8 dias sem redes sociais – das razões às sensações

8 dias sem redes sociais – das razões às sensações

Pois é. Se há uns anos me dissessem que ia fazer isto. Dizia que era ridículo! Mas não é. Não foi. Estar durante 8 dias sem redes sociais foi muito bom e é exactamente sobre isso que vos vou falar. Desde as razões que me levaram a fazê-lo às sensações que pude registar durante esse (curto) período.

A ideia partiu depois de uma conversa que tive, há coisa de 1 ano, com o meu amigo e um dos meus mentores desta vida digital, o Pedro Caramez, que me disse ter feito algo semelhante numas férias recentes em família. Comecei logo a magicar uma coisa parecida e tomei a decisão quando faltavam cerca de 3 semanas para entrar de férias. “Vou fazer isto mesmo”. Pensei. “Vou (tentar) passar 8 dias sem redes sociais. E depois escrevo sobre isso. Quanto mais não seja para explicar às pessoas porque é que um Social Media Manager sentiu necessidade de fazer uma coisa destas. Explicar as razões e as sensações que recolhi durante esta “empreitada”. Parece-me bem. Já me levantei da cama por muito menos e a pagar!”

A primeira pessoa a duvidar da minha capacidade e nível de compromisso para com a missão foi, nada mais nada menos, que a minha mulher. Afirmou categoricamente que não seria capaz, que sabia perfeitamente que eu ia levar o telefone para a casa de banho e outras provocações do género. Não me fiz rogado e resolvi apostar um jantar! Era precisamente o estímulo que me faltava!! “Vou provar-te que estás redondamente enganada e ainda vou jantar à tua conta… à conta disto!”.

Posso adiantar-vos que foi bem mais fácil do que inicialmente pensei que seria. E olhem que ainda ponderei a hipótese de prolongar a coisa durante mais uma semana. Por aqui podem ficar com uma ligeira ideia do quão bem me soube. Ocupei o meu tempo de uma forma que me deixa tremendamente feliz.

Li 160 páginas d’ “O Regresso do Soldado” de William Faulkner e acabei o livro. Li os três primeiros volumes da colecção das 1001 Noites do Expresso, tendo já começado a leitura do quarto. E isso, por si só, é motivo de tremendo gáudio. Passei o tempo a brincar com a minha filha, a ver o mar, a pensar e, ocasionalmente, quando a minha mulher parava um instante para descansar e consultar as novidades nas redes… eu aproveitava para reclamar com ela… só porque… sim. (sabe tão bem ter a razão do nosso lado!)

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Foi uma excelente e muito revigorante primeira semana de férias. Mas agora importa explicar as razões e alguma das sensações que recolhi de toda esta empreitada. Comecemos então pelas razões:

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Em primeiro lugar creio que o facto de trabalhar directamente com redes sociais e em páginas de uma dimensão “assustadora” – no que diz respeito ao número de seguidores e de consumidores de conteúdos – me fez sentir este ímpeto e esta vontade. Passar um ano diariamente ligado e a ter de escutar e perscutar tudo o que se passa nas redes com as quais trabalho e nas quais me movo, produziu um cansaço grande que me fez sentir a necessidade de “virar costas” a tudo a fim de conseguir verdadeiramente desligar o cérebro e aproveitar as merecidas férias deste ano tão exigente.

Em segundo lugar está, muito possivelmente, a influência que a verborreia e o ódio bem destiladinho com que somos confrontados, todos os dias, todas as semanas, todos os meses, durante todo o ano, em todas as redes onde circulamos tem em cada um de nós. Não foi exactamente disso que precisei de me desligar mas sim do acumular de tudo o que vamos lendo e vendo e tuitando e partilhando e favoritando ou detestando ao longo de um ano inteiro. Entrei nestas férias a sentir uma necessidade tremenda de falar com as pessoas, olhos nos olhos, cara a cara, de viva voz… como preferirem.

Por último, mas nem por isso menos importante, se é absolutamente inequívoco que as redes sociais se fazem de pessoas e para pessoas, não é menos verdade que é exactamente por isso que as mesmas, não raras vezes, se deixam conspurcar pelo que de pior tem cada um de nós. E disso, disso sim, parece-me que precisamos de nos libertar de quando em vez, sob pena de nos deixarmos contagiar pela maldade e acabarmos por embarcar nesse comboio pernicioso e repleto do pior da condição humana… sem o “perigo” de existir um fiscal que nos pergunte pelo bilhete.

A protecção que a máscara confortável atrás da qual nos escondemos – entenda-se por máscara aquela que nos dá o aparelho que usamos para estarmos presentes nas redes – faz destas um meio que se pode tornar perigoso, quando usado com más intenções. E sim, toda a gente sabe isto, e não, não há meio de “isto” deixar de ser assim. Porquê? Se eu soubesse a resposta a esta pergunta tantas vezes repetida… estava rico… e provavelmente andaria a escrever artigos no LinkedIn sobre coisas bem diferentes! =)

Acreditem que todos os dias vejo coisas que me deixam assustado, preocupado, incrédulo e estupefacto com o estado a que estão a chegar as relações sociais entre todos nós. Cada vez sabemos menos uns sobre os outros. Cada vez nos preocupamos menos com isso. Cada vez somos mais frios e insensíveis e despreocupados e desligados. Fisicamente desligados uns dos outros. Importam-nos mais os likes, os shares, os comments, os favorites, os retweets e reposts. Isso sim é pão para nos encher o bucho.

Cada vez mais nos interessa cada vez menos a opinião de alguém, uma vez que a possibilidade de dizermos o que queremos, como e quando queremos, aliada à tal “invencibilidade virtual” e à suposta protecção que o ecrã que nos separa dos outros permite que grasse a violência verbal, o desrespeito e falta de consideração entre a grande maioria dos utilizadores das redes.

Parecem-me razões mais do que suficientes para que tenhamos, nós, as pessoas boas, as boas pessoas, necessidade de desligar disto tudo, sobretudo se tivermos de estar nas redes, nomeadamente, por motivos profissionais. Para o ano repito a dose. E quanto a mim, espero ter-vos influenciado positivamente com esta minha narrativa meio geek mas que em muito contribuiu para que tivesse umas férias sensacionais. Longe de “tudo” e extraordinariamente daquilo que para mim é mais que tudo: os meus, a minha família. As coisas, os sítios e as pessoas de que verdadeiramente gosto. Sem filtros, sem #hashtags, sem mentions nem o diabo que nos carregue! E sabe muito bem, acreditem! É experimentar e partilhar.

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A utilidade (extremamente) “duvidosa” da(s) Amizade(s)

A utilidade (extremamente) “duvidosa” da(s) Amizade(s)

Se há coisa que fazemos com elevada frequência até certa altura da nossa vida é travar ou iniciar relações de amizade com alguém. Coisa simples e facto plenamente consumado, certo? Não. Errado. Nada poderia estar mais longe da verdade na tentativa de descrever de forma simples um dos grandes dramas da existência humana. Porquê? Passo a explicar.

Não poucas vezes neste nosso sinuoso e tantas vezes tormentoso caminho nos deparamos com qualquer coisa que se atreve ordinariamente a colocar em causa a utilidade desse sentimento, tão amplamente reconhecido e mundialmente entronizado pela nobreza que carrega desde a sua natureza e que dá pelo nome de amizade. E é por aí mesmo que quero arrancar, pela (por vezes frequente) utilidade duvidosa da Amizade enquanto ocasional veículo de transporte de dor e de um sofrimento que não tem cabimento nem fingimento.
Porque ela também se alimenta disto. A amizade, evidentemente.
De dor. De tristeza. De sofrimento. De silêncio. De incompreensão. O que seria da amizade se não houvesse no peito um lugar chamado coração?

(REcentemente tive uma das melhoras provas de que este título que escolhi é, na verdade, estúpido, mas ainda assim… atrevo-me a continuar, até porque estou há mais de dois meses a escrever e a reescrever isto)

Se certo é que a incidência e a frequência com que fazemos amigos é extremamente elevada durante os primeiros anos da nossa vida social, não é menos correcto dizer que essa necessidade de fazer amigos à velocidade da luz vai (graças a Deus Nosso Senhor) diminuindo de forma inversamente proporcional ao número de anos que vamos somando pela vida fora.

Isto é, quanto mais velhos ficamos, menos vontade temos de conhecer gente nova, de fazer amigos novos, de abrir as portas do nosso admirável mundo velho ao Novo Mundo dos outros e de deixar entrar quem por acaso se atravessa e se cruza com o nosso caminho, independentemente das razões pelas quais o faz ou isso acontece. No entanto, não quero com isto dizer que não sintamos (com frequência) falta dos amigos que já temos. Isso, meus amigos, isso é coisa completamente diferente e conversa para outros escritos.
O que me parece indesmentível e inquestionável é que a capacidade de nos relacionarmos com os outros e de com eles estabelecermos e desenvolvermos relações de proximidade e de confiança, do zero, que entrem rapidamente no espectro daquilo a que vulgarmente chamamos amizade, não deixa de ser uma das mais nobres e notáveis skills que o ser humano possuí e que o torna absolutamente distinto de todos os outros habitantes não humanos com quem divide o planeta.

(as voltas que um gajo dá a um texto para não ter de começar logo por onde mais dói)

Pode por isso dizer-se que o expoente máximo das nossas relações de amizade deve andar ali entre o início da adolescência e os 30 ou 40 anos de idade. Não mais do que isso. Não muito mais do que isso.

Depois disso entramos (não todos, mas muitos) na fase em que começamos a avaliar e a catalogar os amigos que temos. É verdade. Isto acontece, mesmo que de forma inconsciente e meiga, com quase todos nós. É uma altura em que, regra geral, também fazemos uma espécie de limpeza geral da lista de todos os amigos que temos. Ou que julgamos que temos. Que, não poucas vezes, é praticamente a mesma coisa. Os telefones e redes sociais ajudam a acreditar que isto é assim tão simples. Que a “operação de limpeza” se resume ao delete no smartphone.

Quem já está ou já passou por esta fase da vida saberá perfeitamente que tenho alguma razão naquilo que estou a afirmar de forma tão estupidamente determinada.
A partir de certa idade começamos a tentar afincadamente perceber quem são, na verdade e de verdade, aqueles que conseguimos enquadrar nessa condição tão selectiva e particular que é a de sermos amigos de alguém ou chamarmos amigo a alguém.

E o que são então essas pessoas? O que representa cada uma delas no quadro da nossa passagem pela vida?

(repare-se que já vamos no 7º parágrafo e ainda nada… nem uma linha sobre o que me trouxe aqui e me fez estar durante quase 3 meses a escrever este texto.)

No início é tudo imaculado. É tudo limpo e puro. E tudo faz o mais perfeito sentido.
Com episódios de maior ou menor juízo. Com momentos de maior ou menor tensão. Mas são relações que assentam sobretudo em lealdade, presença, cumplicidade, desafio, identificação e aprendizagem mútua. Tudo vivido com a intensidade tão própria de quem tem as ganas da vida na sola dos pés.

São pessoas que passamos a tratar como se trata um membro distinto da nobreza, da realeza. São, e muitas acabam mesmo por sê-lo pela vida fora, algumas das pessoas mais especiais da nossa vida. Quanto mais não seja porque conquistam esse lugar e porque nos conquistam a nós. De forma única.
Cada amigo é uma vitória, uma aresta, uma árvore, uma estrada com curvas, rectas, subidas e descidas. Um amigo é uma vida.
São pessoas com quem partilhamos tudo. Alegrias, tristezas, vitórias, derrotas e demais conquistas. Isso tudo e… as meninas e meninos que nos passam pelas vistas. Artistas.
Depois há os “não insistas”, “não desistas”, “não me chateies”, “vai-te f***r”, “vai pró caral*o”. Dizemos isto tudo. Fazemos ainda mais. Somos capazes de ser tudo e de não ser absolutamente nada. De estar de boca aberta ou de a manter assim, calada e bem fechada. Por respeito. Por deferência. Por solidariedade e reverência. Por compaixão e por saudade. Porque somos amigos de verdade. E ser amigo, ser verdadeiramente amigo de alguém é muito mais do que simplesmente repetir a frase que acabei de escrever.

Mas o que me traz aqui não é – nem de perto nem de longe – a vontade de dissertar A Capella sobre o conceito de Amizade. Sobre o seu significado. Não.
O que me faz voltar a estas linhas é o particular, não o geral.
Comece-se então este texto como se na primeira linha se estivesse.

São amigos que me fazem escrever isto e não a Amizade. Porque é por eles, sempre por eles, pelas memórias de tudo o que esta para trás e tem o peso que pesa uma vida, é por eles que voltamos sempre a lugares onde já fomos, sentimos e fizemos de tudo um pouco.

É para os saudarmos, lembrarmos, homenagearmos e para os fazermos felizes que fazemos as coisas que fazemos. É por eles que quebramos barreiras, que fazemos asneiras, que bebemos e comemos durante noites inteiras. Que nos metemos em coisas com que nunca sonhámos.
É por eles.

Tenho um amigo doente. Grave e seriamente doente. Severa e injustamente doente. Cancro, uma vez mais!
E não é um amigo qualquer. É um amigo de há muito. De uma amizade com muitos anos. De um tempo em que não se pensava nas consequências nem nos danos.
Do tempo em que só se pensava no acto e no feito e, possivelmente, no jeito e no efeito e no acelerar de rompante da máquina que temos no peito. Tudo o resto era paisagem. Tudo o resto era miragem. Tudo o resto era desperdiçar tempo que se podia gastar a fazer mal ao corpo e “bem” ao cérebro. Uma coisa é a beira da estrada a outra é a Estrada da Beira. E se eu gosto da Estrada da Beira. E tanto que andei na beira da estrada. Bem ou mal iluminada.

Dizia eu que é um amigo de longe, de um tempo em que não se partilhava nada nas redes sociais, em que as redes sociais eram o muro do Manel, a roda de tendas no Verão, o amontoado de carros à porta do café, o inquantificável número de cabeças presente numa esquina do Bairro Alto, no Adamastor, na Flamenga, claro. Sempre ela. A Flamenga. O bairro onde crescemos. A rua que nos dá e nos tira.
Um tempo em que tudo era tanto mais. Um tempo em que as experiências, boas ou más, nos ficavam gravadas – muitas vezes a sangue, suor e lágrimas – nas veias, no pensar, no sentir, no dizer, no não dormir, no deitar já de dia e acordar já de noite.

É por eles, sempre por eles e quase só por eles que fazemos merda, que dizemos merda, que ouvimos merda, que comemos e bebemos merda, que vamos a sítios de merda, que nos metemos com gente de merda, que temos noites ou dias de merda… enfim. É com eles e muitas vezes por eles, porque nós nem temos vontade de ir.

Tenho um amigo doente. Muito doente. Doente com a doença do século. Cancro. Pois claro. Vai da cabeça aos pulmões, passa pelo que entre eles se intromete e e vai desaguar brutalmente no estômago. Puta que pariu esta doença de merda. Puta que pariu o ter de olhar para os olhos de um amigo e de ver a dor que ele esconde. Ver o medo que ele tapa mas não nega. Que ele sente mas a que não se rende. Herói! És um herói meu grande cabrão!
O cancro (já te disse que não escreverei o teu nome com maiúscula a não ser que calhes no começo de uma frase) De apetite voraz. Tremendo. Horrível e horripilante. Insolente e incapacitante. Não há como ser benevolente para com uma monstruosidade indigna, cobarde e tamanha. Não há como me manter sempre sorridente perante tal patranha.
Não sei o que lhe dizer. Confesso. Não sei mesmo. Ou melhor, saber até sei, mas não consigo, muitas vezes, dizer o que quero. Mas disse muito há não muito tempo. Mas por saber que foi episódico e que seria episódico sempre que o visse, e como vou estar com ele este fim-de-semana, nada mais acertado do que publicar isto agora.
E foi por me conhecer já bem, por saber que fraquejo nestas merdas, foi por isso mesmo que lhe pedi autorização para vir até aqui desancar a existência e praguejar com a vida.  por uma razão muito simples: Não sei fazer mais nada a não ser reagir assim. Escrevendo. Com o passar dos anos estou a tornar-me numa pessoa a quem custa cada vez mais ter de se expressar com profundidade sobre assuntos profundamente delicados de outra forma que não esta. E isso não é totalmente animador.

Ele ficou felicíssimo da vida. Todo contente e orgulhoso por ter um amigo que escreva sobre ele, para ele, por ele. Que conte o que é isto de estar doente. Que conte o que se sente. Até porque também eu já passei por essa aflição embora numa outra proporção. Mais leve. Mais simples. Menos aterradora e terrível. Muito menos aterradora e terrível. “Resolveu-se” a coisa com uma cirurgia.
Contudo, deste lado, o prisma é todo ele bem diferente. Agora não sou eu e não é de mim que falo. E é me sempre mais fácil falar de mim do que assumir o pulso à dor de outra pessoa. Sobretudo quando são pessoas que te dizem alguma coisa. Neste caso, diz-me muito. Uma espécie de tio mais novinho. De primo. De sei lá eu o quê. São estas pessoas que teimam em se enfiar na tua vida e que dela teimam igualmente em não sair de forma alguma. Pessoas que levarei comigo pela vida fora e pela morte dentro. Curioso como se usa esta palavra tantas vezes em conversas tão inócuas e como passas a ter medo de falar nela quando falas com alguém que a tem em risco. Vida.

Como se faz para não ficar devastado com o risco real (mesmo que ecoe surdo apenas no nosso pensamento) de perder alguém com quem já passámos tanto?! Como não chorar e fraquejar e tremelicar das pernas quando a ameaça é real? Tremenda, estúpida e assustadoramente real. Incompreensivelmente próxima e palpável, quase.
Como não sofrer quando o mundo lhes quer mal?! Como não gritar e espernear quando Deus aparentemente se esquece de quem também nós nos esquecemos na fúria velocista dos dias que correm por nós e que tantas vezes nos atropelam?

Como é que se lida com isto tudo. Como? Em silêncio?! Talvez. Muitas das vezes é a única forma possível de lidar com esta violência toda. Muitas vezes só mesmo assim. Calado. De olhar gélido e amedrontado. O que é que posso fazer mais?

Desde que comecei a escrever isto que já soube de mais dois casos de amigos doentes. Com a mesma merda. Com cancro. Em pequenino que não merece mais nada. Mais veleidade nenhuma. Já foi assim quando foi comigo. No estômago. Esta abstruza doença não pensa. Não tem memória. Esquece com uma desfaçatez e uma insensibilidade que entorpecem até o mais corajoso dos homens.

E nisto. O medo é meu. É nosso. É de todos. Quando um sofre, sofremos todos. Protegemos. Cuidamos. Ralhamos e barafustamos. Mas nunca, em momento algum, nos viramos costas quando precisamos uns dos outros.

O que será de nós se deixarmos de ser assim?
O que será de nós se não formos capaz de dizer presente.

A amizade serve de pouco nestas alturas. Ou então é mesmo tudo aquilo que precisamos sem termos a noção disso mesmo.
Já a fé, talvez seja ela a única que te vai dando alento mas, em dias de vento, a fé ganha asas e voa para sítios distantes, carregando no dorso o peso de meia-humanidade e de toda a nossa amizade.

A Amizade tem valor demasiado para ser engavetada num título de um texto sério e real. Cru. Nú. Integral. Não fiz por mal mas… é o que é.

O Walter morreu. E com ele foi parte da bondade do mundo

O Walter morreu. E com ele foi parte da bondade do mundo

Antes de falar do Walter. Deixem-me falar-vos um pouco da Flamenga.
A Flamenga é um bairro, um lugar, nem sequer ao menos é uma freguesia. Mas desengane-se quem julga que isso a demove.
A Flamenga tem pessoas do caraças e o Walter era uma das suas estrelas maiores. Deixou-nos e com ele levou, de facto, parte da bondade do mundo.

A Flamenga, para aqueles que a conhecem e que lá tiveram a sorte e felicidade de crescer é muito mais do que isso. Atrevo-me a dizer que a Flamenga é o centro do mundo. Pelo menos do nosso. Mais para uns do que para outros, na medida em que cada homem sente coisas diferentes relativamente a uma mesma coisa, neste caso, a um mesmo lugar. Contudo, da Flamenga guardamos sempre uma coisa que se sobrepõe a tudo o resto. O sentimento de comunidade, de família, de pertença. E isto, naturalmente que é também diferente para cada um de nós, os que lá crescemos. Porquê? Porque, tal como em cada uma das nossas famílias, a Flamenga é feita de pessoas, todas elas únicas na sua autenticidade, todas elas especiais na sua singularidade, mas sobretudo isto, todas elas unidas pelas memórias transversais que temos daquele sítio, daquele bairro, daquele lugar, do centro do nosso mundo.

A Flamenga é, como qualquer outro lugar, feita de pessoas e são essas pessoas – que se fizeram gente em conjunto – que determinam a natureza das ligações que as unem. Certo é que todos nós, esta geração do final dos anos 70 e dos anos 80 do século passado, fomos sendo trazidos até essa condição de gente pelos mais velhos, por todos aqueles que, não sendo da nossa família de casa, olharam para nós e por nós, sabendo que estavam ali os futuros homens daquele bairro. Que estava ali a alegria da amizade e da partilha. Tudo isto no saudoso e já distante tempo em que crescíamos e brincávamos na rua, sendo as únicas pausas permitidas e consentidas aquelas que se destinavam ao propósito único de nos matar a fome e dar energias para continuarmos a brincar. Ninguém se metia connosco. Metíamo-nos nós uns com os outros e eles, os homens, olhavam sempre para nós pelo canto do olho, ligando sem ligar muito. Davam-nos aquela sensação de estarmos sempre seguros. Sempre.

O Walter foi, sem qualquer sombra de dúvida, um dos homens mais queridos e doces que a Flamenga alguma vez conheceu. Que eu alguma vez conheci. E certo é que nunca lhe conheci, em todos estes anos, um conflito, uma animosidade, uma falha grave, uma resposta errada, um gesto feio, um maldade. Nada! Nunca lhe ouvi uma palavra amarga, um gesto rude, uma desconsideração um destratamento, gritos ou coisa parecida. E caramba, se há coisa que dele guardo é aquele sorriso enorme e rasgado, que contrastava em tudo com a imagem que dá a cor possível a este amontoado de palavras que procuram desesperadamente ter algum sentido, quando o que sinto é que é impossível dar sentido a coisas que não têm sentido nenhum.

Guardo dele imagens recentes que me enchiam de esperança num mundo melhor. O Walter tinha o lindo hábito de se comover com as crianças. Com os filhos dos amigos. Tinha sempre a candura e deliciosa atenção de oferecer sempre um presente aos pequenotes, daqueles das máquinas dos cafés. Com uma alegria e um brilho no olhar que merecem ser eternamente recordados.

A morte de pessoas como o Walter nunca faz sentido. Não pode fazer sentido. Não tem como fazer sentido. É despropositado e dele desprovido. Absurdo. Abjecto. Incompreensível. Inaceitável. Estúpido. Inatingível. Inqualificável. Irreal. Inqualificavelmente estúpido e estupidamente inqualificável. Uma merda que não se explica nem se discute. Lamenta-se.

É um dos grandes pecados da morte. A ausência de explicação possível para a mesma. É assim. Sabemos bem que um dia chegará a nossa vez, mas é e continuará a ser sempre uma merda. Dói e continuará sempre a doer. O tempo não tem força para apagar a dor da morte. Seja lá onde for que as pessoas estejam a viver.

Podemos regressar mais ou menos vezes ao local onde crescemos.
Podemos passar mais ou menos tempo com as pessoas ao lado de quem nos fizemos, também nós, pessoas. Mas se há coisa que não podemos, de forma alguma, é ignorar a dor de uma terra que nos viu crescer e chegar ao sítio onde hoje estamos, cada um de nós. Porque sim, caríssimos, a terra também chora e a Flamenga vive desolada por estes dias. Levantar-se-á, pois claro, como sempre o fez. Mas caminhará manca durante muito tempo.

Até sempre, Walter. Ficas para sempre na memória de toda a gente que teve a sorte de te conhecer.

 

A paternidade aos meus olhos e aos pés dela – 6 meses depois

A paternidade aos meus olhos e aos pés dela – 6 meses depois

São tempos áureos estes que vivo desde que fui pai. (Ah até que enfim. Sempre sonhei começar uma dissertação desta índole pela expressão: “são tempos áureos”. Que maravilha.)
A imensidão da felicidade que atravessa por completo o espectro da minha existência torna-se cada vez mais difícil de contar, de partilhar, de desconstruir, de conversar sobre. Isto por si só não constitui qualquer problema, uma vez que gosto particularmente de coisas difíceis, complicadas, complexas.
Mas há, creio eu, uma explicação (não sei se entendível ou não) para tudo isto que é muito. É tanto. Se é.
Creio que a dificuldade a que me refiro possa estar ligada ao facto de me sentir acometido de uma espécie de necessidade totalitarista e egoísta de reter absoluta e absurdamente tudo o que vivo com a minha filha. Isto é, há uma necessidade bastante pronunciada de devorar e absorver todos os momentos, os cheiros (até os piores, sim…), os sorrisos, os sons, os gestos, os olhares, os toques, as brincadeiras, as aprendizagens, o crescimento, TUDO. Invariavelmente.
Só para mim. Só para nós.
Dizia eu que a vontade que tenho é de deixar fugir mesmo muito pouco ou quase nada. Porquê? Sei lá eu. É o que sinto. Ponto. Não há grande lógica por trás de uma coisa destas, é certo, mas isto faz parte da vida pensada a que Fernando Pessoa se referia. Na prática, nada disto é assim.

No entanto, e voltando à minha vontade, por é que disso que este exercício trata, é exactamente aquilo que disse acima. Apetece-me guardar e viver tudo. Às vezes apetece muito. Mas depois acalma-se a coisa.

Afinal de contas, tudo isto é perfeitamente compreensível, pelo menos na minha modesta e isentíssima opinião, uma vez que se trata da minha filha, caramba. É a minha primeira filha. Compreendem? Talvez não. Mas também pouco importa.

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Deus sabe (digo eu) que esta brincadeira de ser pai pela primeira vez, ainda para mais de uma menina, muda a forma como um homem passa a olhar de frente para as fuças da vida.
É sim, é a preciosidade maior que tenho nesta fugaz existência.
É sim, tremenda, a sensação de absurda felicidade que me invade os olhos, para depois me percorrer alegremente as veias e chegar a todos os recantos do meu 1,80m.

Mais ninguém neste planeta rasga os olhos de alegria e abre a boca num sorriso puro de felicidade sempre que me vê chegar a casa do trabalho, nem mesmo a minha querida e adorada esposa ainda mantém intacta esta alegria pura e desinteressada.
Passaram-se horas desde que me viu pela última vez, que, regra geral, é sempre antes de adormecer novamente, já no finalzinho da madrugada, de novo deitada, dizendo-me em surdina que me ama e que é a minha menina, a minha princesa adorada e tão desejada.

Não têm preço as entradas em casa quando ela está acordada.

Os segundos em que o tempo congela (não estou a falar do #MannequinChallenge) são segundos em que toda a vida que te invade as artérias parece estacar-se ali mesmo, diante de ti, naquele mesmo tapete redondo, amarelo mostrada, de pelo curto, agradavelmente disposto à entrada, para nos dar as boas vindas. E ali me planto, por baixo da ombreira da porta da sala, numa sucessão aparentemente furtuita de segundos tão absolutamente perfeitos que chego mesmo a esquecer-me da loucura do mundo em que vivemos e me foco unicamente no sopro de vida que enche os meus olhos e pelo qual sou e serei eternamente responsável.
Ser jornalista tem destas coisas. Vemos demasiado. Vemos bem mais do que aquilo que queríamos ver. Chegamos a casa, não poucas vezes, com a cabeça atafulhada de imagens estúpidas que contam e mostram o que de pior acontece no país e no mundo. Mas tudo isso parece esfumar-se quando chego à porta da sala, da cozinha, do teu quarto, e me deixo apanhar por aqueles segundos intermináveis em que a minha filha pára imediatamente o que está a fazer e fica também ela a olhar para mim.
Começa a sorrir de cima para baixo: rasgam-se e acocoram-se-lhe os olhos ao mesmo tempo que se enchem de uma luz que impressiona, sobretudo pela candura da idade. De seguida, não logo mas pouco depois, abre-se-lhe o sorriso, – Meu Deus, como é perfeita toda esta valsa – agitam-se as mãos e as pernas, pinta a cara com um pouco da cor que a vergonha já vai trazendo aos bebés desta idade e ali fica, à espera que largue tudo, que poise a mochila, tire o casaco, lave as mãos e por fim a pegue ao colo.

Depois, com as duas mãos, agarra-me cada uma das faces, sorri, esfrega a cara no meu peito, volta a levantar a cabeça como que a querer certificar-se de que sou mesmo eu que estou na frente dos seus olhos enormes, sempre muito abertos, a querer dar fé de tudo o que a circunda e envolve, e repete o gesto, como repete o sorriso. Com aquele felicidade estampada no rosto. Aquela felicidade que a inocência e o pouco que sabe da vida lhes confere. Ser feliz é uma missão e dá trabalho. Calma, filha. Um dia falar-te-emos de tudo isso.

Não tem explicação plausível, ou, pelo menos, ainda não lhe encontrei o poiso, à explicação, entenda-se, que a este amor que sinto, para ele, tenho explicações de sobra, ainda que não estejam devidamente arrumadas e fechadas nos seus devidos lugares. É somo se soubesse que o sei, mas não soubesse como faço para o saber na verdade. Sei que sinto, mas não sei como definir objectivamente o que sinto. Conclusão: não há objectividade possível num amor tão tremendo e arrebatador, num sentimento tão sanguíneo, tão vulcânico, tão avassalador.

Assim sendo, resta-me por enquanto prosseguir com esta embriaguez saudável e sem ressaca que as sensações que experimento diariamente, às mãos de uma bebé de 6 meses, tão perfeitamente perfeita, tão lindamente linda, me têm proporcionado.
Bebedeiras tão deliciosamente boas estas. Sem vidros partidos. Sem discussões. Sem confusões. Caramba filha, que é tudo tão maravilhoso quando estou contigo.

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Olho para ela e vejo-a assim, tão assutadoramente indefesa e a precisar de todo o amor que tivermos para lhe dar, sem qualquer tipo de reserva, sem qualquer laivo de frustração ou do que quer que seja que não um princípio basilar de amor total, de entrega plena, de imersão no mundo em que vive e que ainda é tão diferente daquele em que vivemos nós.

Não sei ser de outra forma. Não sei amar-te de outra forma que não esta, minha querida e adorada filha. Luz que dá cor ao meu rosto. Brilho no meu olhar. Vida que traz vida a cada novo acordar. Seja a que horas for… (sim, mesmo quando acordas pela madrugada dentro e queres conversar)
Não cabe sequer em mim nada mais que não o amor e a dedicação completa a esta família que escolhi, que criei, que jurei proteger e defender de tudo o que possa tentar ameaçá-la.
Não queria outra vida. Não queria nada mais do que aquilo que tenho agora. Queria apenas que tudo isto durasse para sempre. Que a felicidade não tivesse de ser interrompida, aqui e ali pelas obrigatórias e incontornáveis obrigações a que nós, os “crescidos” não conseguimos, invariavelmente, fugir.

Ser pai muda tudo. Ser pai deita por terra todos os teus proto-conceitos de vida, de realidade, de inteligência, de sensibilidade, de humanidade. Ser pai é para sempre. Não há meios-pais, como não há meis-filhos. Ser pai é ter a noção de que vais falhar, vais errar, vais chorar, vais rir, vais consentir e vais negar, mas mais do que qualquer outra coisa. Ser pai é encaminhar, é acompanhar, é a mão que se ergue do alto quando eles olham para cima e procuram a segurança inabalável que lhes traz o nosso olhar, a nossa mão que os ajuda a caminhar. Quero isto tudo e ser o dobro do que aqui não digo.

Não, não me esqueço de como começou este artigo.
Um dia, mais tarde, saberei que foi justa e justificada a vontade de te ter sempre comigo.

Pai.

 

Carta à Selecção e ao seu capitão

Carta à Selecção e ao seu capitão

2016-05-20-Portugal-selecao-nacional

Olá a todos!
Começo esta carta dizendo-vos que passo e perco horas e mais horas a tentar imaginar a emoção que vos correu e corre nas veias, quer durante (já a ganhar por 2-0) quer no final do jogo com o País de Gales
A emoção, a euforia, a alegria, a honra, o orgulho, o… eu sei lá mais o quê que vos deve ter passado pela cabeça (capitão, pela tua cabeça cruzes credo… passou aquela bolinha bem feliz por te ver lá em cima) no relvado, e já depois, fora dele, a caminho de “casa”… em Marcoussis.
Posso dizer-vos que eu estava em altas… como se costuma dizer.
Eu, os meus vizinhos, as pessoas na minha rua, na estrada, tudo a apitar com os carros, largaram-se foguetes, apanharam-se as canas, enfim… uma maravilha em bom português, como nós tanto gostamos!
Vocês nunca passaram por isto, alguns de vocês até podem ter passado em 2004, quando eram “meninos” e tinham de ver os jogos na televisão, ou ouvi-los na rádio, como fazem todos os outros vossos compatriotas que não podem entrar no lote dos 23, ou sentar-se nas bancadas dos estádios em que vocês jogam… é que os bilhetes ainda são caros pra caraças… mas dizia-vos que foi uma festarola e pêras.

(Aqui em casa não porque com uma bebé de 1 mês e meio não se pode andar em grandes aventuras pela noite dentro que depois, dormir, tá quieto…)

Mas olhem que há gente que sofre mesmo com estas noites hein, gente que se emociona de verdade! De tal maneira que sentem no peito uma qualquer coisa inexplicável, que parece querer rasgar-lhes o externo de par em par e sair cá para fora para gritar, ainda mais alto, o nome do nosso tão maltratado mas tão adorado país. Sim, somos um povo difícil e vocês sabem-no bem. Sabem-no porque na grande maioria, mesmo apesar de muitos de vós terem emigrado em busca de uma vida melhor, já provaram um pouco da complexidade que temos enquanto Nação.
Muitos de vós já foram vaiados, assobiados, gozados, criticados, em alguns casos não dá mesmo para perceber o que vos fez e faz continuar a querer vestir essa camisola… O Quaresma que o diga… e recentemente o Bruno Alves também…
Muitos outros, no vosso lugar, já teriam desistido (e alguns desistiram mesmo) há muito.

Mas é o que é, ou seja, as coisas são como são e Nós somos mesmo assim… Gostamos muito de dizer mal. De criticar. De dizer mal e criticar. Só porque sim, só porque temos uma veia (ou mesmo uma mão cheia delas) que nos empurra para estes comboios de anormalidade pegada. Não é só convosco. Somos assim uns com os outros. Não reconhecemos valor aos nossos amigos, mas sim aos amigos dos outros. Não reconhecemos a arte, a criatividade, o sacrifício daqueles com quem passamos mais tempo, dos nossos familiares, dos nossos companheiros, em vez disso, buscamos e encontramos sempre a excelência nos de fora, naqueles que não conhecemos de todo. E isto é tanto mais grave porque é transversal a todos os campos, estádios, estantes de livrarias, paredes de museus, parangonas de jornais, tudo…
Não creio que o façamos por maldade (pelo menos quero acreditar nisso), mas sim porque achamos que esse é o natural caminho para a diferença, que isso faz de nós seres muito melhores e mais altivos, cheios de massa crítica e de audácia discursiva, cheios de visão e de independência, mas no meio desse achismo todo esquecemos o mais importante, citando o Miguel Esteves Cardoso, esquecemo-nos de “como é linda a puta da vida!“.

Mas não fica por aqui: esquecemo-nos de que, em primeiro lugar, somos um país pequenino. Ok, a Islândia é bem mais pequena e o País de Gales também, mas isso não interessa nada, o que interessa é que, para o efeito, somos frequentemente vítimas de bullying quer por parte dos alemães (felizmente eliminados pelos franceses), quer por parte dos franceses (se pudessem perder os dois de uma vez…), e nisto, nisto nem os aliados daquela que é a mais antiga aliança do planeta nos defendem, aliás, agora até viraram costas à UE (esse tão profícuo órgão de soberania de um continente decadente)…
Esta gente (agora em processo de #Brexit) só fala de nós e connosco por causa do Algarve, do vinho e… da Maddie McCann…
Andam sempre “preocupadíssimos” com os nossos “défices enormes”, arranjam cães de fila que se mostram doidos por nos morder os… calcanhares! (Aiiii… aquele teu calcanhar contra a Hungria, capitão, que golo! que golaço, que “pedacinho”, como se diz lá na tua terra) de futebol maravilhoso, só ao alcance de jogadores como tu, e são tão poucos os que tiveram tudo aquilo que tu tens, mas já lá vamos;

Dizia que somos também aqueles que pagamos os devaneios engravatados e sem escrúpulos de bancos atrás de bancos, unicamente porque nos dizem que temos de o fazer, e nós, obedientes, pagamos e assistimos impávidos e extremamente serenos ao esventrar da nossa sociedade e do nosso povo às mãos senhores de belos fatos e (ás vezes) belas gravatas. Senhores esses que conduzem (ou são conduzidos) belos carros, têm belas casas, muitas vezes em belos sítios onde nos seria impossível sequer montar uma bela duma tenda.
Mas mesmo nessas alturas, nas piores agruras, parece haver apenas uma coisa capaz de nos “unir”… ou melhor, unir não que é demasiado forte e um pouco falso até, mas que é capaz de nos juntar, isso sim, a todos, num ambiente de (alguma) concordância e sofrimento, a Selecção Nacional!
Porque o sofrimento faz sempre parte de toda e qualquer campanha da nossa Selecção em grandes competições! É a representação mais fiel ao próprio país que o futebol europeu conhece… digo eu.

Pois é!
Por isso, o que vos digo é que se nos tiram o futebol e a alegria destas emoções fortes que nos parecem ter sido predestinadas, talvez deixemos mesmo de ser país, deixemos mesmo de ser povo, deixemos de nos juntar e passemos a viver activamente a infelicidade a que esta Europa nos parece querer forçosamente condenar.
Mas, no meio disto tudo, há um problema: é que somos muito bons com a bola nos pés.
Somos muito bons a fintar as previsões e as opiniões que nos destinam e nos vaticinam constantemente a desgraça, o falhanço, a consternação, somos muito bons a meter pela esquerda quando tudo parecia prever que íamos pela direita, somos muito bons a aguentar, a esperar, a ludibriar, a encantar, a fazer esperar e a saltar então, a saltar somos do caraças… não é capitão? Não é Bruno (tu que talvez saltes ainda + alto que o capitão)?
(Reparem na cara do Danilo Pereira e do Robson-Kanu a olhar para o Cristiano “Air” Ronaldo lá em cima pendurado na janela do 2º andar à espera que a bola lá chegue).

E assim fomos, saltando… de jogo em jogo, como saltam os sapos de nenúfar em nenúfar, pela vida fora, e nós pelo torneio adentro. E já estamos na final.
E agora? Agora. Agora não há outra coisa a fazer que não ganhar esse jogo de Domingo. Vão esgotar-se stocks de cerveja, de entremeadas e bifanas, de gritos e cânticos, de sonhos e esperanças, mas nós, há muito que nos vimos preparando para estas andanças porque temos no nosso capitão um voraz caçador de troféus, de finais, de recordes, de mais e mais e mais.
Nada lhe chega nem lhe é suficiente e ainda bem que assim é… porque é essa persistência que o faz, aos 32 anos, ser o jogador + internacional, o maior goleador, o recordista em presenças de fases finais de europeus, ter 3 bolas de ouro, ser o melhor marcador de sempre do Real Madrid… e eu sei lá o quê mais!
É o expoente maior do nosso futebol, mas hoje está diferente, está + homem, mais maduro, + companheiro, mais amigo, + sério, mais capaz, + frio, mais solidário, + atento, mais tudo… E o conforto que deu ao Bale (na foto), que o tem como ídolo, diz muito daquilo que é hoje o “nosso” Cristiano Ronaldo.

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E assim saltámos por cima dos perigos e fatalidades que nos apontaram os eternos arautos da desgraça (que a esta hora devem estar piursos porque lá nos apurámos para a final), saltámos por cima de todos os que nos diziam que não íamos a parte alguma, que não merecíamos, que tínhamos era de deixar de fazer poses e fitas e ir para casa para as férias benditas, porque isto, aquilo e aqueloutro… Seja lá o que for que isso queira dizer… Passámos ao lado (ou mesmo por cima) dos invejosos, dos nojentinhos, dos que “cagam postas de pescada” e dos que criticaram tanto e tudo e todos e que agora, agora saem de mansinho…
Driblámos os camones que nos odeiam e nos invejam, mas que têm de se habituar aos merdosos dos tugas, quanto mais não seja porque nós chegamos sempre lá. Muitas vezes chegamos de Zundap, a meio gás, meio tortos e a andar de lado, mas chegamos, e agora, agora ninguém nos pode roubar a possibilidade de sonhar ainda mais alto, de sonhar que é desta, que desta é que é, que nos vamos vingar da tremenda injustiça que sofremos no nosso próprio quintal em 2004.
Éramos os donos da bola e vieram cá aqueles “patetas” toscos daqueles miúdos gregos roubar-nos a redondinha, e de caminho levaram também a taça enquanto dormíamos hipnotizados por tanto apoio, pelos cavaleiros de Alcochete, pelos barcos no Tejo, os helicópteros, o cordão humano a vir sabe Deus de onde…

Bom, seja como for, confio em vocês!
Confio que vão fazer tudo o que estiver ao vosso alcance para trazerem para casa a Taça! Confio que vão deixar tudo naquele Stade de France, que vão encher-se de coragem para derrotar aqueles “macacos chauvinistas” que tanto nos adoram e que tantas vezes já se riram à nossa conta.
Vamos obrigá-los a começar a semana de olhos postos no chão quando entrarem em qualquer estabelecimento português no dia seguinte.
Os nossos emigrantes merecem isto, merecem mesmo! Nós merecemos isto! Merecemos mesmo!
Mas vocês, mais do que quaisquer outros, merecem a glória da vitória e a honra que tem um campeão. Pessoa disse-nos que para sermos homens, temos de ser inteiros, e eu estou inteiramente convicto de que vocês são homens mais do que suficientes para enfrentarem o desafio das vossas vidas profissionais… com a sorte tremenda de terem atrás de vocês, todo e qualquer “marmanjo” ou “marmanja” que arranhe a língua portuguesa a apoiar-vos até que a voz nos doa!!

Capitão, puxa por eles homem, puxa por eles que eles seguem-te para onde quer que tu vás! E o povo está contigo… como nunca esteve antes!

Como isto já vai compridote…
Deixo-vos um abraço, a todos sem excepção, deste que vos admira e que sofre convosco…

P.S – Fernando, sem a tua coragem nada disto seria possível.
Por isso, por tudo o que foi feito até agora, muito, mas muito obrigado!

Antologia de um medo (nada) absurdo

Antologia de um medo (nada) absurdo

Gostamos invariavelmente da força, da robustez, da solidez impactante e inspiradora que nos confere a vida, e da singular e determinada capacidade de não ceder aos caprichos em nada misericordiosos do amor, da tristeza, da solidão, da felicidade e, claro está, do medo.
Temos mais medo das coisas quanto maior é o número de coisas que temos a temer. Creio que isto é relativamente fácil de constatar se nos debruçarmos sobre a questão durante algum tempo. Somos mais temerários perante a vida quanto maior é o número de anos que vivemos, e menor é o número de anos que vai distando entre isto que hoje somos, e o fim da linha que medrosamente vamos apalpando com receio de estragar qualquer coisa.
Mãos nas janelas, pés arrastados pelo chão macio e encerado que crepita e estala à nossa passagem, mas com medo (lá está) de dar um passo em falso, de pisar o que não se deve, de calcar caminhos que não seria suposto conhecermos, ainda por cima quando – regra geral – nunca chegamos verdadeiramente a conhecer a pessoa com quem vivemos mais tempo neste passeio errático a que alguns chamam existência. Nós mesmos.
Chegam a passar-se vidas inteiras sem que nunca saibamos bem quem vive dentro daquele que julgamos ser.

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Mas então, de que é que nos alimentamos afinal? Será de medo? Será esse o pão que nos sacia a fome de viver?
Talvez. É assustadoramente possível que grande parte de nós passe grande parte da vida a comer doses ainda maiores de medo ao pequeno almoço; mas de faca e garfo, à homem, para posteriormente ser digerido enquanto somos atropelados pelo inebriante passar trôpego dos dias. E arrota-se no fim.
É assim possível que passemos na verdade grande parte da vida (mais o que fica para lá da mesma) a tentar provar à dita que não tememos nada, a não ser o seu próprio finar.

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Suponhamos que a nossa concentração é então conscientemente dedicada a percorrer todo o caminho, no descrédito consentido que tem quem o assume, tentando assim mostrar ao mundo, ou à parte do mesmo que nos sobeja de tal forma que nos atrevemos a chamar-lhe mundo, que esse medo que nos aterroriza a existência é pueril, irracional, é uma espécie de temor do precipício, do parapeito, da escarpa hipnotizante da morte e das suas terríveis e seguramente bem fundamentadas horripilâncias.
Mas… passando-lhe a bola a si, amigo leitor, como ela deve ser passada, redondinha e com o peito do pé, consegue dizer-me – para além do medo de morrer que é universal – de quantos medos (se é que é sequer plausível e aceitável que assim se escreva esta palavra) se consegue lembrar de ter sentido ao longo da vida? Com certeza que se lembra pelo menos… de uma mão cheia deles. Certo?
Errado… fácil não deve ser de certeza… isto para responder de imediato ao meu próprio pensamento, para contestar prontamente a parvoíce que me possa ter cruzado as ideias num dos fogachos de tempo tão curtos, como curta é a duração de tantas das palavras que digo sem as dizer, num gesto de atrevimento, e que me quis forçar a começar esta frase com a resposta à pergunta feita na frase anterior.
Ora, posto isso, e escrutinadas as fracções de segundo que caracterizam uma decisão tão rápida, fui ainda a tempo de emendar a mão, mesmo sabendo que já tinha cagado os pés até aos joelhos. São merdas que acontecem.
Portanto, assim de repente, num exercício que de modo algum pode ser tomado como simples, trivial e até desnecessário, convido-vos a revisitarem a vossa vida enquanto vão passeando os olhos pela quantidade tonta de enumerações que passarei de seguida a… exacto… a enumerar.
Mas atenção ao seguinte: não deve esse revisitar do passado ser uma coisa desprovida de qualquer lógica ou orientação. Nada disso! Até porque, regra geral, a coisa não costuma correr lá muito bem.
Assim sendo, aquilo que vos proponho é que, calmamente, com tempo e com a serenidade que uma viagem desta natureza vos deve merecer, tentem então encontrar nas arrecadações onde guardam grande parte daquilo que foram quando começaram verdadeiramente a ser alguma coisa, e se lembrem então dos medos que afinal de contas nunca vos largaram.

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Das manhãs, tardes, noites e madrugadas atormentadas por essa sensação tão poderosa quanto a de se ter Medo de alguma coisa, essa sensação frívola que nos entorpece as pernas e os braços, que nos retorce caprichosamente os dedos das mãos e dos pés, que nos arrepia os cabelos no finalzinho da nuca, que nos faz revirar os olhos e, mais do que qualquer outra coisa, que nos dá estaladões às ideias. A lógica simples e erudita (graças a Deus) do pensar e do ser. Simplesmente isto. Mas, para que se sintam confortáveis e não pensem que estão a ser obrigados a algo que não tenha, eu mesmo, coragem de fazer, sereno-vos e sossego-vos o espírito inquieto dizendo-vos que serei eu o primeiro a sentar-me nesse parapeito e a enumerar algumas coisas que me fizeram suar as estopinhas, e sentir o corpo a engelhar-se às mãos do horror mais inconsciente e, por vezes (tantas vezes) – mas não sempre – mais injustificado que sentimos no caminho pelos passeios da condição humana.
Então, o primeiro Medo de que me recordo, é possivelmente o medo de magoar o meu irmão, que era tão pequenino… Porquê?
A fragilidade de um bebé que gatinha é assustadora e, perante um ser humano daquele pequeno tamanho, o irmão mais velho, com mais 3 anos que o petiz que ainda não se põe de pé, pouco ou nada sabe da forma correcta de se lidar com o petiz que nem falar direito consegue.
Numa das únicas vezes em que me “descuidei”, pensando que ele não via ou compreendia patavina do que estava a “ver”, virei costas e o sacana engoliu uma moeda de 50 centavos que eu tinha escrupulosamente escondido debaixo do tapete da sala. Resultado? Hospital. Raio-X. E um “a moeda há-de sair”. Anos mais tarde, já sem medo nenhum e com ele já perfeitamente capaz de correr, saltar, brincar e falar, acabei por lhe partir um braço, enquanto brincávamos às rasteiras no SAP, à espera da vez para que ele pudesse ser visto pelo médico devido à quantidade absurda de borbulhas que a varicela lhe estava a espetar no corpo. Fomos do SAP para o Curry Cabral.
Depois, por volta dos 10 anos passei finalmente a ter medo de morrer.
Chegou já mais tarde, é verdade. Não porque não soubesse já o que era a morte, mas simplesmente porque não a compreendia de todo. Já sabia ler e escrever. Já devorava notícias na TV e nos jornais, deitado debaixo da mesa de jantar da casa dos meus avós. Ouvia atentamente as conversas dos adultos da minha vida e, pese embora o facto de fazer caminhadas de Domingo (com alguma frequência) pelo cemitério do Alto de S. João, onde um dos meus tios estava sepultado, não compreendia de modo algum a parte metafísica da coisa. Associava-lhe tão somente o desaparecimento dos olhos, pouco ou nada mais. Ou seja, para além da dificuldade de perceber o conceito, tinha a incapacidade total de perceber do que se tratava e, mais do que qualquer outra coisa, tinha a dificuldade tremenda de perceber porque razão é que a morte fazia chorar os vivos.
Percebi-o no dia em que fui a funeral da minha bisavó materna, e depois no dia em que morreu a mãe de uma colega (grande amiga) de escola.
Haveria de se me entranhar na alma alguns anos mais tarde quando, numa questão de meses, morreu um dos meus tios, e depois, quando morreu o meu melhor amigo. A partir daí esse medo estendeu-se a todos aqueles por quem tenho algum tipo de estima, de amor, carinho, amizade e consideração.

Tira os pés do chão

Pelo caminho tenho encontrado o medo em formas tão distintas como: medo de falhar, de desiludir, de me afogar, de me queimar, de não ser capaz, de perecer, de fracassar, de ser despedido, de não ser contratado, de ser esquecido, de não ser lembrado, de não ser querido nem desejado, de não ser amado, de ser iludido e enganado, de que aquilo em que acredito não dê resultado, de ser rejeitado e maltratado, do escuro, da noite, da sombra dos dias… e podia continuar nesta torrente infernal durante horas a fio… schiiiu… tenho medo de a acordar.
Continua a contar.
Depois fiquei doente. O cancro. Esse merdas insolente. E tive medo. Muito medo.
Claro que sim. Não podia não ser de outra maneira. Mas venci-o, ao Medo. E ao cancro também. Peguei-o pelo colarinho e acertei-lhe em cheio no focinho.

E hoje chego aqui, a dias de ser pai. A dias de ver a minha vida transformar-se por completo e confesso-vos. Estou todo “borrado”.
Não pela circunstância, não pelo desconhecimento da paternidade, mas pela minha mulher. E é um sentimento horroroso que me tira tempo ao sono e me traz dores à barriga. Ela é a minha vida. A condução da minha alma. O justificar feliz do meu acordar radiante. A minha Deusa. O prolongamento natural do meu sorriso e o espelho onde o mesmo se enrosca e regressa na expressão máxima de felicidade.
Pensar no sofrimento que ela pode enfrentar, nas dores, na experiência que ela vai atravessar no parto… tudo isto me sacode diariamente o esqueleto e me preocupa quanto baste. Se é absurdo? Não me parece (nada) que o seja. Mesmo sabendo que tenho a meu lado um poço de força!

MARL2222

Sei que tenho comigo uma mulher praticamente indestrutível e capaz dos feitos mais incríveis, mas do medo, meus amigos, dele ninguém se livra! =)
E acreditem que o medo é, em alguns momentos desta nossa vida, um companheiro, um amigo, um conselheiro, um compincha.
E vou ensinar-te tudo isto minha filha. Tudo isto e muito mais. Porque nesta vida é tão importante que sejas forte, que te levantes sempre depois de caíres, e vais cair muitas vezes meu amor. Mas é também igualmente importante que saibas não o ser, que saibas ter medo, que saibas ceder-lhe e permitir-lhe que entre na tua vida sem que nunca deixes que este tome conta de parte alguma da mesma. Pode por lá andar mas que saibas sempre por onde é que ele anda.
Agora… agora vem ter com os papás. Não temos medo. Temos a vida inteira para te dar. E medo, só o medo de te falhar… mas isso minha querida, isso é impossível de controlar.

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