O estranho caso do Verão de 2014 – 3ª e última parte

O estranho caso do Verão de 2014 – 3ª e última parte

Regressaram ao Hotel onde o próprio do sossego tinha chegado pouco tempo antes e se tinha imposto amigavelmente sobre as almas serenadas dos turistas ali hospedados. A noite, essa, havia trazido consigo uma frescura bastante saborosa e salutar naquelas paragens e tinha trazido também mais alguns carros com o P na matrícula… o que provocou mais um esgar cúmplice na boca deles.

Ele está ligeiramente preocupado, mas o que o faz preocupar-se verdadeiramente é a preocupação de tudo fazer para não deixar transparecer a preocupação que realmente o incomoda, a fim de não a preocupar e maçar ainda mais a ela que já está, por si só, preocupada. Está até um pouco triste. Tristeza essa que, aliada à preocupação, transformam a tarefa de disfarçar tudo isso numa luta interessante.

Têm tido azar com as viagens que têm feito, ela em particular, pobrezinha, parece talhada para as maleitas que constantemente a aborrecem a cada nova saída do país. É verdadeiramente inexplicável, mas, porque há sempre um mas em cada contrariedade com que a sorte tão amável e docemente os brinda, quando algo assim acontece, fora do país, entregues que estão aos cuidados e mais que tudo ao amor que têm um pelo outro, é a relação que se fortalece, mas, mais do que isso, tornam-se praticamente devotos um do outro. É assim que é e não existe por certo uma explicação científica que consiga resumir melhor o que acabo de dizer. É assim que é, ponto. E pronto.

Ela está exausta do esforço homérico que fez durante toda a viagem até Córdoba e particularmente do esforço levado a cabo neste final de dia. Ainda assim, assoma-se-lhe uma presença de espírito notável e lembra que têm de procurar pousio para a noite seguinte que será já em Granada, no sopé da Sierra Nevada. Por enquanto, por ali, o Verão atinge o seu esplendor e o Outono parece de facto ainda uma miragem agradável, mas de palpação inexistente. Fizeram a reserva, lavaram os dentes e ela adormeceu extenuada nem cinco minutos passados. Ele ficou acordado, como sempre.

Acordaram cedo, pelas 08h00. Tomaram o pequeno-almoço, arrumaram as coisas e foram novamente à parte velha da cidade, para a encararem com os olhos ainda semicerrados pela luz do sol já quente do meio-dia, embora protegidos pelos óculos, mas bastante mais atentos aos pormenores que só a luz nos mostra. De facto, Córdoba tem muito para ver, seja de noite ou de dia. Tiram fotografias, várias, mas não exageram. Querem dar ao cérebro a missão de guardar o que os olhos servilmente lhe entregam. Dão as mãos e regressam ao carro. Preparam-se alegremente para mais duzentos quilómetros de alcatrão distribuído por um conjunto de estradas que nenhum dos três conhece, fez, ou sequer ouviu falar, mas não se encolhem, qual quê. Os dois que falam e pensam sacam do mapa e tentam perceber por onde vão, o terceiro limita-se a ir, a obedecer, está ali para os levar, para responder de forma mais ou menos eficaz aos intentos do dono, seja com maior ou menor dificuldade, mas surpreende-os sempre e oferece-lhes uma fiabilidade que os descansa. Ah, Corsa do caraças!

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Ele procura rapidamente pontos de referência que se traduzirão em placas, restaurantes, áreas de serviço, pois com certeza, mas que ajudam bastante a perceber se estão a ir por onde devem e, digamos, que conferem aos viajantes um certo capital de confiança que lhes permite navegar no desconhecido de cabeça levantada e nariz arrebitado. Afinal de contas, não é todos os dias que o ser humano se testa assim, que se coloca debaixo da pressão natural de estar a conduzir tão longe de casa, tão longe das estradas de conforto, da ajuda de um amigo, em último caso, do auxílio precioso do reboque enviado pela sua seguradora.

Chegam bem e mais depressa do que julgavam, sendo que pelo caminho ainda pararam em Alcalá la Real para almoçar.

Domingo em Granada e traz-lhes uma tarde de piscina no terraço do hotel e uma noite bem mais complicada. Ela começa a sofrer bastante com as dores de garganta. Já praticamente não fala, a não ser quando os sons que vai reproduzindo para dar origem às frases se tornam impercetíveis e indecifráveis para ele. Porra para o Verão, pensa ele pela primeira vez. Percorrem as ruas da cidade em direcção ao centro, não se enganam, julgam. A sua princesa já só comunica por sons, numa linguagem que depressa se torna corrente e normal. Interrompem o caminho, porque ela apercebe-se da luta de um pequeno e jovem pardal que não consegue voar. Tenta ajudá-lo, mas ele defende-se assustado, dando-lhe uma bicada no dedo. Tentam levá-lo, ou força-lo a saltitar até uma zona com menos pernas e rodas, embora se tratasse de um jardim. Acabam por certificar-se de que está em segurança e haverão de regressar em sua procura mais tarde.

Ele tenta amorosamente adivinhar-lhe as intenções ainda que aqui e ali se enerve, porque não a consegue compreender e porque na verdade é complicado comunicar desta forma. Faz-se, claro que se faz, nem que seja com a ajuda de papel e caneta, ou do campo de texto da aplicação Notas do IPhone, mas é contranatura e isso é inegável. A noite está quente, graças a Deus, valha-lhes isso para lhes alegrar o espírito. Jantam. Aviam uma caneca de tinto de Verano cada, enquanto o diabo faz o que faz sempre ao olho e depois comem pausada e descansadamente numa praça cheia de gente, repleta de gente. Ele bebe mais outra. A vida no coração quente da Andaluzia começa depois das 20h00, com toda a certeza. Até as crianças de colo ficam na rua até depois da meia-noite, as geladarias estão abertas depois disso, vive-se e sorri-se sem fastio, bebe-se e celebra-se a amizade, a felicidade dos homens e o compadrio. Boa vida, pois com certeza. É o Verão e o quão grande e imensa é a dimensão real da sua grandeza.

No dia seguinte, arrancam cedo a caminho de Málaga. Ainda tentam visitar a Allambra, mas as filas assemelham-se a inacreditáveis lagartas que serpenteiam por entre horas e horas de espera e autocarros cheios de turistas de boné branco e meia da mesma cor.

A viagem é serena, como serenas são as paisagens e as montanhas por onde vão ziguezagueando. Deslizam por viadutos altíssimos, enormes, estradas de uma qualidade assinalável, largas, limpas, de boa visibilidade. Dirigem-se agora a Almuñecar, pequena vila balnear, de um sossego e simplicidades perturbadoras. Praia de areia escura, água morna, pouca gente, pombos na areia, estacionamento gratuito e paellas dos dois lados das ruas: resumindo, de chorar! Estendem-se ao sol em modo fotossíntese. A aquecer o sangue como fazem os crocodilos. Despedem-se da areia ainda molhados e vão esganados para a esplanada que ainda serve almoços, claro que serve almoços. Em Espanha, almoça-se e janta-se tarde e a boas horas.

Planeiam de alguma forma os próximos dias. Definem, quanto mais não seja, as paragens a fazer: o que resta da tarde vai ser na bela Málaga de Picasso e na sua Playa Malagueña, depois dali a ideia é seguir para Torremolinos (barbaridade da qual mais tarde se arrependem tremendamente em função da porcaria de sítio que encontram. Há quem goste. Eles não. Detestaram e colaram-lhe o autocolante de pior sítio de Espanha, de mãos dadas com a desagradável Isla Cristina) e passar lá a noite, no dia seguinte, fazem-se novamente ao asfalto aperaltado e rumam a Marbella e à elitista praia de Puerto Banús, o jantar será já nas ruas que fazem a histórica história de Ronda, a seguir, quando acordarem e depois de terem passeado pela frescura matinal desta cidade fortificada, seguirão directos até Tarifa! Porém, meus amigos, a estrada que liga Marbella a Ronda é… inacreditavelmente perfeita. Se há estradas que dão ao condutor de um automóvel o prazer de as percorrer, esta é uma delas, seguramente. Os olhos dele iam devorando com rigor fotográfico o espectáculo a que estavam a ser convidados a assistir, sem bilhete, sem nada mais, só com a pureza cristalina da beleza que simpaticamente os enche de cores, inclinações, rochas, árvores que se embalam como se embalam as crianças com canções, enchem-se também destas coisas os corações. O pôr-do-sol que encontram já sentados na varanda rústica do quarto onde vão passar esta noite é de ver e chorar por mais, verdadeiramente estrondoso.

Na manhã seguinte, ainda em Ronda ela está pior. Consideravelmente pior! Ele pondera seriamente a possibilidade de interromper tudo, de acabar imediatamente com a viagem para a levar para casa e consequentemente para um hospital. Tem febre e as pastilhas para a garganta não estão a servir de grande coisa.

Partem para Tarifa, o ponto mais a sul de toda península ibérica. Esperam-lhes 170 quilómetros e mais 2h30 de caminho. Ele espera, sobretudo, que ela descanse. Ela não quer perder pitada das paisagens que ele adora, dos caminhos e das coisas que se veem por essa estrada fora.

Em Tarifa, tudo os surpreende. Desde a descida pela serra onde se vê o mar e se nota lá em baixo o mar de despenteado pela escova do vento que sopra, quase ininterruptamente por estas paragens, num espectáculo que enche o horizonte de praticantes de kitesurf e windsurf.

 

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Almoçam na praia, com os olhos postos lá ao fundo, no recorte fino e escondido por entre a bruma que se adensa com o adensar do calor que o sol traz, nas montanhas do Atlas, em África. Nessa noite, vão dormir a Jeréz de la Frontera e, na noite seguinte, já se encostarão aos lençóis em Monte Gordo.

Já no Algarve português (ou assim se quer continuar a crer), as dores voltam a piorar, chegam a tempo de um arroz de lingueirão quase obsceno e de verem o céu trocar-lhes as voltas.

Começa aqui o princípio do fim do Verão de 2014.

No dia que se segue, percorrem toda a estrada nacional 125, ou seja, fazem o Algarve de costa a costa, parando apenas em Lagos para almoçar. Na outra ponta do caminho de alcatrão, que percorrem com sofreguidão, estão uns amigos, em Vila Nova de Milfontes, que os esperam para uns banhos de sol (a réstia boa do que sobrou do tempo em Espanha) ao entardecer, antes do regresso final a Lisboa. Já na praia, ela faz um esforço incrível em que ele não deixa de reparar, sobretudo, para tentar falar com os amigos, para tentar brincar com o pequeno Afonso, que, com quase 1 ano, está deliciado com a praia.

Regressam ao final da tarde e chegam a Lisboa pelas 22h00. Entram em casa e chamam um médico de imediato, daqueles que se desloca a casa de quem o chama, à antiga, qual anjo da noite. Diagnóstico: Faringite aguda com febre e antibiótico para uma semana, depois de uma semana inteira em viagem, em sofrimento, a aguentar, a aguentar, estoica e heroicamente. Estávamos em Julho e o bom tempo esfumou-se logo depois. Estávamos em Julho e daqui para a frente o céu entristeceu-se a um ritmo quase diário, como que anunciando a vinda de coisas menos boas, coisas tristes, coisas que não são de todo coisas que possam ser permitidas de acontecer, em particular nesta época do ano.

O Sol fez greve. A vida fica mais triste com o sol longe da vista. Os olhos precisam dessa luz que só o sol nos traz e logo nós, portugueses, de Portugal, habituados que estamos a ter do Sol a bondade de nos presentear quase em constância com a sua sempre alegre companhia.

O Verão deixa de o ser, quando o sol teima em não querer aparecer, quando o calor se torna numa lembrança dos anos que já não fazem senão parte do calendário sempre difuso e saudoso que vai sendo a nossa memória. O Verão não se quer frio, quase soviético, ausente, distante e sem graça. O Verão não se quer Inverno, não se quer uma estação bipolar em que de manhã está patente a sua felicidade, o seu brilho, a radiante expressão máxima da sua existência, o céu azul e o tempo quente, e à tarde chove, alaga, entristece, esfria e entorpece o descanso da alma.

No entanto, o que é certo é que o Verão deste 2014 nunca o foi na verdade. Não foi só pelo tempo, ou pela falta dele, até porque, na verdade, foi já perto do seu fim que as coisas ficaram mais claras.

Foi num dia que começou feliz. Foi num dia em que as nuvens negras se juntaram para fazer ribombar os trovões com lágrimas de incredulidade e incompreensão. Foi com uma notícia infeliz, daquelas com que o próprio fim tende a antecipar, que o fim do Verão acabou assim por se confirmar.

Com ele foram também as coisas que se acercam da incompreensão própria das tragédias pessoais, que ditam estes traumáticos e inexplicáveis finais. Na verdade, não foi só mais um Verão que passou. Na verdade, foi o fim pior de um tormento que até ao estômago nos chegou. E eles, eles lá foram, lá andaram, lá continuaram, juntos, pois claro. Não sabem já viver de outra forma. Com a triste certeza de que há mais lágrimas para chorar, mais vida para viver e como diz o Palma, enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar. Para o ano, para o ano haverá mais com certeza, ou não fosse o amor uma certa certeza.

Texto publicado em primeira mão no site: http://www.reportersombra.com 

O estranho caso do Verão de 2014 – Parte II

O estranho caso do Verão de 2014 – Parte II

Chegar à cidade de Córdoba a meio de uma tarde de Julho é uma experiência no mínimo invulgar e marcante. Não só por tudo o que se vê, mas igualmente pelo surpreendente e inesperado vazio de gente, de movimento, de reboliço, de corrupio, de desvario, acima de tudo é isso, impressiona pela ausência bastante significativa de gente nas ruas. Tal coisa só pode, no entanto, ser inesperada para quem não vive ali, nem tão pouco sequer alguma vez ali esteve, em particular, naquela época do ano tão exageradamente quente.

Antes de chegar a Córdoba, percorrem quase 100 quilómetros por entre uma estrada de rectas intermináveis e secas, com pequenos adornos em forma de curvas que se fazem em 5ª velocidade, tal é a pequenez do ângulo que as mesmas descrevem. É impossível ver o fim a uma destas rectas num dia de calor, em que o asfalto se maquilha com vestes prateadas, que se assemelham a lagos perfeitos no horizonte escaldado. Sentiram que estavam a caminhar alegremente para o interior negro e queimado de um caldeirão, que estavam a penetrar lenta e pesarosamente num vale quente, tórrido, abraçado por áridos vislumbres das vizinhanças e largado ao desinteresse por montanhas que nunca dormem.

A Sierra Morena lembra os visitantes que esta era uma cidade estrategicamente plantada neste local, defendida pela natureza que lhe ergueu montes, montanhas, serras e vales e que, em tempos distantes, esta foi a Urbe mais importante da Terra. Chegar a uma cidade onde nunca se esteve, sentado ao volante indeciso de um carro que, também ele, parece perdido e desorientado no emaranhado de ruas e ruazinhas, de “vira à esquerda, não, afinal vira à direita, Ah porra, que não era por aqui, viste bem o mapa?” é, sem sombra de dúvida, uma experiência que testa as capacidades e, sobretudo, a resistência de uma parelha única, com espírito de missão e com uma vontade absoluta e insaciável de novidade, de conhecimento, de descoberta, de vida. Acima de tudo isso, isto é, distinguem-se pela vontade que têm de fazer tudo em conjunto, sempre, só é somente. Isso.

Bem sei que estão a estranhar o recurso a um mapa de papel, nesta Era da tecnologia, que faz tudo por nós, mas ainda há quem orgulhosamente se sirva de um mapa da Península, para viajar por ela adentro. Um mapa, em papel, exactamente, um daqueles que estão fantasticamente dobrados em partes simetricamente iguais (acho mesmo que os mapas são feitos com o objectivo pérfido de complicar a vida seja de quem for, porque, sejamos honestos, é preciso aprender a ver mapas, é preciso arte para nos conseguirmos guiar por um mapa, sobretudo, se estivermos confinados ao interior de um Corsa dos mais crescidos), que, regra geral, vivem espalhados sabiamente por tudo o que é estação de serviço, de Norte a Sul de um país e que fazem com que para alguns artistas, como é o caso, não dêem para passar uma viagem sem rasgar um pedaço de qualquer estrada, ponte, ou linha de comboio, na tentativa pateticamente furiosa de devolver o mapa ao seu caótico emaranhado de rios, vias secundárias e principais, auto-estradas, vilas, aldeias, cidades e povoações, caminhos de terra, serras, lagos, pontes e todas as suas ligações, dobradinho como se tivesse sido engomado a preceito com um ferro de caldeira.

Claro está que ao fim de algumas centenas de quilómetros já se pode ver, entre Portugal e Espanha, um joelho e o pedal do travão. Amor… Sim querido? Estás a ver o mapa ao contrário! Cala-te não sejas parvo… ahahahahaha… pois estou! Lá vão eles – ligeiramente indecisos nos próprios silêncios, também esses tão realisticamente particulares e tão próprios dos dias de calor absoluto e infernal – entrando, maravilhosamente cansados, mas felizes, nas entranhas tórridas de Córdoba, sem conseguirem ver praticamente vivalma, nem tão pouco um puto montado numa bicicleta.

Antes de encontrarem o hotel, entregam desavergonhadamente cerca de meia hora às ruas desconhecidas e às avenidas largas, que aos seus olhos se cruzam respeitosa e cavalheirescamente umas com as outras, sem malícia, ou maldade alguma. São serviçais, existem tão simplesmente para servir quem delas se serve. O calor, esse, parece recebê-los com entusiasmo, pois a temperatura aumenta estupidamente à medida que a velocidade do carro diminui. Tudo, ou praticamente tudo, parece acontecer em slow motion. Os carros circulam devagar, os que circulam, não vêem mais que três, durante a deambulação gratuita que empreendem pelas ruas cordobenhas. Os cumprimentos à entrada do hotel, as árvores que balouçam ao sabor de um tímido soprar de um vento aquecido, os passos dos hóspedes, os carros que circulam no parque de estacionamento, as folhitas que se habituam a viver junto aos pneus dos carros parqueados saltitam como se procurassem tirar as costas do chão em brasa.

O hotel parece-lhes muy bien.

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Facto: os portugueses gostam de chegar a qualquer país e ouvir a sua língua e, quando viajam de carro, sentem um natural e reconfortante prazer se conseguem ver o P por baixo das estrelas da bandeira da União Europeia de uma matrícula qualquer, seja em que veículo for. É inexplicável. É uma sensação de segurança misturada com… sei lá o quê mais. É o que é e como é. Podem nem se falar, durante toda a estadia, podem perfeitamente cruzar-se apenas no trânsito, num semáforo, numa praça, num restaurante, ou numa esquina qualquer, mas a sensação de pertença e de identificação com aquele P sentado por baixo das estrelas não deixa de ser curiosa. E moderadamente agradável.

Voltando a Córdoba. Conseguem um lugar não muito longe da porta do Eurostars Las Adelfas, um hotel tipicamente andaluz, amarelo, com as janelas de todos os quartos divididas com os arcos e as colunas em mármore branco… lindo. Perfeito! “Que horas são?” Para a piscina, já! Check-in feito em 20 minutos, depois de dois casais de espanhóis quase se terem pegado ao estalo para decidirem quem tinha chegado primeiro à fila. Transpiram desalmadamente com as roupas já coladas a algumas partes do corpo. Ele não deixa de olhar para ela, com aquele ar malandro de quem tem o fogo na alma, de quem a ama com a paixão louca das páginas ocres dos livros que guardam na alma.

Sentem o Verão e a sua alegria no coração da Andaluzia.

Instalam-se. Trocam de roupa. Brincam nus pelo quarto. Vestem-se rapidamente e rapidamente vão até à piscina. Procuram um pedaço de relva que ainda permita estender duas toalhas, já que as espreguiçadeiras estão com lotação esgotada. Aninham-se atrevidamente à sombra de um chapéu-de-sol que protege dois ingleses e, sem mais demoras que não as do duche obrigatório antes de enfiar o corpo assado dentro de água, vão com tudo o que ainda lhes resta de energias, depois de uma viagem de 670 quilómetros, e mergulham como as lontras para dentro de água. Férias dizem os olhos de um para o outro. Férias, meu amor. Férias!

Amo-te respondem depois com o sorriso nos lábios, embelezado por um abraço que deixa apenas as cabecitas fora de água e o coração cheio novamente. O coração é assim mesmo, caprichoso, de hábitos pouco redondos. Alimenta-se destas coisas. De vez em quando, assume alguma modéstia e não complica o que é simples, quando é simples. De vez em quando, o coração deixa-se ser apenas isso mesmo, coração. Ela parece-lhe extraordinariamente perfeita debaixo daquele calor quase insolente e dentro da água, então, é um vislumbre de maravilha e de felicidade, que se quer eterna. Tenta parar o tempo, ali, naquele preciso instante. Tenta. Não consegue, para já. Voltará a tentar.

Dão pela fome quase em simultâneo, depois de cerca de 20 minutos de molho, a marinar. Sem pressas de maior, voltam ao quarto, para um banho fresco, uma muda de roupa e aproveitar o guifi (Wi-Fi) gratuito, a fim de perceberem mais ou menos onde vão jantar, ou pelo menos onde é que podem estacionar o carro para poderem depois perder-se à vontade nas vielas floridas e encantadoramente alegres da Judiaria de Córdoba, agraciados e confortados pelo seu estrondoso entardecer. Estacionam numa rua interior, onde já chega mais fraco o calor das 19:30. Que grande Verão que se adivinha pensa ele, feliz, simplesmente feliz.

Por vezes é tão simples a felicidade. Quando o teu corpo e alma se encontram tão abundantemente satisfeitos e completos, que sentes uma leveza estranhamente agradável e constante, que não se esfuma no deitar e no dormir, que se renova a cada beijo, a cada abraço, a cada nova rua desta cidade nova nos olhos, quando sentes isso, estás bem, estás feliz. Simples. É.

Flores. Pátios. Branco. Gente. A gente que se esconde nas tardes abrasadoras abandona as tocas e aparece ao final da tarde/princípio da noite, como se de facto só se pudesse viver verdadeiramente nesta terra, quando o sol nasce e mais tarde quando ele se começa a despedir, deixando para trás a pintura maravilhosa de um céu tingido de um laranja absolutamente memorável. No entanto, ela começa a queixar-se de dores na garganta. Na verdade, já as traz consigo desde Lisboa. Param junto à velhinha ponte romana e admiram a entrada na parte antiga e moura da cidade. Ele não resiste ao céu polvilhado de pó de tijolo e limão ressequido que, misturado com os cabelos dela e o reflexo da luz quente que se despede nos óculos que traz no rosto para não ferir os olhos com o brilho quente da estrela amarela e redonda, fazem a anunciação de uma fotografia perfeita. Enquadra, abre, foca, espreita, sorri-lhe pelo canto da boca e dispara, uma e outra vez, enquanto a vai vendo mexer-se imaculadamente à luz do final de tarde perfeito no Sul da vizinha Espanha.

Vão andando. Nem muito depressa, nem muito devagar. Andando. Parando. Olhando. Admirando. Falando, agora menos. Já lhe custa falar e não o consegue esconder. Ele preocupa-se e dá-lhe a mão. Vamos jantar, diz-lhe baixinho e com todo o amor que lhe tem encrostado dentro daquelas duas palavras. Tapas e Tinto de Verano, pois claro. Ali ficam até aquilo fechar.

Ele nota-lhe o esforço tremendo que faz, durante toda a noite, para esconder o desconforto que as dores na garganta lhe estão a provocar. Já ela, pobrezinha, aproveita até os mais breves silêncios para descansar. Até o pestanejar se vai já tornando pesado, cansado, marcado pelo latejar da dor que a transtorna.

Fazem o caminho de volta ao carro, com um pequeno desvio para pararem exactamente no mesmo sítio onde horas antes ele a fotografou, estarrecido com a beleza da pintura que os seus olhos viam. Admiraram tudo com esponjas sôfregas nos olhos, a fim de guardarem tudo aquilo nos recantos puros e escondidos das memórias boas que nos trazem este tipo de viagens. Selam a vista com um beijo abraçado e, de mãos dadas, atravessam a rua e voltam a encontrar a pequenina e apertada ruela interior, onde pararam o Corsa. É sempre uma festa, quando se encontra o carro à primeira, no primeiro dia em que conduzimos numa cidade onde nunca tínhamos posto as rodas, ou os pés.

Por esta altura ela já se calou.

(continua…)

Texto publicado no site  www.reportersombra.com