Ver e sentir José Saramago… nas palavras de Pilar

Ver e sentir José Saramago… nas palavras de Pilar

Sexta-feira.
Final de tarde cinzento rato, de um final de uma semana molhada, encharcada, ensopada esta segunda semana de Abril.
Uma semana dentro de um mês que podia perfeitamente ser alienado do calendário.
Saio de casa e deixo a minha mulher grávida a descansar. Os 8 meses e meio de gravidez já lhe vão pesando as costas, os pés, as mãos… mãos que começam a inchar e tornar incómoda a convivência com a aliança.
Subo os túneis do Grilo e não sabendo bem como consigo fazer a carrinha serpentear pelo trânsito que se precipita enlagartado para a saída de Sacavém/2ª circular.
Daí à Casa dos Bicos é um tirinho.
O que vou lá fazer? Assistir a uma conferência intitulada “Conversas sobre o futuro do Jornalismo”, com o jornalista galego Alfonso Armada e, do nosso lado, António Mega Ferreira.
O primeiro episódio desta deslocação acontece imediatamente a seguir a estacionar. Detenho-me dentro da mesma ainda durante alguns minutos para devolver uma chamada que havia perdido durante a viagem. Estou eu ao telefone e, qual não é o meu espanto quando me aparece à janela do carro um enfarruscado, mas nem por isso menos desavergonhado arrumador de carros.
Antes de mais devo dizer e confessar que a minha simpatia para com estes tipos é muito próxima dos limites mínimos, directamente proporcional à tolerância que lhes tenho, sobretudo quando, como foi o caso, me aparecem tal e qual o melhor dos paraquedistas, vindos sabe Deus de onde, com o intuito único de me virem “enfiar” a mão no bolso com a frase mítica: “Oh amigo, não tem uma moedinha?”.
Neste caso, e dado que se plantou a mirar-me mesmo junto à janela do lugar do condutor, pôde ver-me ao telefone e assim decidiu arrepiar caminho de volta ao outro lado da estrada, de onde de resto tinha saído, e onde então se estacou expectante, aguardando a minha saída.
Terminei a chamada, peguei no meu bloco de notas, abri a porta e vi-o logo pelo canto do olho esquerdo. Sim, do esquerdo. O canto do olho direito não vê a ponta de um corno. E tranquei o carro.
Ainda no meio da estrada pude escutar um balbuciar de qualquer coisa de onde apenas consegui entender um…
“Podias era dar-me…” Erro número 1. Falou comigo utilizando insolentemente a 2ª pessoa do singular. Procurou quebrar o gelo remetendo para uma proximidade inexistente. Confesso que é coisa que me aborrece. Não suporto mesmo que o façam. Sobretudo quando o objectivo é tão somente sacar dinheiro por um serviço que nem sequer se prestou. A sem vergonhice pode atingir níveis estratosféricos!
– Desculpa? – Digo-lhe, com a sobrancelha arqueada (sinal clássico, evidente, e tão bem conhecido daqueles que me conhecem de que não estou a achar piada nenhuma à conversa).
Podias era dar-me umas moedinhas! – Repete com convicção e sem qualquer vergonha nas fuças. Sem meias medidas avanço na direcção dele, estaco-me diante dele e pergunto-lhe muito calmamente:
– Mas o que é que tu fizeste para me ajudares a estacionar o carro? Posso saber?
Ohhh… qué dizer, tamém não custa muito dar umas moedinhas…
– Não te dou moedinhas nenhumas e se me fazes alguma coisa ao carro levas com essa muleta na cabeça, estás a ouvir? – Viro-lhe costas assoberbado pela indignação e pela chatice de ter de aturar coisas destas numa das zonas de que mais gosto na minha cidade e, sobretudo, chateadíssimo porque aquele “animal” nem sequer teve o cuidado de perceber que eu estava prestes a acrescentar história à minha vida. Não teve sequer a decência de pedir apenas 1 moeda, têm de ser várias, mais do que uma, usando paulatinamente o plural como se fosse de conhecimento público que agora já temos de deixar moedinhas, várias, em farto número, tudo em nome da satisfação da sede do vício, tudo para que o “menino” possa refastelar o esqueleto e entreter o reboliço de que se alimenta o desgrenhado pensamento preocupado apenas com a droga de que precisa.
Tenho o “azar” de conseguir identificar um viciado em heroína à distância, do outro lado da estrada. Pelo olhar vazio e vítreo, obcecado na satisfação constante da ressaca que lhe corrói as entranhas; pela postura física; pela ausência total do compêndio de regras sociais que nos faz respeitar o próximo. Pela capacidade que o vício lhes dá de deitarem ao rio (ali tão perto) a dignidade e de se prestarem a tudo para arranjar dinheiro para a próxima dose.
Chateado com isto tudo lá avanço rumo à Casa dos Bicos onde funciona nobremente a Fundação José Saramago. Lamentavelmente foi a primeira vez que nela entrei e não podia ter ficado mais impressionado, mais convencido da grandeza do “nosso” Nobel da Literatura.
Ao contrário da maioria dos portugueses tenho a feliz felicidade de gostar de enaltecer os feitos dos meus irmãos de terra. E Saramago, goste-se ou não do estilo, foi o único homem nascido nesta terra que conseguiu atingir o expoente máximo de um homem que se embrenha nos sinuosos e solitários caminhos da Literatura.
Das escadas que dão acesso ao mundo letrado do autor, a tudo o que ali se expõe e se vê, a memória de José Saramago é permanente e vive ali, naquele histórica e apalaçada Casa dos Bicos que tanta coisa já foi na sua existência já cansada mas majestosamente reforçada e remodelada!
À entrada há um segurança que pronta, zelosa e energicamente nos pergunta ao que viemos:
– Sou jornalista. Venho para a Conferência, sim senhor. – Retribuo-lhe a curiosidade.
– Então é no 4º andar. Sobe aqui as escadas, e depois volta a subir até ao 3º andar, onde está a loja. Eles dentro de alguns momentos já devem abrir o espaço e então pode subir até ao 4º andar onde será a Conferência.
– Muito obrigado meu caro.
– Está cá a seu dona Pilar! Disse com um olhar meio atrevido.
– Subo as escadas e logo me deparo com isto:

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E, para quem gosta de palavras e do quão bem elas encaixam no mundo, isto tem significância, se tem.
Vou por ali acima e chego então à antecâmara da Conferência onde me espera a espera pela abertura da sala. Percorro atentamente o espaço e leio, leio, leio, coisas atrás de coisas, papéis, postais, capas de livros, a cópia emoldurada do Prémio Nobel… Credo! Até me arrepiei! Confesso!

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Não é todos os dias que se pode ver tamanho espectáculo para os olhos!!
Depois seguiu-se isto… que também me deixou parado a olhar por mais uns instantes.

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Ali fiquei até me chamarem para o andar de cima. Ali me detive a imaginar o que teria sido a coexistência literária de Pessoa e Saramago… Meu Deus! Se os escritores desta dimensão pudessem coexistir, co-criar, co-escrever, conversar…!
Depois ainda houve um momento curioso, em plena loja, no 3º andar. Passei por ele ao de leve, mas não pude deixar de o gravar, de o registar. Duas meninas, duas jovens universitárias, travaram-se momentaneamente de razões (coisa simples e em nada violenta), ali entre o Memorial do Convento, O Ensaio sobre a Cegueira e o Ensaio sobre a Lucidez, porque, de acordo com uma delas e com o pouco que consegui ouvir mas ainda assim suficiente para conseguir reter, um determinado rapaz estava bastante diferente e inacessível desde que tinha começado a dar-se com a que estava mais perto do Memorial do Convento e do Homem Duplicado, tudo isto debaixo do olhar atento de Caim.
A amiga bem que se tentava explicar mas estava a ser alvo de uma acusação frontal, sem meias palavras, mesmo antes de ambas subirem para o andar de cima e se sentarem lado a lado a assistir à conferência. Ai o amor e a rejeição que nos chegam a toldar o pensamento até perante aqueles que supostamente nos ladeiam os dias. Aquelas meninas ter-se-ão resolvido, espero.
Chegado lá acima e tendo de imediato procurado um lugar mais resguardado mas que, simultaneamente, me permitisse ver e ouvir tudo o que ali se fosse passar, saquei do bloco e comecei a preparar-me para tirar notas.
Olhei em redor, vi a composição da sala, tweetei sobre isso e sobre a média de idades que a compunha e nisto ouço uma voz em castelhano, feminina, nervosa mas frontal, insegura mas sólida, com pouca vontade de falar, mas com um ressoar metafísico que imediatamente me fez virar a cabeça na direcção do seu som. Era Pilar del Rio e os meus olhos não podiam crer em tal coisa. Estava ali. Em pé. A apresentar a conferência. A agradecer a presença. A ser pura e genuinamente a anfitriã, a Mestre de Cerimónias que envergonhadamente se retira depois de feito o que havia a fazer. Fiquei incrédulo. Atónito. Assoberbado pela presença quase metafísica da Musa de Saramago.
Foi como se estivesse a olhar para a Ofélia do Mestre Pessoa, a Maria Sans de Hemingway… Desconcertante! Absolutamente desconcertante!
Não sou um tipo impressionável. De todo. Vinte e cinco minutos antes adverti o arrumador da possibilidade de lhe dar com a muleta na cabeça… Não sou de facto muito impressionável – neste tipo de coisas – mas sou tremendamente sensível a estas metafísicas da vida e Pilar, Pilar é a representação real de Saramago, é o prolongamento natural das suas frases intermináveis, da sua ausência pontual.
Pilar Del Rio. Não, claro que não fui falar com ela. Que ideia. A metafísica não tem voz para a humanidade! Toda a gente sabe isso. Aproximar-me-ia de Pilar para lhe dizer o quê? Essa agora…
Respirei fundo, encostei-me na cadeira e ali me deixei ficar a ouvir Alfonso Armada e António Mega Ferreira que tão bem falaram.
Que tão boas ideias deixaram. Que fizeram valer a minha deslocação. Que justificaram o ter saído de casa e deixado a minha mulher super grávida em casa durante umas horas para me ir sentar numa sala cheia de desconhecidos, em dia de folga, e ouvir falar sobre o futuro da minha profissão. Porque não?

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Sobre a mesma, notas importantes:

– Pensamos com palavras e é com palavras (e cada vez mais com imagens) que o jornalista conta o mundo aos outros.
– O que torna grande um jornalista é a capacidade que o mesmo tem de conhecer as várias realidades dentro da realidade da vida!
– Será que a maneira de ler o mundo vai influenciar e alterar a maneira de contar o mundo?
– Estará o digital a transformar (para não dizer alterar) a morfologia do nosso cérebro?
– O choque geracional entre Jornalistas pode determinar a luta pelo futuro do Jornalismo?
– Quem vai fazer Jornalismo no futuro?
– A perda de hábito de fazer coisas manualmente.
– A comodidade do processo comunicativo no século XXI

Que me desculpem os que contavam saber mais sobre a conferência… mas, se queriam de facto saber mais… deviam ter lá estado.
Quanto a mim a (senhora) Pilar deixou-me assoberbado, embasbacado, petrificado. Parece até que estive noutra sala ao lado.

No Terraço de Lisboa

No Terraço de Lisboa


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Hoje acordei com a vontade própria dos incautos e ergui-me de um pinote rumo à memória e ao pulmão da cidade de Lisboa.
Devo desde já prevenir-vos para a certeza de que as palavras não me vão servir de muito, mas ainda assim vou tentar dizer-vos qualquer coisa que valha a pena ser lida, mesmo que na diagonal, porque de facto poucas são as palavras que se revelam verdadeiramente úteis para descrever o que hoje encontrei.
Lisboa é a minha cidade, é mesmo.
É bonita de onde quer que se olhe para ela, no seu todo, como uma mancha de cor já envernizada e retocada, como uma tela pintada e deliciada com atenção pormenorizada que o pintor lhe confere.
Mas Lisboa é tão mais bonita quando vista do seu próprio terraço, vista do alto, não, do alto não, do mais alto, do alto de Monsanto.
Foi como se tivesse saído de casa com a certeza de que ia tentar subir à torre mais alta da idílica fortaleza verde que se aninha no coração da cidade, para lhe dar a graça das pinturas romanescas dos mestres renascentistas.
Máquina no saco, como o guitarrista que arruma a guitarra e se prepara para ir tocar sabe Deus onde. Assim me senti esta manhã. Não era coisa para menos, afinal de contas tinha acabado de decidir ia redescobrir um edifício mítico da cidade, perdido naquela perdição em que se perde quem é forçosamente remetido ao abandono e ao descuido, ao desleixe e ao fatalismo. E não é de forma inocente que digo Quem e não O Que, porque na verdade o Panorâmico do Monsanto tem vida, tem história, tem pois, tem uma tremenda e palpável memória. As paredes choram e uivam de dor, não é ficção nem terror, é um pedido de ajuda, feito com educação. Um salva-me por favor!
Tem as escadarias encurvadas e os tectos pendurados, cansados, exaustos das lutas parvas contra o tempo, contra a força da chuva e do vento. Tem fios e mais fios e vidros, muitos, tantos, todos os quantos se partiram e partidos foram, todos os quantos se prostraram uns contra os outros, no chão da sua eterna e perturbada existência. Aqueles vidros não conheceram mais janela alguma, não quiseram ir-se para mais parte nenhuma. Eu também não ia se fosse vidro, ou melhor, se fosse um daqueles vidros, daquelas janelas, daquela vista, quer fosse inteiro ou já partido, porque há coisas que não se podem separar, e os vidros das janelas vêem mais longe do que se pode sequer imaginar, e o vidro nem sempre é tão e somente… vidro.
Cheguei curioso, com respeito.
Claro que é apenas um edifício abandonado, mas é preciso respeitar as paredes, as escadas, os vidros, é preciso pisá-los com alguma delicadeza, em prestações suaves, com o pé seguro do caminho que leva, mas sem ser insolente e espalhar tudo o que se lhes mete na frente, dos pés evidentemente.
Circundei o espaço num jeito que podia bem ser de turista, olhando e admirando, fotografando o redor, a companhia que não deixa que o edifício se amedronte nas noites de tempestade, a protecção que o conforta quando lhe chega à pele a humidade, a verdura que lhe dá esperança, a esperança com que contorna o quão dura e triste é a sua realidade. E a vista? A Vista!!
Pouco falta para que se encerre de vez o ciclo de vida de um majestoso e burguês edifício que foi pensado para tudo menos para aquilo que hoje é, um depósito do que já teve vida, um acumular de escombros, de noites, de dias, um ajuntamento de restos de tudo o que ali houve, o que ali se viveu, o que ali se viu e se sonhou.
Em 1992, tive a felicidade de presenciar a festa de casamento de uma das minhas estimadas tias, ali, exactamente naquele mesmíssimo sítio. Recordava-me sem dúvida da entrada e das escadarias intermináveis para umas curtas pernitas incansáveis.
Eu e o meu irmão levámos a noite a subi-las e a descê-las, pouco mais há a fazer para duas crianças tão pequenas num sítio tão grande.
Não posso dizer que me senti triste por ter visto o “monstro” esventrado, encolhido, envergonhado com tudo o que lhe tem acontecido, que me tenha sentido sequer incomodado com a sua morte lenta, senti-me sim agraciado por ver o que uma “coisa” assim aguenta. Ai aguenta, aguenta!

Pela primeira vez tive a sorte de ver a minha cidade com os olhos que hoje tenho, bem diferentes de quando nem tão pouco tinha o tamanho, que me permitisse sequer espreitar.
As janelas eram altas, enormes, esbeltas e cúmplices, era preciso bem mais do que pernas curtas para lhes conseguir tocar. E os olhos que tinha, na verdade, não eram olhos de quem conseguisse procurar. Queria era subir e descer escadas, as camisas desfraldadas, as canelas magoadas, mas… não faz mal nenhum, era dia de festa e enquanto os adultos brindavam com querer, deles não queríamos nem saber, e escadas? Não há mais para subir e descer?
E hoje, 21 anos depois, quase, quase vinte e dois, subi a montanha, sim a montanha que nela guarda o monte e fui beber a água directamente da fonte, fui ver a Lisboa que não se vê, nem do Castelo, do Bairro Alto ou da Nossa Senhora do Monte, dá para vê-la de fio a pavio, dá para ver desde ao longe na lezíria até aqui bem perto, no finalzinho do rio, o Tejo pois com certeza, não se percebe logo pela mais do que inquestionável grandeza?
E a Natureza que de verde o resguardou, foi a sua sorte, razão pela qual tanto tempo ali aguentou.
E eu?
Ainda aqui estou.
Fui lá dar de beber aos olhos e nenhum reclamou.
Como estava bom o almoço que Lisboa me preparou.
Sem pratos, sem talheres, sem mesa, só a memória da história tão portuguesa de um edifício que já foi Rei, Príncipe e Imperador e que hoje sofre com a dor, de não ter mais quem receber.
Não tem vergonha de assim ser, de estar nu mas não parecer, tem pena de estar sozinho, de ser difícil o caminho e de não saber o que lhe vai acontecer.
Como se sentirá um espaço que mais não tem porque viver?
Sete mil metros de frustração e tristeza em língua portuguesa.
Vale a pena ver com os olhos e com as solas das sapatilhas, Lisboa tem sim mil maravilhas e outras tantas anormalidades. Porque se deixou ali ficar um cemitério de grandeza e um palácio de liberdades. Tanto ali se podia fazer, tanto ali se podia tentar, mas… para isso é preciso que sejamos mais do que fomos, mais do que somos mais do que queremos ser.
É preciso pensar, agir e fazer e sobretudo é preciso cuidar do que se está a oferecer e a vista que tudo aquilo oferece aos olhos, merecia pessoas aos molhos e sorrisos de alegria, não merecia por certo um palácio de cimento, cada vez mais cinzento, na floresta vazia.
E Monsanto ali ao canto, do verde que se vê ao longe, na quietude clerical de um monge, com um palácio a céu aberto. Não. Não é mais. Não está certo.
É Inverno e está frio e o vidro que no caco do lado se enrosca, por certo que com todos aposta que não há pior do que a perspectiva triste da morte anunciada, nem Kundera imaginava que o vidro sentiria assim. Quanto tem um prédio de sofrer, até alguém perceber, que das obras deve cuidar que as manda edificar? É triste mas nada disto irá mudar.
O homem continuará a criar, a construir e a levantar, com a mesma rapidez com que é capaz de virar costas e tudo abandonar.
Tristes de nós que vivemos num mundo sem memória.
Se assim não fosse, talvez fosse outra a histórias.
Dos prédios e das pessoas, de todas as coisas boas que por impulso deixam de o ser.
Vá-se lá perceber.

 

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Deus nem sempre é tão amigo assim

Boa noite senhor Deus.    
Na verdade, não faço a mais rotunda ideia do que Lhe passará pela cabeça, ou melhor, reconheço que seja difícil manter um elevado nível de concentração para alguém que é TUDO, para alguém que tem no pensamento uma fita de todos os pensares e pensadores do universo.
Ser TUDO e estar em TODO O LADO, não pode ser pêra doce (e o quanto eu queria utilizar esta mui nobre e popular expressão portuguesa).
Ser Deus trará logo à partida um contrato, todo ele escrito em letras muito, muito pequeninas, e só em páginas deve ter toda uma floresta amazónica.
No entanto, o Rapaz sabia ao que ia, com certeza que ninguém pensa que Ele chega a Deus assim como quem dá cá aquela palha.
Se assim fosse, qualquer um era Deus, e isso não dá bom resultado, basta ver como está a Grécia.
E ainda dizemos nós que isto aqui está mal, mas nós ao menos a quem reportar, seja em que situação for, eles, pobres coitados, para cada mal têm um Deus diferente, mais se parece com o El Corte Inglés do que com qualquer outra coisa. 
Estou bêbado que nem um cacho, vai, chama o do Vinho, sofri um desgosto de amor, chama a da especialidade, ai que vamos ter problemas com toda a gente que está à nossa volta, é turcos, gregos, cipriotas, albaneses, macedónios, búlgaros, líbios (de barco sempre em frente), egípcios (também de barco, sempre a descer), italianos (só para chatear, também de barco, mas para cima e para a esquerda, mas é pertinho), toda uma variedade de gente que gosta deles como o diabo da cruz.
Ainda nos queixamos nós.
Sim, temos os espanhóis, eu sei, e os marroquinos, e o Alberto João, mas seria bem pior ser grego, digo eu, em grego e baixinho…
Ora, os deuses daquela gente nunca se cansam, e isso coloca todos os restantes professantes de uma religião monoteísta numa abjecta e suposta desvantagem… vantajosa.
Ora o que se passa é, nós, filhos de um Deus maior, mais vasto e utilizando um termo que habilmente subtraio à Alexandra Solnado, o nosso Deus tem bem mais do que 2 km, tenha paciência.
Às vezes dá a sensação que Deus abandonou este mundo há muito, muito tempo atrás, que pura e simplesmente fez a trouxa, desamarrou o burro e pôs-se a… não sei bem como é que Ele se faz transportar, deve ter um Deus mobile, ou anda em cima das nuvens, ou então, não faz nenhuma das duas… Pura e simplesmente tele-transporta-se para onde precisa de estar.
Passeio de mansinho pelas ruas cheias de sol e de uma luminosidade apaixonante, é Lisboa, é assim, é sempre assim quando está sol em Lisboa, e tem estado tanto.
Por estes dias, cheira já ao fim do Inverno e as árvores voltam a cochichar de uma ponta para outra no jardim da Estrela.
Da chuva falou-se hoje.
Por estes dias Portugal parece viver sobre uma espécie de nuvem, assente num gás levitante que o suspende de tudo o que são mudanças, exigências, medidas, transformações, alterações estratégicas, contribuições, aumentos, cortes, costuras, remendos.
No entanto há sempre brilho em Lisboa, há sempre sol na Madragoa, e aquela gaivota que voa, tão perto, tão baixo, junto ao chão onde chora o menino que a mãe assoa com Amor.
São três horas e mais metade, assim diz o relógio já exausto na Avenida da Liberdade, desce e chega-se ao Rossio, já cheira, já brilha, já bate, lá em baixo, a Lisboa do seu rio.
As terças, com roupa de sábado, são o fim-de-semana na bagunça dos dias dos outros.
É o melhor dos dias, o sábado, com sol, em Lisboa e sem sono.
Ando, subo, desço, mãos nos bolsos, casaco apertado, passo encantado e sinto-me no caminhar vagaroso da minha gestão temporal.
Esfrego as mãos, sopro-lhes para ver se aquecem, estás fria Lisboa, e sozinha, deixaram-te ao abandono porque não estás nem nunca estiveste para grandes Carnavais.
Se há coisa que aprecio em ti é a tua sinceridade, és o que és, és o que mostras, dás o que tens (a mais também não és obrigada, diga-se de passagem), encantas os que te olham e deixas saudade nos que te viram as costas.
Mas não fugindo do que aqui me trouxe.
Deus.
Nem sempre És tão amigo assim.
Nem sempre Estás onde dizem que Estás, Vais onde dizem que Foste, Fazes o que dizem que Fizeste, Salvas como dizem que Salvaste.
Nesses momentos todos, em que sofro e vejo sofrer, em que morro e vejo aos outros a alma a desaparecer, onde estás Tu?
Onde te escondes?
Já sei. Vais dizer que Tens muita coisa para fazer, muita coisa na cabeça e passas os dias preocupado, assustado, alarmado, sem tempo sequer para dormir, ou descansar!
E eu digo desde já, que isso é mentira!
Não sei se Te tiraram ou não os subsídios, se estás no fundo de desemprego, se estás desempregado, mas há pouco tempo…
Pessoalmente acho que será este o caso.
Deus = Desempregado de curta duração!
Ora então, temos de aprimorar esses CV’s, para ver se Te arranjamos qualquer coisa, nem que seja um part-time mixuruca, só para não estares tanto tempo sem fazer nada, que isso não é vida para ninguém, e “fachavor” vamos a ser proactivos, que nos dias de hoje se não Fores empreendorista, não te safas.
Ora, posto isto, pode até manter-se a tese de que Deus é omipotente, omnipresente, omni sei lá mais o quê, mas de certo que nem sempre é tão amigo assim de todos nós.
E falha muitas vezes, ou melhor não falha, simplesmente não aparece, esconde-se atrás das nuvens, que com aquele tamanhão todo é impossível desaparecer-se assim.
Assim, e continuando o périplo, apenas me apraz dizer que, apesar de continuarmos a utilizar constantemente, o “Deus nos guarde; Deus nos acuda; Por amor de Deus; Ai Deus seja louvado; Com a graça de Deus; Até amanhã, se Deus quiser; O futuro a Deus pertence…”
Ele tem tantas vezes bem mais que fazer.
Provavelmente andará em torneios de futebol com os deuses gregos, que também devem andar bem longe daquelas paragens.
Sou egoísta e quero um Deus que me ajude?
E depois?
Que mal tem isso?
Vem ao mundo alguma epidemia? Agrava-se a crise? Baixa o rating da minha dívida?
Que nada!
“Continuarão a existir noites de lua cheia, a serra de Sintra e o Tejo vai continuar a correr para o mar!”
No fundo não faço mais que todos os outros e faço seguramente mais do que quem nada faz.
Falo, queixo-me, peço, exijo, reclamo, mas sigo para casa, todos os dias pela mesma estrada, e porquê?
É mais perto.
É mais rápido.
E não é assim em tudo na nossa vida?
Acho que quero gostar de pensar, que há superioridade na parte desta entidade superior a tudo o que é mundano.
Mas se vivo em Portugal, numa democracia exemplar, porque não posso exercer os meus direitos e bramir veementemente argumentos contra um Deus que parece mais não ser do que um Deus das pequenas coisas… e as outras?
E o teu filho?
Está bonito isto, ai está, está.
Está de greve?
Está de baixa?
Trabalha na CP?
Já percebi… Deixa, já vi tudo!
É jovem, está desempregado, e não sabe sequer se passa dos 33…
Diz-Lhe que tenha cuidado com as companhias.
Atenciosamente,
Martim Mariano
Ai Lisboa, vês ao que tenho de me sujeitar?
Já tu, a ti, nada te parece incomodar.
Estás meio mosca morta, meio adormecida…
Acorda que isso que vives não é vida, é passeio!

Olha como chove Lisboa

Há, com toda a certeza, razões e porquês para tudo o que vês.
Na verdade, tudo o que somos se baseia na tentativa frustrada que lançamos rumo ao entendimento.
Tudo. O que é o tudo? De que é feita a totalidade da matéria? De que é composta? 
Para onde se caminha quando já não se quer nada mais do que aquilo que na verdade já se tem?
E o oposto? A que categoria pertence?
Onde se encaixa alguém que não tem nada e que quer desesperadamente alcançar… qualquer coisa que seja?
Já não digo tudo, mas digo, qualquer coisa que seja, é mais simpático, mundano, modesto e não obedece à estúpida luta de classes a que vulgarmente se assiste no dia vai, dia vem.
Talvez ser poeta seja de facto ser mais alto.
Se para ser mais alto tenho de escrever, então não pararei de crescer.
Contudo, lá está o tudo novamente, amanheço debaixo da chuva que hoje cai e penso no que me falta?
E no que faltará então aos que de facto assumem ser e não ter nada.
Lá dizia o “outro”, que “só sei que nada sei”, eu por mim mesmo digo apenas que “não sei o que sabe quem nada tem”.
Andamos em versos descalços, caminhamos por estradas cobertas de um magma invisível que segrega a consciência dos fracos, ou simplesmente faz bolhas nos pés de quem não calça os caminhos que percorre.
Na calçada, as pedras andam também elas perdidas, porque alguém as deixou assim, tristes e condenadas a serem eternamente espezinhadas.
Por elas passamos todos e passa de tudo um pouco e tanto mais.
E o que têm as que não têm a sorte de formar composições gráficas embelezadas, a que alguém ousou chamar calçada?
Todas as outras que vivem de uma só cor e são erigidas às três pancadas, mais não são que um aglomerado de pedras soltas, que tantas vezes nem se chegam a tocar.
Lá fora rebentam granadas temporais, cavilhas soltas ao desbarato, por uma natureza enfurecida que tem a ousadia de fazer soar os alarmes dos carros, que acordam os vizinhos, que resmungam contra o tempo, lá está a luta de classes.
O tempo é o que é e faz o que faz, e quem nos julgamos nós para praguejar contra os seus desígnios.
Mais uma granada para a mesa do canto, por favor. Qual? A que tem o senhor com o candeeiro e a pose de escritor altivo, de pseudo-romancista de cómoda em pé. Mais foi assim que Pessoa escreveu muitos dos seus, não é?
Deixem-no estar que ele sonha.
Ah pobre Diabo, não sabe o que diz mas sorri, se é feliz, então a vida eu lhe gabo.
Chove e molha-se a roupa, chove e enchem-se as valetas de toda a merda que corre pela cidade, chove e solta-se o grito mudo dos céus arroxeados, carregados de uma frustração perene, de uma luta, que não de classes, que não é só deles.
Como cheira a terra.
Como a luz é pouca, mas vive em liberdade.
Deixa-te estar na cama Lisboa, é cedo, e quanto a nós, já te chega a tua própria infelicidade.
E o que é de mim que estou para aqui a chatear-te?!
Pouco mais tenho a fazer, resta-me contigo falar.
Se não for contigo, aos outros não sei o que digo, mais vale aproveitar.
Dorme bem pequena.
Que agora vou-me eu deitar.
Daqui a pouco estou de volta e tu, estarás sempre no teu lugar.