Os Heróis que a vida nos dá… e um dia nos tira

Os Heróis que a vida nos dá… e um dia nos tira

Não devia ter mais de 15 anos quando o conheci.
Ele andava pelos 20.
Curioso como só no dia da sua morte me dei conta de que a diferença de idades entre nós era estupidamente curta.
Era curta, sim, mas dos 15 para os 20 ainda vai um salto razoável, quando se tem 15 e 20. Desde logo porque aos 20 um tipo já pode guiar e aos 15 anda de autocarro e à boleia, que já é bem bom.
(Caramba!! 20 anos que voaram e um texto que não quero, mas que tenho mesmo de escrever)
Quer dizer, não sei bem se ele ainda andava ou se já deslizava por eles (os 20 anos) fora com aquela graciosidade destemida tão própria dos heróis. Dos seres humanos ímpares. Das almas singulares que foram beijadas pela grandiosidade de espírito antes mesmo de conhecerem a luz dos dias, os olhos dos outros, e as vidas que hão de ter a felicidade de se cruzar com as suas.

Não eram sequer 7 da manhã quando soube que o perdi.
Soube e não quis ver.
Vi e não quis ler.
Li e não quis crer.
Deitei-me e não quis saber.
E pelo meio lembrei-me que há coisas que não conseguimos esquecer.
E o malfadado dia que Deus quis escolher…
Caramba! Haverá sequer limites para fazer alguém sofrer?

O João andava de mota. Andou até há algum tempo. Fazia snowboard. Caiu delas, das motas e das pranchas algumas vezes. Aleijou-se mas levantou-se sempre.
Numa dessas vezes veio mesmo com um braço partido de Espanha, sem o saber.
Tal era a fúria de viver.
Cara lavada, sorriso rasgado, aquele cabelo comprido que me fazia chamar-lhe Brad Pitt da Flamenga. Mais do que isso. Aquela forma de ser e de estar que me levou a que um dia lhe começasse a chamar tio. Sim, tio!

Chama(va)-se João Pedro. Tinha 40 anos. Partiu cedo. Incompreensivelmente cedo. Como? Da forma que Deus parece ter encontrado para nos dizer que já chega… que a vida não é só coisa boa.
Foi, também ele, vítima da doença do século.
O flagelo que tem trucidado famílias inteiras. O cancro – já te disse que falarei sempre de ti com letra pequena, com o desdém muito próprio de quem já te conhece de ginjeira e se recusa a dar-te mais destaque do que isto – pois claro.

O Pintas – porque era assim que o conheciam e será sempre assim que haverá de ser lembrado – foi um dos meus heróis.
Não digo isto apenas porque ele morreu.
Escrevo-o porque tive a feliz felicidade de lhe poder dizer isto em vida.
E não era herói por ter lutado heroicamente com a monstruosidade que a vida lhe reservou – não meu cabrão, não vou repetir o teu nome novamente – ou por ter olhado para tudo isto com o olhar ímpio e único com que olhou. Nada disso.
Era herói porque teve e tinha tudo aquilo que a vida reserva somente aos heróis: carisma, atitude, loucura, bondade, altruísmo, benevolência, graça, espírito de aventura, bravura, simplicidade, clareza, capacidade de movimentar gente, de inspirar quem o ouvia, de cativar quem para ele olhava.
E depois ainda há… os cães. Cada um deles.
A Nicky. O Chico. Os dois. Vi-los deitados no chão no velório e no funeral. Prostrados. Serenos. Sossegados. Tristes. Cabisbaixos. Caramba. Foi duro. Foi muito duro.
Como foi duro saber que foram ao hospital para se despedirem do dono… Jesus.
Que violência atroz. Como é possível que isto, por si só, não seja suficiente para comover cada um de nós?

Tive a sorte de me tornar seu amigo.
Tive a fortuna de poder partilhar com ele variadíssimos e inesquecíveis momentos ao longo de quase 20 anos de amizade, espalhados um pouco por este país fora.
Tive igualmente a sorte de ver nele um exemplo e de pensar, pouco depois de o ter conhecido, “quem me dera ser como tu!”. E assim foi durante muito tempo. Quis ser como tu. Quis ver o mundo como tu vias. Conhecer quem conhecias. Fazer o que fazias. Até que rapidamente percebi que não tinha estofo para tal. Chamaste-me, certa vez, coninhas, e eu disse… tens razão. Depois deste-me um cachaço e disseste-me que preferias 1000 vezes ser coninhas e ter dentro da cabeça aquilo que eu tenho.
Seja lá isso o que for. Nunca percebi bem o que vias de tão espectacular no interior do meu pensamento. Mas sei que gostavas, muito, mas mesmo muito de conversar comigo. De me ouvir explicar coisas, contar outras tantas e eu sentia o mesmo. Ouvia-te, em silêncio, e observa-te, no teu modo tão único de contares as tuas incríveis histórias. Os gestos, as mãos e a forma como elas te ajudavam a descrever, a pormenorizar. A isso juntavas-lhe um olhar penetrante e desconcertante. Eras do caraças. Sabias? Eras mesmo do caraças.

Mal sabia eu e mal sabíamos nós que, 19 anos depois, mais concretamente no início de 2017 – altura em que soubemos concretamente o que se passava com o João (a certa altura passei a chamá-lo assim, pelo nome, porque as alcunhas, de certo modo, acabam por ser pouco para invocar o santo nome de um herói. E o deste deve ler-se e escrever-se com reverência, com solenidade e com um respeito que não se entrega a muita gente ao longo de toda uma vida) – o heroísmo e a capacidade de tocar na vida dos outros sem que para isso tivesse que mexer um dedo que fosse, haveriam de se tornar absolutamente esmagadores.

Não vou maçar-vos com recordações só minhas, com palavras vãs e vagas, com lamechices post mortem, nada disso.
Ai de mim que o fizesse, sabendo o quanto o meu amigo gostava de me ler e a frequência com que até há 1 ano me dizia: “Quem me dera ter essa cabeçorra e escrever como tu escreves. Tens um dom que não reconheço em mais ninguém. Espero que saibas isso e que o uses como deve ser“.
Ainda assim, fiz sempre questão de lhe pedir sempre autorização para escrever sobre ele, para publicar o que quer que fosse, e Deus sabe como me está a custar escrever isto… incomparavelmente muito mais do que me custou, há pouco mais de 1 ano, escrever isto… 

A dor que sentimos não nos deixa dormir direito;
A dor que sentimos insiste em pesar no peito;
A dor que sentimos e… Meu Deus… e o saber que não há nada a fazer, que não há volta a dar, que o mundo segue imparável e que só nos resta continuar, pela vida fora, a vida toda… mesmo que existam os dias em que só nos apetece gritar “QUE SE FODA!!”.

A dor que cada um de nós carrega e que o vizinho do lado desconhece;
A dor de se olhar nos olhos, de silenciar um abraço arrasado e de dizer: desaparece!
A dor desmedida da mãe, a dor incompreensível do pai, a dor da irmã, dos tios, dos primos… dos amigos distantes e dos mais próximos… a dor da Susana… ser humano de um tamanho 1000 vezes maior que o tamanho da sua altura, que por si só já tem uma altura considerável.
Um ser humano tão maior que o amor que (nem sempre) tudo cura.
Uma mulher impressionante que impressiona quando nos fala com os olhos, antes de mesmo de nos dizer o que quer que seja. Uma mulher que nos abraça lavada em lágrimas e que, mesmo não querendo, nos confronta com aquilo que a vida tem de mais certo… a morte de alguém que amamos. Que ela amava. Muito.
Porque só alguém que ama muito outro alguém consegue caminhar de mãos dadas rumo à desgraça e não vacilar. Não tremer. Não desistir. Não o abandonar. Mesmo quando a sentença está lida e a sorte traçada. Ahhh mulher do caraças! Tenho uma assim em casa. Sei a sorte que se tem. E ele teve muita sorte em poder tê-la a seu lado nestes quase 2 anos de falta dela.

Claro que todos morremos um dia. É uma verdade inatacável. Um dado adquirido. Uma certeza.

Mas essa certeza não nos minimiza nada. Não relativiza coisíssima nenhuma.
Bem pelo contrário. Nada nos consegue fazer esquecer a ideia que temos de que somos, com toda a certeza, novos de mais para estarmos já tão cansados de perder e enterrar amigos.

Não fizemos nada para merecer esta pesada sentença, esta condenação imponderada e desmedida. Nada. Somos um bando de boa gente. De coração bom. De amizades longas, maiores e mais fortes que muitos casamentos.

Amizades que começaram lá longe, no tempo em que a amizade se forjava com a pureza inequívoca do sangue nos joelhos, arranhões nos braços, bolas furadas, berlindes, cabanas e estaladonas que ferviam. Canhões e mais canhões. Bebedeiras do tamanho de camiões. Somos isto e muito mais. Em bom. E não. Não merecemos o que a vida nos reserva. Não merecemos ter heróis que nos são roubados cedo de mais.

Merecemos a felicidade de nos vermos envelhecer. A alegria de nos vermos crescer, esquecendo e ignorando o facto de que um dia, todos nós, sem qualquer excepção, haveremos de morrer.

Diz o Palma que enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar… não se lembrou foi de nos dizer que pelo caminho há buracos, estradas cortadas, incêndios, vidas queimadas e tristezas tamanhas que fazem com que a estrada se entorte e se torne, em certas alturas do caminho, impossível de ser atravessada.

É seguir com a vida como a queremos. Tentar ter o que não tivémos, sem deixar de ser quem somos. E dizer o que pensamos. Abraçar quem amamos. Recordar quem conhecemos. Cuidar dos + pequenos para que um dia cuidem eles de nós.

E agora, João? O que fazemos para ouvir a tua voz? Nada. Nada a não ser recordar.

Acredito pouco na história do que há depois da morte. Aliás, acredito cada vez mais que morremos e pronto. Assim ficamos. Mortos. Inexistentes. Remetidos a lembranças nas cabeças de quem se lembra. E cada vez nos vamos lembrando menos. Porque a vida não perdoa um segundo a quem vive e quer sempre viver mais e melhor.

Sabias viver como poucos. Gostava da vida como quase nenhum. E é exactamente isso que guardo de ti. A paixão pela vida. A paixão pelo viver. O amor incondicional pela praia, pelo sol, pela natureza, pelos amigos, pela família.

Obrigado, João. Muito obrigado. Por estes 20 anos. Pela tua vida. Por tudo.
Garanto-te que não viveste em vão. Sei que não sou o único a achar que não.
Tenho a certeza.

A dor… a dor dói no coração. Na alma. No medo de esquecer. No medo de não ser capaz de lembrar quando um dia a memória falhar.
Porra, que este texto está a ser tão difícil de acabar.
Os dedos insistem em bater nas teclas. Parecem ter, também eles, uma vontade inexplicável de continuar e tu, e tu aí, ali, aqui, onde quer que estejas, onde quer que te vejas.

Dei-te um beijo na testa e tu, sempre com o amor na ponta da língua, disseste-me que desses beijinhos às meninas. Caramba. Nem assim. Nem ali. És incrível. És demais. És irrepetível. Não consigo escrever mais.

Anúncios

A incomparável arrogância da morte

A incomparável arrogância da morte

Tinha umas mãos que impressionavam pela história que tinham e que contavam quando se mexiam. A morte encarregou-se de, arrogantemente, as levar e as impedir de fazer o que quer que fosse. E como é arrogante a morte quando decide seguir a sua vontade sem olhar a meios ou a fins. Sendo tudo justificável em nome do seu superior desígnio.

E aquelas mãos que nunca morreram. Independentes. Seguras. Decididas. Firmes. Mãos que sabiam o que faziam. Mãos que não tremiam. Mãos que escreviam. Criavam. Contavam. Estudavam. Aprofundavam e conheciam bem os desígnios do seu dono.

Depois, às mãos, acompanhavam-no os olhos, a capela, e regra geral apresentavam-se se igualmente seguros de toda a sua existência.

Olhos que marejavam e raramente choravam. Olhos que nos penetravam o olhar e nos iam remexer nos cantos mais recônditos do pensar.

Era um sem fim de conversas sérias. De histórias da imensidão de uma vida pintada de fresco pela vontade furiosa de contrariar a sorte que o destino lhe parecia querer impor. Assim fez. Assim lutou toda uma vida contra aquilo que a vida lhe queria dar como vida. Viveu. Fez viver. Teve 10 filhos. Viu morrer dois. E fez. Se fez.
Fez e hoje, hoje fazia 91 anos. E eu faria o telefonema habitual.

Olá, avô. Como está? É o Martim. Sim. Era só para lhe deixar um grande beijinho de parabéns e desejar um resto de dia muito bom.

Não era preciso mais do que isto. Chegava perfeitamente.

Mário.

Assim se chamava este “enorme” ser humano que continua a povoar a minha mente de recordações e exemplos que ele nunca sonhou ser.

Parabéns, avô. Muitos parabéns.

Não se foge à morte de sapatilhas e cordões por apertar.

Não se foge à vida de mãos dadas com o rancor.

O espaço que o amor ocupa na nossa existência é tantas vezes descurado e ignorado, quando devia ser dele o Espaço todo.

A morte encarrega-se de nos mostrar que a vida tem fim mas que o amor, esse, esse pode durar para sempre.

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

Tudo começa a 17 de Fevereiro de 2010.

Na altura, 3 dias depois de ter começado o meu estágio, deu-se um dos piores acontecimentos da história da Madeira.

O temporal de 20 de Fevereiro que para os Madeirenses ganhou direito a marco histórico, “o 20 de Fevereiro”, dizem eles. O 20 de Fevereiro, digo eu. 😱

Foi uma manhã frenética.

Naquele dia soube pelos meus próprios olhos e ouvidos o que era o jornalismo “a sério” e tive a certeza que ia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para conseguir um emprego naquela redacção.

Ali mesmo, naquele dia 20 de Fevereiro, soube que não ia completar o mestrado em que me tinha metido na Escola Superior de Comunicação Social. Ainda acreditei levemente que fosse possível, mas depois percebi o que ia acontecer.

Percebi rapidamente que ia abdicar do relatório de estágio em prol do emprego que haveria de conseguir. Ali. Na SIC. Caramba. Ia conseguir um emprego na SIC.

E depois foi ali que me fiz homem.
Ali perdi o meu avô.
Ali saí de um namoro com feridas em carne viva.
Ali saí de casa.
Ali me apaixonei novamente quando achava que seria impossível.
Ali tive um cancro. Ali o venci. Ali perdi a minha irmã.
Ali me casei com a mulher da minha vida.
Ali fui pai. Ali.
E ali fiz amigos. Aprendi o que é a televisão. O que é o jornalismo.
Depois veio o desporto e a produção de programas. E por fim, as redes sociais pelas quais me apaixonei.

É agora tempo de dizer Obrigado. A todos. Por tudo.

Vou feliz. Levo-vos no ❤️. Se levo.

Não digo adeus, digo adeus e até já. Continuarei a ler-vos e a ver-vos!

Vocês são a informação em Portugal! Vocês. Para mim são vocês e só vocês.

Terei sempre as memórias e o bicho do jornalismo que se esconde por baixo da pele para não nos deixar pensar diferente para o resto da vida.

Com o jornalismo percebi o mundo. Pelas vozes de jornalistas que se foram tornando amigos, colegas, companheiros, camaradas.

Agora é tempo de “virar a página” de forma literal. De virar a folha para continuar a escrever a minha história que já conta com muita coisa para contar.

Não vos quero maçar. Afinal de contas saio por vontade própria, para procurar melhor, para viver mais e ser mais. Não preciso de sorte. Preciso apenas de ser feliz e de trabalhar para ser melhor. Sempre. Uma vez mais, obrigado à SIC e ao Expresso.
À Impresa. Obrigado. De coração.

Tenho a certeza que o melhor ainda está para ver.

#storytelling

A paternidade aos meus olhos e aos pés dela – 6 meses depois

A paternidade aos meus olhos e aos pés dela – 6 meses depois

São tempos áureos estes que vivo desde que fui pai. (Ah até que enfim. Sempre sonhei começar uma dissertação desta índole pela expressão: “são tempos áureos”. Que maravilha.)
A imensidão da felicidade que atravessa por completo o espectro da minha existência torna-se cada vez mais difícil de contar, de partilhar, de desconstruir, de conversar sobre. Isto por si só não constitui qualquer problema, uma vez que gosto particularmente de coisas difíceis, complicadas, complexas.
Mas há, creio eu, uma explicação (não sei se entendível ou não) para tudo isto que é muito. É tanto. Se é.
Creio que a dificuldade a que me refiro possa estar ligada ao facto de me sentir acometido de uma espécie de necessidade totalitarista e egoísta de reter absoluta e absurdamente tudo o que vivo com a minha filha. Isto é, há uma necessidade bastante pronunciada de devorar e absorver todos os momentos, os cheiros (até os piores, sim…), os sorrisos, os sons, os gestos, os olhares, os toques, as brincadeiras, as aprendizagens, o crescimento, TUDO. Invariavelmente.
Só para mim. Só para nós.
Dizia eu que a vontade que tenho é de deixar fugir mesmo muito pouco ou quase nada. Porquê? Sei lá eu. É o que sinto. Ponto. Não há grande lógica por trás de uma coisa destas, é certo, mas isto faz parte da vida pensada a que Fernando Pessoa se referia. Na prática, nada disto é assim.

No entanto, e voltando à minha vontade, por é que disso que este exercício trata, é exactamente aquilo que disse acima. Apetece-me guardar e viver tudo. Às vezes apetece muito. Mas depois acalma-se a coisa.

Afinal de contas, tudo isto é perfeitamente compreensível, pelo menos na minha modesta e isentíssima opinião, uma vez que se trata da minha filha, caramba. É a minha primeira filha. Compreendem? Talvez não. Mas também pouco importa.

img_9397

Deus sabe (digo eu) que esta brincadeira de ser pai pela primeira vez, ainda para mais de uma menina, muda a forma como um homem passa a olhar de frente para as fuças da vida.
É sim, é a preciosidade maior que tenho nesta fugaz existência.
É sim, tremenda, a sensação de absurda felicidade que me invade os olhos, para depois me percorrer alegremente as veias e chegar a todos os recantos do meu 1,80m.

Mais ninguém neste planeta rasga os olhos de alegria e abre a boca num sorriso puro de felicidade sempre que me vê chegar a casa do trabalho, nem mesmo a minha querida e adorada esposa ainda mantém intacta esta alegria pura e desinteressada.
Passaram-se horas desde que me viu pela última vez, que, regra geral, é sempre antes de adormecer novamente, já no finalzinho da madrugada, de novo deitada, dizendo-me em surdina que me ama e que é a minha menina, a minha princesa adorada e tão desejada.

Não têm preço as entradas em casa quando ela está acordada.

Os segundos em que o tempo congela (não estou a falar do #MannequinChallenge) são segundos em que toda a vida que te invade as artérias parece estacar-se ali mesmo, diante de ti, naquele mesmo tapete redondo, amarelo mostrada, de pelo curto, agradavelmente disposto à entrada, para nos dar as boas vindas. E ali me planto, por baixo da ombreira da porta da sala, numa sucessão aparentemente furtuita de segundos tão absolutamente perfeitos que chego mesmo a esquecer-me da loucura do mundo em que vivemos e me foco unicamente no sopro de vida que enche os meus olhos e pelo qual sou e serei eternamente responsável.
Ser jornalista tem destas coisas. Vemos demasiado. Vemos bem mais do que aquilo que queríamos ver. Chegamos a casa, não poucas vezes, com a cabeça atafulhada de imagens estúpidas que contam e mostram o que de pior acontece no país e no mundo. Mas tudo isso parece esfumar-se quando chego à porta da sala, da cozinha, do teu quarto, e me deixo apanhar por aqueles segundos intermináveis em que a minha filha pára imediatamente o que está a fazer e fica também ela a olhar para mim.
Começa a sorrir de cima para baixo: rasgam-se e acocoram-se-lhe os olhos ao mesmo tempo que se enchem de uma luz que impressiona, sobretudo pela candura da idade. De seguida, não logo mas pouco depois, abre-se-lhe o sorriso, – Meu Deus, como é perfeita toda esta valsa – agitam-se as mãos e as pernas, pinta a cara com um pouco da cor que a vergonha já vai trazendo aos bebés desta idade e ali fica, à espera que largue tudo, que poise a mochila, tire o casaco, lave as mãos e por fim a pegue ao colo.

Depois, com as duas mãos, agarra-me cada uma das faces, sorri, esfrega a cara no meu peito, volta a levantar a cabeça como que a querer certificar-se de que sou mesmo eu que estou na frente dos seus olhos enormes, sempre muito abertos, a querer dar fé de tudo o que a circunda e envolve, e repete o gesto, como repete o sorriso. Com aquele felicidade estampada no rosto. Aquela felicidade que a inocência e o pouco que sabe da vida lhes confere. Ser feliz é uma missão e dá trabalho. Calma, filha. Um dia falar-te-emos de tudo isso.

Não tem explicação plausível, ou, pelo menos, ainda não lhe encontrei o poiso, à explicação, entenda-se, que a este amor que sinto, para ele, tenho explicações de sobra, ainda que não estejam devidamente arrumadas e fechadas nos seus devidos lugares. É somo se soubesse que o sei, mas não soubesse como faço para o saber na verdade. Sei que sinto, mas não sei como definir objectivamente o que sinto. Conclusão: não há objectividade possível num amor tão tremendo e arrebatador, num sentimento tão sanguíneo, tão vulcânico, tão avassalador.

Assim sendo, resta-me por enquanto prosseguir com esta embriaguez saudável e sem ressaca que as sensações que experimento diariamente, às mãos de uma bebé de 6 meses, tão perfeitamente perfeita, tão lindamente linda, me têm proporcionado.
Bebedeiras tão deliciosamente boas estas. Sem vidros partidos. Sem discussões. Sem confusões. Caramba filha, que é tudo tão maravilhoso quando estou contigo.

img_5149-copy

Olho para ela e vejo-a assim, tão assutadoramente indefesa e a precisar de todo o amor que tivermos para lhe dar, sem qualquer tipo de reserva, sem qualquer laivo de frustração ou do que quer que seja que não um princípio basilar de amor total, de entrega plena, de imersão no mundo em que vive e que ainda é tão diferente daquele em que vivemos nós.

Não sei ser de outra forma. Não sei amar-te de outra forma que não esta, minha querida e adorada filha. Luz que dá cor ao meu rosto. Brilho no meu olhar. Vida que traz vida a cada novo acordar. Seja a que horas for… (sim, mesmo quando acordas pela madrugada dentro e queres conversar)
Não cabe sequer em mim nada mais que não o amor e a dedicação completa a esta família que escolhi, que criei, que jurei proteger e defender de tudo o que possa tentar ameaçá-la.
Não queria outra vida. Não queria nada mais do que aquilo que tenho agora. Queria apenas que tudo isto durasse para sempre. Que a felicidade não tivesse de ser interrompida, aqui e ali pelas obrigatórias e incontornáveis obrigações a que nós, os “crescidos” não conseguimos, invariavelmente, fugir.

Ser pai muda tudo. Ser pai deita por terra todos os teus proto-conceitos de vida, de realidade, de inteligência, de sensibilidade, de humanidade. Ser pai é para sempre. Não há meios-pais, como não há meis-filhos. Ser pai é ter a noção de que vais falhar, vais errar, vais chorar, vais rir, vais consentir e vais negar, mas mais do que qualquer outra coisa. Ser pai é encaminhar, é acompanhar, é a mão que se ergue do alto quando eles olham para cima e procuram a segurança inabalável que lhes traz o nosso olhar, a nossa mão que os ajuda a caminhar. Quero isto tudo e ser o dobro do que aqui não digo.

Não, não me esqueço de como começou este artigo.
Um dia, mais tarde, saberei que foi justa e justificada a vontade de te ter sempre comigo.

Pai.

 

Estes “sacanas” destes refugiados II – Medo, ignorância e o terror daquela infância

Estes “sacanas” destes refugiados II – Medo, ignorância e o terror daquela infância

O meu último texto superou todas as expectativas que tive quando o publiquei aqui. Estava longe de imaginar que o mesmo iria gerar mais visualizações num só dia do que o blog alguma vez tivera nos 6 anos da sua dedicada e insistente existência. É certo que o tema era e é quente, recente, contundente, e que não deixa (quase) ninguém indiferente, mas daí a ser partilhado e comentado por tanta gente… isso, isso é coisa bem diferente. Mas vamos por partes. O Rogério Esteves e a Cândida Pinto (dois nomes que devem ser referidos com orgulho, reverência e solenidade) já regressaram a Portugal. E a coisa não lhes correu nada mal. Estiveram lá durante mais de duas semanas a queimar os olhos e as pestanas, a ver coisas desumanas, espantados com as atrocidades cometidas, com as palavras proferidas, com as horas perdidas, com as crianças desnutridas, com a quantidade inquantificável de gente de vistas perdidas, de olhares vazios, de lágrimas no rosto, aninhados, amedrontados e com fome e frio. (Mas estes “sacanas” merecem. Ou pensavam que era só vir aqui invadir a Europa e encontrar um mar de facilidades?)
O Rogério e a Cândida sofreram! Sim. Sofreram. Como sofre qualquer ser humano de boa índole ao ver outro ser humano em sofrimento. Talvez mais ele do que ela. A Cândida Pinto (cujo nome, como já disse e não me canso ou nada importo de repetir, se deve ler com reverência – obrigado novamente António Reis que tanto sabes) já esteve várias vezes em cenários de guerra, reais, por demais, com fogo que não é amigo, bem pelo contrário, olhando bem de perto para a cara feia do perigo, esquecendo-se sempre do seu próprio umbigo.

refugiados3
Foto: Rogério Esteves

Ele não. Ele foi “lá parar” porque ela quis que ele fosse, pediu que ele fosse, porque gosta do trabalho dele, porque acredita que ele tem nos olhos e na relação íntima com a câmera e com as imagens, qualidades inequívocas e inquestionáveis no que a este tipo de trabalho diz respeito. Mas, o que também importa aqui dizer é que o R. tem 25 anos, vinte e cinco anos apenas, banhados pela luz radiante e tremendamente contagiosa de um coração enorme, de uma bondade que conhece poucos ou até mesmo nenhuns limites, purificada por uma sinceridade transcendente ao próprio corpo e que se propaga pela imensidão dos seus olhos azuis e da alma que lhe carrega tantas vezes o corpo e o senta no diafragma da lente com que nos mostra… “o país e o mundo”.
Foca e desfoca, ri, chora e não treme, como não tremeu nestes dias em que esteve com a Cândida (repito: este nome deve dizer-se com reverência) e que viu as coisas mais verdadeiramente impressionantes da sua ainda curta vida. Escrevei anteriormente que o que mais o impressionou e que foi mais difícil de aceitar foi o ter de ouvir, olhar, ver e escutar os lamentos desesperados das crianças e dos seus olhos carregados de verdade e de tristeza, de medo, fustigadas por terror a mais para anos de vida a menos.

refugiados14
Foto: Rogério Esteves

Verdade. Digo, disse-o e repito-o. Sem apelo nem agravo, sem dó nem piedade, porque por cá, quem continua (depois de tantos e tantos dias, depois de tantas e tantas imagens, depois de tantos e tantos relatos) a revelar-se intransigente, inflexível, racista, xenófobo e estúpido, a mostrar ser implacável na verborreia com que apregoa o medo que os “sacanas” dos sírios lhe(s) causa(m), com argumentos translúcidos e inspirados tais como: que querem “colonizar” o mundo com um imperialismo disfarçado e hostil, querem oprimir todos os seres humanos que encontrarem pela frente e os seus animais também (que pode sempre dar jeito), quem continua a defender esse tipo de ignomínia absurda, não merece mais do que verdade. Factos. Que a realidade lhes lave os olhos fechados… com tanta gente que queria ver!

Ah e querem igualmente usurpar-nos os empregos… falo daqueles que tiverem paciência e vontade de trabalhar, obviamente, porque como é “certo e sabido”, todos eles querem vir para a Europa para serem parasitas, sanguessugas, escorpiões, cobras venenosas e malvadas, munidas de uma peçonha sem antídoto, dum venenoso e pérfido poder que nos vai dizimar a todos… logo a Nós, os europeus puros de sangue! Os do “velho continente”.
E este pensar, não está ele corrompido por ideias despóticas e imperiais, que serviram de base idealista para as piores atrocidades que se comentaram neste continente e que culminaram com a tentativa de extermínio de um povo (os judeus), que também tinha vindo aqui para procurar refúgio?

refugiados9
Foto: Rogério Esteves
IMG_0777
Foto: Rogério Esteves

Pergunto-vos, porque gosto muito de conversar: Alguém acredita, no seu perfeito juízo, ou consegue acreditar, que existam seres humanos que gostem de ser REFUGIADOS de Guerra? Que se vangloriem de viver assim? Que se sintam felizes por não poderem viver na terra onde nasceram, onde cresceram, onde aprenderam a ser gente? Onde aprenderam o significado de ser e estar.

Ser. Mas ser mesmo. Existir. Tal grandeza só tem sentido se o coração bater, se o sangue correr, se o olhos brilharem mesmo que não vejam, se o nariz cheirar mesmo que o cheiro seja hediondo e o ar conspurcado.
Perde-se tempo, tanto tempo, demasiado tempo a tentar encontrar motivações que consigam explicar todo este fluxo migratório e, digo-vos eu, pela ponta dos meus dedos, que é tempo perdido. Porquê? Porque a verdadeira motivação desta migração massiva está, simplesmente, na luta desigual e constante pela sobrevivência. Numa vontade inabalável de viver, de sorrir, de crescer, de ser mais, de ter mais, mais do que tudo isso, de recomeçar. Quem cá chega abandonou tudo. Quem cá chega trabalhou durante meses ou até anos a fio para juntar tudo o que era possível juntar e que, não poucas vezes, acaba no fundo do Mediterrâneo. E há depois a superior e inesgotável vontade de não ter medo.

Os meus colegas viram coisas que nós, aqui, no sofá, no escritório, pela televisão, pela internet, no tablet, no telefone, não vemos! E capacitem-se de que nunca, mas nunca vamos ver… da mesma forma que eles viram! São coisas a que nunca vamos conseguir chegar, imagens que, por muitas e mais vezes que nos sejam contadas, serão sempre isso, relatos, histórias, imagens vistas pelos olhos de alguém, que, vão sendo cada vez mais difíceis de enquadrar. Mas para isso há uma explicação cabal e inequívoca. Há um nome sem rosto mas que é maior que os Deuses, que os sonhos, que o Sol. O Medo! Esse sim o verdadeiro monstro, aquele que nos impede de abrir os olhos, que nos obriga a ficar debaixo dos lençóis sedosos e apetitosos da facilidade e do conforto, tapados, submersos, impressionante imobilizados e de sangue congelado nas veias, à espera que o pesadelo passe e que seja novamente manhã, que brilhe o sol, que corram felizes as nuvens e que tudo isto não passe… de um sonho mau.
E viram coisas estranhas, coisas esquisitas, nas suas próprias palavras.
Campos de acolhimento que se esvaziaram mais depressa do que uma curta noite de sono. Centenas de pessoas a serem metidas em autocarros e levadas para parte incerta. Estratégias de combate militar da polícia húngara. E sons. Muitos sons. Sons que ficam. Sons que teimam em não os largar. A ele em particular. De pânico. De terror. De fuga. Que chegam em forma de gritos. De homens, de mulheres e de crianças. Como é horrível o som do terror da pequena infância.
O R. não se esquece do “barulho impressionante” de 5 mil pessoas a correr em todas as direcções, do tumulto, da polícia, do polícia que lhe enfiou um braço por baixo da câmara e lhe lançou uma bombada de gás pimenta para os olhos e para a boca – “nunca tinha ouvido um barulho assim meu amigo”. Não se esquece do homem sírio que, vendo-o aflito, parou a sua corrida e lhe deu um pacote de lenços de papel e lhe disse para limpar a boca e os olhos com o papel, “ajuda a tirar o gás” disse ele.

refugiados8
Foto: Rogério Esteves

E todas estas são palavras em que acredito piamente. Os olhos do R. não mentem, muito menos a sua boca, onde o espaço é, regra geral, reservado a sorrisos largos e gargalhadas estridentes. A Cândida Pinto (volto a frisar que este nome deve ler-se com reverência e respeito extremo) é uma jornalista “sénior” como dizemos na redacção da SIC. Tem muitos anos “disto”. Com ela nunca troquei mais do que o cordial e educado bom dia, boa tarde ou boa noite. Não porque não quisesse falar mais, mas porque há colegas nesta casa que me merecem tal respeito pelo trajecto profissional que têm, que o embargo na voz me foi sempre emudecendo, e me impediu de ser capaz de a abordar com qualquer pergunta sobre tudo o que fez enquanto jornalista profissional.
Levei igualmente muito tempo para conseguir dirigir-me ao Rodrigo Guedes de Carvalho e à Clara de Sousa, à Ana Lourenço ou mesmo ao Mário Crespo que conheci ainda era eu um petiz de colo. Foi preciso outro tanto para não tratar com solenidade episcopal o José Manuel Mestre… e a Cândida Pinto (isso mesmo, reverência e respeito, já perceberam a lógica) faz parte desse mesmo lote. Mas para que não se pense que os húngaros agem de ânimo leve, importa recordar que este é um país traumatizado, que viveu 45 anos sob ocupação russa (com tudo o que isso implica). Não nos esqueçamos que o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do império austrohúngaro, em Sarajevo, precipita o começo da Primeira Grande Guerra, com a invasão da Sérvia (outro dos países por onde passaram, a pé, todos estes recentes refugiados. A história a encarregar-se de nos surpreender com a sua fina ironia).

refugiados12
Foto: Rogério Esteves

Não nos esqueçamos que o povo húngaro também tem um elevado historial de procura de refúgio e de asilo noutros países, de fuga em massa para escapar das garras poderosas da fome, do frio e do terror imposto pela URSS.
Dissolvido em 1918, o império austro-húngaro deu então origem à República democrática da Hungria (Lá está outra vez a fuga deliberada para a graçola, Martim).

Depois veio a ocupação russa e isso, isso, por si só, é coisinha para marcar toda a história e vida de uma nação.
Basta que olhemos para todos os países que fizeram parte da URSS e vejamos o que lhes sucedeu.
Estónia, Letónia, Lituânia, Bielorrússia, Moldávia, Ucrânia, Arménia, Azerbaijão, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão. Tudo sítios onde é certo e sabido que a vida decorre debaixo da maior das liberdades, onde se é um ser livre para se ser, se pensar, se estar e se viver da forma que mais nos aprouver… isto enquanto não se chateia ninguém e não se “preenche” os requisitos mínimos para levar um baláziozinho nos miolos, se aquilo que quisermos e acharmos giro chatear quem não deve. Tirando isso. Tudo impecável.

IMG_0791

Veja-se então como vivem e pensam hoje a maioria dos habitantes destas nações independentes…

Apenas para que se olhe para a Hungria com olhos de ver, com olhos de realidade a quem os críticos, e todos aqueles que querem mandar pastar “esta gente” tanto apregoam, como sendo aquilo que nós, os que defendemos a vida “desta gente“, não somos capazes de ver; para que todos percebam a atitude que mantiveram e mantêm, os ataques aos refugiados e a Xenofobia (medo excessivo, descontrolado e desmedido em relação a pessoas estranhas, com as quais nós habitualmente não contactamos. Esta doença (sim, DOENÇA) insere-se no grupo das perturbações fóbicas…) evidente e despudorada, é preciso que se perceba que da boca do Primeiro-Ministro húngaro (que para nós é um “bolito” miniatura de pastelaria) é um senhor desses com laivos vários de ditador, hegemónico, disposto a tudo, que recentemente gastou cerca de 20 Milhões de Dólares para construir um estádio de futebol com capacidade para 4 mil lugares sentados, junto à sua casa de campo, para poder ver jogos com os amigos… parece-me tudo bem… esse mesmo senhor deixou sair pela cloaca as seguintes palavras: “É preciso manter a Europa cristã” e, meses antes, em Paris, naquela altura em que fomos todos Charlie, referiu também a necessidade de “travar o fluxo migratório não-cristão que se regista na Europa”. Robin-Hood do Cristianismo. Portanto, temos na Hungria um patriota acérrimo, que dá elevados sinais de corrupção activa e abuso de poder, e que já mandou erguer cartazes com mensagens no mínimo ameaçadoras para quem entra no país, e que se vê a ele mesmo como o salvador do Cristianismo Europeu. Tudo normal. Excepto uma coisa muito importante.
Deus não nos ensina a distinguir entre as cores da pele, meu caro Viktor! Os formatos das mãos, os decotes nas camisolas, ou aquilo com que escondemos o corpo não são, na palavra do Senhor, seja lá em que língua for, coisas retratadas e a ter em conta por todos os que O seguem. Isso é tão estúpido como dizer que quem se explode no meio de uma multidão e mata o maior número possível de pessoas tem 70 virgens à sua espera, num apregoado e idílico paraíso onde se pode beber boa pinga e enfardar fruta todo o dia, para além de passar a vida envolto na luxúria orgulhosa com tantas mulheres quantas aquelas que quiser ter. Deus ensina a amar caramba. Eu aprendi isto, com freiras, com padres, com catequistas, com bispos, com a Bíblia, com a minha família, com a minha mãe, com a minha avó e com os meus tios. Aprendi, isso sim, que Deus é Amor, ponto. No fundo é disso que se trata aqui, de A.M.O.R, como diz e bem o Pedro Abrunhosa.

Foto: Rogério Esteves
Foto: Rogério Esteves

Quanto ao Rogério e à Cândida, foram quase 20 dias, cerca de 5 mil quilómetros, 5 fronteiras na Europa Central, 2 fronteiras “protegidas” com muros de arame farpado, cargas policiais com direito a gás lacrimogéneo e pimenta nas fuças, canhões de água no corpinho (não fossem eles precisar de um banhito), com ordens dadas aos militares húngaros para que atirassem/disparassem de forma não letal sobre os migrantes… houve de tudo.
Mas houve a felicidade de familiares, colegas e amigos em saberem que, para eles, chegou por fim a hora de voltar a casa. De voltar ao… seu refúgio. Áquele que cada um de nós tem a sorte de ter.
Bye, bye Budapest, disseram na hora da partida, e bye, bye fronteiras armadas, muros erguidos para proteger os países de invasões por parte destes bárbaros de pele mais “tostada” pelo sol e de olhos enegrecidos pelo terror.
(leiam o artigo do NYTimes sobre o Primeiro-ministro húngaro que partilho no fim deste texto)
Hoje, a única coisa que quero é que levem as mãos às vossas consciências.
Os que concordam e os que discordam de tudo o que disse e repeti. Os que têm opinião e os que não têm. Os que se preocupam e os que se estão nas tintas para tudo isto e para os outros. Para as pessoas. Se vivem ou se morrem.
E a vocês, racistas, xenófobos, ignorantes, acéfalos, pequenos pedaços de vida sem sentido, até a vós eu vos pergunto meninos proto-arianos, digam-me o que fariam se tivessem nascido ali e não aqui. Porque corpo, corpo todos temos, lá por dentro é que tudo muda. Mas digam-me, preferiam morrer, a fugir, não era? Seus valentões! Claro que sim.
E preferiam ver toda a vossa família morrer, a fugir, não era? Claro que sim. Nem fuga nem rendição. Que quem se rende são os pretos, os monhés, os judeus, os chineses, os índios e essa “escumalha toda”. Mais nada!

Agora olhem para os vossos filhos já deitados na cama, para a vossa mulher a terminar de lhes arrumar a comida nas mochilas, para as fotografias dos vossos pais, amigos e familiares espalhadas pela sala, pelo corredor, pelo hall, pelo quarto e pensem… e se amanhã perdessem tudo isto e só vos restasse… fugir, de barco, de carro, a pé, de comboio, para salvar a minha família. O que faziam? O que faziam se as fronteiras da vossa fuga vos fossem fechadas na cara? Se toda a esperança vos fosse deliberadamente trancada a cadeado. Que tudo isto sirva, ao menos, para percebermos que é urgente voltar a pensar pela nossa própria cabeça. É urgente regressarmos à educação que tivemos, aos princípios básicos da vida humana em sociedade. A morte, o abandono, o nojo, o medo, a repulsa… não fazem parte desse lote de leis com que se deve pautar uma vida. Nem podem fazer. Nem ontem, nem hoje nem nunca. Seja qual for a cor da tua pele, o som da tua língua, a origem do teu povo, a bandeira do teu país, o teu hino, o teu pequeno-almoço, ou a roupa que vestes nos dias em que festejas seja lá o que for. Somos todos homens. Já fomos todos Charlies. E o que não vão chamar os nossos netos? A estes dois jornalistas eu agradeço porque graças a eles, hoje sei mais, sou maior, sou melhor. E devemos agradecer todos porque, mesmo estando ali para fazer o seu trabalho, para o qual são pagos no final de cada mês, são capazes de nos contar as histórias, sejam elas melhores ou piores, tenham elas um final mais ou menos feliz. Ser jornalista é isto mesmo, contar a história que não foi contada, mostrar as imagens que ainda não foram vistas. Obrigado Rogério e Cândida. (Estes dois nomes devem ler-se com respeito e reverência, apenas ao alcance dos que o merecem pela distinção nobre do trabalho que fazem e da vida que vivem)

refugiados4
Foto: Cândida Pinto

Artigos relacionados:

http://goo.gl/gaxpmh

https://goo.gl/tX4hgt

Cenas do meu casamento

Cenas do meu casamento

Tenho como missão tentar transmitir-vos alguma coisa que seja por si só minimamente entendível e desejavelmente palpável, encarregando-me assim de vos mostrar, da forma mais pura que conheço, um pouco daquilo que por estes dias me invade alegremente a alma. E a alma essa vai-se sentindo absoluta e estrondosamente radiante, com tudo aquilo que lhe vai sucedendo e sido oferecido com a delicadeza de sonhos em xailes de seda, sorrateiramente coberta pela permissividade atenta e benévola dos olhos gigantes do Criador que as guarda.
Não nos conhecemos assim há tanto tempo… embora pareça de facto que ela tenha sido pensada e amadurecida ao longo da sua vida para, algures pelo obstinado caminho, acabar por me encontrar por ali perdido, no destroçado deserto que compunha o carreiro desfeito das vidas de cada um de nós, e fazer aquilo que fez e faz por mim e para mim, que é, um pouco de quase Tudo.
Pode um homem com os tais dois dedo sde testa não casar com alguém assim? Claro que pode, mas seria tremendamente estúpido se não o fizesse.
Voltando ao caminho, o tal que se faz caminhando.
IMG_1615

Creio mesmo que comecei a conhecê-la somente depois de ela ter entrado, à força, na violência tremenda de uma tormenta brutal, hedionda, com a altura fantasmagórica de um gigantesco prédio de 1000 andares, que ensombra com a sua majestática imponência a existência de tudo o que inadvertivamente se atreve a rodeá-lo e ladeá-lo. Bem sei que não existe um prédio de 1000 andares, mas as palavras permitem-me pensar, dizer e acreditar que sim, pelo menos aqui, nesta história, que escrevo e dobro à minha caprichosa e apaixonada vontade.
Até mesmo Sua Majestadade, o Astro dos astros, se vê obrigado a rondá-lo para conseguir dar luz a alguém.
Foi vítima de uma perda irreparável. Sovada brutalmente e posteriormente embrutecida por uma queda absurda e desamparada desde o alto desse mesmo prédio, que de tão grande que era se desmanchou como se fosse feito de papel e nao de aço frio e morto. Não lhe resistiu e tombou por ali abaixo, caindo atrás dela.
Precipitou-se num amontoado sem forma, um remoínho de vidro, betão e aço amassado numa espécie de papel de embrulho desprezado e amachucado com o gosto com que se amachuca o papel de embrulho desprezado e amassado. Um amontado de uma altura bestial e que se destroça inadvertidamente sobre os minúsculos homenzinhos que lá em baixo fogem por onde podem, aterrados, incrédulos ao verem o descontrolo físico do gigante, com o comprimento de um milhão de intermináveis autoestradas, de montanhas encadeadas, de encostas escarpadas.
Sim, creio mesmo que foi por aí que a conheci.
Desde então que me coube e que me vai cabendo a difícil mas absolutamente mágica e apaixonante missão de a fazer crer que a vida era e é aqui, aqui mesmo, no chão irregular e calcetado dos nossos dias; na passadeira estendida que é a estrada encurvada e marreca de uma vida que se quer longa, forte, perene e sempre em conjunto, edificando-se na suficiente insuficiência da imperfeição de ambos que, trabalhada, lapidada, aceite e compreendida, daria e dará já dando, sem dúvida, uma história com páginas a menos e capítulos sempre em falta. Sempre em falta.
Aos 31 anos, vivo com Ela (refiro-me referir-me-ei sempre a Ela assim, com um maiúsculo e pomposo E, dos grandes e em bold, claro, porque apesar do seu adorável metro e pouco mais de meio de altura, a grandeza desta mulher é avassaldora e de uma envolvência e viciação que são absolutamente intraduzíveis até para quem escreve tanto assim e se julga capaz de dizer tudo com o aparentemente simples exercício de juntar letras para fazer palavras e palavras para fazer frases). Juntos há três anos.
Tinha ela 26 quando começou lentamente a erguer-se do chão. Espezinhada. Suja. De rastos. Com a roupa rasgada e escortinhada.
Aos 28 chega agora à idade com que se vai casar. Com ele. Comigo. Com tudo o que isso alegre e tristemente significa. Com uma vontade inderrubável e que carece de qualquer explicação ou justificação que não se encerre na simplicidade do amor que sentem um pelo outro, e que anseiam ver consumado e consubstanciado perante os olhos dos familiares e amigos que se vão juntar para os ver a fazê-lo, do único modo que creio ser possível fazê-lo. Perante Deus, perante a fé, perante a certeza de que o Homem, mesmo perante toda a sua própria e incomparável grandeza não quebrará os votos jurados e entregues ao Criador, que se encarregará de zelar pelos mesmos, os votos, que do resto tratamos e cuidamos nós. Contudo, porque a vida dos outros e as suas decisões me merecem todo o respeito, não tenho qualquer intenção de escsrnecer e criticar a opção que toma quem se decide a casar pelo “cívil” (que civilizados nem todos somos). Muito longe disso. As coisas existem porque as pessoas as pedem e a elas aderem, porque não temos de ser todos gomos de uma mesma laranja que a árvore tem laranjas que não acabam.

IMG_1797

Antes de mais o que verdadeiramente me apraz dizer é que acredito que o casamento é, só pode ser (ou assim deveria ser), apenas para quem verdadeiramente quer casar, para quem se quer comprometer com a mais longa relação a que o ser humano voluntariamente se propõe e se entrega acreditando que a mesma está destinada a conhecer o firmamento e a finitude da vida que um dia chegará sem avisar. Como ela chega sempre.
Quem não quer, não acredita, não está para isso, não se sente capaz, não se identifica, não se vê a, não concorda, ou acha que não significa absoluta e rigorosamente nada, que não passa de um papel pelo qual muito se paga, vale mais esquecer a ideia e viver feliz e alegre para sempre em regime de concubinato libertino que não merece críticas ou elogios. É o que é. As pessoas são o que são, como são e como querem ser. Penso assim, que pau que nasce tordo muito dificilmente se endireita. Ou seja, quem casa sem vontade muito dificilmente encontrará um dia a desejada e almejada felicidade. Em vez disso, castra-se a liberdade e proclama-se um futuro rodeado de tristeza ou mesmo com poucas hipóteses de o chegar sequer a ser.

E assim se muda a Estação

Sou do Verão e para o Verão. Do calor e para o calor, mesmo que isso signifique que passe os dias a transpirar das mãos como se tivesse panos amarelos a revestirem-me as patorras. Sou do sol, do mar, dos rios, das árvores com fruta, das ondas de calor no asfalto, do olhar interminável para o sol que se põe para lá deste ou daquele planalto. Das noites quentes. Dos passeios a pé, de carro, ou noutro transporte qualquer. Da Lua cheia como um balão que se larga para o ver subir alto, bem alto, mais alto, lá longe nos céus deste mundo. E por isso, por tudo isso e tanto mais, casar a 4 de Julho vai ser um princípio de Verão verdadeiramente inolvidável.

IMG_1310

Tenho 31 anos e estou irremediavelmente ansioso por casar contigo. Por poder usar, pela primeira vez na vida, um anel no dedo, grande, de ouro, simbólico, representativo da vontade que partilhamos, que me identifica como um homem comprometido com uma mulher a quem jurei amor eterno. Estou ansioso por garantir que vou ser teu para sempre, para a eternidade, pela vida fora e por ela adentro. Com todas as doçuras e agruras que isso implica e vai implicar. Mas, sobretudo, com uma inabalável certeza de que este é o caminho que quero fazer, descalço, se assim tiver de ser.

Quanto a nós, não se pode dizer que é uma daquelas histórias lindas e poeticamente idílicas, pintada a oléo sobre tela, numa abundância de amor interminável meu e dela, começada na pureza abundante e ainda virgem da infância.

Nem tão pouco uma promessa de amor eterno tão própria da adolescência ou até mesmo da saudosa meninice que, já ligeiramente distante e afastada, poderia tê-los juntado mas… não, também não, também não foi isso.
Há simplesmente um amor bem próprio de quem já sofreu (e muito) por amor, com o amor, pelo amor, a favor e contra ele, mas que continua a acreditar que só apoiando-se nele se pode efectivamente viver uma vida em plenitude e conseguir, no fundo, dar-lhe sentido, dar-lhe significado, dar-lhe razão e justificação para continuar a querer viver a vida bem vivida. Então pergunto: De que serve a vida sem o amor de alguém? De que vale a vida sem a possibilidade e o desafio de se construir um caminho com alguém que nos queira tanto como nós a/o queremos de volta? Não sei, mas deve andar próximo de não servir para coisa absolutamente nenhuma.

O objectivo deste texto não foi e não é, de todo, escrever mais um tratado sobre o noivado, ou um decreto sobre o matrimónio, nada disso, de coisas dessas estão o mundo e a Internet já cheios e com pouca paciência para mais devaneios.
Cheio de Manéis e Marias capazes, de muitas raparigas e rapazes, que se procuram sem falhas, sem deméritos, sem defeitos, com preceitos e despeitos e cheios de jeitos para fazer o que ainda não foi feito. Perfeito.
O que verdadeiramente pretendi fazer foi, de algum modo, explicar-vos aquilo que sente um tipo com 31 anos que se prepara para casar com uma mulher absolutamente maravilhosa, incrível, filha de Deuses talvez, igual a nenhuma outra, que gosta tanto ou mais dele do que ele gosta dela e que não se cansa de o dizer, de o mostrar, de o repetir, sem nunca se esgotar na doçura das palavras.

Devia ser assim tão simples a beleza bela e adorável de um acto tão simbólico e prazeroso como é o casamento. Mas não é. Não o é muitas vezes. Não é quando há doenças. Não o é quando há desavenças. Não o é quando há mentira e não é quando a própria alma já não se admira.
Amar é muitas vezes difícil porque é díficil gostar mais de alguém do que de nós próprios.
É difícil ganhar uma superior vontade de oferecer ao outro e não pensar em si, nele, em nós, no satisfazer da individual pretensão egoísta do próprio umbigo ao invés de pensar primeiramente no do/da companheiro(a) e nas suas necessidades, mimos, exigências e pecaminosos prazeres, lugares tão comuns do amor puro entre duas pessoas.
Pois é.

Vou casar e não podia estar mais feliz.
Vou casar no dia da Liberdade.
Vou casar e não foi porque Deus quis.
Vou casar inundado de felicidade.
Vou casar e os bebés não vêm de Paris.
Vou casar sabendo que vida é a mais linda cidade.

IMG_1330

Vamos casar sim e vamos ter meias no chão, porcaria no fogão e molas soltas no colchão.
Vamos ter a mesa da sala desarrumada, a loiça mal lavada, alguma roupa estragada, tingida, debotada, o frigorífico vazio, noites de calor e de frio, tardes de sol e fastio, discussões e desculpas, e tudo o que temos direito.
Toda a gente sabe que nenhum ser humano é perfeito por isso não o será também o casamento.
Mas acima de tudo vamos casar, sabendo que um tem o nome do outro a bater leve, forte e ciclicamente no peito, naquele delicado jeito de bater que os corações dos amantes encontram.
Não há outra forma de viver o amor que não com a totalidade das forças, com a plenitude da coragem e do arrojo, com a consciência por vezes inconsciente de que na verdade somos bem mais do que um bocadinho de gente.
Porque também há quem nem sequer tente e invente que no fundo todo o amor se faz da vontade da gente.
Sim, faz. Mas faz-se sobretudo de sentir, de pensar no que se sente e de viver, viver tão intensamente que não chega a ser preciso fingir o amor que deveras se sente.
Porque também será sempre, como disse o poeta, um contentamento descontente, uma ferida que dói, e não se sente.
Será chuva? Será gente? Gente não é, certamente, e a chuva não bate assim.
E falta já tão pouco para que se case a Ana com o Martim e o Martim com a Ana. Que um amor assim raramente se engana!