Ver e sentir José Saramago… nas palavras de Pilar

Ver e sentir José Saramago… nas palavras de Pilar

Sexta-feira.
Final de tarde cinzento rato, de um final de uma semana molhada, encharcada, ensopada esta segunda semana de Abril.
Uma semana dentro de um mês que podia perfeitamente ser alienado do calendário.
Saio de casa e deixo a minha mulher grávida a descansar. Os 8 meses e meio de gravidez já lhe vão pesando as costas, os pés, as mãos… mãos que começam a inchar e tornar incómoda a convivência com a aliança.
Subo os túneis do Grilo e não sabendo bem como consigo fazer a carrinha serpentear pelo trânsito que se precipita enlagartado para a saída de Sacavém/2ª circular.
Daí à Casa dos Bicos é um tirinho.
O que vou lá fazer? Assistir a uma conferência intitulada “Conversas sobre o futuro do Jornalismo”, com o jornalista galego Alfonso Armada e, do nosso lado, António Mega Ferreira.
O primeiro episódio desta deslocação acontece imediatamente a seguir a estacionar. Detenho-me dentro da mesma ainda durante alguns minutos para devolver uma chamada que havia perdido durante a viagem. Estou eu ao telefone e, qual não é o meu espanto quando me aparece à janela do carro um enfarruscado, mas nem por isso menos desavergonhado arrumador de carros.
Antes de mais devo dizer e confessar que a minha simpatia para com estes tipos é muito próxima dos limites mínimos, directamente proporcional à tolerância que lhes tenho, sobretudo quando, como foi o caso, me aparecem tal e qual o melhor dos paraquedistas, vindos sabe Deus de onde, com o intuito único de me virem “enfiar” a mão no bolso com a frase mítica: “Oh amigo, não tem uma moedinha?”.
Neste caso, e dado que se plantou a mirar-me mesmo junto à janela do lugar do condutor, pôde ver-me ao telefone e assim decidiu arrepiar caminho de volta ao outro lado da estrada, de onde de resto tinha saído, e onde então se estacou expectante, aguardando a minha saída.
Terminei a chamada, peguei no meu bloco de notas, abri a porta e vi-o logo pelo canto do olho esquerdo. Sim, do esquerdo. O canto do olho direito não vê a ponta de um corno. E tranquei o carro.
Ainda no meio da estrada pude escutar um balbuciar de qualquer coisa de onde apenas consegui entender um…
“Podias era dar-me…” Erro número 1. Falou comigo utilizando insolentemente a 2ª pessoa do singular. Procurou quebrar o gelo remetendo para uma proximidade inexistente. Confesso que é coisa que me aborrece. Não suporto mesmo que o façam. Sobretudo quando o objectivo é tão somente sacar dinheiro por um serviço que nem sequer se prestou. A sem vergonhice pode atingir níveis estratosféricos!
– Desculpa? – Digo-lhe, com a sobrancelha arqueada (sinal clássico, evidente, e tão bem conhecido daqueles que me conhecem de que não estou a achar piada nenhuma à conversa).
Podias era dar-me umas moedinhas! – Repete com convicção e sem qualquer vergonha nas fuças. Sem meias medidas avanço na direcção dele, estaco-me diante dele e pergunto-lhe muito calmamente:
– Mas o que é que tu fizeste para me ajudares a estacionar o carro? Posso saber?
Ohhh… qué dizer, tamém não custa muito dar umas moedinhas…
– Não te dou moedinhas nenhumas e se me fazes alguma coisa ao carro levas com essa muleta na cabeça, estás a ouvir? – Viro-lhe costas assoberbado pela indignação e pela chatice de ter de aturar coisas destas numa das zonas de que mais gosto na minha cidade e, sobretudo, chateadíssimo porque aquele “animal” nem sequer teve o cuidado de perceber que eu estava prestes a acrescentar história à minha vida. Não teve sequer a decência de pedir apenas 1 moeda, têm de ser várias, mais do que uma, usando paulatinamente o plural como se fosse de conhecimento público que agora já temos de deixar moedinhas, várias, em farto número, tudo em nome da satisfação da sede do vício, tudo para que o “menino” possa refastelar o esqueleto e entreter o reboliço de que se alimenta o desgrenhado pensamento preocupado apenas com a droga de que precisa.
Tenho o “azar” de conseguir identificar um viciado em heroína à distância, do outro lado da estrada. Pelo olhar vazio e vítreo, obcecado na satisfação constante da ressaca que lhe corrói as entranhas; pela postura física; pela ausência total do compêndio de regras sociais que nos faz respeitar o próximo. Pela capacidade que o vício lhes dá de deitarem ao rio (ali tão perto) a dignidade e de se prestarem a tudo para arranjar dinheiro para a próxima dose.
Chateado com isto tudo lá avanço rumo à Casa dos Bicos onde funciona nobremente a Fundação José Saramago. Lamentavelmente foi a primeira vez que nela entrei e não podia ter ficado mais impressionado, mais convencido da grandeza do “nosso” Nobel da Literatura.
Ao contrário da maioria dos portugueses tenho a feliz felicidade de gostar de enaltecer os feitos dos meus irmãos de terra. E Saramago, goste-se ou não do estilo, foi o único homem nascido nesta terra que conseguiu atingir o expoente máximo de um homem que se embrenha nos sinuosos e solitários caminhos da Literatura.
Das escadas que dão acesso ao mundo letrado do autor, a tudo o que ali se expõe e se vê, a memória de José Saramago é permanente e vive ali, naquele histórica e apalaçada Casa dos Bicos que tanta coisa já foi na sua existência já cansada mas majestosamente reforçada e remodelada!
À entrada há um segurança que pronta, zelosa e energicamente nos pergunta ao que viemos:
– Sou jornalista. Venho para a Conferência, sim senhor. – Retribuo-lhe a curiosidade.
– Então é no 4º andar. Sobe aqui as escadas, e depois volta a subir até ao 3º andar, onde está a loja. Eles dentro de alguns momentos já devem abrir o espaço e então pode subir até ao 4º andar onde será a Conferência.
– Muito obrigado meu caro.
– Está cá a seu dona Pilar! Disse com um olhar meio atrevido.
– Subo as escadas e logo me deparo com isto:

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E, para quem gosta de palavras e do quão bem elas encaixam no mundo, isto tem significância, se tem.
Vou por ali acima e chego então à antecâmara da Conferência onde me espera a espera pela abertura da sala. Percorro atentamente o espaço e leio, leio, leio, coisas atrás de coisas, papéis, postais, capas de livros, a cópia emoldurada do Prémio Nobel… Credo! Até me arrepiei! Confesso!

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Não é todos os dias que se pode ver tamanho espectáculo para os olhos!!
Depois seguiu-se isto… que também me deixou parado a olhar por mais uns instantes.

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Ali fiquei até me chamarem para o andar de cima. Ali me detive a imaginar o que teria sido a coexistência literária de Pessoa e Saramago… Meu Deus! Se os escritores desta dimensão pudessem coexistir, co-criar, co-escrever, conversar…!
Depois ainda houve um momento curioso, em plena loja, no 3º andar. Passei por ele ao de leve, mas não pude deixar de o gravar, de o registar. Duas meninas, duas jovens universitárias, travaram-se momentaneamente de razões (coisa simples e em nada violenta), ali entre o Memorial do Convento, O Ensaio sobre a Cegueira e o Ensaio sobre a Lucidez, porque, de acordo com uma delas e com o pouco que consegui ouvir mas ainda assim suficiente para conseguir reter, um determinado rapaz estava bastante diferente e inacessível desde que tinha começado a dar-se com a que estava mais perto do Memorial do Convento e do Homem Duplicado, tudo isto debaixo do olhar atento de Caim.
A amiga bem que se tentava explicar mas estava a ser alvo de uma acusação frontal, sem meias palavras, mesmo antes de ambas subirem para o andar de cima e se sentarem lado a lado a assistir à conferência. Ai o amor e a rejeição que nos chegam a toldar o pensamento até perante aqueles que supostamente nos ladeiam os dias. Aquelas meninas ter-se-ão resolvido, espero.
Chegado lá acima e tendo de imediato procurado um lugar mais resguardado mas que, simultaneamente, me permitisse ver e ouvir tudo o que ali se fosse passar, saquei do bloco e comecei a preparar-me para tirar notas.
Olhei em redor, vi a composição da sala, tweetei sobre isso e sobre a média de idades que a compunha e nisto ouço uma voz em castelhano, feminina, nervosa mas frontal, insegura mas sólida, com pouca vontade de falar, mas com um ressoar metafísico que imediatamente me fez virar a cabeça na direcção do seu som. Era Pilar del Rio e os meus olhos não podiam crer em tal coisa. Estava ali. Em pé. A apresentar a conferência. A agradecer a presença. A ser pura e genuinamente a anfitriã, a Mestre de Cerimónias que envergonhadamente se retira depois de feito o que havia a fazer. Fiquei incrédulo. Atónito. Assoberbado pela presença quase metafísica da Musa de Saramago.
Foi como se estivesse a olhar para a Ofélia do Mestre Pessoa, a Maria Sans de Hemingway… Desconcertante! Absolutamente desconcertante!
Não sou um tipo impressionável. De todo. Vinte e cinco minutos antes adverti o arrumador da possibilidade de lhe dar com a muleta na cabeça… Não sou de facto muito impressionável – neste tipo de coisas – mas sou tremendamente sensível a estas metafísicas da vida e Pilar, Pilar é a representação real de Saramago, é o prolongamento natural das suas frases intermináveis, da sua ausência pontual.
Pilar Del Rio. Não, claro que não fui falar com ela. Que ideia. A metafísica não tem voz para a humanidade! Toda a gente sabe isso. Aproximar-me-ia de Pilar para lhe dizer o quê? Essa agora…
Respirei fundo, encostei-me na cadeira e ali me deixei ficar a ouvir Alfonso Armada e António Mega Ferreira que tão bem falaram.
Que tão boas ideias deixaram. Que fizeram valer a minha deslocação. Que justificaram o ter saído de casa e deixado a minha mulher super grávida em casa durante umas horas para me ir sentar numa sala cheia de desconhecidos, em dia de folga, e ouvir falar sobre o futuro da minha profissão. Porque não?

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Sobre a mesma, notas importantes:

– Pensamos com palavras e é com palavras (e cada vez mais com imagens) que o jornalista conta o mundo aos outros.
– O que torna grande um jornalista é a capacidade que o mesmo tem de conhecer as várias realidades dentro da realidade da vida!
– Será que a maneira de ler o mundo vai influenciar e alterar a maneira de contar o mundo?
– Estará o digital a transformar (para não dizer alterar) a morfologia do nosso cérebro?
– O choque geracional entre Jornalistas pode determinar a luta pelo futuro do Jornalismo?
– Quem vai fazer Jornalismo no futuro?
– A perda de hábito de fazer coisas manualmente.
– A comodidade do processo comunicativo no século XXI

Que me desculpem os que contavam saber mais sobre a conferência… mas, se queriam de facto saber mais… deviam ter lá estado.
Quanto a mim a (senhora) Pilar deixou-me assoberbado, embasbacado, petrificado. Parece até que estive noutra sala ao lado.

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Não me sais da cabeça e ainda mal nos conhecemos

Não me sais da cabeça e ainda mal nos conhecemos

Devo confessar, se é que me é permitida a veleidade, que desde o dia em que fomos ver e ouvir o nosso bebé pela segunda vez que ando completamente desconcertado. Sim, desconcertado, não cair no erro de confundir com desconcentrado. Sinto-me verdadeiramente desconcertado, e porquê? Porque efectivamente não consigo arrancar do cérebro o som incomparável do bater do teu coração. Rápido, ansioso, frenético, vivo, voraz, cadenciado e afogueado, carregando já no bater veloz e desenfreado a vontade inexplicável e irreprimível que uma criança tem de viver, de conhecer, de descobrir, de ser.

E desde então que dentro do meu pensar ecoa furtivamente o som mágico do bater do teu coração, bebé. Coisa que impressiona e que agarra. Não tem argumento nem texto, não tem nada mais que não a ilusão pura de um casal apaixonado (nós, os papás) que quis ser ainda mais feliz e que quis dar largas ao sonho de uma vida. E, caramba, como tudo isto me dá a volta às ideias. Como tudo isto me afasta das coisas feias e me faz caminhar sorridente e altivo nos passeios deste meu mundo impenetrável, sem que tenha de me deter tempo a mais ou a menos nas coisas. Limito-me a pensar. A sentir. Misturando as duas grandezas num claro desrespeito pelos conselhos de Alberto Caeiro e do Senhor Pessoa, mas lembrando-me sempre dele(s) quando olho para as flores nos canteiros. A dor de sentir. A esperar pelo grande dia que há-de estar para vir. Por agora, penso e não me canso, divago pela orla das madrugadas sem me preocupar com a ideia de que, mais do que a possibilidade, a mesma assume já o contorno puro e fiel da realidade. Pai. Sim. Pai. Ai, ai, ai… E o medo de não o conseguir ser da forma como sempre acreditei que o seria. A certeza de que vou falhar, alicerçada na garantia eterna de que me vou esforçar e não me vou esgotar na dificuldade de te criar, de te educar, de te ajudar a crescer e ensinar a viver. Antes seja eu o criador do sabor a que sabe esta tão imensa felicidade. Assim seja eu o protector eterno da tua integridade.

Devias ver a tua mãe. Devias poder olhar de fora e vê-la assim como ela anda, linda, maravilhosa, feliz, radiante, não te abandona nem por um instante. Se devias. Em cada hora. Todos os dias. Se devias. A tua mãe está transformada na mais linda mulher que os meus olhos conhecem bebé. Espectáculo incrível de se ver, de se admirar, de registar e gravar com os olhos, esses cuja memória do cartão não acaba, esses que não precisam de Wifi, de wireless, de pilhas, de bateria ou da sombra de mais um dia. Pelos olhos te vemos e pelo pensar te imaginamos. E acredita que é assim que estamos. Felizes. Radiantes. Ansiosos. Deve ser assim. Tem de ser assim. Fará sentido que assim não seja? Fará sentido que só se lembrem de Santa Bárbara quando troveja? Não. Mas é certo e sabido que aguardamos ansiosamente a tua chegada., contudo, por agora, contentamo-nos com o teu crescer dentro da barriga da mamã. Para já é mais do que suficiente. Para já é desta forma que tornas a nossa vida bem diferente. Não dês muito trabalho à mamã, sim?

Um beijo do papá Martim.

Estes “sacanas” destes refugiados II – Medo, ignorância e o terror daquela infância

Estes “sacanas” destes refugiados II – Medo, ignorância e o terror daquela infância

O meu último texto superou todas as expectativas que tive quando o publiquei aqui. Estava longe de imaginar que o mesmo iria gerar mais visualizações num só dia do que o blog alguma vez tivera nos 6 anos da sua dedicada e insistente existência. É certo que o tema era e é quente, recente, contundente, e que não deixa (quase) ninguém indiferente, mas daí a ser partilhado e comentado por tanta gente… isso, isso é coisa bem diferente. Mas vamos por partes. O Rogério Esteves e a Cândida Pinto (dois nomes que devem ser referidos com orgulho, reverência e solenidade) já regressaram a Portugal. E a coisa não lhes correu nada mal. Estiveram lá durante mais de duas semanas a queimar os olhos e as pestanas, a ver coisas desumanas, espantados com as atrocidades cometidas, com as palavras proferidas, com as horas perdidas, com as crianças desnutridas, com a quantidade inquantificável de gente de vistas perdidas, de olhares vazios, de lágrimas no rosto, aninhados, amedrontados e com fome e frio. (Mas estes “sacanas” merecem. Ou pensavam que era só vir aqui invadir a Europa e encontrar um mar de facilidades?)
O Rogério e a Cândida sofreram! Sim. Sofreram. Como sofre qualquer ser humano de boa índole ao ver outro ser humano em sofrimento. Talvez mais ele do que ela. A Cândida Pinto (cujo nome, como já disse e não me canso ou nada importo de repetir, se deve ler com reverência – obrigado novamente António Reis que tanto sabes) já esteve várias vezes em cenários de guerra, reais, por demais, com fogo que não é amigo, bem pelo contrário, olhando bem de perto para a cara feia do perigo, esquecendo-se sempre do seu próprio umbigo.

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Foto: Rogério Esteves

Ele não. Ele foi “lá parar” porque ela quis que ele fosse, pediu que ele fosse, porque gosta do trabalho dele, porque acredita que ele tem nos olhos e na relação íntima com a câmera e com as imagens, qualidades inequívocas e inquestionáveis no que a este tipo de trabalho diz respeito. Mas, o que também importa aqui dizer é que o R. tem 25 anos, vinte e cinco anos apenas, banhados pela luz radiante e tremendamente contagiosa de um coração enorme, de uma bondade que conhece poucos ou até mesmo nenhuns limites, purificada por uma sinceridade transcendente ao próprio corpo e que se propaga pela imensidão dos seus olhos azuis e da alma que lhe carrega tantas vezes o corpo e o senta no diafragma da lente com que nos mostra… “o país e o mundo”.
Foca e desfoca, ri, chora e não treme, como não tremeu nestes dias em que esteve com a Cândida (repito: este nome deve dizer-se com reverência) e que viu as coisas mais verdadeiramente impressionantes da sua ainda curta vida. Escrevei anteriormente que o que mais o impressionou e que foi mais difícil de aceitar foi o ter de ouvir, olhar, ver e escutar os lamentos desesperados das crianças e dos seus olhos carregados de verdade e de tristeza, de medo, fustigadas por terror a mais para anos de vida a menos.

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Foto: Rogério Esteves

Verdade. Digo, disse-o e repito-o. Sem apelo nem agravo, sem dó nem piedade, porque por cá, quem continua (depois de tantos e tantos dias, depois de tantas e tantas imagens, depois de tantos e tantos relatos) a revelar-se intransigente, inflexível, racista, xenófobo e estúpido, a mostrar ser implacável na verborreia com que apregoa o medo que os “sacanas” dos sírios lhe(s) causa(m), com argumentos translúcidos e inspirados tais como: que querem “colonizar” o mundo com um imperialismo disfarçado e hostil, querem oprimir todos os seres humanos que encontrarem pela frente e os seus animais também (que pode sempre dar jeito), quem continua a defender esse tipo de ignomínia absurda, não merece mais do que verdade. Factos. Que a realidade lhes lave os olhos fechados… com tanta gente que queria ver!

Ah e querem igualmente usurpar-nos os empregos… falo daqueles que tiverem paciência e vontade de trabalhar, obviamente, porque como é “certo e sabido”, todos eles querem vir para a Europa para serem parasitas, sanguessugas, escorpiões, cobras venenosas e malvadas, munidas de uma peçonha sem antídoto, dum venenoso e pérfido poder que nos vai dizimar a todos… logo a Nós, os europeus puros de sangue! Os do “velho continente”.
E este pensar, não está ele corrompido por ideias despóticas e imperiais, que serviram de base idealista para as piores atrocidades que se comentaram neste continente e que culminaram com a tentativa de extermínio de um povo (os judeus), que também tinha vindo aqui para procurar refúgio?

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Foto: Rogério Esteves
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Foto: Rogério Esteves

Pergunto-vos, porque gosto muito de conversar: Alguém acredita, no seu perfeito juízo, ou consegue acreditar, que existam seres humanos que gostem de ser REFUGIADOS de Guerra? Que se vangloriem de viver assim? Que se sintam felizes por não poderem viver na terra onde nasceram, onde cresceram, onde aprenderam a ser gente? Onde aprenderam o significado de ser e estar.

Ser. Mas ser mesmo. Existir. Tal grandeza só tem sentido se o coração bater, se o sangue correr, se o olhos brilharem mesmo que não vejam, se o nariz cheirar mesmo que o cheiro seja hediondo e o ar conspurcado.
Perde-se tempo, tanto tempo, demasiado tempo a tentar encontrar motivações que consigam explicar todo este fluxo migratório e, digo-vos eu, pela ponta dos meus dedos, que é tempo perdido. Porquê? Porque a verdadeira motivação desta migração massiva está, simplesmente, na luta desigual e constante pela sobrevivência. Numa vontade inabalável de viver, de sorrir, de crescer, de ser mais, de ter mais, mais do que tudo isso, de recomeçar. Quem cá chega abandonou tudo. Quem cá chega trabalhou durante meses ou até anos a fio para juntar tudo o que era possível juntar e que, não poucas vezes, acaba no fundo do Mediterrâneo. E há depois a superior e inesgotável vontade de não ter medo.

Os meus colegas viram coisas que nós, aqui, no sofá, no escritório, pela televisão, pela internet, no tablet, no telefone, não vemos! E capacitem-se de que nunca, mas nunca vamos ver… da mesma forma que eles viram! São coisas a que nunca vamos conseguir chegar, imagens que, por muitas e mais vezes que nos sejam contadas, serão sempre isso, relatos, histórias, imagens vistas pelos olhos de alguém, que, vão sendo cada vez mais difíceis de enquadrar. Mas para isso há uma explicação cabal e inequívoca. Há um nome sem rosto mas que é maior que os Deuses, que os sonhos, que o Sol. O Medo! Esse sim o verdadeiro monstro, aquele que nos impede de abrir os olhos, que nos obriga a ficar debaixo dos lençóis sedosos e apetitosos da facilidade e do conforto, tapados, submersos, impressionante imobilizados e de sangue congelado nas veias, à espera que o pesadelo passe e que seja novamente manhã, que brilhe o sol, que corram felizes as nuvens e que tudo isto não passe… de um sonho mau.
E viram coisas estranhas, coisas esquisitas, nas suas próprias palavras.
Campos de acolhimento que se esvaziaram mais depressa do que uma curta noite de sono. Centenas de pessoas a serem metidas em autocarros e levadas para parte incerta. Estratégias de combate militar da polícia húngara. E sons. Muitos sons. Sons que ficam. Sons que teimam em não os largar. A ele em particular. De pânico. De terror. De fuga. Que chegam em forma de gritos. De homens, de mulheres e de crianças. Como é horrível o som do terror da pequena infância.
O R. não se esquece do “barulho impressionante” de 5 mil pessoas a correr em todas as direcções, do tumulto, da polícia, do polícia que lhe enfiou um braço por baixo da câmara e lhe lançou uma bombada de gás pimenta para os olhos e para a boca – “nunca tinha ouvido um barulho assim meu amigo”. Não se esquece do homem sírio que, vendo-o aflito, parou a sua corrida e lhe deu um pacote de lenços de papel e lhe disse para limpar a boca e os olhos com o papel, “ajuda a tirar o gás” disse ele.

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Foto: Rogério Esteves

E todas estas são palavras em que acredito piamente. Os olhos do R. não mentem, muito menos a sua boca, onde o espaço é, regra geral, reservado a sorrisos largos e gargalhadas estridentes. A Cândida Pinto (volto a frisar que este nome deve ler-se com reverência e respeito extremo) é uma jornalista “sénior” como dizemos na redacção da SIC. Tem muitos anos “disto”. Com ela nunca troquei mais do que o cordial e educado bom dia, boa tarde ou boa noite. Não porque não quisesse falar mais, mas porque há colegas nesta casa que me merecem tal respeito pelo trajecto profissional que têm, que o embargo na voz me foi sempre emudecendo, e me impediu de ser capaz de a abordar com qualquer pergunta sobre tudo o que fez enquanto jornalista profissional.
Levei igualmente muito tempo para conseguir dirigir-me ao Rodrigo Guedes de Carvalho e à Clara de Sousa, à Ana Lourenço ou mesmo ao Mário Crespo que conheci ainda era eu um petiz de colo. Foi preciso outro tanto para não tratar com solenidade episcopal o José Manuel Mestre… e a Cândida Pinto (isso mesmo, reverência e respeito, já perceberam a lógica) faz parte desse mesmo lote. Mas para que não se pense que os húngaros agem de ânimo leve, importa recordar que este é um país traumatizado, que viveu 45 anos sob ocupação russa (com tudo o que isso implica). Não nos esqueçamos que o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do império austrohúngaro, em Sarajevo, precipita o começo da Primeira Grande Guerra, com a invasão da Sérvia (outro dos países por onde passaram, a pé, todos estes recentes refugiados. A história a encarregar-se de nos surpreender com a sua fina ironia).

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Foto: Rogério Esteves

Não nos esqueçamos que o povo húngaro também tem um elevado historial de procura de refúgio e de asilo noutros países, de fuga em massa para escapar das garras poderosas da fome, do frio e do terror imposto pela URSS.
Dissolvido em 1918, o império austro-húngaro deu então origem à República democrática da Hungria (Lá está outra vez a fuga deliberada para a graçola, Martim).

Depois veio a ocupação russa e isso, isso, por si só, é coisinha para marcar toda a história e vida de uma nação.
Basta que olhemos para todos os países que fizeram parte da URSS e vejamos o que lhes sucedeu.
Estónia, Letónia, Lituânia, Bielorrússia, Moldávia, Ucrânia, Arménia, Azerbaijão, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão. Tudo sítios onde é certo e sabido que a vida decorre debaixo da maior das liberdades, onde se é um ser livre para se ser, se pensar, se estar e se viver da forma que mais nos aprouver… isto enquanto não se chateia ninguém e não se “preenche” os requisitos mínimos para levar um baláziozinho nos miolos, se aquilo que quisermos e acharmos giro chatear quem não deve. Tirando isso. Tudo impecável.

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Veja-se então como vivem e pensam hoje a maioria dos habitantes destas nações independentes…

Apenas para que se olhe para a Hungria com olhos de ver, com olhos de realidade a quem os críticos, e todos aqueles que querem mandar pastar “esta gente” tanto apregoam, como sendo aquilo que nós, os que defendemos a vida “desta gente“, não somos capazes de ver; para que todos percebam a atitude que mantiveram e mantêm, os ataques aos refugiados e a Xenofobia (medo excessivo, descontrolado e desmedido em relação a pessoas estranhas, com as quais nós habitualmente não contactamos. Esta doença (sim, DOENÇA) insere-se no grupo das perturbações fóbicas…) evidente e despudorada, é preciso que se perceba que da boca do Primeiro-Ministro húngaro (que para nós é um “bolito” miniatura de pastelaria) é um senhor desses com laivos vários de ditador, hegemónico, disposto a tudo, que recentemente gastou cerca de 20 Milhões de Dólares para construir um estádio de futebol com capacidade para 4 mil lugares sentados, junto à sua casa de campo, para poder ver jogos com os amigos… parece-me tudo bem… esse mesmo senhor deixou sair pela cloaca as seguintes palavras: “É preciso manter a Europa cristã” e, meses antes, em Paris, naquela altura em que fomos todos Charlie, referiu também a necessidade de “travar o fluxo migratório não-cristão que se regista na Europa”. Robin-Hood do Cristianismo. Portanto, temos na Hungria um patriota acérrimo, que dá elevados sinais de corrupção activa e abuso de poder, e que já mandou erguer cartazes com mensagens no mínimo ameaçadoras para quem entra no país, e que se vê a ele mesmo como o salvador do Cristianismo Europeu. Tudo normal. Excepto uma coisa muito importante.
Deus não nos ensina a distinguir entre as cores da pele, meu caro Viktor! Os formatos das mãos, os decotes nas camisolas, ou aquilo com que escondemos o corpo não são, na palavra do Senhor, seja lá em que língua for, coisas retratadas e a ter em conta por todos os que O seguem. Isso é tão estúpido como dizer que quem se explode no meio de uma multidão e mata o maior número possível de pessoas tem 70 virgens à sua espera, num apregoado e idílico paraíso onde se pode beber boa pinga e enfardar fruta todo o dia, para além de passar a vida envolto na luxúria orgulhosa com tantas mulheres quantas aquelas que quiser ter. Deus ensina a amar caramba. Eu aprendi isto, com freiras, com padres, com catequistas, com bispos, com a Bíblia, com a minha família, com a minha mãe, com a minha avó e com os meus tios. Aprendi, isso sim, que Deus é Amor, ponto. No fundo é disso que se trata aqui, de A.M.O.R, como diz e bem o Pedro Abrunhosa.

Foto: Rogério Esteves
Foto: Rogério Esteves

Quanto ao Rogério e à Cândida, foram quase 20 dias, cerca de 5 mil quilómetros, 5 fronteiras na Europa Central, 2 fronteiras “protegidas” com muros de arame farpado, cargas policiais com direito a gás lacrimogéneo e pimenta nas fuças, canhões de água no corpinho (não fossem eles precisar de um banhito), com ordens dadas aos militares húngaros para que atirassem/disparassem de forma não letal sobre os migrantes… houve de tudo.
Mas houve a felicidade de familiares, colegas e amigos em saberem que, para eles, chegou por fim a hora de voltar a casa. De voltar ao… seu refúgio. Áquele que cada um de nós tem a sorte de ter.
Bye, bye Budapest, disseram na hora da partida, e bye, bye fronteiras armadas, muros erguidos para proteger os países de invasões por parte destes bárbaros de pele mais “tostada” pelo sol e de olhos enegrecidos pelo terror.
(leiam o artigo do NYTimes sobre o Primeiro-ministro húngaro que partilho no fim deste texto)
Hoje, a única coisa que quero é que levem as mãos às vossas consciências.
Os que concordam e os que discordam de tudo o que disse e repeti. Os que têm opinião e os que não têm. Os que se preocupam e os que se estão nas tintas para tudo isto e para os outros. Para as pessoas. Se vivem ou se morrem.
E a vocês, racistas, xenófobos, ignorantes, acéfalos, pequenos pedaços de vida sem sentido, até a vós eu vos pergunto meninos proto-arianos, digam-me o que fariam se tivessem nascido ali e não aqui. Porque corpo, corpo todos temos, lá por dentro é que tudo muda. Mas digam-me, preferiam morrer, a fugir, não era? Seus valentões! Claro que sim.
E preferiam ver toda a vossa família morrer, a fugir, não era? Claro que sim. Nem fuga nem rendição. Que quem se rende são os pretos, os monhés, os judeus, os chineses, os índios e essa “escumalha toda”. Mais nada!

Agora olhem para os vossos filhos já deitados na cama, para a vossa mulher a terminar de lhes arrumar a comida nas mochilas, para as fotografias dos vossos pais, amigos e familiares espalhadas pela sala, pelo corredor, pelo hall, pelo quarto e pensem… e se amanhã perdessem tudo isto e só vos restasse… fugir, de barco, de carro, a pé, de comboio, para salvar a minha família. O que faziam? O que faziam se as fronteiras da vossa fuga vos fossem fechadas na cara? Se toda a esperança vos fosse deliberadamente trancada a cadeado. Que tudo isto sirva, ao menos, para percebermos que é urgente voltar a pensar pela nossa própria cabeça. É urgente regressarmos à educação que tivemos, aos princípios básicos da vida humana em sociedade. A morte, o abandono, o nojo, o medo, a repulsa… não fazem parte desse lote de leis com que se deve pautar uma vida. Nem podem fazer. Nem ontem, nem hoje nem nunca. Seja qual for a cor da tua pele, o som da tua língua, a origem do teu povo, a bandeira do teu país, o teu hino, o teu pequeno-almoço, ou a roupa que vestes nos dias em que festejas seja lá o que for. Somos todos homens. Já fomos todos Charlies. E o que não vão chamar os nossos netos? A estes dois jornalistas eu agradeço porque graças a eles, hoje sei mais, sou maior, sou melhor. E devemos agradecer todos porque, mesmo estando ali para fazer o seu trabalho, para o qual são pagos no final de cada mês, são capazes de nos contar as histórias, sejam elas melhores ou piores, tenham elas um final mais ou menos feliz. Ser jornalista é isto mesmo, contar a história que não foi contada, mostrar as imagens que ainda não foram vistas. Obrigado Rogério e Cândida. (Estes dois nomes devem ler-se com respeito e reverência, apenas ao alcance dos que o merecem pela distinção nobre do trabalho que fazem e da vida que vivem)

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Foto: Cândida Pinto

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Estes “sacanas” destes refugiados

Tenho um amigo a trabalhar na Hungria, agora, neste preciso e delicado momento. É repórter de imagem da SIC, ou se preferirem cameramen. Está lá há pouco mais de uma semana, na Hungria, entenda-se.
Como é um daqueles amigos que realmente estimo e com quem realmente me preocupo tenho procurado saber dele com regularidade, sem ser chato nem o atrapalhar no trabalho de enorme importância que ele está a desempenhar. Não consigo sequer ter uma leve ideia do que os olhos dele vêm. Ainda hoje (4ª feira) levou um banho de gás lacrimogéneo, só para não ter a mania que é jornalista e que anda para aí a querer informar as pessoas do que se está ali a passar, o abelhudo.
Antes de se ir embora estava realmente apreensivo. Não porque tenha medo de trabalhar, de andar de avião, de dormir no chão, de ver a tristeza, a dor, o desalento e a desilusão, mas sim porque era e é de facto o trabalho mais importante da sua ainda curta mas já bem recheada vida profissional.
O meu amigo é um funcionário impressionante, daqueles com quem dá gosto trabalhar e sair em reportagem. É diferente da maioria dos seus colegas. Porquê? Porque é. Ponto.
É mesmo uma jóia de menino.
É assim porque tem na boca o coração. É assim porque tem nos olhos a preocupação de querer mostrar a quem cá está, cómoda e refasteladamente sentado no sofá, na cadeira do escritório, ou na secretária do trabalho, a emitir opiniões tão certas quanto despropositadas, sobre coisas que não percebe, não conhece, não sabe e não vê.

Claro que eu também cá estou, mas, ao contrário de toda esta gente que tenho visto a levantar vozes de Ira e raiva contra pessoas que nunca viram, conheceram, cheiraram, e sobretudo com quem nunca trocaram uma palavra que seja, a mim chega-me, porque a procuro, informação privilegiada do que se passa, por estes dias, na Hungria. E não são coisas nada agradáveis de se saber.
O R. tem-me contado coisas inacreditáveis.
Em primeiro lugar deve ser desde logo ressalvado que não tem conseguido dormir! E quando não dormes, alguma coisa de errado se está a passar contigo, tal é a necessidade imperiosa que o corpo tem de descansar. Rapidamente me apercebo de que a força e a violência do que vê e grava durante o dia é de tal ordem e índole que à noite, quando se estende estenuado na cama do quarto solitário de hotel onde está hospedado, já fisicamente exausto, não consegue pregar olho. Vira-se e revira-se. Tem vontade de chorar. Tem saudades da mulher que cá está, sozinha em casa, coisa de que não gosta particularmente. Hoje ela vem jantar connosco e isso descansa-o.
A impotência que o arromba e esbofeteia exprime-se com tamanha violência que, à noite, quando pára finalmente de trabalhar, perde ligeiramente o tino e sofre por não conseguir fazer absolutamente nada para atenuar, diminuir ou mesmo acabar de imediato com o sofrimento daquela gente.
O R. é assim mesmo. Querido, meigo, amigo, sempre pronto e desejoso de ajudar quem precisa, munido de um altruísmo difícil de replicar.
Diz-me então que o mais difícil de aceitar são as crianças e os seus olhos carregados de verdade e de tristeza, de medo, fustigadas por terror a mais para anos de vida a menos.
Diz-me também que há gente a enriquecer com isto tudo. Não estranho porque há sempre abutres nas tragédias. Há sempre quem ganhe com as desgraças dos outros e se sinta feliz e orgulhoso por assim ser.
Diz-me que cada pessoa paga quase 5 mil euros para chegar até aqui.
Diz-me que há agiotas a cobrar e à espera de receber o seu “dízimo” que, trocado por miúdos, mais não é do que as poupanças de toda uma vida, agora “gastas” na mais vil das despesas, a luta pela sobrevivência.

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Mas nisto os milhares de portuguesinhos inflamados e “ditadores” não pensam.
Somos um povo que agride muito melhor do que consegue proteger e defender. É histórico. Cultural.
Não fazemos ideia do que é viver e passar por isto que esta gente está a viver, mas, ainda assim, escolhemos, não poucas vezes, defender o indefensável, acreditar no inacreditável…
Os portuguesinhos que agora se revelam racistas, intolerantes, despóticos, alarves, munidos de uma sabedoria que assenta sobretudo nas opiniões dos outros e nunca, jamais, na própria cabeça, são os mesmos que se inflamam contra políticos, contra ordenados de futebolistas, contra tudo… fazendo rigorosamente nada que não… reclamar, injuuriar, criticar, ou seja, não fazendo absolutamente nada.

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Foto: Rogério Esteves

Mas já lá vamos…
Diz-me o R. que as horas que estas pessoas (importante lembrar que são pessoas, antes de serem migrantes, refugiados ou qualquer outra porra que se goste de lhes chamar, são pessoas caramba) passaram dentro de um barco foram as mais longas, mais terríveis, mais imprevisíveis de toda a sua vida.
Não são pedintes. Não são ladrões. Não são violentos. São educados. São letrados. São doutores, engenheiros e advogados. Admirados?
Entretanto vou espreitando o Twitter a cada hora que passa para saber se há novidades.
É de longe a plataforma que mais rapidamente difunde informação, que a dissemina, que a exporta e expatria pelo mundo fora. Só não sabe mais e não vê mais quem não quer saber e ver mais.
E o R. que não dorme, penso. Pobre coitado.
Faço-te um Gin triplo quando chegares e abrimos as garrafas de tinto que quiseres! Ouviste meu amigo?
Conheço-o bem e sei que, embora seja um miúdo de ferro, tudo isto tem de afectar, tem de marcar, tem de moldar, tem de mudar, tem de influenciar o olhar, tem de o fazer chorar!
Desespera por ver tanta criança infeliz. Tanta criança com fome, com frio, com bolhas nos pés de tanto andar, com ranho seco colado ao buço, remelosas que dói, com sede, mas ainda capazes de encontrar forças para sorrir.
Há semanas que não ouvem um rebentamento de uma bomba, que não vêm amigos morrer esmagados ou estilhaçados, que sentem o doce cheiro da liberdade, ainda que não percebam bem o que lhes está a acontecer e que raio é isso de liberdade afinal.
São as crianças que mais o impressionam e têm de impressionar. Porque nelas não há maldade, ganância, terrorismo ou extremismo. Nelas há tão somente a vontade de brincar e de satisfazer as suas mais básicas necessidades. Conforto, carinho, amor, segurança, felicidade e brincadeira.
Mas deixemos agora o R. por um pouco que já lá voltamos, creio que ele está a descansar e por isso vamos deixá-lo estar.
Entretanto, por cá, a coisa pinta-se de uma forma completamente inesperada mas não incompreendida.
Pelas redes sociais, um fenómeno e um mundo que adoro, admiro e onde estou activamente presente, mas que produz efeitos nefastos sobre as mentes das pessoas mais mal formadas, menos capazes de pensar pelo próprio cérebro e, sobretudo, que difundem a palavra de qualquer coisa que encontram postado, tuitado, partilhado ou publicado, como se fossem verdades incontestáveis. Vivem de axiomas e acreditam piamente no que dizem, sendo que nem sequer sabem o que estão a dizer ou mesmo o que estão a fazer. Nem sequer sabem o que pensam as suas próprias cabeças. Defendem e difundem aberrações escritas por terceiros, com notícias tantas vezes não verificadas, não confirmadas, nas diversas contas de origem extremamente duvidosa que existem nas redes sociais, sem sequer se darem conta do sentido escrito e lacto das anormalidades incríveis do que dizem. Mas atenção que estes “meninos” foram os primeiros a partilhar, a retweetar e a repostar, por exemplo, a fotografia da criança morta à beira mar numa praia da Turquia, de cara na areia, ainda vestido, abandonado ao destino que quis que ali se finasse a história da vida daquele menino. Porque isso sim, essa é a realidade desta gente…
Veiculam e partidarizam uma discussão que não tem sequer moralidade para existir.
E agora já não há charlies em lado nenhum…

Foto: Rogério Esteves
Foto: Rogério Esteves

É certo e sabido que todos temos o direito a pensar o que quisermos sobre o que quisermos, onde quisermos, como quisermos, mas uma coisa também devia ser certa, não temos o direito de ser gratuitamente maus, estúpidos, velhacos, desrespeitosos, racistas, xenófobos e sobretudo injustos para com quem nunca nos fez mal, nunca nos desrespeitou, nunca nos vilipendiou de forma alguma.
O medo do desconhecido produz no ser humano reacções tão estúpidas e abjectas que chego a pensar que na verdade não dou para este mundo. Não me revejo nestas práticas, nestas índoles, nestas manifestações odiosas e repugnantes contra pessoas indefesas, incapazes sequer de decidir o próprio destino.
Senhoras e senhores, informem-se! Por favor! Procurem informação para lá dos pasquins que vos enchem a mente de cocó! É tão fácil, tão simples, tão acessível. Hoje em dia só diz e defende merda desta cor, cheiro e consistência quem efectivamente quer ser estúpido, quem efectivamente quer ser e dizer merda. Porque se o maior valor humano é a defesa e o aproveitar da própria existência, da vida, da vivência, como é possível alguém defender que estas pessoas, estes “monhés” que vêm lá da Síria ou do cú de judas, que “cheiram mal”, que são todos terroristas e que se vão todos rebentar, porque eles passam a vida a rebentar-se por dá cá aquela palha, só por causa das sereias, perdão, das virgens prometidas.
Tanta ignorância em tão poucos caracteres.
Tanta alarvidade e tão pouca solidariedade.
Tenho esperança no futuro da humanidade.
Tenho esperança nas pessoas, nos homens, nas mulheres e sobretudo nas crianças.
Mas se a tenho é também porque tenho amigos como o meu querido R., que tem olhos limpos, carregados de esperança e bondade, de solidariedade, de altruísmo.
Obrigado meu amigo por tudo o que nos tem mostrado dia após dia, noite após noite.
Tu e a Cândida Pinto (citando o meu amigo e colega António Reis: “este nome deve pronunciar-se com reverência)” têm mostrado a Portugal que estamos “muito mal” na verdade…
Por fim, dizer apenas que, ao que parece, Portugal vai receber entre mil e três mil refugiados sírios (o número não é claro, não é redondo, nem é definitivo), num país com perto de 11 milhões de habitantes. Acham mesmo que eles nos vão roubar os empregos, que vão constituir organizações terroristas e que todas as mulheres passarão a usar Burkas?

Foto: Rogério Esteves
Foto: Rogério Esteves

Mais depressa me parece que veremos elefantes a andar de patins em Belém. Mas isso, isso não seria estranho para ninguém. Volta rápido meu amigo. E volta bem. Nós por cá vamos mantendo acesa a chama do orgulho que temos por ti, está bem?
Dá um beijo meu a todos e todas aqueles que encontrares ou para quem olhares.
Por vezes um olhar faz tanto ou mais do que uma palavra.

11 razões para não esquecer o 11 de Setembro de 2001

11 razões para não esquecer o 11 de Setembro de 2001

Casei a 4 de Julho e a 1ª parte da lua de mel foi em Nova Iorque.
É uma cidade incrível, gigantesca, enorme, alta, muito alta, tenho a certeza que foi sempre a mais alta da sua turma, da sua escola… Mas NY é igualmente imparável, irrequieta e destabilizadora, naquele sentido muito próprio da destabilização que atinge as coisas absoluta e incomparavelmente magníficas.
É uma cidade que merece muito respeito, admiração e reverência. Porquê?
Fácil. Porque é uma daquelas cidades lindíssimas que se tornam feias e infelizes, fruto da loucura e barbárie de um grupo de mentecaptos com propósitos de psicopatas, que deixam para trás um grotesco e hediondo número de mortos às mãos do flagelo de horror que marcou o final do século passado e marca o princípio deste em que vivemos: os “atentados/ataques de grupos terroristas” contra pessoas inocentes.

1. Foi na cidade dos sonhos de meio mundo
Sempre quis conhecer NYC. Tal como tantos milhões espalhados por este Ocidente fora, também eu cresci a ver as séries, os filmes, os desenhos animados, a ler revistas e livros, a ver fotografias e imagens na televisão e a imaginar o que seria um dia poder caminhar à sombra de um arranha-céus, de mão dada com ele, passear e brincar com os esquilos no Central Park, andar num Táxi amarelo, comprar um cachorro quente numa roulotte de rua, ler o New York Times, atravessar a Brooklyn Bridge a pé só para ir ver o Sol despedir-se do dia, sempre empoleirado nas costas da vista mais emblemática da cidade. IMG_3437 O sonho adensou-se precisamente a 11 de Setembro de 2001. Quando lá cheguei, ao exacto local onde tudo se passou, gelei, de verdade. Não o escrevo para que tenham pena dos americanos, escrevo-o porque foi exactamente aquilo que me acontceu. Senti coisas que nunca tinha sentido na vida. Arrepiei-me, emocionei-me, fui invadido por um mal-estar físico que se centrava e cingia à zona da barriga, do estômago que se embrulhou, que me nauseou momentaneamente, que me entorpeceu e me roubou as palavras, que me levou aos olhos o princípio húmido das lágrimas de revolta e tristeza. Porque todos aqueles nomes gravados naquelas pedras impressionam. Por outras palavras, o WTC consegue perturbar quem sente. E já se sabe que quem não sente não é filho de boa gente.

2. A localização e a dimensão do ataque
NY é, de muito longe e sem quaisquer margens que permitam a existência de dúvidas, a cidade mais conhecida de todo o mundo. Toda a gente sabe onde fica, a que país pertence, que tem arranha-céus colossais, uma estátua de braço esticado no meio do rio e ainda o Central Park. Ora, um ataque a este recanto idílico dos sonhos de meio mundo, fica para sempre na memória de quem, como eu, viu as imagens que viu, viu o pânico na cara de todos os que conseguiram escapar. Quando passeámos na zona circundante ao WTC, onde agora se erguem baixinho as duas “piscinas” que simbolizam as duas torres destruídas, e onde estão inscritos os nomes de todos aqueles que pereceram naquela fatídica manhã, permiti-me a mim mesmo fechar os olhos por uns instantes e imaginar (algo que não custa sequer 1 euro) o que terão vivido aquelas pessoas e o que terá vivido aquela cidade, naquela manhã, quando ainda mal abria os olhos… Creio que foi talvez o único atentado terrorista que magoou e feriu milhões de pessoas a uma escala planetária.

3. Somos mais sensíveis à destruição de coisas bonitaswtc
Parece-me que é mesmo e sempre assim. Causa-nos mais confusão ver morrer um Leão do que uma barata. Porquê? Um é lindo, felino, imponente e deslumbrante; ruge e assusta. Já o outro, pobre coitado, é só nojento e repugnante, um comedor profissional de cocó. Portanto. Quando morrem os dois, já sabe que o Leão tem honras de estado e barata é chutada para dentro de uma sarjeta, já que o que os olhos não vêem o coração não sente. (E não é nada fácil espetar com um leão numa sarjeta) Sendo Nova Iorque uma das mais belas e frondosas cidades do mundo, de uma forma geral, torna-se difícil que não haja de imediato uma tristeza empática e identificada com a dor e com a tristeza dos que a vivem de verdade.

4. Porque até a data é emblemática
911 (nine, one, one) – Número nacional de emergência nos Estados Unidos. 9/11 (nine, eleven) – designação pela qual ficou conhecida toda esta atrocidade, que, importa lembrar, não se cingiu apenas à cidade de Nova Iorque.

5. Porque deu a conhecer ao Ocidente o Terrorismo religioso e a Jihad
Creio que posso afirmar com toda a certeza, ou com uma elevadíssima dose da mesma, que até 2001 ninguém, ou muito pouca gente sabia o que era a Jihad Islâmica, quais os seus propósitos e fundamentos, o que queria alcançar e como o iriam fazer. A partir desta altura o mundo tomou contacto com uma nova forma de insurreição e de barbaridade, apoiada na violência extrema e sem limites, sem piedade, sem dó, sem misericórdia, sem qualquer respeito pela vida e com uma predilecção tenebrosa pela morte, quanto mais sangrenta e violenta, melhor.

6. A inesquecível onda de solidariedade…
Uma das coisas que gravei na memória foi a extraordinária onde de solidariedade que tomou conta dos Estados Unidos e grande parte do planeta nos dias e semanas que se seguiram ao dia mais negro da história americana.
De facto, e por muito triste que assim seja, o altruísmo, a entreajuda e a solidariedade são capacidades incríveis do ser humano e que aparecem nas alturas em que são verdadeiramente essenciais. Por todo o país prestaram-se homenagens aos mortos, aos feridos, aos desaparecidos, mas as que mais me comoveram foram, sem dúvida, as feitas em honra das centenas de bombeiros que morreram dentro daquelas 2 torres… gémeas.

7. O olhar perdido e confuso do presidente Bush
Outra das coisas que não se podem esquecer é o olhar perdido, confuso, desorientado, comprometido e alienado do presidente dos Estados Unidos, sentado numa cadeira de uma sala de aula de uma escola, enquanto um assessor, lhe “vomitou” ao ouvido que o país estava a ser atacado, que tinham chocado 2 aviões contra o World Trade Center, o símbolo maior do poder da economia americana, o Pentágono… Um cenário dantesco e impensável até à manhã daquele mesmo dia. Viver com a consciência de que se é intocável e ver, de um momento para o outro, essa intocabilidade ser completamente arrastada e espezinhada na lama não deve ser nada, mas mesmo nada fácil.

8. O dia que mudou o resto dos dias
Nada mais ficou igual. Que o digam os aeroportos, por exemplo. A escalada paranóica das medidas de segurança mudou a forma como hoje viajamos de avião. Ficamos descalços, só falta ficar em cuecas, não podemos levar nem 1 garrafa de água das mais mínimas, nem 1 perfume, 1 desodorizante, 1 iogurte, nada… que não seja comprado no Free Shop, que de free só tem mesmo o nome. Passámos a ser vistoriados, revistados, interrogados, fotografados, interpelados… Em resumo, deixámos de poder viajar sossegados. O mundo não voltou a ser o mesmo.
E foi assim em tantas coisas pequenas que, somadas, são coisas bem grandes.

9. Religião… sempre o mesmo Papão
Como já disse, depois do 11 de Setembro, o mundo não voltou mais a ser o mesmo.
Em primeiro lugar criou-se um conjunto de sofismas inacreditáveis que deformaram por completo o olhar ocidental sobre o médio-oriente. Passou a ser uma verdade quase incontornável no mundo ocidental que árabes, muçulmanos e islâmicos, e todos os que enverguem turbantes, barbas, olhos e cabelos negros são, todos eles, provenientes de uma gigantesca família de terroristas que querem conquistar o mundo e subjugá-lo às leis em que eles vivem…
Legitimou-se e justificou-se o ódio racial e o fanatismo religioso.
Passámos a viver com medo “desta gente”, a acreditar que todo e cada um deles é um potencial terrorista, que nos querem mal, que nos matam à primeira oportunidade ou assim que virarmos as costas. E é este o mundo em que hoje vivemos e educamos as nossas crianças. Um mundo de medos, receios, loucuras e loucos que exultam com os seus devaneios.

10. Aquela nuvem que pairou no céu durante semanas

911_NYCFoi algo que não me saiu nunca da cabeça nestes 14 anos e que dificilmente de lá sairá. A imagem da gigantesca nuvem de fumo que se via do espaço a envolver Manhattan e a baixa de Nova Iorque não se consegue apagar da mente. Uma nuvem de pó, gasolina ardida, fumo, detritos, destroços, morte e destruição. Dificilmente se esquece algo assim porque também, muito dificilmente, se repetirá outra imagem como esta

11. Infelizmente, os grandes também são atirados ao chão
Não tenho dúvidas em afirmar que o World Trade Center, símbolo máximo da opulência e imponência financeiras dos Estados Unidos eram de facto os arranha céus mais famosos do mundo, à data da sua destruição. Representavam a grandiosidade, a coragem, a arrogância, a confiança e a sobranceria do capitalismo económico americano perante todos os que ali chegavam e olhavam abismados para as duas irmãs de ferro e aço, altas como girafas de betão, que representavam também o “sonho americano”. Nunca ninguém pensou que as duas pudessem vir parar ao chão. E já se sabe que, os grandes, os muito grandes, quando caem, fazem-no com muito, mas muito estrondo.
E assim foi. O estrondo foi tal que o mundo não voltou nem voltará a ser o mesmo depois daquela demonstração de força e poder demoníaco, usado com um único propósito: espalhar o mal, semear o caos, provocar o pânico, o medo e o terror em terceiros. O 11 de Setembro foi muito mais devastador do que se possa pensar. Para além das pessoas que feriu e matou, aquele dia arrastou para o rio do medo, do temor, do desassossego, milhões e milhões de pessoas em todo o mundo.
É exactamente por tudo isto que não devemos esquecer nunca este fatídico e triste dia 11 de Setembro de 2001.

Cenas do meu casamento

Cenas do meu casamento

Tenho como missão tentar transmitir-vos alguma coisa que seja por si só minimamente entendível e desejavelmente palpável, encarregando-me assim de vos mostrar, da forma mais pura que conheço, um pouco daquilo que por estes dias me invade alegremente a alma. E a alma essa vai-se sentindo absoluta e estrondosamente radiante, com tudo aquilo que lhe vai sucedendo e sido oferecido com a delicadeza de sonhos em xailes de seda, sorrateiramente coberta pela permissividade atenta e benévola dos olhos gigantes do Criador que as guarda.
Não nos conhecemos assim há tanto tempo… embora pareça de facto que ela tenha sido pensada e amadurecida ao longo da sua vida para, algures pelo obstinado caminho, acabar por me encontrar por ali perdido, no destroçado deserto que compunha o carreiro desfeito das vidas de cada um de nós, e fazer aquilo que fez e faz por mim e para mim, que é, um pouco de quase Tudo.
Pode um homem com os tais dois dedo sde testa não casar com alguém assim? Claro que pode, mas seria tremendamente estúpido se não o fizesse.
Voltando ao caminho, o tal que se faz caminhando.
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Creio mesmo que comecei a conhecê-la somente depois de ela ter entrado, à força, na violência tremenda de uma tormenta brutal, hedionda, com a altura fantasmagórica de um gigantesco prédio de 1000 andares, que ensombra com a sua majestática imponência a existência de tudo o que inadvertivamente se atreve a rodeá-lo e ladeá-lo. Bem sei que não existe um prédio de 1000 andares, mas as palavras permitem-me pensar, dizer e acreditar que sim, pelo menos aqui, nesta história, que escrevo e dobro à minha caprichosa e apaixonada vontade.
Até mesmo Sua Majestadade, o Astro dos astros, se vê obrigado a rondá-lo para conseguir dar luz a alguém.
Foi vítima de uma perda irreparável. Sovada brutalmente e posteriormente embrutecida por uma queda absurda e desamparada desde o alto desse mesmo prédio, que de tão grande que era se desmanchou como se fosse feito de papel e nao de aço frio e morto. Não lhe resistiu e tombou por ali abaixo, caindo atrás dela.
Precipitou-se num amontoado sem forma, um remoínho de vidro, betão e aço amassado numa espécie de papel de embrulho desprezado e amachucado com o gosto com que se amachuca o papel de embrulho desprezado e amassado. Um amontado de uma altura bestial e que se destroça inadvertidamente sobre os minúsculos homenzinhos que lá em baixo fogem por onde podem, aterrados, incrédulos ao verem o descontrolo físico do gigante, com o comprimento de um milhão de intermináveis autoestradas, de montanhas encadeadas, de encostas escarpadas.
Sim, creio mesmo que foi por aí que a conheci.
Desde então que me coube e que me vai cabendo a difícil mas absolutamente mágica e apaixonante missão de a fazer crer que a vida era e é aqui, aqui mesmo, no chão irregular e calcetado dos nossos dias; na passadeira estendida que é a estrada encurvada e marreca de uma vida que se quer longa, forte, perene e sempre em conjunto, edificando-se na suficiente insuficiência da imperfeição de ambos que, trabalhada, lapidada, aceite e compreendida, daria e dará já dando, sem dúvida, uma história com páginas a menos e capítulos sempre em falta. Sempre em falta.
Aos 31 anos, vivo com Ela (refiro-me referir-me-ei sempre a Ela assim, com um maiúsculo e pomposo E, dos grandes e em bold, claro, porque apesar do seu adorável metro e pouco mais de meio de altura, a grandeza desta mulher é avassaldora e de uma envolvência e viciação que são absolutamente intraduzíveis até para quem escreve tanto assim e se julga capaz de dizer tudo com o aparentemente simples exercício de juntar letras para fazer palavras e palavras para fazer frases). Juntos há três anos.
Tinha ela 26 quando começou lentamente a erguer-se do chão. Espezinhada. Suja. De rastos. Com a roupa rasgada e escortinhada.
Aos 28 chega agora à idade com que se vai casar. Com ele. Comigo. Com tudo o que isso alegre e tristemente significa. Com uma vontade inderrubável e que carece de qualquer explicação ou justificação que não se encerre na simplicidade do amor que sentem um pelo outro, e que anseiam ver consumado e consubstanciado perante os olhos dos familiares e amigos que se vão juntar para os ver a fazê-lo, do único modo que creio ser possível fazê-lo. Perante Deus, perante a fé, perante a certeza de que o Homem, mesmo perante toda a sua própria e incomparável grandeza não quebrará os votos jurados e entregues ao Criador, que se encarregará de zelar pelos mesmos, os votos, que do resto tratamos e cuidamos nós. Contudo, porque a vida dos outros e as suas decisões me merecem todo o respeito, não tenho qualquer intenção de escsrnecer e criticar a opção que toma quem se decide a casar pelo “cívil” (que civilizados nem todos somos). Muito longe disso. As coisas existem porque as pessoas as pedem e a elas aderem, porque não temos de ser todos gomos de uma mesma laranja que a árvore tem laranjas que não acabam.

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Antes de mais o que verdadeiramente me apraz dizer é que acredito que o casamento é, só pode ser (ou assim deveria ser), apenas para quem verdadeiramente quer casar, para quem se quer comprometer com a mais longa relação a que o ser humano voluntariamente se propõe e se entrega acreditando que a mesma está destinada a conhecer o firmamento e a finitude da vida que um dia chegará sem avisar. Como ela chega sempre.
Quem não quer, não acredita, não está para isso, não se sente capaz, não se identifica, não se vê a, não concorda, ou acha que não significa absoluta e rigorosamente nada, que não passa de um papel pelo qual muito se paga, vale mais esquecer a ideia e viver feliz e alegre para sempre em regime de concubinato libertino que não merece críticas ou elogios. É o que é. As pessoas são o que são, como são e como querem ser. Penso assim, que pau que nasce tordo muito dificilmente se endireita. Ou seja, quem casa sem vontade muito dificilmente encontrará um dia a desejada e almejada felicidade. Em vez disso, castra-se a liberdade e proclama-se um futuro rodeado de tristeza ou mesmo com poucas hipóteses de o chegar sequer a ser.

E assim se muda a Estação

Sou do Verão e para o Verão. Do calor e para o calor, mesmo que isso signifique que passe os dias a transpirar das mãos como se tivesse panos amarelos a revestirem-me as patorras. Sou do sol, do mar, dos rios, das árvores com fruta, das ondas de calor no asfalto, do olhar interminável para o sol que se põe para lá deste ou daquele planalto. Das noites quentes. Dos passeios a pé, de carro, ou noutro transporte qualquer. Da Lua cheia como um balão que se larga para o ver subir alto, bem alto, mais alto, lá longe nos céus deste mundo. E por isso, por tudo isso e tanto mais, casar a 4 de Julho vai ser um princípio de Verão verdadeiramente inolvidável.

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Tenho 31 anos e estou irremediavelmente ansioso por casar contigo. Por poder usar, pela primeira vez na vida, um anel no dedo, grande, de ouro, simbólico, representativo da vontade que partilhamos, que me identifica como um homem comprometido com uma mulher a quem jurei amor eterno. Estou ansioso por garantir que vou ser teu para sempre, para a eternidade, pela vida fora e por ela adentro. Com todas as doçuras e agruras que isso implica e vai implicar. Mas, sobretudo, com uma inabalável certeza de que este é o caminho que quero fazer, descalço, se assim tiver de ser.

Quanto a nós, não se pode dizer que é uma daquelas histórias lindas e poeticamente idílicas, pintada a oléo sobre tela, numa abundância de amor interminável meu e dela, começada na pureza abundante e ainda virgem da infância.

Nem tão pouco uma promessa de amor eterno tão própria da adolescência ou até mesmo da saudosa meninice que, já ligeiramente distante e afastada, poderia tê-los juntado mas… não, também não, também não foi isso.
Há simplesmente um amor bem próprio de quem já sofreu (e muito) por amor, com o amor, pelo amor, a favor e contra ele, mas que continua a acreditar que só apoiando-se nele se pode efectivamente viver uma vida em plenitude e conseguir, no fundo, dar-lhe sentido, dar-lhe significado, dar-lhe razão e justificação para continuar a querer viver a vida bem vivida. Então pergunto: De que serve a vida sem o amor de alguém? De que vale a vida sem a possibilidade e o desafio de se construir um caminho com alguém que nos queira tanto como nós a/o queremos de volta? Não sei, mas deve andar próximo de não servir para coisa absolutamente nenhuma.

O objectivo deste texto não foi e não é, de todo, escrever mais um tratado sobre o noivado, ou um decreto sobre o matrimónio, nada disso, de coisas dessas estão o mundo e a Internet já cheios e com pouca paciência para mais devaneios.
Cheio de Manéis e Marias capazes, de muitas raparigas e rapazes, que se procuram sem falhas, sem deméritos, sem defeitos, com preceitos e despeitos e cheios de jeitos para fazer o que ainda não foi feito. Perfeito.
O que verdadeiramente pretendi fazer foi, de algum modo, explicar-vos aquilo que sente um tipo com 31 anos que se prepara para casar com uma mulher absolutamente maravilhosa, incrível, filha de Deuses talvez, igual a nenhuma outra, que gosta tanto ou mais dele do que ele gosta dela e que não se cansa de o dizer, de o mostrar, de o repetir, sem nunca se esgotar na doçura das palavras.

Devia ser assim tão simples a beleza bela e adorável de um acto tão simbólico e prazeroso como é o casamento. Mas não é. Não o é muitas vezes. Não é quando há doenças. Não o é quando há desavenças. Não o é quando há mentira e não é quando a própria alma já não se admira.
Amar é muitas vezes difícil porque é díficil gostar mais de alguém do que de nós próprios.
É difícil ganhar uma superior vontade de oferecer ao outro e não pensar em si, nele, em nós, no satisfazer da individual pretensão egoísta do próprio umbigo ao invés de pensar primeiramente no do/da companheiro(a) e nas suas necessidades, mimos, exigências e pecaminosos prazeres, lugares tão comuns do amor puro entre duas pessoas.
Pois é.

Vou casar e não podia estar mais feliz.
Vou casar no dia da Liberdade.
Vou casar e não foi porque Deus quis.
Vou casar inundado de felicidade.
Vou casar e os bebés não vêm de Paris.
Vou casar sabendo que vida é a mais linda cidade.

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Vamos casar sim e vamos ter meias no chão, porcaria no fogão e molas soltas no colchão.
Vamos ter a mesa da sala desarrumada, a loiça mal lavada, alguma roupa estragada, tingida, debotada, o frigorífico vazio, noites de calor e de frio, tardes de sol e fastio, discussões e desculpas, e tudo o que temos direito.
Toda a gente sabe que nenhum ser humano é perfeito por isso não o será também o casamento.
Mas acima de tudo vamos casar, sabendo que um tem o nome do outro a bater leve, forte e ciclicamente no peito, naquele delicado jeito de bater que os corações dos amantes encontram.
Não há outra forma de viver o amor que não com a totalidade das forças, com a plenitude da coragem e do arrojo, com a consciência por vezes inconsciente de que na verdade somos bem mais do que um bocadinho de gente.
Porque também há quem nem sequer tente e invente que no fundo todo o amor se faz da vontade da gente.
Sim, faz. Mas faz-se sobretudo de sentir, de pensar no que se sente e de viver, viver tão intensamente que não chega a ser preciso fingir o amor que deveras se sente.
Porque também será sempre, como disse o poeta, um contentamento descontente, uma ferida que dói, e não se sente.
Será chuva? Será gente? Gente não é, certamente, e a chuva não bate assim.
E falta já tão pouco para que se case a Ana com o Martim e o Martim com a Ana. Que um amor assim raramente se engana!