Os Heróis que a vida nos dá… e um dia nos tira

Os Heróis que a vida nos dá… e um dia nos tira

Não devia ter mais de 15 anos quando o conheci.
Ele andava pelos 20.
Curioso como só no dia da sua morte me dei conta de que a diferença de idades entre nós era estupidamente curta.
Era curta, sim, mas dos 15 para os 20 ainda vai um salto razoável, quando se tem 15 e 20. Desde logo porque aos 20 um tipo já pode guiar e aos 15 anda de autocarro e à boleia, que já é bem bom.
(Caramba!! 20 anos que voaram e um texto que não quero, mas que tenho mesmo de escrever)
Quer dizer, não sei bem se ele ainda andava ou se já deslizava por eles (os 20 anos) fora com aquela graciosidade destemida tão própria dos heróis. Dos seres humanos ímpares. Das almas singulares que foram beijadas pela grandiosidade de espírito antes mesmo de conhecerem a luz dos dias, os olhos dos outros, e as vidas que hão de ter a felicidade de se cruzar com as suas.

Não eram sequer 7 da manhã quando soube que o perdi.
Soube e não quis ver.
Vi e não quis ler.
Li e não quis crer.
Deitei-me e não quis saber.
E pelo meio lembrei-me que há coisas que não conseguimos esquecer.
E o malfadado dia que Deus quis escolher…
Caramba! Haverá sequer limites para fazer alguém sofrer?

O João andava de mota. Andou até há algum tempo. Fazia snowboard. Caiu delas, das motas e das pranchas algumas vezes. Aleijou-se mas levantou-se sempre.
Numa dessas vezes veio mesmo com um braço partido de Espanha, sem o saber.
Tal era a fúria de viver.
Cara lavada, sorriso rasgado, aquele cabelo comprido que me fazia chamar-lhe Brad Pitt da Flamenga. Mais do que isso. Aquela forma de ser e de estar que me levou a que um dia lhe começasse a chamar tio. Sim, tio!

Chama(va)-se João Pedro. Tinha 40 anos. Partiu cedo. Incompreensivelmente cedo. Como? Da forma que Deus parece ter encontrado para nos dizer que já chega… que a vida não é só coisa boa.
Foi, também ele, vítima da doença do século.
O flagelo que tem trucidado famílias inteiras. O cancro – já te disse que falarei sempre de ti com letra pequena, com o desdém muito próprio de quem já te conhece de ginjeira e se recusa a dar-te mais destaque do que isto – pois claro.

O Pintas – porque era assim que o conheciam e será sempre assim que haverá de ser lembrado – foi um dos meus heróis.
Não digo isto apenas porque ele morreu.
Escrevo-o porque tive a feliz felicidade de lhe poder dizer isto em vida.
E não era herói por ter lutado heroicamente com a monstruosidade que a vida lhe reservou – não meu cabrão, não vou repetir o teu nome novamente – ou por ter olhado para tudo isto com o olhar ímpio e único com que olhou. Nada disso.
Era herói porque teve e tinha tudo aquilo que a vida reserva somente aos heróis: carisma, atitude, loucura, bondade, altruísmo, benevolência, graça, espírito de aventura, bravura, simplicidade, clareza, capacidade de movimentar gente, de inspirar quem o ouvia, de cativar quem para ele olhava.
E depois ainda há… os cães. Cada um deles.
A Nicky. O Chico. Os dois. Vi-los deitados no chão no velório e no funeral. Prostrados. Serenos. Sossegados. Tristes. Cabisbaixos. Caramba. Foi duro. Foi muito duro.
Como foi duro saber que foram ao hospital para se despedirem do dono… Jesus.
Que violência atroz. Como é possível que isto, por si só, não seja suficiente para comover cada um de nós?

Tive a sorte de me tornar seu amigo.
Tive a fortuna de poder partilhar com ele variadíssimos e inesquecíveis momentos ao longo de quase 20 anos de amizade, espalhados um pouco por este país fora.
Tive igualmente a sorte de ver nele um exemplo e de pensar, pouco depois de o ter conhecido, “quem me dera ser como tu!”. E assim foi durante muito tempo. Quis ser como tu. Quis ver o mundo como tu vias. Conhecer quem conhecias. Fazer o que fazias. Até que rapidamente percebi que não tinha estofo para tal. Chamaste-me, certa vez, coninhas, e eu disse… tens razão. Depois deste-me um cachaço e disseste-me que preferias 1000 vezes ser coninhas e ter dentro da cabeça aquilo que eu tenho.
Seja lá isso o que for. Nunca percebi bem o que vias de tão espectacular no interior do meu pensamento. Mas sei que gostavas, muito, mas mesmo muito de conversar comigo. De me ouvir explicar coisas, contar outras tantas e eu sentia o mesmo. Ouvia-te, em silêncio, e observa-te, no teu modo tão único de contares as tuas incríveis histórias. Os gestos, as mãos e a forma como elas te ajudavam a descrever, a pormenorizar. A isso juntavas-lhe um olhar penetrante e desconcertante. Eras do caraças. Sabias? Eras mesmo do caraças.

Mal sabia eu e mal sabíamos nós que, 19 anos depois, mais concretamente no início de 2017 – altura em que soubemos concretamente o que se passava com o João (a certa altura passei a chamá-lo assim, pelo nome, porque as alcunhas, de certo modo, acabam por ser pouco para invocar o santo nome de um herói. E o deste deve ler-se e escrever-se com reverência, com solenidade e com um respeito que não se entrega a muita gente ao longo de toda uma vida) – o heroísmo e a capacidade de tocar na vida dos outros sem que para isso tivesse que mexer um dedo que fosse, haveriam de se tornar absolutamente esmagadores.

Não vou maçar-vos com recordações só minhas, com palavras vãs e vagas, com lamechices post mortem, nada disso.
Ai de mim que o fizesse, sabendo o quanto o meu amigo gostava de me ler e a frequência com que até há 1 ano me dizia: “Quem me dera ter essa cabeçorra e escrever como tu escreves. Tens um dom que não reconheço em mais ninguém. Espero que saibas isso e que o uses como deve ser“.
Ainda assim, fiz sempre questão de lhe pedir sempre autorização para escrever sobre ele, para publicar o que quer que fosse, e Deus sabe como me está a custar escrever isto… incomparavelmente muito mais do que me custou, há pouco mais de 1 ano, escrever isto… 

A dor que sentimos não nos deixa dormir direito;
A dor que sentimos insiste em pesar no peito;
A dor que sentimos e… Meu Deus… e o saber que não há nada a fazer, que não há volta a dar, que o mundo segue imparável e que só nos resta continuar, pela vida fora, a vida toda… mesmo que existam os dias em que só nos apetece gritar “QUE SE FODA!!”.

A dor que cada um de nós carrega e que o vizinho do lado desconhece;
A dor de se olhar nos olhos, de silenciar um abraço arrasado e de dizer: desaparece!
A dor desmedida da mãe, a dor incompreensível do pai, a dor da irmã, dos tios, dos primos… dos amigos distantes e dos mais próximos… a dor da Susana… ser humano de um tamanho 1000 vezes maior que o tamanho da sua altura, que por si só já tem uma altura considerável.
Um ser humano tão maior que o amor que (nem sempre) tudo cura.
Uma mulher impressionante que impressiona quando nos fala com os olhos, antes de mesmo de nos dizer o que quer que seja. Uma mulher que nos abraça lavada em lágrimas e que, mesmo não querendo, nos confronta com aquilo que a vida tem de mais certo… a morte de alguém que amamos. Que ela amava. Muito.
Porque só alguém que ama muito outro alguém consegue caminhar de mãos dadas rumo à desgraça e não vacilar. Não tremer. Não desistir. Não o abandonar. Mesmo quando a sentença está lida e a sorte traçada. Ahhh mulher do caraças! Tenho uma assim em casa. Sei a sorte que se tem. E ele teve muita sorte em poder tê-la a seu lado nestes quase 2 anos de falta dela.

Claro que todos morremos um dia. É uma verdade inatacável. Um dado adquirido. Uma certeza.

Mas essa certeza não nos minimiza nada. Não relativiza coisíssima nenhuma.
Bem pelo contrário. Nada nos consegue fazer esquecer a ideia que temos de que somos, com toda a certeza, novos de mais para estarmos já tão cansados de perder e enterrar amigos.

Não fizemos nada para merecer esta pesada sentença, esta condenação imponderada e desmedida. Nada. Somos um bando de boa gente. De coração bom. De amizades longas, maiores e mais fortes que muitos casamentos.

Amizades que começaram lá longe, no tempo em que a amizade se forjava com a pureza inequívoca do sangue nos joelhos, arranhões nos braços, bolas furadas, berlindes, cabanas e estaladonas que ferviam. Canhões e mais canhões. Bebedeiras do tamanho de camiões. Somos isto e muito mais. Em bom. E não. Não merecemos o que a vida nos reserva. Não merecemos ter heróis que nos são roubados cedo de mais.

Merecemos a felicidade de nos vermos envelhecer. A alegria de nos vermos crescer, esquecendo e ignorando o facto de que um dia, todos nós, sem qualquer excepção, haveremos de morrer.

Diz o Palma que enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar… não se lembrou foi de nos dizer que pelo caminho há buracos, estradas cortadas, incêndios, vidas queimadas e tristezas tamanhas que fazem com que a estrada se entorte e se torne, em certas alturas do caminho, impossível de ser atravessada.

É seguir com a vida como a queremos. Tentar ter o que não tivémos, sem deixar de ser quem somos. E dizer o que pensamos. Abraçar quem amamos. Recordar quem conhecemos. Cuidar dos + pequenos para que um dia cuidem eles de nós.

E agora, João? O que fazemos para ouvir a tua voz? Nada. Nada a não ser recordar.

Acredito pouco na história do que há depois da morte. Aliás, acredito cada vez mais que morremos e pronto. Assim ficamos. Mortos. Inexistentes. Remetidos a lembranças nas cabeças de quem se lembra. E cada vez nos vamos lembrando menos. Porque a vida não perdoa um segundo a quem vive e quer sempre viver mais e melhor.

Sabias viver como poucos. Gostava da vida como quase nenhum. E é exactamente isso que guardo de ti. A paixão pela vida. A paixão pelo viver. O amor incondicional pela praia, pelo sol, pela natureza, pelos amigos, pela família.

Obrigado, João. Muito obrigado. Por estes 20 anos. Pela tua vida. Por tudo.
Garanto-te que não viveste em vão. Sei que não sou o único a achar que não.
Tenho a certeza.

A dor… a dor dói no coração. Na alma. No medo de esquecer. No medo de não ser capaz de lembrar quando um dia a memória falhar.
Porra, que este texto está a ser tão difícil de acabar.
Os dedos insistem em bater nas teclas. Parecem ter, também eles, uma vontade inexplicável de continuar e tu, e tu aí, ali, aqui, onde quer que estejas, onde quer que te vejas.

Dei-te um beijo na testa e tu, sempre com o amor na ponta da língua, disseste-me que desses beijinhos às meninas. Caramba. Nem assim. Nem ali. És incrível. És demais. És irrepetível. Não consigo escrever mais.

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Ricardo, contigo partiu muita da alegria do mundo, e o cancro ganhou novamente

Ricardo, contigo partiu muita da alegria do mundo, e o cancro ganhou novamente

São 7h55 minutos da manhã desta segunda-feira. Sinto o telefone a vibrar dentro do bolso. Sei o que é. Pela hora inusitada da mesma sei de antemão o conteúdo da mensagem e adivinho-lhe também o remetente.

“Morreu. Já não acordou esta manhã. É isso que vou ler. Tenho a certeza.
Tiro o telefone do bolso, abrando, ponho o pisca para a direita, saio da A5, viro em direcção ao Estádio Nacional, para seguir para Laveiras.

Mudo o telefone de mão e de seguida vou poisá-lo em cima da mochila. Dou-lhe uma espreitadela, rápida… sim, vinha a conduzir, mas a força do momento assim obrigava. Olho para o telefone que já se acendeu e que me mostra a seguinte mensagem: “Desculpa estar a dar esta má notícia, mas o Ricardo já não acordou esta manhã”

É um torpor imediato. Uma tristeza que desfaz a secura de uns olhos ainda desavergonhadamente ensonados para os encher rapidamente de lágrimas que correm direitinhas pela cara abaixo. Tento acalmar-me porque ainda preciso de guiar até ao trabalho. Lá consigo, pois claro. Chego. Subo. Abro a porta. Vou à casa de banho enxugar os olhos e olhar para mim mesmo antes de me ir sentar a trabalhar. É estranha a interpretação que temos de nós no dia em que nos morre alguém.

Ligo as coisas e não aguento muito tempo. Tenho de ir lá fora. Respirar. Falar. Perguntar coisas a Deus que vão ficar, como ficam sempre, sem resposta. É demasiado cruel.
É avassalador. Dói. Dói demais Imaginar a dor de um amigo tão querido. Tão doce. Tão meigo. A dor da família. A dor da Marta.

O Ricardo foi sempre um dos melhores de nós. Foi. Não é por ter morrido que escrevo isto. É porque foi mesmo.

Puro. Impoluto. Doce. Amigo. Alegre. Sorridente. Sorridente até mesmo quando ficava sério. Quando se zangava. Quando perdia ou quando não ganhava. Na meninice fizemos muito. Fizemos tanto. Rimos. Corremos. Fugimos. Fomos apanhados. Partimos vidros. Fomos ameaçados e insultados. Insultámos e fugimos. Fomos ao Pão por Deus.
Molhámos centenas de pessoas com balões de água. Fizemos corridas. Jogámos ao berlinde. Jogámos à bola. Jogámos à lata. Jogámos ténis. Vimos filmes. Dezenas e dezenas de filmes, VHS, lá em casa. Fazíamos sessões de cinema. Não sabíamos o que fazer com tanto Verão. E os anos eram de algodão. Leves. Pareciam eternos. Todos. E depois lá chegava o Outono e o Inverno. E nós ali. Onde podíamos.

Mas essas férias de Verão prometiam sempre durar para sempre.
As noites na rua. As tardes na rua. As manhãs na rua. A rua. As manhãs nela, as tardes dela e as noites como uma flor na lapela.

A Flamenga. O nosso bairro. O bairro que nos viu crescer. O bairro que nos viu passar da meninice atrevida para a adolescência que primeiro se quis tímida para depois, sem vergonha, caminhar apressadamente para a maioridade. Aí. Nesse estado em que os caminhos se separam. Onde as amizades se esfriam. Onde as escolhas nos definem.
Ali. No bairro que nos trata por tu, que nos faz festas na cabeça, que nos conhece os pais e os filhos, e que já viu partir alguns dos seus melhores elementos. Ainda há pouco tempo lá foi o Walter, lembram-se?

Não há receita que nos proteja deste flagelo. Não há forma de prever que uma barbaridade destas vai acontecer. Sim, claro que podemos comer melhor. Dormir mais. Fazer desporto. Ser mais saudáveis. Andar a pé. Contemplar a natureza e… caramba, pá! E quem faz isso tudo e acaba por morrer na mesma?

Ver morrer um amigo é um pesadelo que, infelizmente, todos nós temos de (re)viver uma e outra e outra vez. Vezes demais. Começam a ser vezes demais para gente tão nova. Tenho 34 anos e estou cansado de enterrar pessoas de quem tanto gosto às mãos do cancro. Sim. Em minúsculas. Não merece mais. Não mereces mais. Sabes bem que não mereces porra nenhuma, sua besta!

Já tu, meu amigo, tu… que lutaste com tudo o que tinhas. Que acreditaste na felicidade milagrosa de um milagre que acabou por não chegar para te salvar. Um milagre que não podia ter chegado. Um milagre que a falibilidade do nosso corpo não permitiu que chegasse. Nem tinha como permitir. É esta, hoje e sempre, uma luta desigual. Não chega sequer a ser uma luta. ele controla o processo por completo.

Ninguém merece esta doença, mas tu és, tu eras, tu foste, tu és… que confusão! Foda-se, que puta de confusão que prá’qui vai. Tu merecias muito mais do que isto. E aqueles que te amam mereciam-te para a eternidade. Que tremenda injustiça, Ricardo. Que tremenda injustiça!

Há nos amigos de infância qualquer coisa de poético o suficiente para fazer de nós pessoas felizes durante toda uma vida. Apercebi-me disto, mais uma vez, nestes últimos dias, perante a crónica da morte anunciada do meu querido Ricardo. A quantidade de memórias que temos com estes amigos que nunca esquecemos é de tal forma esmagadora, que torna impossível que não sorríamos de imediato quando nos vemos no café, no talho ou na merceeria, ou quando nos lembramos desta ou daquela ou da outra história. E são tantas. Às dezenas. Centenas. Impossíveis de esquecer.

Isto deixa em nós uma tremenda e inquestionável certeza: gostemos ou não, estas são as únicas pessoas na vida que dificilmente esquecemos. Atrevo-me a dizer que é praticamente impossível. Passem os anos que passarem. Vivamos a vida que vivermos.

Os amigos de infância não se esquecem, por uma razão muito simples: são as pessoas mais importantes da nossa vida na fase mais importante da nossa vida, e ainda para mais são, quase sempre, escolhidos pelo que de mais puro temos dentro de nós. Ou gostamos deles ou não. Ponto. Não há cá espaço para merdas. 

Dei-lhe 1 beijo na testa à chegada e fiz o mesmo quando me vim embora.
Soube, ali mesmo, naquele olhar que foi só nosso, naqueles segundos de encontro dos teus olhos nos meus, soube, precisamente ali, naquela troca espontânea de mimos e amizade regada com um “gosto mt de ti, meu amigo.”, que nos estávamos a despedir. Escrevo a vermelho, pelo teu Benfica. Por todas as discussões que tivemos à conta do Porto e do Benfica. Caramba. Que vida. Que VIDA!

E foi assim que dissémos adeus um ao outro. Ali. Naquele quarto em StªMaria.
E soube também, pelos teus olhos, os mesmos que conheci durante 25 anos, que estavas com medo. Com muito medo. Aterrado. Aquele medo que todos temos mas que só alguns são capazes de enfrentar. O medo de morrer. Mesmo que seja por obrigação. Foste obrigado a morrer e isso… isso é imperdoável, puta de doença.

(Não tens vergonha de continuar a destruir vidas e famílias inteiras à conta dos teus caprichos? Bardamerda para isto tudo!)

Foste insuperável. Foste incrível. Foste um herói, meu querido. Foste um herói na forma como enfrentaste e tentaste dobrar o destino à força da tua força e alegria de viver. Perdeste a batalha física. Ganhaste a batalha mais importante. Mostraste-nos como é que se enfrenta uma coisa destas sem nunca fraquejar. Acreditando sempre que é possível. Que ainda há prolongamento e penálties.
Que inspiração. Que força. Que querer. Que Rei.

Dei-te um beijo na testa e vi, dentro dos teus olhos, com a meiguice que sempre neles viveu quando quem olhou para mim, pela última vez, com os olhos carregados de medo antes de me dizer: “Gosto muito de ti, amigo. Estava com o João. E ele disse-nos: “Gosto muito de vocês, meus amigos.”

Estavas a comer Nestum quando entrámos e, espreitando pelo canto do olho, nos viste. “Está a saber-me pela vida, meus amigos! Vocês nem imaginam, está mesmo a saber-me pela vida! (…) Obrigado por terem vindo.”

Obrigado eu, Ricardo. Obrigado eu.

Foi assim a tua vida. Doce. De Mel. Como o teu Nestum.
Tenho para mim que naquela taça estava todo o amor do teu mundo e de todos os que te queriam e querem bem.

Foi assim. Foi assim que a Flamenga te perdeu. Foi assim que o mundo te perdeu.

Quanto a nós,  vamos guardar-te para sempre, Ricardo. Para sempre. 

Até já, campeão!

A utilidade (extremamente) “duvidosa” da(s) Amizade(s)

A utilidade (extremamente) “duvidosa” da(s) Amizade(s)

Se há coisa que fazemos com elevada frequência até certa altura da nossa vida é travar ou iniciar relações de amizade com alguém. Coisa simples e facto plenamente consumado, certo? Não. Errado. Nada poderia estar mais longe da verdade na tentativa de descrever de forma simples um dos grandes dramas da existência humana. Porquê? Passo a explicar.

Não poucas vezes neste nosso sinuoso e tantas vezes tormentoso caminho nos deparamos com qualquer coisa que se atreve ordinariamente a colocar em causa a utilidade desse sentimento, tão amplamente reconhecido e mundialmente entronizado pela nobreza que carrega desde a sua natureza e que dá pelo nome de amizade. E é por aí mesmo que quero arrancar, pela (por vezes frequente) utilidade duvidosa da Amizade enquanto ocasional veículo de transporte de dor e de um sofrimento que não tem cabimento nem fingimento.
Porque ela também se alimenta disto. A amizade, evidentemente.
De dor. De tristeza. De sofrimento. De silêncio. De incompreensão. O que seria da amizade se não houvesse no peito um lugar chamado coração?

(REcentemente tive uma das melhoras provas de que este título que escolhi é, na verdade, estúpido, mas ainda assim… atrevo-me a continuar, até porque estou há mais de dois meses a escrever e a reescrever isto)

Se certo é que a incidência e a frequência com que fazemos amigos é extremamente elevada durante os primeiros anos da nossa vida social, não é menos correcto dizer que essa necessidade de fazer amigos à velocidade da luz vai (graças a Deus Nosso Senhor) diminuindo de forma inversamente proporcional ao número de anos que vamos somando pela vida fora.

Isto é, quanto mais velhos ficamos, menos vontade temos de conhecer gente nova, de fazer amigos novos, de abrir as portas do nosso admirável mundo velho ao Novo Mundo dos outros e de deixar entrar quem por acaso se atravessa e se cruza com o nosso caminho, independentemente das razões pelas quais o faz ou isso acontece. No entanto, não quero com isto dizer que não sintamos (com frequência) falta dos amigos que já temos. Isso, meus amigos, isso é coisa completamente diferente e conversa para outros escritos.
O que me parece indesmentível e inquestionável é que a capacidade de nos relacionarmos com os outros e de com eles estabelecermos e desenvolvermos relações de proximidade e de confiança, do zero, que entrem rapidamente no espectro daquilo a que vulgarmente chamamos amizade, não deixa de ser uma das mais nobres e notáveis skills que o ser humano possuí e que o torna absolutamente distinto de todos os outros habitantes não humanos com quem divide o planeta.

(as voltas que um gajo dá a um texto para não ter de começar logo por onde mais dói)

Pode por isso dizer-se que o expoente máximo das nossas relações de amizade deve andar ali entre o início da adolescência e os 30 ou 40 anos de idade. Não mais do que isso. Não muito mais do que isso.

Depois disso entramos (não todos, mas muitos) na fase em que começamos a avaliar e a catalogar os amigos que temos. É verdade. Isto acontece, mesmo que de forma inconsciente e meiga, com quase todos nós. É uma altura em que, regra geral, também fazemos uma espécie de limpeza geral da lista de todos os amigos que temos. Ou que julgamos que temos. Que, não poucas vezes, é praticamente a mesma coisa. Os telefones e redes sociais ajudam a acreditar que isto é assim tão simples. Que a “operação de limpeza” se resume ao delete no smartphone.

Quem já está ou já passou por esta fase da vida saberá perfeitamente que tenho alguma razão naquilo que estou a afirmar de forma tão estupidamente determinada.
A partir de certa idade começamos a tentar afincadamente perceber quem são, na verdade e de verdade, aqueles que conseguimos enquadrar nessa condição tão selectiva e particular que é a de sermos amigos de alguém ou chamarmos amigo a alguém.

E o que são então essas pessoas? O que representa cada uma delas no quadro da nossa passagem pela vida?

(repare-se que já vamos no 7º parágrafo e ainda nada… nem uma linha sobre o que me trouxe aqui e me fez estar durante quase 3 meses a escrever este texto.)

No início é tudo imaculado. É tudo limpo e puro. E tudo faz o mais perfeito sentido.
Com episódios de maior ou menor juízo. Com momentos de maior ou menor tensão. Mas são relações que assentam sobretudo em lealdade, presença, cumplicidade, desafio, identificação e aprendizagem mútua. Tudo vivido com a intensidade tão própria de quem tem as ganas da vida na sola dos pés.

São pessoas que passamos a tratar como se trata um membro distinto da nobreza, da realeza. São, e muitas acabam mesmo por sê-lo pela vida fora, algumas das pessoas mais especiais da nossa vida. Quanto mais não seja porque conquistam esse lugar e porque nos conquistam a nós. De forma única.
Cada amigo é uma vitória, uma aresta, uma árvore, uma estrada com curvas, rectas, subidas e descidas. Um amigo é uma vida.
São pessoas com quem partilhamos tudo. Alegrias, tristezas, vitórias, derrotas e demais conquistas. Isso tudo e… as meninas e meninos que nos passam pelas vistas. Artistas.
Depois há os “não insistas”, “não desistas”, “não me chateies”, “vai-te f***r”, “vai pró caral*o”. Dizemos isto tudo. Fazemos ainda mais. Somos capazes de ser tudo e de não ser absolutamente nada. De estar de boca aberta ou de a manter assim, calada e bem fechada. Por respeito. Por deferência. Por solidariedade e reverência. Por compaixão e por saudade. Porque somos amigos de verdade. E ser amigo, ser verdadeiramente amigo de alguém é muito mais do que simplesmente repetir a frase que acabei de escrever.

Mas o que me traz aqui não é – nem de perto nem de longe – a vontade de dissertar A Capella sobre o conceito de Amizade. Sobre o seu significado. Não.
O que me faz voltar a estas linhas é o particular, não o geral.
Comece-se então este texto como se na primeira linha se estivesse.

São amigos que me fazem escrever isto e não a Amizade. Porque é por eles, sempre por eles, pelas memórias de tudo o que esta para trás e tem o peso que pesa uma vida, é por eles que voltamos sempre a lugares onde já fomos, sentimos e fizemos de tudo um pouco.

É para os saudarmos, lembrarmos, homenagearmos e para os fazermos felizes que fazemos as coisas que fazemos. É por eles que quebramos barreiras, que fazemos asneiras, que bebemos e comemos durante noites inteiras. Que nos metemos em coisas com que nunca sonhámos.
É por eles.

Tenho um amigo doente. Grave e seriamente doente. Severa e injustamente doente. Cancro, uma vez mais!
E não é um amigo qualquer. É um amigo de há muito. De uma amizade com muitos anos. De um tempo em que não se pensava nas consequências nem nos danos.
Do tempo em que só se pensava no acto e no feito e, possivelmente, no jeito e no efeito e no acelerar de rompante da máquina que temos no peito. Tudo o resto era paisagem. Tudo o resto era miragem. Tudo o resto era desperdiçar tempo que se podia gastar a fazer mal ao corpo e “bem” ao cérebro. Uma coisa é a beira da estrada a outra é a Estrada da Beira. E se eu gosto da Estrada da Beira. E tanto que andei na beira da estrada. Bem ou mal iluminada.

Dizia eu que é um amigo de longe, de um tempo em que não se partilhava nada nas redes sociais, em que as redes sociais eram o muro do Manel, a roda de tendas no Verão, o amontoado de carros à porta do café, o inquantificável número de cabeças presente numa esquina do Bairro Alto, no Adamastor, na Flamenga, claro. Sempre ela. A Flamenga. O bairro onde crescemos. A rua que nos dá e nos tira.
Um tempo em que tudo era tanto mais. Um tempo em que as experiências, boas ou más, nos ficavam gravadas – muitas vezes a sangue, suor e lágrimas – nas veias, no pensar, no sentir, no dizer, no não dormir, no deitar já de dia e acordar já de noite.

É por eles, sempre por eles e quase só por eles que fazemos merda, que dizemos merda, que ouvimos merda, que comemos e bebemos merda, que vamos a sítios de merda, que nos metemos com gente de merda, que temos noites ou dias de merda… enfim. É com eles e muitas vezes por eles, porque nós nem temos vontade de ir.

Tenho um amigo doente. Muito doente. Doente com a doença do século. Cancro. Pois claro. Vai da cabeça aos pulmões, passa pelo que entre eles se intromete e e vai desaguar brutalmente no estômago. Puta que pariu esta doença de merda. Puta que pariu o ter de olhar para os olhos de um amigo e de ver a dor que ele esconde. Ver o medo que ele tapa mas não nega. Que ele sente mas a que não se rende. Herói! És um herói meu grande cabrão!
O cancro (já te disse que não escreverei o teu nome com maiúscula a não ser que calhes no começo de uma frase) De apetite voraz. Tremendo. Horrível e horripilante. Insolente e incapacitante. Não há como ser benevolente para com uma monstruosidade indigna, cobarde e tamanha. Não há como me manter sempre sorridente perante tal patranha.
Não sei o que lhe dizer. Confesso. Não sei mesmo. Ou melhor, saber até sei, mas não consigo, muitas vezes, dizer o que quero. Mas disse muito há não muito tempo. Mas por saber que foi episódico e que seria episódico sempre que o visse, e como vou estar com ele este fim-de-semana, nada mais acertado do que publicar isto agora.
E foi por me conhecer já bem, por saber que fraquejo nestas merdas, foi por isso mesmo que lhe pedi autorização para vir até aqui desancar a existência e praguejar com a vida.  por uma razão muito simples: Não sei fazer mais nada a não ser reagir assim. Escrevendo. Com o passar dos anos estou a tornar-me numa pessoa a quem custa cada vez mais ter de se expressar com profundidade sobre assuntos profundamente delicados de outra forma que não esta. E isso não é totalmente animador.

Ele ficou felicíssimo da vida. Todo contente e orgulhoso por ter um amigo que escreva sobre ele, para ele, por ele. Que conte o que é isto de estar doente. Que conte o que se sente. Até porque também eu já passei por essa aflição embora numa outra proporção. Mais leve. Mais simples. Menos aterradora e terrível. Muito menos aterradora e terrível. “Resolveu-se” a coisa com uma cirurgia.
Contudo, deste lado, o prisma é todo ele bem diferente. Agora não sou eu e não é de mim que falo. E é me sempre mais fácil falar de mim do que assumir o pulso à dor de outra pessoa. Sobretudo quando são pessoas que te dizem alguma coisa. Neste caso, diz-me muito. Uma espécie de tio mais novinho. De primo. De sei lá eu o quê. São estas pessoas que teimam em se enfiar na tua vida e que dela teimam igualmente em não sair de forma alguma. Pessoas que levarei comigo pela vida fora e pela morte dentro. Curioso como se usa esta palavra tantas vezes em conversas tão inócuas e como passas a ter medo de falar nela quando falas com alguém que a tem em risco. Vida.

Como se faz para não ficar devastado com o risco real (mesmo que ecoe surdo apenas no nosso pensamento) de perder alguém com quem já passámos tanto?! Como não chorar e fraquejar e tremelicar das pernas quando a ameaça é real? Tremenda, estúpida e assustadoramente real. Incompreensivelmente próxima e palpável, quase.
Como não sofrer quando o mundo lhes quer mal?! Como não gritar e espernear quando Deus aparentemente se esquece de quem também nós nos esquecemos na fúria velocista dos dias que correm por nós e que tantas vezes nos atropelam?

Como é que se lida com isto tudo. Como? Em silêncio?! Talvez. Muitas das vezes é a única forma possível de lidar com esta violência toda. Muitas vezes só mesmo assim. Calado. De olhar gélido e amedrontado. O que é que posso fazer mais?

Desde que comecei a escrever isto que já soube de mais dois casos de amigos doentes. Com a mesma merda. Com cancro. Em pequenino que não merece mais nada. Mais veleidade nenhuma. Já foi assim quando foi comigo. No estômago. Esta abstruza doença não pensa. Não tem memória. Esquece com uma desfaçatez e uma insensibilidade que entorpecem até o mais corajoso dos homens.

E nisto. O medo é meu. É nosso. É de todos. Quando um sofre, sofremos todos. Protegemos. Cuidamos. Ralhamos e barafustamos. Mas nunca, em momento algum, nos viramos costas quando precisamos uns dos outros.

O que será de nós se deixarmos de ser assim?
O que será de nós se não formos capaz de dizer presente.

A amizade serve de pouco nestas alturas. Ou então é mesmo tudo aquilo que precisamos sem termos a noção disso mesmo.
Já a fé, talvez seja ela a única que te vai dando alento mas, em dias de vento, a fé ganha asas e voa para sítios distantes, carregando no dorso o peso de meia-humanidade e de toda a nossa amizade.

A Amizade tem valor demasiado para ser engavetada num título de um texto sério e real. Cru. Nú. Integral. Não fiz por mal mas… é o que é.

Antologia de um medo (nada) absurdo

Antologia de um medo (nada) absurdo

Gostamos invariavelmente da força, da robustez, da solidez impactante e inspiradora que nos confere a vida, e da singular e determinada capacidade de não ceder aos caprichos em nada misericordiosos do amor, da tristeza, da solidão, da felicidade e, claro está, do medo.
Temos mais medo das coisas quanto maior é o número de coisas que temos a temer. Creio que isto é relativamente fácil de constatar se nos debruçarmos sobre a questão durante algum tempo. Somos mais temerários perante a vida quanto maior é o número de anos que vivemos, e menor é o número de anos que vai distando entre isto que hoje somos, e o fim da linha que medrosamente vamos apalpando com receio de estragar qualquer coisa.
Mãos nas janelas, pés arrastados pelo chão macio e encerado que crepita e estala à nossa passagem, mas com medo (lá está) de dar um passo em falso, de pisar o que não se deve, de calcar caminhos que não seria suposto conhecermos, ainda por cima quando – regra geral – nunca chegamos verdadeiramente a conhecer a pessoa com quem vivemos mais tempo neste passeio errático a que alguns chamam existência. Nós mesmos.
Chegam a passar-se vidas inteiras sem que nunca saibamos bem quem vive dentro daquele que julgamos ser.

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Mas então, de que é que nos alimentamos afinal? Será de medo? Será esse o pão que nos sacia a fome de viver?
Talvez. É assustadoramente possível que grande parte de nós passe grande parte da vida a comer doses ainda maiores de medo ao pequeno almoço; mas de faca e garfo, à homem, para posteriormente ser digerido enquanto somos atropelados pelo inebriante passar trôpego dos dias. E arrota-se no fim.
É assim possível que passemos na verdade grande parte da vida (mais o que fica para lá da mesma) a tentar provar à dita que não tememos nada, a não ser o seu próprio finar.

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Suponhamos que a nossa concentração é então conscientemente dedicada a percorrer todo o caminho, no descrédito consentido que tem quem o assume, tentando assim mostrar ao mundo, ou à parte do mesmo que nos sobeja de tal forma que nos atrevemos a chamar-lhe mundo, que esse medo que nos aterroriza a existência é pueril, irracional, é uma espécie de temor do precipício, do parapeito, da escarpa hipnotizante da morte e das suas terríveis e seguramente bem fundamentadas horripilâncias.
Mas… passando-lhe a bola a si, amigo leitor, como ela deve ser passada, redondinha e com o peito do pé, consegue dizer-me – para além do medo de morrer que é universal – de quantos medos (se é que é sequer plausível e aceitável que assim se escreva esta palavra) se consegue lembrar de ter sentido ao longo da vida? Com certeza que se lembra pelo menos… de uma mão cheia deles. Certo?
Errado… fácil não deve ser de certeza… isto para responder de imediato ao meu próprio pensamento, para contestar prontamente a parvoíce que me possa ter cruzado as ideias num dos fogachos de tempo tão curtos, como curta é a duração de tantas das palavras que digo sem as dizer, num gesto de atrevimento, e que me quis forçar a começar esta frase com a resposta à pergunta feita na frase anterior.
Ora, posto isso, e escrutinadas as fracções de segundo que caracterizam uma decisão tão rápida, fui ainda a tempo de emendar a mão, mesmo sabendo que já tinha cagado os pés até aos joelhos. São merdas que acontecem.
Portanto, assim de repente, num exercício que de modo algum pode ser tomado como simples, trivial e até desnecessário, convido-vos a revisitarem a vossa vida enquanto vão passeando os olhos pela quantidade tonta de enumerações que passarei de seguida a… exacto… a enumerar.
Mas atenção ao seguinte: não deve esse revisitar do passado ser uma coisa desprovida de qualquer lógica ou orientação. Nada disso! Até porque, regra geral, a coisa não costuma correr lá muito bem.
Assim sendo, aquilo que vos proponho é que, calmamente, com tempo e com a serenidade que uma viagem desta natureza vos deve merecer, tentem então encontrar nas arrecadações onde guardam grande parte daquilo que foram quando começaram verdadeiramente a ser alguma coisa, e se lembrem então dos medos que afinal de contas nunca vos largaram.

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Das manhãs, tardes, noites e madrugadas atormentadas por essa sensação tão poderosa quanto a de se ter Medo de alguma coisa, essa sensação frívola que nos entorpece as pernas e os braços, que nos retorce caprichosamente os dedos das mãos e dos pés, que nos arrepia os cabelos no finalzinho da nuca, que nos faz revirar os olhos e, mais do que qualquer outra coisa, que nos dá estaladões às ideias. A lógica simples e erudita (graças a Deus) do pensar e do ser. Simplesmente isto. Mas, para que se sintam confortáveis e não pensem que estão a ser obrigados a algo que não tenha, eu mesmo, coragem de fazer, sereno-vos e sossego-vos o espírito inquieto dizendo-vos que serei eu o primeiro a sentar-me nesse parapeito e a enumerar algumas coisas que me fizeram suar as estopinhas, e sentir o corpo a engelhar-se às mãos do horror mais inconsciente e, por vezes (tantas vezes) – mas não sempre – mais injustificado que sentimos no caminho pelos passeios da condição humana.
Então, o primeiro Medo de que me recordo, é possivelmente o medo de magoar o meu irmão, que era tão pequenino… Porquê?
A fragilidade de um bebé que gatinha é assustadora e, perante um ser humano daquele pequeno tamanho, o irmão mais velho, com mais 3 anos que o petiz que ainda não se põe de pé, pouco ou nada sabe da forma correcta de se lidar com o petiz que nem falar direito consegue.
Numa das únicas vezes em que me “descuidei”, pensando que ele não via ou compreendia patavina do que estava a “ver”, virei costas e o sacana engoliu uma moeda de 50 centavos que eu tinha escrupulosamente escondido debaixo do tapete da sala. Resultado? Hospital. Raio-X. E um “a moeda há-de sair”. Anos mais tarde, já sem medo nenhum e com ele já perfeitamente capaz de correr, saltar, brincar e falar, acabei por lhe partir um braço, enquanto brincávamos às rasteiras no SAP, à espera da vez para que ele pudesse ser visto pelo médico devido à quantidade absurda de borbulhas que a varicela lhe estava a espetar no corpo. Fomos do SAP para o Curry Cabral.
Depois, por volta dos 10 anos passei finalmente a ter medo de morrer.
Chegou já mais tarde, é verdade. Não porque não soubesse já o que era a morte, mas simplesmente porque não a compreendia de todo. Já sabia ler e escrever. Já devorava notícias na TV e nos jornais, deitado debaixo da mesa de jantar da casa dos meus avós. Ouvia atentamente as conversas dos adultos da minha vida e, pese embora o facto de fazer caminhadas de Domingo (com alguma frequência) pelo cemitério do Alto de S. João, onde um dos meus tios estava sepultado, não compreendia de modo algum a parte metafísica da coisa. Associava-lhe tão somente o desaparecimento dos olhos, pouco ou nada mais. Ou seja, para além da dificuldade de perceber o conceito, tinha a incapacidade total de perceber do que se tratava e, mais do que qualquer outra coisa, tinha a dificuldade tremenda de perceber porque razão é que a morte fazia chorar os vivos.
Percebi-o no dia em que fui a funeral da minha bisavó materna, e depois no dia em que morreu a mãe de uma colega (grande amiga) de escola.
Haveria de se me entranhar na alma alguns anos mais tarde quando, numa questão de meses, morreu um dos meus tios, e depois, quando morreu o meu melhor amigo. A partir daí esse medo estendeu-se a todos aqueles por quem tenho algum tipo de estima, de amor, carinho, amizade e consideração.

Tira os pés do chão

Pelo caminho tenho encontrado o medo em formas tão distintas como: medo de falhar, de desiludir, de me afogar, de me queimar, de não ser capaz, de perecer, de fracassar, de ser despedido, de não ser contratado, de ser esquecido, de não ser lembrado, de não ser querido nem desejado, de não ser amado, de ser iludido e enganado, de que aquilo em que acredito não dê resultado, de ser rejeitado e maltratado, do escuro, da noite, da sombra dos dias… e podia continuar nesta torrente infernal durante horas a fio… schiiiu… tenho medo de a acordar.
Continua a contar.
Depois fiquei doente. O cancro. Esse merdas insolente. E tive medo. Muito medo.
Claro que sim. Não podia não ser de outra maneira. Mas venci-o, ao Medo. E ao cancro também. Peguei-o pelo colarinho e acertei-lhe em cheio no focinho.

E hoje chego aqui, a dias de ser pai. A dias de ver a minha vida transformar-se por completo e confesso-vos. Estou todo “borrado”.
Não pela circunstância, não pelo desconhecimento da paternidade, mas pela minha mulher. E é um sentimento horroroso que me tira tempo ao sono e me traz dores à barriga. Ela é a minha vida. A condução da minha alma. O justificar feliz do meu acordar radiante. A minha Deusa. O prolongamento natural do meu sorriso e o espelho onde o mesmo se enrosca e regressa na expressão máxima de felicidade.
Pensar no sofrimento que ela pode enfrentar, nas dores, na experiência que ela vai atravessar no parto… tudo isto me sacode diariamente o esqueleto e me preocupa quanto baste. Se é absurdo? Não me parece (nada) que o seja. Mesmo sabendo que tenho a meu lado um poço de força!

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Sei que tenho comigo uma mulher praticamente indestrutível e capaz dos feitos mais incríveis, mas do medo, meus amigos, dele ninguém se livra! =)
E acreditem que o medo é, em alguns momentos desta nossa vida, um companheiro, um amigo, um conselheiro, um compincha.
E vou ensinar-te tudo isto minha filha. Tudo isto e muito mais. Porque nesta vida é tão importante que sejas forte, que te levantes sempre depois de caíres, e vais cair muitas vezes meu amor. Mas é também igualmente importante que saibas não o ser, que saibas ter medo, que saibas ceder-lhe e permitir-lhe que entre na tua vida sem que nunca deixes que este tome conta de parte alguma da mesma. Pode por lá andar mas que saibas sempre por onde é que ele anda.
Agora… agora vem ter com os papás. Não temos medo. Temos a vida inteira para te dar. E medo, só o medo de te falhar… mas isso minha querida, isso é impossível de controlar.

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Dia mundial da luta contra… ti!

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Pensavas tu que já te tinha deixado em paz e no teu cáustico sossego?! Naaaaaa, enganas-te. E esse é aliás o mais puro e pérfido dos teus enganos, pensares que as pessoas te deixam em paz ou acabam por se esquecer da tua particular e sobretudo injustificada existência.
A quantidade de dias nacionais e dias mundiais que se assinalam em tua honra deve encher-te de orgulho não é?
Ainda agora se assinalou o maior de todos eles, mas levou-me ainda um tempinho a pensar no que poderia eu fazer para não deixar passar em claro uma oportunidade mais do que soberana para te dirigir umas palavrinhas, carregadinhas de toda a ternura e meiguice que tenho para contigo.
Deves refastelar-te nessa tua injustificada e ignóbil condição, julgando-te muito especial, pois olha que não és, de todo. Não passas daquilo a que nós, as pessoas, chamamos de um completo atrasado mental e um filho de uma grande… Meretriz.
Na verdade, Nós, teus servos e sobretudo teus hospedeiros, que te convidamos tantas vezes para o banquete das nossas vidas, numa espécie de surdina mortal, somos seres ambíguos que não temos por ventura sequer a noção do quão estranhos te devemos parecer.
Talvez seja mesmo por isso que te dedicas com tanto afinco a explorar todos os cantos dos nossos frágeis corpitos, talvez seja por isso que invades todos os becos das almas de quem beijas sem licença, com candura e indecência, numa tentativa clara e desavergonhada de nos roubares a bravura, de nos subjugares à força imensa do teu poder, que tantas vezes só conhecemos nos males dos outros.
Tens uma forma estranha de te abeirares das pessoas.
És, mais do que outra coisa, muito desajeitado e trapalhão.
Dir-se-á em tua defesa, que por ventura não tiveste tempo de aprender as boas maneiras e os bons modos condizentes com a grandeza cruel daquilo que representas e com a dimensão universal que comportas.
Afinal de contas devias ser um exemplo para o resto da merda que no mundo impera, mas não, em vez disso és completamente associal e sobretudo dono de uma insensibilidade a todos os níveis inacreditável.
Foste remetido a um abandono quiçá precoce, e possivelmente terá sido isso que despoletou em ti a raiva e a inegável falta de bom senso que tanto te caracterizam.
No fundo mais não és do que o produto final de uma infância inexistente e de um propósito de existir absolutamente deprimente. Até a tua mãe te abandonou.
Não riste, não brincaste, não caíste, não te sujas e com toda a certeza que nunca te apaixonaste. Ninguém gosta de ti, ninguém nunca gostou de ti e nunca poderá sequer ser possível que alguém venha a gostar de ti.
Mais não é do que o castigo óbvio e mais do que merecido para alguém que se dedica, noite e dia, faça chuva, sol, neve, nevoeiro ou outra coisa qualquer, a atormentar a vida das pessoas em que toca, sem direito algum a tocar em quem quer que seja. No mundo dos homens isso poderia custar-te caro, sabes? No entanto, tens a capacidade resiliente que caracteriza os monstros e que os torna tantas vezes, aparentemente, indestrutíveis, inalcançáveis, in… tudo!!
Ter um dia mundial que luta contra nós não deve ser coisa boa de se sentir, ou de se ter.
Está bem, és mundialmente conhecido e depois? A SIDA também o é, a FOME idem aspas, a POBREZA ganha-te aos pontos na simpatia, e tu… vales zero.
Ninguém te suporta, ninguém quer sequer ouvir falar do teu nome, do que provocas em quem tocas. Já paraste para ver bem aquilo que consegues fazer às pessoas? Pessoas essas que nunca te fizeram mal algum, que nunca sequer te dirigiram a palavra, o olhar, o pensamento, nem num momento de maior tormento. E qual é a tua resposta perante essa conclusão?
Paciência que vão ter de me aturar. Vim para ficar. Quem não gostar não tem grande remédio a não ser… acreditar e aguentar. E o homem aguenta, ai aguenta aguenta! Nem tu sabes onde te foste meter.
Despeço-me dizendo-te que espero sinceramente que morras. Não se deseja a morte a ninguém, mas tu… a tua pode-se. E atenção que não te desejo nem metade do sofrimento que provocas em nós, homens, mulheres e crianças, desejo tão somente que morras, de uma vez por todas, que vás para onde foram as pestes e que nem elas te emprestem as vestes, para andares nu e envergonhado com o que sobrar do teu reinado.
E olha só a definição simpática que nós os portugueses arranjámos para ti:
CANCRO – Tumor maligno de origem desconhecida, com tendência a destruir os tecidos vizinhos e a disseminar-se.
Que tal? Fica-te a matar! Morre de uma vez por todas porque aqui ninguém te vai recordar, ou chorar a tua morte.
Vai sim assinalar-se eternamente o dia do teu fim, com festas e arraiais, festarolas e festivais, e outras coisas que tais.
E de ti, ficará para sempre a lembrança de uma das mais horrorosas pragas que Deus permitiu que ao mundo chegasse, ainda falta vir quem Lhe pergunte onde estava com a cabeça…
No fundo não há quem te esqueça e menos ainda quem te mereça, razões mais do que suficientes para que não se peça que desapareças.
Não há pois, em todas as tuas distintas formas e máscaras, uma que justifique sequer existir, uma que mereça que dela se fale, uma que se elogie, se distinga, nada, mais insignificante era impossível, no entanto, nada de ti é mais do aquilo que em nós te deixamos ser. Do corpo tantas vezes te apoderas, mas da alma, dessa, não sacarás um sopro que seja, não encontrarás nada que se veja, pois num bolo nunca sobra a cereja e alma é o último bastião de um homem e de homens, de homens não sabes tu nada.
Por isso, meu menino, boca calada.
Tu aí, nós aqui. Tantas vezes em nós entras, por ali ficas e te alimentas, mas sais de mãos vazias, com as ideias mais frias e frustrado, acima de tudo isso…
Reza para que os dias do teu fim não sejam nem de perto semelhantes aos dias que dás a muitos, a tantos dos que roubas à vida, sem permissão, sem… sem… sem vergonha!
Um dia, um dia será dia.