Os Heróis que a vida nos dá… e um dia nos tira

Os Heróis que a vida nos dá… e um dia nos tira

Não devia ter mais de 15 anos quando o conheci.
Ele andava pelos 20.
Curioso como só no dia da sua morte me dei conta de que a diferença de idades entre nós era estupidamente curta.
Era curta, sim, mas dos 15 para os 20 ainda vai um salto razoável, quando se tem 15 e 20. Desde logo porque aos 20 um tipo já pode guiar e aos 15 anda de autocarro e à boleia, que já é bem bom.
(Caramba!! 20 anos que voaram e um texto que não quero, mas que tenho mesmo de escrever)
Quer dizer, não sei bem se ele ainda andava ou se já deslizava por eles (os 20 anos) fora com aquela graciosidade destemida tão própria dos heróis. Dos seres humanos ímpares. Das almas singulares que foram beijadas pela grandiosidade de espírito antes mesmo de conhecerem a luz dos dias, os olhos dos outros, e as vidas que hão de ter a felicidade de se cruzar com as suas.

Não eram sequer 7 da manhã quando soube que o perdi.
Soube e não quis ver.
Vi e não quis ler.
Li e não quis crer.
Deitei-me e não quis saber.
E pelo meio lembrei-me que há coisas que não conseguimos esquecer.
E o malfadado dia que Deus quis escolher…
Caramba! Haverá sequer limites para fazer alguém sofrer?

O João andava de mota. Andou até há algum tempo. Fazia snowboard. Caiu delas, das motas e das pranchas algumas vezes. Aleijou-se mas levantou-se sempre.
Numa dessas vezes veio mesmo com um braço partido de Espanha, sem o saber.
Tal era a fúria de viver.
Cara lavada, sorriso rasgado, aquele cabelo comprido que me fazia chamar-lhe Brad Pitt da Flamenga. Mais do que isso. Aquela forma de ser e de estar que me levou a que um dia lhe começasse a chamar tio. Sim, tio!

Chama(va)-se João Pedro. Tinha 40 anos. Partiu cedo. Incompreensivelmente cedo. Como? Da forma que Deus parece ter encontrado para nos dizer que já chega… que a vida não é só coisa boa.
Foi, também ele, vítima da doença do século.
O flagelo que tem trucidado famílias inteiras. O cancro – já te disse que falarei sempre de ti com letra pequena, com o desdém muito próprio de quem já te conhece de ginjeira e se recusa a dar-te mais destaque do que isto – pois claro.

O Pintas – porque era assim que o conheciam e será sempre assim que haverá de ser lembrado – foi um dos meus heróis.
Não digo isto apenas porque ele morreu.
Escrevo-o porque tive a feliz felicidade de lhe poder dizer isto em vida.
E não era herói por ter lutado heroicamente com a monstruosidade que a vida lhe reservou – não meu cabrão, não vou repetir o teu nome novamente – ou por ter olhado para tudo isto com o olhar ímpio e único com que olhou. Nada disso.
Era herói porque teve e tinha tudo aquilo que a vida reserva somente aos heróis: carisma, atitude, loucura, bondade, altruísmo, benevolência, graça, espírito de aventura, bravura, simplicidade, clareza, capacidade de movimentar gente, de inspirar quem o ouvia, de cativar quem para ele olhava.
E depois ainda há… os cães. Cada um deles.
A Nicky. O Chico. Os dois. Vi-los deitados no chão no velório e no funeral. Prostrados. Serenos. Sossegados. Tristes. Cabisbaixos. Caramba. Foi duro. Foi muito duro.
Como foi duro saber que foram ao hospital para se despedirem do dono… Jesus.
Que violência atroz. Como é possível que isto, por si só, não seja suficiente para comover cada um de nós?

Tive a sorte de me tornar seu amigo.
Tive a fortuna de poder partilhar com ele variadíssimos e inesquecíveis momentos ao longo de quase 20 anos de amizade, espalhados um pouco por este país fora.
Tive igualmente a sorte de ver nele um exemplo e de pensar, pouco depois de o ter conhecido, “quem me dera ser como tu!”. E assim foi durante muito tempo. Quis ser como tu. Quis ver o mundo como tu vias. Conhecer quem conhecias. Fazer o que fazias. Até que rapidamente percebi que não tinha estofo para tal. Chamaste-me, certa vez, coninhas, e eu disse… tens razão. Depois deste-me um cachaço e disseste-me que preferias 1000 vezes ser coninhas e ter dentro da cabeça aquilo que eu tenho.
Seja lá isso o que for. Nunca percebi bem o que vias de tão espectacular no interior do meu pensamento. Mas sei que gostavas, muito, mas mesmo muito de conversar comigo. De me ouvir explicar coisas, contar outras tantas e eu sentia o mesmo. Ouvia-te, em silêncio, e observa-te, no teu modo tão único de contares as tuas incríveis histórias. Os gestos, as mãos e a forma como elas te ajudavam a descrever, a pormenorizar. A isso juntavas-lhe um olhar penetrante e desconcertante. Eras do caraças. Sabias? Eras mesmo do caraças.

Mal sabia eu e mal sabíamos nós que, 19 anos depois, mais concretamente no início de 2017 – altura em que soubemos concretamente o que se passava com o João (a certa altura passei a chamá-lo assim, pelo nome, porque as alcunhas, de certo modo, acabam por ser pouco para invocar o santo nome de um herói. E o deste deve ler-se e escrever-se com reverência, com solenidade e com um respeito que não se entrega a muita gente ao longo de toda uma vida) – o heroísmo e a capacidade de tocar na vida dos outros sem que para isso tivesse que mexer um dedo que fosse, haveriam de se tornar absolutamente esmagadores.

Não vou maçar-vos com recordações só minhas, com palavras vãs e vagas, com lamechices post mortem, nada disso.
Ai de mim que o fizesse, sabendo o quanto o meu amigo gostava de me ler e a frequência com que até há 1 ano me dizia: “Quem me dera ter essa cabeçorra e escrever como tu escreves. Tens um dom que não reconheço em mais ninguém. Espero que saibas isso e que o uses como deve ser“.
Ainda assim, fiz sempre questão de lhe pedir sempre autorização para escrever sobre ele, para publicar o que quer que fosse, e Deus sabe como me está a custar escrever isto… incomparavelmente muito mais do que me custou, há pouco mais de 1 ano, escrever isto… 

A dor que sentimos não nos deixa dormir direito;
A dor que sentimos insiste em pesar no peito;
A dor que sentimos e… Meu Deus… e o saber que não há nada a fazer, que não há volta a dar, que o mundo segue imparável e que só nos resta continuar, pela vida fora, a vida toda… mesmo que existam os dias em que só nos apetece gritar “QUE SE FODA!!”.

A dor que cada um de nós carrega e que o vizinho do lado desconhece;
A dor de se olhar nos olhos, de silenciar um abraço arrasado e de dizer: desaparece!
A dor desmedida da mãe, a dor incompreensível do pai, a dor da irmã, dos tios, dos primos… dos amigos distantes e dos mais próximos… a dor da Susana… ser humano de um tamanho 1000 vezes maior que o tamanho da sua altura, que por si só já tem uma altura considerável.
Um ser humano tão maior que o amor que (nem sempre) tudo cura.
Uma mulher impressionante que impressiona quando nos fala com os olhos, antes de mesmo de nos dizer o que quer que seja. Uma mulher que nos abraça lavada em lágrimas e que, mesmo não querendo, nos confronta com aquilo que a vida tem de mais certo… a morte de alguém que amamos. Que ela amava. Muito.
Porque só alguém que ama muito outro alguém consegue caminhar de mãos dadas rumo à desgraça e não vacilar. Não tremer. Não desistir. Não o abandonar. Mesmo quando a sentença está lida e a sorte traçada. Ahhh mulher do caraças! Tenho uma assim em casa. Sei a sorte que se tem. E ele teve muita sorte em poder tê-la a seu lado nestes quase 2 anos de falta dela.

Claro que todos morremos um dia. É uma verdade inatacável. Um dado adquirido. Uma certeza.

Mas essa certeza não nos minimiza nada. Não relativiza coisíssima nenhuma.
Bem pelo contrário. Nada nos consegue fazer esquecer a ideia que temos de que somos, com toda a certeza, novos de mais para estarmos já tão cansados de perder e enterrar amigos.

Não fizemos nada para merecer esta pesada sentença, esta condenação imponderada e desmedida. Nada. Somos um bando de boa gente. De coração bom. De amizades longas, maiores e mais fortes que muitos casamentos.

Amizades que começaram lá longe, no tempo em que a amizade se forjava com a pureza inequívoca do sangue nos joelhos, arranhões nos braços, bolas furadas, berlindes, cabanas e estaladonas que ferviam. Canhões e mais canhões. Bebedeiras do tamanho de camiões. Somos isto e muito mais. Em bom. E não. Não merecemos o que a vida nos reserva. Não merecemos ter heróis que nos são roubados cedo de mais.

Merecemos a felicidade de nos vermos envelhecer. A alegria de nos vermos crescer, esquecendo e ignorando o facto de que um dia, todos nós, sem qualquer excepção, haveremos de morrer.

Diz o Palma que enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar… não se lembrou foi de nos dizer que pelo caminho há buracos, estradas cortadas, incêndios, vidas queimadas e tristezas tamanhas que fazem com que a estrada se entorte e se torne, em certas alturas do caminho, impossível de ser atravessada.

É seguir com a vida como a queremos. Tentar ter o que não tivémos, sem deixar de ser quem somos. E dizer o que pensamos. Abraçar quem amamos. Recordar quem conhecemos. Cuidar dos + pequenos para que um dia cuidem eles de nós.

E agora, João? O que fazemos para ouvir a tua voz? Nada. Nada a não ser recordar.

Acredito pouco na história do que há depois da morte. Aliás, acredito cada vez mais que morremos e pronto. Assim ficamos. Mortos. Inexistentes. Remetidos a lembranças nas cabeças de quem se lembra. E cada vez nos vamos lembrando menos. Porque a vida não perdoa um segundo a quem vive e quer sempre viver mais e melhor.

Sabias viver como poucos. Gostava da vida como quase nenhum. E é exactamente isso que guardo de ti. A paixão pela vida. A paixão pelo viver. O amor incondicional pela praia, pelo sol, pela natureza, pelos amigos, pela família.

Obrigado, João. Muito obrigado. Por estes 20 anos. Pela tua vida. Por tudo.
Garanto-te que não viveste em vão. Sei que não sou o único a achar que não.
Tenho a certeza.

A dor… a dor dói no coração. Na alma. No medo de esquecer. No medo de não ser capaz de lembrar quando um dia a memória falhar.
Porra, que este texto está a ser tão difícil de acabar.
Os dedos insistem em bater nas teclas. Parecem ter, também eles, uma vontade inexplicável de continuar e tu, e tu aí, ali, aqui, onde quer que estejas, onde quer que te vejas.

Dei-te um beijo na testa e tu, sempre com o amor na ponta da língua, disseste-me que desses beijinhos às meninas. Caramba. Nem assim. Nem ali. És incrível. És demais. És irrepetível. Não consigo escrever mais.

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A incomparável arrogância da morte

A incomparável arrogância da morte

Tinha umas mãos que impressionavam pela história que tinham e que contavam quando se mexiam. A morte encarregou-se de, arrogantemente, as levar e as impedir de fazer o que quer que fosse. E como é arrogante a morte quando decide seguir a sua vontade sem olhar a meios ou a fins. Sendo tudo justificável em nome do seu superior desígnio.

E aquelas mãos que nunca morreram. Independentes. Seguras. Decididas. Firmes. Mãos que sabiam o que faziam. Mãos que não tremiam. Mãos que escreviam. Criavam. Contavam. Estudavam. Aprofundavam e conheciam bem os desígnios do seu dono.

Depois, às mãos, acompanhavam-no os olhos, a capela, e regra geral apresentavam-se se igualmente seguros de toda a sua existência.

Olhos que marejavam e raramente choravam. Olhos que nos penetravam o olhar e nos iam remexer nos cantos mais recônditos do pensar.

Era um sem fim de conversas sérias. De histórias da imensidão de uma vida pintada de fresco pela vontade furiosa de contrariar a sorte que o destino lhe parecia querer impor. Assim fez. Assim lutou toda uma vida contra aquilo que a vida lhe queria dar como vida. Viveu. Fez viver. Teve 10 filhos. Viu morrer dois. E fez. Se fez.
Fez e hoje, hoje fazia 91 anos. E eu faria o telefonema habitual.

Olá, avô. Como está? É o Martim. Sim. Era só para lhe deixar um grande beijinho de parabéns e desejar um resto de dia muito bom.

Não era preciso mais do que isto. Chegava perfeitamente.

Mário.

Assim se chamava este “enorme” ser humano que continua a povoar a minha mente de recordações e exemplos que ele nunca sonhou ser.

Parabéns, avô. Muitos parabéns.

Não se foge à morte de sapatilhas e cordões por apertar.

Não se foge à vida de mãos dadas com o rancor.

O espaço que o amor ocupa na nossa existência é tantas vezes descurado e ignorado, quando devia ser dele o Espaço todo.

A morte encarrega-se de nos mostrar que a vida tem fim mas que o amor, esse, esse pode durar para sempre.

Ricardo, contigo partiu muita da alegria do mundo, e o cancro ganhou novamente

Ricardo, contigo partiu muita da alegria do mundo, e o cancro ganhou novamente

São 7h55 minutos da manhã desta segunda-feira. Sinto o telefone a vibrar dentro do bolso. Sei o que é. Pela hora inusitada da mesma sei de antemão o conteúdo da mensagem e adivinho-lhe também o remetente.

“Morreu. Já não acordou esta manhã. É isso que vou ler. Tenho a certeza.
Tiro o telefone do bolso, abrando, ponho o pisca para a direita, saio da A5, viro em direcção ao Estádio Nacional, para seguir para Laveiras.

Mudo o telefone de mão e de seguida vou poisá-lo em cima da mochila. Dou-lhe uma espreitadela, rápida… sim, vinha a conduzir, mas a força do momento assim obrigava. Olho para o telefone que já se acendeu e que me mostra a seguinte mensagem: “Desculpa estar a dar esta má notícia, mas o Ricardo já não acordou esta manhã”

É um torpor imediato. Uma tristeza que desfaz a secura de uns olhos ainda desavergonhadamente ensonados para os encher rapidamente de lágrimas que correm direitinhas pela cara abaixo. Tento acalmar-me porque ainda preciso de guiar até ao trabalho. Lá consigo, pois claro. Chego. Subo. Abro a porta. Vou à casa de banho enxugar os olhos e olhar para mim mesmo antes de me ir sentar a trabalhar. É estranha a interpretação que temos de nós no dia em que nos morre alguém.

Ligo as coisas e não aguento muito tempo. Tenho de ir lá fora. Respirar. Falar. Perguntar coisas a Deus que vão ficar, como ficam sempre, sem resposta. É demasiado cruel.
É avassalador. Dói. Dói demais Imaginar a dor de um amigo tão querido. Tão doce. Tão meigo. A dor da família. A dor da Marta.

O Ricardo foi sempre um dos melhores de nós. Foi. Não é por ter morrido que escrevo isto. É porque foi mesmo.

Puro. Impoluto. Doce. Amigo. Alegre. Sorridente. Sorridente até mesmo quando ficava sério. Quando se zangava. Quando perdia ou quando não ganhava. Na meninice fizemos muito. Fizemos tanto. Rimos. Corremos. Fugimos. Fomos apanhados. Partimos vidros. Fomos ameaçados e insultados. Insultámos e fugimos. Fomos ao Pão por Deus.
Molhámos centenas de pessoas com balões de água. Fizemos corridas. Jogámos ao berlinde. Jogámos à bola. Jogámos à lata. Jogámos ténis. Vimos filmes. Dezenas e dezenas de filmes, VHS, lá em casa. Fazíamos sessões de cinema. Não sabíamos o que fazer com tanto Verão. E os anos eram de algodão. Leves. Pareciam eternos. Todos. E depois lá chegava o Outono e o Inverno. E nós ali. Onde podíamos.

Mas essas férias de Verão prometiam sempre durar para sempre.
As noites na rua. As tardes na rua. As manhãs na rua. A rua. As manhãs nela, as tardes dela e as noites como uma flor na lapela.

A Flamenga. O nosso bairro. O bairro que nos viu crescer. O bairro que nos viu passar da meninice atrevida para a adolescência que primeiro se quis tímida para depois, sem vergonha, caminhar apressadamente para a maioridade. Aí. Nesse estado em que os caminhos se separam. Onde as amizades se esfriam. Onde as escolhas nos definem.
Ali. No bairro que nos trata por tu, que nos faz festas na cabeça, que nos conhece os pais e os filhos, e que já viu partir alguns dos seus melhores elementos. Ainda há pouco tempo lá foi o Walter, lembram-se?

Não há receita que nos proteja deste flagelo. Não há forma de prever que uma barbaridade destas vai acontecer. Sim, claro que podemos comer melhor. Dormir mais. Fazer desporto. Ser mais saudáveis. Andar a pé. Contemplar a natureza e… caramba, pá! E quem faz isso tudo e acaba por morrer na mesma?

Ver morrer um amigo é um pesadelo que, infelizmente, todos nós temos de (re)viver uma e outra e outra vez. Vezes demais. Começam a ser vezes demais para gente tão nova. Tenho 34 anos e estou cansado de enterrar pessoas de quem tanto gosto às mãos do cancro. Sim. Em minúsculas. Não merece mais. Não mereces mais. Sabes bem que não mereces porra nenhuma, sua besta!

Já tu, meu amigo, tu… que lutaste com tudo o que tinhas. Que acreditaste na felicidade milagrosa de um milagre que acabou por não chegar para te salvar. Um milagre que não podia ter chegado. Um milagre que a falibilidade do nosso corpo não permitiu que chegasse. Nem tinha como permitir. É esta, hoje e sempre, uma luta desigual. Não chega sequer a ser uma luta. ele controla o processo por completo.

Ninguém merece esta doença, mas tu és, tu eras, tu foste, tu és… que confusão! Foda-se, que puta de confusão que prá’qui vai. Tu merecias muito mais do que isto. E aqueles que te amam mereciam-te para a eternidade. Que tremenda injustiça, Ricardo. Que tremenda injustiça!

Há nos amigos de infância qualquer coisa de poético o suficiente para fazer de nós pessoas felizes durante toda uma vida. Apercebi-me disto, mais uma vez, nestes últimos dias, perante a crónica da morte anunciada do meu querido Ricardo. A quantidade de memórias que temos com estes amigos que nunca esquecemos é de tal forma esmagadora, que torna impossível que não sorríamos de imediato quando nos vemos no café, no talho ou na merceeria, ou quando nos lembramos desta ou daquela ou da outra história. E são tantas. Às dezenas. Centenas. Impossíveis de esquecer.

Isto deixa em nós uma tremenda e inquestionável certeza: gostemos ou não, estas são as únicas pessoas na vida que dificilmente esquecemos. Atrevo-me a dizer que é praticamente impossível. Passem os anos que passarem. Vivamos a vida que vivermos.

Os amigos de infância não se esquecem, por uma razão muito simples: são as pessoas mais importantes da nossa vida na fase mais importante da nossa vida, e ainda para mais são, quase sempre, escolhidos pelo que de mais puro temos dentro de nós. Ou gostamos deles ou não. Ponto. Não há cá espaço para merdas. 

Dei-lhe 1 beijo na testa à chegada e fiz o mesmo quando me vim embora.
Soube, ali mesmo, naquele olhar que foi só nosso, naqueles segundos de encontro dos teus olhos nos meus, soube, precisamente ali, naquela troca espontânea de mimos e amizade regada com um “gosto mt de ti, meu amigo.”, que nos estávamos a despedir. Escrevo a vermelho, pelo teu Benfica. Por todas as discussões que tivemos à conta do Porto e do Benfica. Caramba. Que vida. Que VIDA!

E foi assim que dissémos adeus um ao outro. Ali. Naquele quarto em StªMaria.
E soube também, pelos teus olhos, os mesmos que conheci durante 25 anos, que estavas com medo. Com muito medo. Aterrado. Aquele medo que todos temos mas que só alguns são capazes de enfrentar. O medo de morrer. Mesmo que seja por obrigação. Foste obrigado a morrer e isso… isso é imperdoável, puta de doença.

(Não tens vergonha de continuar a destruir vidas e famílias inteiras à conta dos teus caprichos? Bardamerda para isto tudo!)

Foste insuperável. Foste incrível. Foste um herói, meu querido. Foste um herói na forma como enfrentaste e tentaste dobrar o destino à força da tua força e alegria de viver. Perdeste a batalha física. Ganhaste a batalha mais importante. Mostraste-nos como é que se enfrenta uma coisa destas sem nunca fraquejar. Acreditando sempre que é possível. Que ainda há prolongamento e penálties.
Que inspiração. Que força. Que querer. Que Rei.

Dei-te um beijo na testa e vi, dentro dos teus olhos, com a meiguice que sempre neles viveu quando quem olhou para mim, pela última vez, com os olhos carregados de medo antes de me dizer: “Gosto muito de ti, amigo. Estava com o João. E ele disse-nos: “Gosto muito de vocês, meus amigos.”

Estavas a comer Nestum quando entrámos e, espreitando pelo canto do olho, nos viste. “Está a saber-me pela vida, meus amigos! Vocês nem imaginam, está mesmo a saber-me pela vida! (…) Obrigado por terem vindo.”

Obrigado eu, Ricardo. Obrigado eu.

Foi assim a tua vida. Doce. De Mel. Como o teu Nestum.
Tenho para mim que naquela taça estava todo o amor do teu mundo e de todos os que te queriam e querem bem.

Foi assim. Foi assim que a Flamenga te perdeu. Foi assim que o mundo te perdeu.

Quanto a nós,  vamos guardar-te para sempre, Ricardo. Para sempre. 

Até já, campeão!

O Walter morreu. E com ele foi parte da bondade do mundo

O Walter morreu. E com ele foi parte da bondade do mundo

Antes de falar do Walter. Deixem-me falar-vos um pouco da Flamenga.
A Flamenga é um bairro, um lugar, nem sequer ao menos é uma freguesia. Mas desengane-se quem julga que isso a demove.
A Flamenga tem pessoas do caraças e o Walter era uma das suas estrelas maiores. Deixou-nos e com ele levou, de facto, parte da bondade do mundo.

A Flamenga, para aqueles que a conhecem e que lá tiveram a sorte e felicidade de crescer é muito mais do que isso. Atrevo-me a dizer que a Flamenga é o centro do mundo. Pelo menos do nosso. Mais para uns do que para outros, na medida em que cada homem sente coisas diferentes relativamente a uma mesma coisa, neste caso, a um mesmo lugar. Contudo, da Flamenga guardamos sempre uma coisa que se sobrepõe a tudo o resto. O sentimento de comunidade, de família, de pertença. E isto, naturalmente que é também diferente para cada um de nós, os que lá crescemos. Porquê? Porque, tal como em cada uma das nossas famílias, a Flamenga é feita de pessoas, todas elas únicas na sua autenticidade, todas elas especiais na sua singularidade, mas sobretudo isto, todas elas unidas pelas memórias transversais que temos daquele sítio, daquele bairro, daquele lugar, do centro do nosso mundo.

A Flamenga é, como qualquer outro lugar, feita de pessoas e são essas pessoas – que se fizeram gente em conjunto – que determinam a natureza das ligações que as unem. Certo é que todos nós, esta geração do final dos anos 70 e dos anos 80 do século passado, fomos sendo trazidos até essa condição de gente pelos mais velhos, por todos aqueles que, não sendo da nossa família de casa, olharam para nós e por nós, sabendo que estavam ali os futuros homens daquele bairro. Que estava ali a alegria da amizade e da partilha. Tudo isto no saudoso e já distante tempo em que crescíamos e brincávamos na rua, sendo as únicas pausas permitidas e consentidas aquelas que se destinavam ao propósito único de nos matar a fome e dar energias para continuarmos a brincar. Ninguém se metia connosco. Metíamo-nos nós uns com os outros e eles, os homens, olhavam sempre para nós pelo canto do olho, ligando sem ligar muito. Davam-nos aquela sensação de estarmos sempre seguros. Sempre.

O Walter foi, sem qualquer sombra de dúvida, um dos homens mais queridos e doces que a Flamenga alguma vez conheceu. Que eu alguma vez conheci. E certo é que nunca lhe conheci, em todos estes anos, um conflito, uma animosidade, uma falha grave, uma resposta errada, um gesto feio, um maldade. Nada! Nunca lhe ouvi uma palavra amarga, um gesto rude, uma desconsideração um destratamento, gritos ou coisa parecida. E caramba, se há coisa que dele guardo é aquele sorriso enorme e rasgado, que contrastava em tudo com a imagem que dá a cor possível a este amontoado de palavras que procuram desesperadamente ter algum sentido, quando o que sinto é que é impossível dar sentido a coisas que não têm sentido nenhum.

Guardo dele imagens recentes que me enchiam de esperança num mundo melhor. O Walter tinha o lindo hábito de se comover com as crianças. Com os filhos dos amigos. Tinha sempre a candura e deliciosa atenção de oferecer sempre um presente aos pequenotes, daqueles das máquinas dos cafés. Com uma alegria e um brilho no olhar que merecem ser eternamente recordados.

A morte de pessoas como o Walter nunca faz sentido. Não pode fazer sentido. Não tem como fazer sentido. É despropositado e dele desprovido. Absurdo. Abjecto. Incompreensível. Inaceitável. Estúpido. Inatingível. Inqualificável. Irreal. Inqualificavelmente estúpido e estupidamente inqualificável. Uma merda que não se explica nem se discute. Lamenta-se.

É um dos grandes pecados da morte. A ausência de explicação possível para a mesma. É assim. Sabemos bem que um dia chegará a nossa vez, mas é e continuará a ser sempre uma merda. Dói e continuará sempre a doer. O tempo não tem força para apagar a dor da morte. Seja lá onde for que as pessoas estejam a viver.

Podemos regressar mais ou menos vezes ao local onde crescemos.
Podemos passar mais ou menos tempo com as pessoas ao lado de quem nos fizemos, também nós, pessoas. Mas se há coisa que não podemos, de forma alguma, é ignorar a dor de uma terra que nos viu crescer e chegar ao sítio onde hoje estamos, cada um de nós. Porque sim, caríssimos, a terra também chora e a Flamenga vive desolada por estes dias. Levantar-se-á, pois claro, como sempre o fez. Mas caminhará manca durante muito tempo.

Até sempre, Walter. Ficas para sempre na memória de toda a gente que teve a sorte de te conhecer.

 

Antologia de um medo (nada) absurdo

Antologia de um medo (nada) absurdo

Gostamos invariavelmente da força, da robustez, da solidez impactante e inspiradora que nos confere a vida, e da singular e determinada capacidade de não ceder aos caprichos em nada misericordiosos do amor, da tristeza, da solidão, da felicidade e, claro está, do medo.
Temos mais medo das coisas quanto maior é o número de coisas que temos a temer. Creio que isto é relativamente fácil de constatar se nos debruçarmos sobre a questão durante algum tempo. Somos mais temerários perante a vida quanto maior é o número de anos que vivemos, e menor é o número de anos que vai distando entre isto que hoje somos, e o fim da linha que medrosamente vamos apalpando com receio de estragar qualquer coisa.
Mãos nas janelas, pés arrastados pelo chão macio e encerado que crepita e estala à nossa passagem, mas com medo (lá está) de dar um passo em falso, de pisar o que não se deve, de calcar caminhos que não seria suposto conhecermos, ainda por cima quando – regra geral – nunca chegamos verdadeiramente a conhecer a pessoa com quem vivemos mais tempo neste passeio errático a que alguns chamam existência. Nós mesmos.
Chegam a passar-se vidas inteiras sem que nunca saibamos bem quem vive dentro daquele que julgamos ser.

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Mas então, de que é que nos alimentamos afinal? Será de medo? Será esse o pão que nos sacia a fome de viver?
Talvez. É assustadoramente possível que grande parte de nós passe grande parte da vida a comer doses ainda maiores de medo ao pequeno almoço; mas de faca e garfo, à homem, para posteriormente ser digerido enquanto somos atropelados pelo inebriante passar trôpego dos dias. E arrota-se no fim.
É assim possível que passemos na verdade grande parte da vida (mais o que fica para lá da mesma) a tentar provar à dita que não tememos nada, a não ser o seu próprio finar.

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Suponhamos que a nossa concentração é então conscientemente dedicada a percorrer todo o caminho, no descrédito consentido que tem quem o assume, tentando assim mostrar ao mundo, ou à parte do mesmo que nos sobeja de tal forma que nos atrevemos a chamar-lhe mundo, que esse medo que nos aterroriza a existência é pueril, irracional, é uma espécie de temor do precipício, do parapeito, da escarpa hipnotizante da morte e das suas terríveis e seguramente bem fundamentadas horripilâncias.
Mas… passando-lhe a bola a si, amigo leitor, como ela deve ser passada, redondinha e com o peito do pé, consegue dizer-me – para além do medo de morrer que é universal – de quantos medos (se é que é sequer plausível e aceitável que assim se escreva esta palavra) se consegue lembrar de ter sentido ao longo da vida? Com certeza que se lembra pelo menos… de uma mão cheia deles. Certo?
Errado… fácil não deve ser de certeza… isto para responder de imediato ao meu próprio pensamento, para contestar prontamente a parvoíce que me possa ter cruzado as ideias num dos fogachos de tempo tão curtos, como curta é a duração de tantas das palavras que digo sem as dizer, num gesto de atrevimento, e que me quis forçar a começar esta frase com a resposta à pergunta feita na frase anterior.
Ora, posto isso, e escrutinadas as fracções de segundo que caracterizam uma decisão tão rápida, fui ainda a tempo de emendar a mão, mesmo sabendo que já tinha cagado os pés até aos joelhos. São merdas que acontecem.
Portanto, assim de repente, num exercício que de modo algum pode ser tomado como simples, trivial e até desnecessário, convido-vos a revisitarem a vossa vida enquanto vão passeando os olhos pela quantidade tonta de enumerações que passarei de seguida a… exacto… a enumerar.
Mas atenção ao seguinte: não deve esse revisitar do passado ser uma coisa desprovida de qualquer lógica ou orientação. Nada disso! Até porque, regra geral, a coisa não costuma correr lá muito bem.
Assim sendo, aquilo que vos proponho é que, calmamente, com tempo e com a serenidade que uma viagem desta natureza vos deve merecer, tentem então encontrar nas arrecadações onde guardam grande parte daquilo que foram quando começaram verdadeiramente a ser alguma coisa, e se lembrem então dos medos que afinal de contas nunca vos largaram.

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Das manhãs, tardes, noites e madrugadas atormentadas por essa sensação tão poderosa quanto a de se ter Medo de alguma coisa, essa sensação frívola que nos entorpece as pernas e os braços, que nos retorce caprichosamente os dedos das mãos e dos pés, que nos arrepia os cabelos no finalzinho da nuca, que nos faz revirar os olhos e, mais do que qualquer outra coisa, que nos dá estaladões às ideias. A lógica simples e erudita (graças a Deus) do pensar e do ser. Simplesmente isto. Mas, para que se sintam confortáveis e não pensem que estão a ser obrigados a algo que não tenha, eu mesmo, coragem de fazer, sereno-vos e sossego-vos o espírito inquieto dizendo-vos que serei eu o primeiro a sentar-me nesse parapeito e a enumerar algumas coisas que me fizeram suar as estopinhas, e sentir o corpo a engelhar-se às mãos do horror mais inconsciente e, por vezes (tantas vezes) – mas não sempre – mais injustificado que sentimos no caminho pelos passeios da condição humana.
Então, o primeiro Medo de que me recordo, é possivelmente o medo de magoar o meu irmão, que era tão pequenino… Porquê?
A fragilidade de um bebé que gatinha é assustadora e, perante um ser humano daquele pequeno tamanho, o irmão mais velho, com mais 3 anos que o petiz que ainda não se põe de pé, pouco ou nada sabe da forma correcta de se lidar com o petiz que nem falar direito consegue.
Numa das únicas vezes em que me “descuidei”, pensando que ele não via ou compreendia patavina do que estava a “ver”, virei costas e o sacana engoliu uma moeda de 50 centavos que eu tinha escrupulosamente escondido debaixo do tapete da sala. Resultado? Hospital. Raio-X. E um “a moeda há-de sair”. Anos mais tarde, já sem medo nenhum e com ele já perfeitamente capaz de correr, saltar, brincar e falar, acabei por lhe partir um braço, enquanto brincávamos às rasteiras no SAP, à espera da vez para que ele pudesse ser visto pelo médico devido à quantidade absurda de borbulhas que a varicela lhe estava a espetar no corpo. Fomos do SAP para o Curry Cabral.
Depois, por volta dos 10 anos passei finalmente a ter medo de morrer.
Chegou já mais tarde, é verdade. Não porque não soubesse já o que era a morte, mas simplesmente porque não a compreendia de todo. Já sabia ler e escrever. Já devorava notícias na TV e nos jornais, deitado debaixo da mesa de jantar da casa dos meus avós. Ouvia atentamente as conversas dos adultos da minha vida e, pese embora o facto de fazer caminhadas de Domingo (com alguma frequência) pelo cemitério do Alto de S. João, onde um dos meus tios estava sepultado, não compreendia de modo algum a parte metafísica da coisa. Associava-lhe tão somente o desaparecimento dos olhos, pouco ou nada mais. Ou seja, para além da dificuldade de perceber o conceito, tinha a incapacidade total de perceber do que se tratava e, mais do que qualquer outra coisa, tinha a dificuldade tremenda de perceber porque razão é que a morte fazia chorar os vivos.
Percebi-o no dia em que fui a funeral da minha bisavó materna, e depois no dia em que morreu a mãe de uma colega (grande amiga) de escola.
Haveria de se me entranhar na alma alguns anos mais tarde quando, numa questão de meses, morreu um dos meus tios, e depois, quando morreu o meu melhor amigo. A partir daí esse medo estendeu-se a todos aqueles por quem tenho algum tipo de estima, de amor, carinho, amizade e consideração.

Tira os pés do chão

Pelo caminho tenho encontrado o medo em formas tão distintas como: medo de falhar, de desiludir, de me afogar, de me queimar, de não ser capaz, de perecer, de fracassar, de ser despedido, de não ser contratado, de ser esquecido, de não ser lembrado, de não ser querido nem desejado, de não ser amado, de ser iludido e enganado, de que aquilo em que acredito não dê resultado, de ser rejeitado e maltratado, do escuro, da noite, da sombra dos dias… e podia continuar nesta torrente infernal durante horas a fio… schiiiu… tenho medo de a acordar.
Continua a contar.
Depois fiquei doente. O cancro. Esse merdas insolente. E tive medo. Muito medo.
Claro que sim. Não podia não ser de outra maneira. Mas venci-o, ao Medo. E ao cancro também. Peguei-o pelo colarinho e acertei-lhe em cheio no focinho.

E hoje chego aqui, a dias de ser pai. A dias de ver a minha vida transformar-se por completo e confesso-vos. Estou todo “borrado”.
Não pela circunstância, não pelo desconhecimento da paternidade, mas pela minha mulher. E é um sentimento horroroso que me tira tempo ao sono e me traz dores à barriga. Ela é a minha vida. A condução da minha alma. O justificar feliz do meu acordar radiante. A minha Deusa. O prolongamento natural do meu sorriso e o espelho onde o mesmo se enrosca e regressa na expressão máxima de felicidade.
Pensar no sofrimento que ela pode enfrentar, nas dores, na experiência que ela vai atravessar no parto… tudo isto me sacode diariamente o esqueleto e me preocupa quanto baste. Se é absurdo? Não me parece (nada) que o seja. Mesmo sabendo que tenho a meu lado um poço de força!

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Sei que tenho comigo uma mulher praticamente indestrutível e capaz dos feitos mais incríveis, mas do medo, meus amigos, dele ninguém se livra! =)
E acreditem que o medo é, em alguns momentos desta nossa vida, um companheiro, um amigo, um conselheiro, um compincha.
E vou ensinar-te tudo isto minha filha. Tudo isto e muito mais. Porque nesta vida é tão importante que sejas forte, que te levantes sempre depois de caíres, e vais cair muitas vezes meu amor. Mas é também igualmente importante que saibas não o ser, que saibas ter medo, que saibas ceder-lhe e permitir-lhe que entre na tua vida sem que nunca deixes que este tome conta de parte alguma da mesma. Pode por lá andar mas que saibas sempre por onde é que ele anda.
Agora… agora vem ter com os papás. Não temos medo. Temos a vida inteira para te dar. E medo, só o medo de te falhar… mas isso minha querida, isso é impossível de controlar.

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Quando a morte escolhe à sorte

Quando a morte escolhe à sorte

Sem dó nem piedade nem tão pouco uma simples súmula de dignidade.
Escolhe a Morte, a dedo, ou à sorte, alguém a quem tomar de assalto a vida, com uma imprecisão aterradora e cruel tão própria dos mercenários a soldo, dos carrascos guilhotineiros, dos que executam olhando a vítima nos olhos, bem lá para dentro, direitinho até à porta das traseiras que dá para o pátio onde está sentada a nuca.
Chega na forma mais intrépida e arrogante, no momento mais… no momento mais inapropriado (posso usar esta palavra aqui?)… Credo que me faltam as palavras! Qual momento qual quê…!
Continuamos a mais não ser do que de máquinas elegantes (umas mais do que outras) mas estúpida e avassaladoramente falíveis. Com tempo e duração extremamente limitados.

E na verdade dias há em que fica extraordinariamente difícil para um homem conseguir aguentar-se de pé.
É. Pois é. De pé. Com fé.
Mas nem sempre se consegue e de repente levas um obtuso e doloroso pontapé! Redondo. Disferido com uma violência primitiva e obscena. Em cheio. Na boca. A vida está louca.

E lá foi ela.
Lá foi ela de abalada, tão estupidamente decidida e determinada a alcançar o seu ideal celeste e inexistente de liberdade.
Sim, era, era ainda tenra na idade, é verdade, mas cansou-se e fartou-se das bofetadas impiedosas da sua própria e tão pungente condição que não encontrou mais remédio que não o da partida sem volta, sem retorno, sem regresso. Sem nada.

Quantas vidas tem o pensamento? Quantas?! Até onde aguenta ele? Como?! Quantos anos vivemos de verdade? Quantos?! Quanta vida tem a tua mente de verdade? Está tudo doido majestade! Tudo doido!
Menina do campo e da cidade.
Até onde aguenta o cérebro na realidade?

É verão e chove com teimosia.
É verão e chora toda a noite numa melancólica e encurvada sinfonia.
É verão e não se percebe bem onde acaba a noite e começa o dia.
Não me fales de magia que truques destes não iludem, não me fales de paz sequer!!
Parece-me óbvio que tantas, mas tão demasiadas vezes, a Morte, perdão… já chega!! Já escrevi esta palavra com M grande vezes a mais! Vezes demais! Palavras fatais! Chega. Não escrevo mais!
Estou a escrever há 3 dias e não me ocorrem dois pensamentos iguais ou outras coisas que tais…
Mesmo estando mais do que certo de que esta é a estação final de qualquer viagem pelos caminhos sagrados da existência, mesmo aceitando-a como a mais normal e natural consequência da vida dos homens, a sua antecipada e previsível finitude, não consigo compreender, com ou sem tempo para o fazer, porque o tempo nem sempre traz o que se diz que ele há-de trazer! não, não consigo compreender este apetite voraz e insaciável que se ergue tantas vezes com um ódio e uma cólera exageradamente desmedidas, e sobretudo esta invencibilidade que lhe permite levar tudo à frente e deixar um rasto de destruição massivo e arrepiante para aqueles que lhe ficam atrás e ela, ela bem sabe, ela bem sabe que isso não se faz! Que não está certo!! Que não se deixam feridas de carne sarar a céu aberto.

A realidade é o choro da vida numa chávena de café.

A realidade é o horror de uma vida que termina sem que quem a viveu se possa sequer lembrar do que fez enquanto viveu, a realidade é a frieza do destino para todos os que cá ficam, e a quem tudo lhes parece incerto, deserto. E para quê? Com que fim?
Com que lata é que se faz uma coisa destas e se escapa impune, uma e outra e mais outra vez!
Já chega, não vês? Não vês?!
E as horas que passam indiferentes a toda esta desgraça.
Os dias que correm soltos e embalados pelo vento e pelas ondas do mar e as noites que se transformam invariavelmente no desassossegar do espírito atormentado pelo comboio de palavras atoladas em sentimentos diversos, em medos dispersos, em tristeza absoluta. Nenhum pai deveria ter de travar tamanha luta. Bem sei que digo isto e a morte não me escuta, não o fará nunca.

No esperado e protector sossego de uma sala me falta a voz à fala e não sei tão pouco onde as palavras me vão encontrar.
Sei que entre a dor e o horror que nos atinge pouco mais conseguimos fazer a não ser tentar inventar uma falsa protecção, num conjunto de almofadas que, estrategicamente, vamos colocando pelo caminho a fim de nos encostarmos com jeitinho.

Mas nem sempre a almofada te abre os braços daquela forma que só os braços têm de se abrir para dar e receber…

Os homens, esses, choram sozinhos nas madrugadas que os abraçam, fustigados pelas lágrimas de um desespero surdo de ver desaparecer alguém com tamanho estrondo, com tamanha violência, com a crueldade própria da morte que escolhe e aponta sem critério, com a inqualificável constatação de que tantas vezes a morte escolhe à sorte.

E depois é num eleito cemitério que acabamos todos por ficar a morar, que ficamos todos por ficar a… viver!?
Não, não posso usar esta palavra aqui… julgo eu… ou será que… será que os mortos também vivem?
Será que as coisas sem vida deixam de facto de viver?
Será que quem morre perde o direito que tem de poder ser? Vá-se lá saber.

Saudade.

Palavra tão de cada um de nós, dos netos aos avós.
Com toda a certeza que é uma das mais pesadas palavras da língua portuguesa.
Carregando eternamente nas costas o peso dos sentimentos de quem gosta, de quem sente, de quem sofre e de quem mente.

Saudade. É o que teremos sempre. Saudades.

Do riso e do choro. Da piada e do gozo.
Das birras.
Dos gritos.
Dos cuidados para com os aflitos.
De como a vida não te escolheu no seu escolher sem razão.
De como o caminho te doeu.
Doeu porque te foi sendo dificultado. Doeu porque a razão te atraiçoou e te falhou. Doeu porque a doença que te vergou foi a pior de todas elas.
Foste vergada pela força superior da tua mente cansada e revoltada, perdida e desencontrada.
Foste traída pela vida e foste escolhida numa tarde sem sentido.
Foste levada sem um som, sem um aviso. Sem tempo para te darmos um beijo de despedida. Sem tempo para nos rirmos mais um pouco do pouco que vai havendo para nos rirmos na vida.
Foi de tarde que a morte te escolheu e foi também de tarde que o teu último sorriso se deu.
Aqui estaremos sempre para te lembrar.
E tu leva-nos contigo no teu pensar.
Beijos, do teu irmão mais velho.
Beijos também do mais novo.
Beijos do teu povo que insistirá em nunca te deixar.
Descansa agora pequenota, que a vida já te foi pesada por demais.
Descansa que agora é o tempo do barco do teu tempo não mais voltar ao cais.