Olha lá!

É com toda a certeza desta vida que me atrevo a dizer que esta é uma das expressões mais caricatas e mais comummente empregues pelo português nos seus diálogos diários com as figuras que povoam o seu existir insípido, ou a sua existência glorificada, ou até mesmo com a solidão irreversível .
Assim de cabeça sou capaz (porque sou absolutamente genial e tenho uma prodigiosa capacidade criativa, aliada a uma modéstia que não conhece quaisquer precedentes) de descrever uma variedade notável de situações em que, regularmente, o mamífero bípede português utiliza esta expressão, que parece ser (gosto particularmente da conjugação deste verbo copulativo e que aponta sempre para a possibilidade, seja ela qual for, de se encontrar uma semelhança entre dois sujeitos, por mais obtusa que possa ser essa mesma tentativa) talhada para nos dirigirmos aos que de forma mais ou menos constante nos povoam os dias com a sua companhia.
Assim,:

– Olha lá! – Diz-lhe Natália, já cansada dos 45 anos, 30 dos quais como empregada de balcão num café da baixa pombalina.
Normalmente, uma interjeição desta natureza exclamativa, imperativa e ligeiramente agressiva, acaba sempre por merecer uma resposta de um cariz não menos marcante:
– Que é? – Responde-lhe Rúben, 23 anos, filho mais velho, a frequentar o 2º ano do curso de carteiristas do eléctrico liga Algés e a Praça da Figueira.
É frequente receber menções honrosas, fruto da admirável destreza que mostra no cumprimento do seu “dever”.
Indignada e não satisfeita com a resposta do meliante que lhe calhou em sorte no destino da maternidade, riposta com dureza:
– Olha lá… Já te disse para que não me falas assim. Sou tua mãe e ainda tenho força para te espetar uma lambada nessas trombas qu’ até te viras a boneca… Mas pensas que ’tás a falar com quem pá?
– Deves… (sussurra ele entre dentes, cabisbaixo e esboçando aquele sorriso típico do trafulha. O pequeno esgar de um dos cantos da boca com o olhar transverso e pernicioso).
– Tás a falar com quem? Mau, tu queres ver?

Francisco, 53 anos, pivô de uma estação de televisão, mune-se do mesmo discurso, mas num tom quase colérico a roçar a neurose, assim de fininho:
– Olha lá, então mas tu tás bêbado ou quê? Epá mas que merda de pivô é este? Todos os dias é a mesma merda. Toda a gente caga na pinha do papagaio, mas depois quem faz figura de otário sou eu! Foda-se, onde é que está a notícia no meio desta merda? Isto é inacreditável.
– Epá…
– Mas épa o quê pá?!

Deitados de barriga para cima sob o lençol amarfanhado pela volúpia desregrada com que se entregaram aos primeiros raios de sol da manhã, Sara e Gustavo, 29 e 31 anos respectivamente, escutam atenta e romanticamente os silêncios um do outro, com o mesmo embevecimento apaixonado e afogueado com que se amaram minutos antes.
De olhos bem abertos, cabelo solto e magistralmente deitado pescoço abaixo e descansando sobre o peito, descansando a cabeça no no ângulo formado pelo braço dobrado sobre a almofada e ainda a recuperar do esforço a que o coração a obrigou, diz-lhe assim baixinho:
– Olha lá Gus, e se fôssemos procurar uma casa para vivermos juntos e deixarmos de vez este corropio de hotel em hotel? Começo a ficar cansada disto e muito sinceramente não vejo porque temos de passar os dias longe um do outro.
– Já poucos nos sobram na verdade… sorrindo orgulhoso e ao mesmo tempo pensando em algo para lhe dizer…
– Não respondeste à minha pergunta.
– Estás mesmo a falar a sério? De um salto põe-se de pé, nu, com um daqueles sorrisos aparvalhados, tão típicos num homem enfeitiçado, isto, sem esquecer o distinto pormenor de tudo se passar no alto do 18º andar do Sheraton.
– Amo-te!

Naquele muro da adolescência, sentados com o Tejo a descansar os braços no fim de tarde delicioso de Setembro, Sofia, Joana, Simão e Ricardo lembram-se e sorriem debaixo do olhar atento da lua de Lisboa, enquanto ali sentados de pronto se recordam:
– Olha lá, tu lembras-te quando aqui estivemos todos, naquele noite de santos, em que, epá, sei lá, éramos na boa uns 60…
– Quando? Quando acabou tudo à trolhada lá em cima no castelo?
– Epá, não, tás todo cozido zé. 
– Foi naquele ano em que veio toda a gente. Esta merda parecia o bairro, parecia que tínhamos saído de casa, e nem tínhamos saído sequer da nossa rua, foi o caos! Não dava para mexer sequer. Tudo com uma carga…

Pelas 02h45, mal sentado e com pouco para fazer, senta-se ao teclado para ver se saca qualquer coisa. Está ali quase petrificado. 
Escreve, apaga, volta a escrever e a apagar, não sabe nem por onde começar, não sai nada. Encosta-se e pensa um pouco. Que fiz hoje? Durante a tarde lembrou-se de umas coisas com algum sentido, mas agora não sai nada. 
Ca burro, nunca tens uma caneta e um papel, também não sei para que queres um telefone desses se não lhe dás uso.
Afasta o computador e pega no livro que está teimosamente poisado no braço distante do sofá da sala, onde está, a esta hora, como é hábito, total e completamente sozinho e em silêncio. No ecrã o sinal pisca incessantemente, se pudesse falar com toda a certeza diria:
– … Não, não diria olha lá, isso era demasiado óbvio, claro está. Não me parece que não escolhesse outras palavras que não um vigoroso “fecha esta merda e vai dormir, escritor, pois tá bem. Estou certo que não deixarão de concordar que tem de haver algum cuidado na forma como se acaba uma coisa destas. Certo?
– Pois, bem me pareceu.
– Olha lá, mas vais desligar esta merda ou não?

Entretenho-me a divagar pela liberdade que me trás o simples pensar. 
Ler é fácil, olhar, não é tão simples assim.
Somos o que somos e já é muito bom quando hipoteticamente cremos que de facto somos alguém. Para sermos mais é preciso existirmos e até para se existir é preciso ter coragem, quanto mais para se ser alguém. 
Quantos de nós existimos, e quantos nunca chegam sequer a ser o que quer que seja? Nada, absolutamente nada.
– Olha lá que está a ficar tarde e depois acordas tarde e queixas-te que não fazes nada.
– Oh…

A vida é, ou pelo menos assim parece ser, uma professora absolutamente perfeita, mais até do que perfeita porque consegue ter, no assustador esplendor da perfeição, as mais cruéis e tenebrosas imperfeições. Como imperfeito é Deus. 
  Quanto mais vejo mais aprendo, quanto mais vivo mais descubro que mais e mais quero ver, viver descobrir e saber e hoje, hoje sei e sei-o bem, que sei mais do que alguma vez sonhei saber. E tudo porque olho. E não me perco a cada novo “Olha lá”. E tu?


“Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.” Gabriel Garcia Márquez


“Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade.” Fernando Pessoa





Dá a mão a mim. Não foi sempre assim?

Leve e leviana é a pena, que reclama para si a mesma sagacidade dos mestres de espada em riste, sem saber de resto o que existe e deixa a alma serena.
Mas a poesia da vida é bem mais do que a intenção de brincar com as palavras, do que a dedicação às histórias passadas, do que sonhos em luares de cristal.
Os confrontos aparecem-me com a regularidade de um qualquer “bom dia”.
As provações sucedem-se à velocidade assustadora dos irreflectidos pestanejares, que à razão de 16 horas de olho aberto num dia, se aproximam dos 11500 piscares de olhos, é muita fruta e acima de tudo são provas a mais para uma pessoa só.
O sono foi-se novamente.
Fico sozinho, mas nunca indiferente ao que pensa a gente da gente que pensa por Ela.
Ao que pensa a gente, da gente que se vê da janela.
E é assim uma vista tão bela?
Não sei mais o que fazer.
Não sei de verdade.
Quero saber a idade da felicidade que insiste em me abandonar.
Quero saber a cidade, para onde esta se foi instalar.
Não há na vida mais nada, que a luz escura da noite cerrada, encantando os bosques da tristeza.
Não será por amor ou surpresa, que se mantém a vida acesa, apegada a aparas de cera.
São velas que apontam o caminho, o meu faz-se caminhando e sozinho, é noite, está frio e estou só, e de mim que ninguém tenha dó.
Levanto-me já cada vez menos, porque caminho já meio sem saber, erguido por pernas que tais, que tornam os meus passos banais, mostrando-me já cada vez menos.
Será que somos quem seremos?
Basta os olhos levantar, basta o beijo de um olhar, para poder alcançar tudo o que não tenho, e por entre os dedos frágeis deixo escorregar.
Não sei o que mais hei-de tentar, não sei com quem mais falar, não vejo, nem tão pouco consigo pensar, para onde me estás tu a levar?
Há dias em que quero acreditar, que um dia vais tu pensar, que tudo não chegou a passar de um capricho entregue ao teu tentar.
Não vejo o dia a chegar, não quero nem o posso forçar.
É tempo de ver o tempo que tenho.
Hummm, restam-me anos e anos de EXISTIR, não sabendo o que está para vir e não fazendo a mais pequena ideia do que está para me calhar. E a ti? E de ti? O que posso eu esperar?
Não sabes?
Não saber é fácil. Não saber é tão mais fácil.
Não saber é simples.
Não saber é… exactamente isso, não saber, nem de perto nem de longe se aproxima do NÃO QUERER SABER! 
Conceitos forçosamente distintos, mas ambos ávidos e famintos de resposta.
Tens uma? Tens mais do que uma?! Certíssimo. Ora então, podes começar a falar.
Dizes que não tens nada a explicar!? Que cómoda a expressão no teu olhar e eu sem conseguir sequer pensar.
Não sei mais o que hei-de inventar se à mente apenas me chegas em forma de sorrisos e alegria perene.
Se me olhas como pessoas que olham os quadros que querem entender e não conseguem, se me falas, não te calas, se ao dormir te deitas e pensas que sabes que sabes, mas no fundo talvez não saibas de todo, será este o mundo em que vivo? 
Será este o tempo, do Eu, Tu, Nós, Vós e Eles, e ainda os outros todos?
Para onde partem os olhos que olham para mim?
Para onde voam os sorrisos que sorriem assim?
Na dor se descobre calor em noites de Inverno.
Na flor se encostam os sonhos de um tempo mais que perfeito.
E a chuva que olha e não molha e sabe que sim, que o nome da rosa é em prosa e não em ouro ou marfim, que o pátio está molhado, o chão foi lavado com o suor do que sinto por ti. 
É tua a alma que se encosta em mim, estranho e confuso me deito, e sinto a tua mão no meu peito, e lá tento adormecer por fim.
Maria, Francisca, Joana, Afonso, Miguel e Inês, nomes do jeito que gostas, queres que os diga outra vez?
Digo o que sinto e estou preso, ao um, ao dois e ao três, mas não deixo nunca de dizer, que o amar soa tão melhor em português.
Sei que paras para pensar, se foi aqui que de facto quiseste chegar…
Direi o que tiver de dizer, só para te fazer perceber, que de facto estás a errar, mas quem sou eu afinal, porque falo eu destas coisas? O que me faz não deixar de acreditar?
Sei bem onde quero eu chegar.
Mas deixa-me
Mantenho-me imóvel. Assim talvez doa de uma forma mais ligeira.
Já sei onde queria chegar.
Parava para te aconselhar e dizia…
Sei o que a vida te está a tentar mostrar, não sei se sabes sequer o caminho que deves tu tomar, para poderes por fim encontrar o teu pedaço de firme chão.
Fecha os olhos.
Não tenhas medo. Eu estou aqui.  Estou sempre aqui. Para onde poderia eu ter ido?
Dá a mão a mim. Não foi sempre assim?
Foi e haverá de ser.
Porque a vida tem tanto para ver.
Porque não hei-de eu querer acordar?
Só quero poder caminhar, não só, mas por ti acompanhado.
Perdido mas contigo ao lado, sonhando um dia de cada vez.
É bonito e até um pouco burguês.
Mas não importa, é de facto como digo, tem bem mais encanto em português, será essa a língua que Deus fez, para que eu queira, e volte a querer, uma e outra e mais uma vez?