A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

Tudo começa a 17 de Fevereiro de 2010.

Na altura, 3 dias depois de ter começado o meu estágio, deu-se um dos piores acontecimentos da história da Madeira.

O temporal de 20 de Fevereiro que para os Madeirenses ganhou direito a marco histórico, “o 20 de Fevereiro”, dizem eles. O 20 de Fevereiro, digo eu. 😱

Foi uma manhã frenética.

Naquele dia soube pelos meus próprios olhos e ouvidos o que era o jornalismo “a sério” e tive a certeza que ia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para conseguir um emprego naquela redacção.

Ali mesmo, naquele dia 20 de Fevereiro, soube que não ia completar o mestrado em que me tinha metido na Escola Superior de Comunicação Social. Ainda acreditei levemente que fosse possível, mas depois percebi o que ia acontecer.

Percebi rapidamente que ia abdicar do relatório de estágio em prol do emprego que haveria de conseguir. Ali. Na SIC. Caramba. Ia conseguir um emprego na SIC.

E depois foi ali que me fiz homem.
Ali perdi o meu avô.
Ali saí de um namoro com feridas em carne viva.
Ali saí de casa.
Ali me apaixonei novamente quando achava que seria impossível.
Ali tive um cancro. Ali o venci. Ali perdi a minha irmã.
Ali me casei com a mulher da minha vida.
Ali fui pai. Ali.
E ali fiz amigos. Aprendi o que é a televisão. O que é o jornalismo.
Depois veio o desporto e a produção de programas. E por fim, as redes sociais pelas quais me apaixonei.

É agora tempo de dizer Obrigado. A todos. Por tudo.

Vou feliz. Levo-vos no ❤️. Se levo.

Não digo adeus, digo adeus e até já. Continuarei a ler-vos e a ver-vos!

Vocês são a informação em Portugal! Vocês. Para mim são vocês e só vocês.

Terei sempre as memórias e o bicho do jornalismo que se esconde por baixo da pele para não nos deixar pensar diferente para o resto da vida.

Com o jornalismo percebi o mundo. Pelas vozes de jornalistas que se foram tornando amigos, colegas, companheiros, camaradas.

Agora é tempo de “virar a página” de forma literal. De virar a folha para continuar a escrever a minha história que já conta com muita coisa para contar.

Não vos quero maçar. Afinal de contas saio por vontade própria, para procurar melhor, para viver mais e ser mais. Não preciso de sorte. Preciso apenas de ser feliz e de trabalhar para ser melhor. Sempre. Uma vez mais, obrigado à SIC e ao Expresso.
À Impresa. Obrigado. De coração.

Tenho a certeza que o melhor ainda está para ver.

#storytelling

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Ver e sentir José Saramago… nas palavras de Pilar

Ver e sentir José Saramago… nas palavras de Pilar

Sexta-feira.
Final de tarde cinzento rato, de um final de uma semana molhada, encharcada, ensopada esta segunda semana de Abril.
Uma semana dentro de um mês que podia perfeitamente ser alienado do calendário.
Saio de casa e deixo a minha mulher grávida a descansar. Os 8 meses e meio de gravidez já lhe vão pesando as costas, os pés, as mãos… mãos que começam a inchar e tornar incómoda a convivência com a aliança.
Subo os túneis do Grilo e não sabendo bem como consigo fazer a carrinha serpentear pelo trânsito que se precipita enlagartado para a saída de Sacavém/2ª circular.
Daí à Casa dos Bicos é um tirinho.
O que vou lá fazer? Assistir a uma conferência intitulada “Conversas sobre o futuro do Jornalismo”, com o jornalista galego Alfonso Armada e, do nosso lado, António Mega Ferreira.
O primeiro episódio desta deslocação acontece imediatamente a seguir a estacionar. Detenho-me dentro da mesma ainda durante alguns minutos para devolver uma chamada que havia perdido durante a viagem. Estou eu ao telefone e, qual não é o meu espanto quando me aparece à janela do carro um enfarruscado, mas nem por isso menos desavergonhado arrumador de carros.
Antes de mais devo dizer e confessar que a minha simpatia para com estes tipos é muito próxima dos limites mínimos, directamente proporcional à tolerância que lhes tenho, sobretudo quando, como foi o caso, me aparecem tal e qual o melhor dos paraquedistas, vindos sabe Deus de onde, com o intuito único de me virem “enfiar” a mão no bolso com a frase mítica: “Oh amigo, não tem uma moedinha?”.
Neste caso, e dado que se plantou a mirar-me mesmo junto à janela do lugar do condutor, pôde ver-me ao telefone e assim decidiu arrepiar caminho de volta ao outro lado da estrada, de onde de resto tinha saído, e onde então se estacou expectante, aguardando a minha saída.
Terminei a chamada, peguei no meu bloco de notas, abri a porta e vi-o logo pelo canto do olho esquerdo. Sim, do esquerdo. O canto do olho direito não vê a ponta de um corno. E tranquei o carro.
Ainda no meio da estrada pude escutar um balbuciar de qualquer coisa de onde apenas consegui entender um…
“Podias era dar-me…” Erro número 1. Falou comigo utilizando insolentemente a 2ª pessoa do singular. Procurou quebrar o gelo remetendo para uma proximidade inexistente. Confesso que é coisa que me aborrece. Não suporto mesmo que o façam. Sobretudo quando o objectivo é tão somente sacar dinheiro por um serviço que nem sequer se prestou. A sem vergonhice pode atingir níveis estratosféricos!
– Desculpa? – Digo-lhe, com a sobrancelha arqueada (sinal clássico, evidente, e tão bem conhecido daqueles que me conhecem de que não estou a achar piada nenhuma à conversa).
Podias era dar-me umas moedinhas! – Repete com convicção e sem qualquer vergonha nas fuças. Sem meias medidas avanço na direcção dele, estaco-me diante dele e pergunto-lhe muito calmamente:
– Mas o que é que tu fizeste para me ajudares a estacionar o carro? Posso saber?
Ohhh… qué dizer, tamém não custa muito dar umas moedinhas…
– Não te dou moedinhas nenhumas e se me fazes alguma coisa ao carro levas com essa muleta na cabeça, estás a ouvir? – Viro-lhe costas assoberbado pela indignação e pela chatice de ter de aturar coisas destas numa das zonas de que mais gosto na minha cidade e, sobretudo, chateadíssimo porque aquele “animal” nem sequer teve o cuidado de perceber que eu estava prestes a acrescentar história à minha vida. Não teve sequer a decência de pedir apenas 1 moeda, têm de ser várias, mais do que uma, usando paulatinamente o plural como se fosse de conhecimento público que agora já temos de deixar moedinhas, várias, em farto número, tudo em nome da satisfação da sede do vício, tudo para que o “menino” possa refastelar o esqueleto e entreter o reboliço de que se alimenta o desgrenhado pensamento preocupado apenas com a droga de que precisa.
Tenho o “azar” de conseguir identificar um viciado em heroína à distância, do outro lado da estrada. Pelo olhar vazio e vítreo, obcecado na satisfação constante da ressaca que lhe corrói as entranhas; pela postura física; pela ausência total do compêndio de regras sociais que nos faz respeitar o próximo. Pela capacidade que o vício lhes dá de deitarem ao rio (ali tão perto) a dignidade e de se prestarem a tudo para arranjar dinheiro para a próxima dose.
Chateado com isto tudo lá avanço rumo à Casa dos Bicos onde funciona nobremente a Fundação José Saramago. Lamentavelmente foi a primeira vez que nela entrei e não podia ter ficado mais impressionado, mais convencido da grandeza do “nosso” Nobel da Literatura.
Ao contrário da maioria dos portugueses tenho a feliz felicidade de gostar de enaltecer os feitos dos meus irmãos de terra. E Saramago, goste-se ou não do estilo, foi o único homem nascido nesta terra que conseguiu atingir o expoente máximo de um homem que se embrenha nos sinuosos e solitários caminhos da Literatura.
Das escadas que dão acesso ao mundo letrado do autor, a tudo o que ali se expõe e se vê, a memória de José Saramago é permanente e vive ali, naquele histórica e apalaçada Casa dos Bicos que tanta coisa já foi na sua existência já cansada mas majestosamente reforçada e remodelada!
À entrada há um segurança que pronta, zelosa e energicamente nos pergunta ao que viemos:
– Sou jornalista. Venho para a Conferência, sim senhor. – Retribuo-lhe a curiosidade.
– Então é no 4º andar. Sobe aqui as escadas, e depois volta a subir até ao 3º andar, onde está a loja. Eles dentro de alguns momentos já devem abrir o espaço e então pode subir até ao 4º andar onde será a Conferência.
– Muito obrigado meu caro.
– Está cá a seu dona Pilar! Disse com um olhar meio atrevido.
– Subo as escadas e logo me deparo com isto:

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E, para quem gosta de palavras e do quão bem elas encaixam no mundo, isto tem significância, se tem.
Vou por ali acima e chego então à antecâmara da Conferência onde me espera a espera pela abertura da sala. Percorro atentamente o espaço e leio, leio, leio, coisas atrás de coisas, papéis, postais, capas de livros, a cópia emoldurada do Prémio Nobel… Credo! Até me arrepiei! Confesso!

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Não é todos os dias que se pode ver tamanho espectáculo para os olhos!!
Depois seguiu-se isto… que também me deixou parado a olhar por mais uns instantes.

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Ali fiquei até me chamarem para o andar de cima. Ali me detive a imaginar o que teria sido a coexistência literária de Pessoa e Saramago… Meu Deus! Se os escritores desta dimensão pudessem coexistir, co-criar, co-escrever, conversar…!
Depois ainda houve um momento curioso, em plena loja, no 3º andar. Passei por ele ao de leve, mas não pude deixar de o gravar, de o registar. Duas meninas, duas jovens universitárias, travaram-se momentaneamente de razões (coisa simples e em nada violenta), ali entre o Memorial do Convento, O Ensaio sobre a Cegueira e o Ensaio sobre a Lucidez, porque, de acordo com uma delas e com o pouco que consegui ouvir mas ainda assim suficiente para conseguir reter, um determinado rapaz estava bastante diferente e inacessível desde que tinha começado a dar-se com a que estava mais perto do Memorial do Convento e do Homem Duplicado, tudo isto debaixo do olhar atento de Caim.
A amiga bem que se tentava explicar mas estava a ser alvo de uma acusação frontal, sem meias palavras, mesmo antes de ambas subirem para o andar de cima e se sentarem lado a lado a assistir à conferência. Ai o amor e a rejeição que nos chegam a toldar o pensamento até perante aqueles que supostamente nos ladeiam os dias. Aquelas meninas ter-se-ão resolvido, espero.
Chegado lá acima e tendo de imediato procurado um lugar mais resguardado mas que, simultaneamente, me permitisse ver e ouvir tudo o que ali se fosse passar, saquei do bloco e comecei a preparar-me para tirar notas.
Olhei em redor, vi a composição da sala, tweetei sobre isso e sobre a média de idades que a compunha e nisto ouço uma voz em castelhano, feminina, nervosa mas frontal, insegura mas sólida, com pouca vontade de falar, mas com um ressoar metafísico que imediatamente me fez virar a cabeça na direcção do seu som. Era Pilar del Rio e os meus olhos não podiam crer em tal coisa. Estava ali. Em pé. A apresentar a conferência. A agradecer a presença. A ser pura e genuinamente a anfitriã, a Mestre de Cerimónias que envergonhadamente se retira depois de feito o que havia a fazer. Fiquei incrédulo. Atónito. Assoberbado pela presença quase metafísica da Musa de Saramago.
Foi como se estivesse a olhar para a Ofélia do Mestre Pessoa, a Maria Sans de Hemingway… Desconcertante! Absolutamente desconcertante!
Não sou um tipo impressionável. De todo. Vinte e cinco minutos antes adverti o arrumador da possibilidade de lhe dar com a muleta na cabeça… Não sou de facto muito impressionável – neste tipo de coisas – mas sou tremendamente sensível a estas metafísicas da vida e Pilar, Pilar é a representação real de Saramago, é o prolongamento natural das suas frases intermináveis, da sua ausência pontual.
Pilar Del Rio. Não, claro que não fui falar com ela. Que ideia. A metafísica não tem voz para a humanidade! Toda a gente sabe isso. Aproximar-me-ia de Pilar para lhe dizer o quê? Essa agora…
Respirei fundo, encostei-me na cadeira e ali me deixei ficar a ouvir Alfonso Armada e António Mega Ferreira que tão bem falaram.
Que tão boas ideias deixaram. Que fizeram valer a minha deslocação. Que justificaram o ter saído de casa e deixado a minha mulher super grávida em casa durante umas horas para me ir sentar numa sala cheia de desconhecidos, em dia de folga, e ouvir falar sobre o futuro da minha profissão. Porque não?

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Sobre a mesma, notas importantes:

– Pensamos com palavras e é com palavras (e cada vez mais com imagens) que o jornalista conta o mundo aos outros.
– O que torna grande um jornalista é a capacidade que o mesmo tem de conhecer as várias realidades dentro da realidade da vida!
– Será que a maneira de ler o mundo vai influenciar e alterar a maneira de contar o mundo?
– Estará o digital a transformar (para não dizer alterar) a morfologia do nosso cérebro?
– O choque geracional entre Jornalistas pode determinar a luta pelo futuro do Jornalismo?
– Quem vai fazer Jornalismo no futuro?
– A perda de hábito de fazer coisas manualmente.
– A comodidade do processo comunicativo no século XXI

Que me desculpem os que contavam saber mais sobre a conferência… mas, se queriam de facto saber mais… deviam ter lá estado.
Quanto a mim a (senhora) Pilar deixou-me assoberbado, embasbacado, petrificado. Parece até que estive noutra sala ao lado.

O “meu” Mário Crespo – Parte II

O “meu” Mário Crespo – Parte II

Olá Mário, como está? Estou bem e tu? (sem fazer a mais pequena ideia de quem era o mamífero que tinha diante dos seus olhos, mas com aquele sorriso sempre afável de Mário Crespo) Posta de parte esta interrupção inusitada, no meio de uma gaguez inicial, eis que lhe digo: Mário, com toda a certeza que não se lembra de mim. Chamo-me Martim Mariano, sou sobrinho do Pedro e filho mais velho da Luisa Mariano… Lembro-me que o Mário me mostrou o que era uma máquina de escrever, me deixou sentar-me na sua cadeira a experimentar as teclas e a destruir folhas… Senti-o a focar-me. Tirou da cara o sorriso e emprestou à mesma o seu olhar de surpresa e contentamento a que o sorriso novamente se agarrou. Não posso. (Agora sorrio eu com um ar de papalvo indescritível) És o filho da Luisa Mariano? Ena pá. Aos anos que eu não ouvia esse nome. Mas é um nome que me traz um carinho enorme ao coração. Como está a tua mãe? Como está o Luís? Meus companheiros de tantos anos na RTP. Gosto muito da tua mãe. Sempre que precisares de alguma coisa. Fala comigo. Ouviste? Dá um grande beijo à tua mãe. Um grande abraço ao Luís e… tratas-me por tu, se fazes favor! (Está completamente doido. Tratá-lo por tu?! Impossível. Não consigo) Não prometo que consiga Mário. Deste-me uma enorme alegria. Fizeste-me recordar belos tempos e belas pessoas. Obrigado, Martim.

Não posso dizer que tenha trabalhado com o Mário Crespo. Não eu. Não este Mariano. Trabalhei no mesmo sítio que ele, e conversei algumas vezes com ele. Sobre a vida. Sobre o país e o mundo (como tão bem diz o Rodrigo). Sobre o passado, o presente e o futuro.

Há uns dias fui surpreendido pela notícia da sua saída. Do seu adeus. E, caramba. Fui ter com ele. Quis saber porquê, como, quando, e agora? E agora? Agora? vou-me embora. Comovido, levei a mão ao peito e disse-lhe, afastando-me, mas sem nunca lhe virar as costas, batendo com a palma da mão no lado esquerdo da minha existência. Obrigado Mário, por tudo, por sempre. Da máquina de escrever às palavras e às verdades. Da coragem à falta dela. Obrigado. E bati com a mão no peito, no mesmo lado da existência e recebi um… Eu sei, Martim. Eu sei. Obrigado eu. Dá um beijo à tua mãe.

Hoje, mais do que qualquer outra coisa, porque é esse mais que me trouxe a este texto. Venho dizer que me fará falta este “meu” Mário Crespo. O Mário que eu conheci na caixa e dentro dela. O jornalista. O homem. O sabedor. O curioso. O indomável. O incansável. O professor. O divertido. O jornalista, tal como um escritor, não deixa de ser jornalista. O Mário nunca será outra coisa que não um jornalista. Um comunicador. Homem que olha nos olhos da pergunta e ouve com atenção a resposta. Homem que afronta. Homem. E é ao homem que eu agradeço. Não me importa se o estilo é mais ou menos agressivo. Se agrada ou não às massas de uma classe que tem tanta falta de tanta coisa, mas que ainda assim teima em não se unir ou solidarizar, é coisa que não me importa minimamente. Se nem Deus é consensual, porque se esperará isso de um simples mortal? Disse desassogadamente Fernando Pessoa que, “(…) Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade.” Nem mais. Devia ser assim. Devia pensar-se assim. Mas hoje percebo que seja quase utópico dizer isto a alguém. Irreal dentro da surrealidade dos tempos.

Sapatos. Em pequenos, todos o fazemos. Calçamos e descalçamos sapatos maiores que os pés que temos, bem maiores. Sapatos com o dobro do tamanho. Porquê? Queremos ser como a pessoa que os calça. Queremos ser grandes. Subir às cavalitas, aos escadotes, às árvores, aos terraços. Queremos olhar de cima para baixo e não de baixo para cima. No fundo procuramos, todos nós, mudar a perspectiva. O Mário Crespo moldou a face do “meu” jornalismo. Deu-lhe regras. Deu-lhe formas. Deu-lhe histórias. Deu-lhe alma. Emprestou-lhe o corpo. À profissão. À missão.

Obrigado Mário Crespo. Hoje trabalho dentro da “caixa” tentando sempre pensar fora dela. Gosto muito da caixa. Mas hoje gosto um bocadinho menos de televisão. Foi, é e continuará a ser um prazer. Resta-me aprisionar na cabeça as memórias. Porque de Memória tem de ser feita uma redacção de um Órgão de Informação. Memória. Reconhecimento. Respeito. Hierarquia. Que bem que sabe e que bem que sabia. Até já Mário. Até qualquer dia.

 

 

 

O “meu” Mário Crespo

O “meu” Mário Crespo

Quando era pequenino, demasiado pequenino para entender já a relação física das coisas, soube que a minha mãe estava a trabalhar na televisão. Recordo-me de ter sentido uma alegria fantástica, um orgulho imenso, agora, tinha um tio e a minha Mãe a trabalhar na televisão. Contudo, trabalhar na televisão era, para mim, uma coisa totalmente diferente daquilo que o cidadão comum entende, e bem, por trabalhar num canal de televisão.

Aos 4/5 anos, ainda dentro dos anos 80, entendia que trabalhar na televisão, era, trabalhar dentro de uma caixa de onde saiam imagens e sons e pessoas a fazer coisas e, os bonecos, mas mais precisamente, trabalhar na televisão era trabalhar no mesmíssino sítio onde eu via os “meus” desenhos animados, que piada é que isso tem? Tem muita! Quem é que trabalha dentro de caixas, apertado como uma mulher num espartilho? Quem quer ter um trabalho destes? Quando tens 5 anos, e alguém liga a televisão ao domingo e reconheces imediatamente a voz de um familiar a narrar um Grande Prémio de Fórmula 1, a alegria é indescritível, mas, na verdade, não percebia como era tudo aquilo fisicamente possível. Mas sabia que tinha duas pessoas muito importantes de quem podia falar na escola. O meu avô é engenheiro, a minha mãe e o meu tio trabalham na televisão. Incha! Vai buscar. O teu pai ou joga à bola ou já foste.

Como é que o meu tio faz para falar dentro da caixa? E o que é que a minha mãe faz na caixa se não a ouço a falar? Não faz nada? Então o meu tio trabalha e a minha mãe está para ali o dia todo a fazer o quê? Se é para estar sem fazer nada que venha para casa que faz aqui bem mais falta ao pé de mim para brincarmos, pensava eu para com os meus calções. Sim, era o ano inteiro de calções, se estivesse frio, botavam-se umas collants que se acabava logo o frio, se estivesse só fresquinho, era de meias de lã até ao joelho, mas calções! À Homem! Resumindo, nunca percebi o que é que as pessoas faziam dentro de caixa até ao dia em que a minha Mãe me levou com ela para o trabalho.

Estava radiante. Não me lembro desse momento épico, mas posso afirmar com toda a certeza que estava numa excitação sem precedentes e bem vestidinho. Só para mostrar aquela gente grande que já era um homenzinho. Afinal de contas ia entrar na caixa. Estava ansioso para ver como era tudo, a porta da caixa, as cadeiras onde as pessoas que trabalhavam na caixa se sentavam, o que é que faziam ao certo as pessoas que trabalhavam na caixa. Será que estavam lá mais meninos? É que às tantas uma criança enfiada tantas horas dentro de uma caixa chateia-se se não tem nada para fazer. E andavam lá mais meninos. Fazíamos corridas e jogávamos às escondidas. A caixa era o fim-de-semana de sonho. Adiante.

Cheguei à caixa, leia-se RTP, pois claro, nos anos 80, era a única “caixa” do país, mas como dizia, cheguei à caixa e fiquei desde logo fascinado com a porta. Nunca tinha visto uma porta giratória… Obviamente que tive que dar 3 voltas à porta até encontrar a saída, mas foi alucinante, com um regresso à casa da partida, sem receber 2 contos que fossem.

Depois de atravessar o cabo das rotações que era aquela magistral obra de construção humana (de um louco, devo ter pensado… para com os calções, claro!), deparei-me, de mão dada com a minha mãe, porque nunca se sabe quem é que se vai encontrar numa caixa, com uma recepção que se me assemelhava a um muro enorme e intrepável, sem ter por onde agarrar, onde a minha mãe entregava um cartão de plástico com a fotografia dela (bonita que só Deus sabe) e recebia um cartãozinho em troca para poder então ir para a caixa trabalhar. Lá fomos nós.

Seguiu-se o elevador e o travar conhecimento com um chão esquisito, cheio de bolinhas, parecia a fábrica de onde saiam os pneus de todos os carros do mundo. Fumava-se, muito, em todo o lado, era mesmo esquisita a vida, quando se fumava em todo o lado. Estava sempre nevoeiro. Tudo a fumar e a bater nas teclas das máquinas de escrever. Um horror. Casacos pendurados nas costas das cadeiras. Gente de papéis (Telexes) na mão a esbracejar em alvoroço, gritos, telefones a tocar, asneiras daquelas mesmo feias, até à minha mãe ficava corada, coitadinha. Aquilo da caixa era uma violência para ela. Nunca tinha visto tal coisa. Na minha escola não havia nevoeiro. Aquilo era uma bruma pegada. Depois do primeiro impacto e de vencida a timidez de uma criança, que se vê de repente no meio do campo onde desaparecera D. Sebastião, eis que chega a hora de conhecer as pessoas que trabalhavam com a minha mãe na caixa.

Olá. Olá. Olá. Beijinhos, beijinhos repenicados e pimba, as bochechas entrincheiradas entre os dedos opressores e a cara borrada de batom, bilhec…! Dá cá um bacalhau pá, quantos anos tens? Beijinhos. É igual a ti, Luisa, é a tua cara. Tão querido. Adoro os calçõezinhos. Do lado esquerdo da sala, um senhor de bigode (que hoje está casado com a minha mãe!), grande, alto, com pinta de duro e ali perto um outro, de óculos e olhar vincado, mas com um sorriso muito engraçado. Com voz límpida e marcada, atira-me com um, Olá. Estás bom? Sou o Mário e tu, como te chamas? Martim. E que idade é que tens? Cinco. Já sabes ler e escrever? Já alguma vez viste uma máquina de escrever? Sabes como funciona? (acenei envergonhadamente com a cabeça e ele chamou-me para junto de si e eu lá fui)

Foram estas as primeiras palavras que ouvi do Mário Crespo. Depois o tempo foi passado. Fomos crescendo. Eu mais do que ele, que o Mário já era crescido quando me conheceu. Passei a vê-lo outra vez dentro da caixa, como a tantos outros que via dentro da caixa e que me enchiam de orgulho perante os meus amigos. Eu conhecia as pessoas da caixa. Pegavam-me ao colo. A mim e ao meu irmão. E então começa lentamente o interesse pela informação. E o Mário lá ia andando, contando as coisas dos americanos. E eu ia crescendo. E depois deixei de o ver até me ter aparecido novamente naquele canal novo, a SIC Notícias. Mais crescido, com um ar ainda mais sabedor e conhecedor das coisas. E em 2010, foi a minha vez de chegar à SIC Notícias. E andei semanas e semanas e semanas, a ganhar coragem para me apresentar ao Mário Crespo, para lhe dizer que era o filho da Luisa e enteado do Luís, para lhe dizer que sabia que ele adorava jogar DigDug, mantendo sempre a compostura que deve assistir a um homem distinto e tentando não ser demasiado intrometido e insolente.

Continua…