Das noites.. para os dias!

Cresce do vento a esperança fresca da manhã, de um novo e revigorado suceder de horas, acontecimentos, realidades, reais adversidades, responsabilidades e seu contrário.
Da avenida de sempre vem o burburinho sussurrado das árvores, que anunciam a chegada do dia. Ele aí está. Um, e mais outro. E… mais outro, na sucessão dos dias e dias que se seguem.
Chegam cedo logo depois das noites quentes e frias, mais escuras e sombrias, depende sempre, não se sabe bem de quê, é o que se percebe do que de pouco se vê.
São agora 06h15, Ele desce a rua calmamente, mãos nos bolsos, com luvas de cabedal, grossas, quentes, negras como o alcatrão, ásperas do uso, das longas e épicas, titânicas batalhas contra o frio, a chuva, o vento, os bolsos, o calça e descalça frenético, o poisa aqui e poisa ali e volta a calçar, caiem ao chão, apanha, tem de sacudi-las uma e outra vez, fazendo-as embater violentamente uma contra a outra, sem qualquer demonstração de respeito, afecto, carinho para quem por ele dá a cara à luta.
Continua rua abaixo em direcção ao carro.
Pensarão já mal do gajo, só pelas luvas e porque vai trabalhar de carro?
Que mal tem isso?
Não pode ter um carro porque é um molestador de luvas de cabedal negras como o alcatrão?
E quem é que disse que ele tinha um carro?
Não falei em carro nenhum…
Ele caminhava rua abaixo em direcção ao carro, não existe aqui nenhum elemento que permita concluir que o carro é dele, a não ser que ele tire a chave do bolso quando chegar à porta do mesmo.
Passa ao lado do carro e segue para a paragem. 
(A pensarem mal do homem que bate nas luvas, se calhar agora é crime bater em objectos inanimados, que só servem para proteger as mãozinhas do menino do frio que lhe causa gretas nos intervalos dos dedos.)
Está frio, está bastante frio, e sei isso porque estou na rua, do outro lado da rua, a ver, a olhar, a pensar se me vou deitar ou levantar.
Tem luvas mas não tem cachecol, nem um daqueles gorros todos sopimpas que tapam as orelhinhas, ou daquelas camisolas de gola alta, na, nada disso.
Tem simplesmente o casaco frágil e justo ao corpo, que aparenta verdadeiros problemas de credibilidade e afirmação perante a intempérie e que o torna de tal moda frágil que chega a dar pena. 
E o que vai aquele homem fazer às 06h30 da manhã?
Pergunto eu que estou para aqui sentado, sem saber o que vou fazer, limitando-me a observar e… assim faço correr o tempo e descanso os pés que me doem de uma forma indescritível. Frio. Que frio. Escolheste bem o calçado, valha-te isso, palerma.
E ele ali está, vai para mais de 10 minutos, trauteia uma esquisitice qualquer, não percebo o que diz, está do outro lado da avenida e aqui chega-me apenas em formato de murmúrio tímido e codificado. 
Penso cá para comigo: “Que é que estás a fazer pá? Olha bem para ti, tu não és certo, não podes ser, desculpa mas não podes ser, e não digas que és porque isto só mostra que não és.
Não tens nada melhor para fazer do que estar para aqui a olhar para aquele atrasado, o Par de Luvas com um homem agarrado, acorda e vai para casa.
E eu lá vou.
Esqueço o Par de Luvas com um homem agarrado por uns momentos e sigo. Para casa. Acho.
Chego a casa e lembro-me dele, não vou dizer outra vez, não me apetece escrever outra vez aquilo.
Mas passa-me.
Que interessa saber mais da vida dele? 
Poderá sequer existir um objectivo por trás dessa curiosidade sombria?
Não interessa. Sento-me a rever as fotografias, eternas melodias da lembrança que cantam aos olhos de quem as tira.
Sabem bem.
O Par de Luvas? Encontro-o amanhã pela manhã cedo, ou perto do anoitecer da despedida, na descida da rua, a caminho do carro, que parece não ser dele, e o mundo não acaba, e do outro sei pouco ou quase nada.
Quero fazer mais e bem melhor.
Amanhã talvez não venha vê-lo ao deitar, ou ao levantar, tenho de parar de andar.
Não venho por certo.
Antes ficar assim, mas sem ver, imaginando o anoitecer irrepetível e disperso, maravilhoso e controverso, como a escrita de um verso que se pode revelar sofrível.
Deito as linhas à ponta dos dedos, converso com o teclado e percebo que as frases são extensões directas do pensamento, será que o Par de Luvas tem medo?
A simbiose poética do acontecimento com o prévio pensamento do mesmo é, por si só, motivo mais que suficiente para se adorar a sequência dos entardeceres, a conversa das árvores pela noite dentro na avenida vazia, o acordar em burburinho da cidade.
Não há como não admirar a realidade, nem como tirar os olhos dela!

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E se fosse possível?

Surpeendido acordo pela manhã, olhos meio inchados, boca seca, tshirt molhada, pés frios.   Frios, muito frios os dias que antecederam esta manhã gelada que me secou a boca e me enregelou os pés.
Não percebia bem porque razão tinhas os pés frios, a boca seca, tudo bem, bebi demais ontem à noite, com o tabaco, tanto pior, mas os pés frios, os pés frios era…. esquisito, ahhh, não sei explicar.
Fui até à casa de banho, onde percebi que ainda tinha os olhos meio inchados, a boca gretada, pensei que seria do whisky mas não, eram gretas provocadas pelo frio, mas os pés não tinham gretas.
  Reparei, ao passar as mãos pela cara, que tinha as unhas sujas com terra, dentro das unhas, numa proporção estupidamente estranha. Lavei as mãos, e não tornei a olhar para as unhas.
  Fui até ao frigorífico, servi-me de um belo e habitualmente gelado copo de Coca-Cola, e bebi-o praticamente de uma vez, sentia-me no meio do deserto da tunísia, sequioso, gelado de febre, desidratado, e caminhava com uma leveza estranha.
Segui a rotina normal dos dias e fui ver se tinha mensagens no telemovel, ou alguma chamada. Tinha 2 mensagens tuas, que adoro ler ao acordar, estavas preocupada por serem 16h da tarde, e eu ainda não ter acordado, já me tinhas ligado para casa inclusivé, não ouvi nada. Tentei-te ligar, mas não estava a dar, dava erro de ligação. Tentei de casa, não dava, parecia que de repente tinha acontecido qualquer coisa de completamente anormal em meu redor.
Liguei à minha mãe, também estava desligado, o meu irmão, também desligado, o meu melhor amigo, também desligado. Parecia propositado.
Tomei banho, vesti-me e saí à rua.
Liguei a vEsPa e fui andando. Outra coisa estranha que me aconteceu, passei em 21 semáforos, 19 cruzamentos e 3 rotundas, e nunca precisei de travar, tudo verde, cruzamentos livres, rotundas vazias.
  Era como se toda a humanidade me estivesse a evitar. E eu? Tranquilo da vida.
Bem, parei, no alto do Parque Eduardo VII, a ver o rio, a olhar para ti, a imaginar onde estarias. Voltei a ligar-te, voltou a não dar, por fim consegui… Chamaste por mim, comecei a falar e tu só dizias: “tou? tou? tou…!!? quem fala? Como é que arranjaste este telefone. É do meu…” e começaste a chorar.
Tentei acalmar-te, mas estava eu mais nervoso do que tu, porquê?
Porque durante o tempo em que estiveste a fazer perguntas e a chorar, eu estive sempre a falar, e tu não ouvias nada do que eu dizia, nem sequer falaste directamente, parecia que estavas a falar para algum desconhecido, parecia até que….
EU TINHA MORRIDO!
Espera lá?? Que estúpidez completa, se eu morri como é que tenho telemóvel, vEspA, estou no Parque Eduardo VII a ver o Rio Tejo, a ver-te a ti, a ligar paaaara ti..
Mas a bem dizer ainda nem consegui falar contigo hoje e jã são 20h00, ninguém me atende o telefone, tu atendes e pouco tempo depois desatas a chorar?
O que se passa?
Decido o mais óbvio.
Vou me tentar aleijar…
Tento, mas… não consigo tentar. Não consigo pensar.. Estou bloqueado. Estou, naaa, não pode ser.
Estou morto.
O quê??
E tu? E a Maria InÊs?? e, tudo, e a minha mãe? o meu irmão..? O meu irmão.
Será por isso que tenho as unhas com terra, porque saí do buraco para passear?
Passado um bocado o telefone toca.
Onde é que o telefone de um morto toca? Onde é que um morto ouve o telefone a tocar? Ele até pode ter um telefone, mas depois como é que lhe carrega a bateria?
Ahh, agora é que te apanhei, mas estou a ficar sem bateria.
Volto para casa, ninguém me diz nada, volto para a cama, não quero saber.
Volto a acordar, outra t-shirt, agora seca, pés quentes, boca normal, afinal onde estive eu ontem?
Ligo-te, os pés tão quentes, não tenho meias, não quero luvas, é verão, mas onde estive eu então?
Não tinhas acordado ainda, mas parece que ainda há pouco estive aqui, mas não estiveste, quem te diz que eu não morri?
Que parvoíce, ainda agora acordaste e já tás a dizer asneiras Martim?
Sou eu, sou quem sou, acordei assim, mas diz-me se não é por ser parvo que gostas de mim?
Gostava que um dia voltasses para junto de mim.
Mas eu estou aqui.
Eu sei, dizes tu, mas eu já não saio daqui.
Apanhas-lhe o jeito, digo-te baixinho.
Se viver a teu lado, é viver a sorrir, porque não posso brincar com o que há de vir?
 Ou já veio.
Cala-te palerma.
Nem tudo pode ser feio.
Nem tudo pode durar.
Mas digo sem receio, enquanto dura, leva a vida a brincar.