento, e é impossível, mesmo para o esquecimento, fazer esquecer algo assim, e fazer produzir nessas horas, poucas outras expressões para além de sorrisos, ou esgares, e abanar assertivamente a cabeça, sem nunca perder de vista as mãos, aquelas mãos.
Para mim eram as mãos de alguém que sempre considerei um ser superior, à própria normal e banal condição da maioria das pessoas com quem contactamos na nossa vida.
Eram as mãos do meu AVÔ e isso é tudo.
Tenho pena do futuro, porque não chegou a tempo de o conhecer, dos meus filhos que também não chegaram a tempo, dos sonhos e das ideias, mas… é mesmo assim.
Sei que está feliz e está por perto, e isso é certo.
Obrigado.
Obrigado pelas palavras que ouvi e gravei, que aprendi, usei e ensinei, pelas vezes que me disse o que havia a ser dito, o que tinha de ser escrito, fosse mais ou menos bonito, era o que havia a dizer.
E não consigo não sorrir ao ver o enquadramento cénico da coisa.
Sala, ponta da mesa, diagonal taçada ora entre a esquerda, ora entre a direita, olhos nos olhos, olhos nas mãos e nos olhos, nas mãos. E depois o tempo que ficava a pensar quando dali saia, e só hoje vejo o funcionar daquilo, de tudo aquilo que me dizia. E só está a começar. É isto que O avô é. Um ensinamento de vida, um marco, uma referência, não só uma, mas várias, conto duas, pelo menos, três, quem sabe? Talvez. 
Vão marcar-me para todo e mais qualquer bocado de sempre, vão estar comigo nas horas de aperto, como já estiveram, vão servir de luz, quando a escuridão por vezes me cerca, e vão sobretudo ser citadas, vezes e vezes sem conta. O que conta é a conta que não faço, nos dias de cansaço, ao tempo que não passou, porque me cansaço de contar as coisas boas, todas elas que por aqui deixou.
Está frio, e um sólido e espesso nevoeiro, recordas-te de qual é o dia de que te recordas primeiro?
Recordarei sempre tudo por inteiro.
Quero acordar e ser quem sou, crescer e mostrar, dizer e contar, que na vida não há mais quem ganhe ou perca, mas sim quem vive e aproveita, e quem assim não vive, faz a cama onde se deita.
Gosto de acordar e de a olhar assim, meio desfeita, mas no fundo sorrio sempre ao vê-la ali, e porquê? Porque mais logo, sei bem quem nela se deita.
Do nome se fará herança, AVÔ. Daqui, do NOME se fará herança!

É para se ver… com os olhos!

Como devolver ao homem aquilo que mais falta lhe faz?
O que me faz mais falta a mim, é diferente do que te faz mais falta a ti, com toda a certeza.
Mas centremo-nos no que faz mais falta ao homem.
Quanto a mim, humilde escriba com aspirações ainda incertas nesta vida, que não a de ser apenas mais uma simples e esforçada formiga no carreiro, aquilo que mais falta faz ao homem, é sem dúvida o seu pensar livre, o seu articular maduro de ideias, que tanto podem ser simples derivações de caóticos devaneios, como podem ser exemplos puros e cristalinos de ambições e desejos bem expressos e concretos.
Perder essa capacidade, por forças exteriores à própria força de viver, é sem dúvida um tormento inqualificável e indescritível, como igualmente é indescritível a beleza da aurora, ou do sorriso de quem se ama.
Mas há o oposto, na beleza do momento em que sentimos que recuperamos essa mesma força, em que sorriem os olhos, se franzem as sobrancelhas, se rasga o sorriso e percebemos que estamos vivos, de boa saúde, e que conseguimos articular vocábulos e construir frases na mente, à velocidade de voos picados de aves de rapina, com a tenacidade furiosa de um sorriso de uma hiena, ou simplesmente com a simplicidade e despreocupação de uma brincadeira de criança.
Pensar é estar doente dos olhos dizia o senhor Pessoa,. Lamento mas tenho de discordar, que é para isso que servem as trocas de argumentos e é a conversar que nos entendemos, certo?
Ora, pensar é algo a que os próprios olhos estão, felizmente, obrigados, pois a derivação da informação que é recolhida pelo sentido superior da visão, permite a reflexão, a construção, a imaginação e a levitação das ideias que se cozinham e se transformam em conceitos, em normas, em máximas, em verdades.
Mistificamos tantas vezes as imagens que temos, ligadas aos sentimentos que a elas associamos, que nos esquecemos tantas vezes que o pensamento depende da imagética, depende da observação, ver para crer, como S. Tomé, e esta é uma expressão milenar e que não apareceu apenas porque o senhor Tomé tinha uma visão perfeita, nunca tendo consultado qualquer espécie de oftalmologista, ou beneficiado de qualquer desconto associado à idade.
Mais do que nunca, os tempos que atravessamos, obrigam-nos a manter os olhos bem abertos, obrigam-nos a não deixar escapar nada, como se fôssemos assassinos letais e treinados, que esperam pacientemente no telhado de um prédio alto, muito alto, pelo alvo a abater, atentos a qualquer movimento, a quem cruza a esquina, a quantas vezes se abre a porta do prédio da frente, ao nº de carros que passam com o semáforo verde, quantos a laranja e quantos vão para lá do vermelho.
Temos de ser meticulosos e concentrados, sob pena de deixarmos passar oportunidades, muitas delas singulares, que nos possam mostrar que o caminho se faz pela estrada paralela aquela em que seguimos, e que não vimos o desvio para a mesma, porque íamos a pensar na chamada “morte da bezerra”.
Meus caros, é de olhares que se constrói o mundo, é de mundos que se constrói a passagem fugaz pela vida, que de eterna nada tem.
Cada dia que passa é um dia a menos que temos.
Agora deixem-se andar de palas nas trombas, que é para isso que aqui andam é, para verem a vida passar-vos ao lado, seus idiotas.
Senhor Pessoa, uma vez mais perdoe-me a ousadia de ter discordado de si, ou melhor do Senhor Caeiro, que é muito simpático, mas também ele tem direito a dizer uns disparates de quando em vez, e nunca de vez em quando.
Ora, é isto mesmo.

Há coisas que eu não entendo

Pois bem, há de facto coisas nesta vida com as quais tenho alguma dificuldade em lidar.
Por exemplo, ontem estive num bar na margem sul, ali para os lados do Barreiro, e eis senão quando, dou por mim a deparar-me de frente com uma jovem, no auge dos seus 22, ou até mesmo, já que estamos numa de exageros, com 23, que combinava uma indumentária de chorar, de chegar a casa e ir direito ao bisturi, para poder vazar os olhos, ou pelo menos o esquerdo, já que o direito passa a vida a dormir, para assim não ter de continuar pela vida fora a ver imagens daquelas.
A jovem abécula fazia-se acompanhar de um casaco com brilhantes, umas calças pretas com Collant preto, assim muito justas no tornozelo e depois, pimba, espeta-me com uns sapatos de salto alto de verniz, roxo choq.
Jesus, que até me faltou o ar. No entanto, não foi para isto que vim aqui deixar uma mensagem.
Aquilo que de facto me fez bastante impressão foi o ter sabido esta semana, que os ruivos estão em vias de extinção.
Ora, sinto hoje então uma enorme tristeza. Eu que sou ruivo na parte inferior da cara, na região vulgarmente chamada de barba. E é um ruivismo merecedor de atenção, de carinho e sobretudo dos tão célebres cognomes de ruivinho, ou cenourinha.
Assim, venho aqui então dar o mote para que se crie a UR(União Ruiva), ou a LAR(Liga dos Amigos dos Ruivos), ou mesmo a CPRPE (Comissão para a Protecção do Ruivo em Extinção), a fim de se preservarem as fantásticas propriedades e qualidades desse tão nobre cidadão que é o cidadão Ruivo, que tanta cor traz as cidades e vidas em que existe, e que tanta falta fazem a este mundo.
Por isso vamos então por mãos à obra e tratar de salvar a população ruiva.
Cientistas, médicos, Jornalistas, ou até FUTUROS JORNALISTAS(hum, que coincidência, estas duas palavras aparecerem em letra maíscula, mas prossigamos), engenheios, advogados, trabalhadores por conta própria ou por conta de outrém, estudantes, desempregados, solteiros e casados, ruivos, vamos começar a celebração da ruivez e vamos ajudar a preservar a raça ruiva.