A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

A aventura chega ao fim. É tempo de dizer Adeus, e obrigado. Muito obrigado

Tudo começa a 17 de Fevereiro de 2010.

Na altura, 3 dias depois de ter começado o meu estágio, deu-se um dos piores acontecimentos da história da Madeira.

O temporal de 20 de Fevereiro que para os Madeirenses ganhou direito a marco histórico, “o 20 de Fevereiro”, dizem eles. O 20 de Fevereiro, digo eu. 😱

Foi uma manhã frenética.

Naquele dia soube pelos meus próprios olhos e ouvidos o que era o jornalismo “a sério” e tive a certeza que ia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para conseguir um emprego naquela redacção.

Ali mesmo, naquele dia 20 de Fevereiro, soube que não ia completar o mestrado em que me tinha metido na Escola Superior de Comunicação Social. Ainda acreditei levemente que fosse possível, mas depois percebi o que ia acontecer.

Percebi rapidamente que ia abdicar do relatório de estágio em prol do emprego que haveria de conseguir. Ali. Na SIC. Caramba. Ia conseguir um emprego na SIC.

E depois foi ali que me fiz homem.
Ali perdi o meu avô.
Ali saí de um namoro com feridas em carne viva.
Ali saí de casa.
Ali me apaixonei novamente quando achava que seria impossível.
Ali tive um cancro. Ali o venci. Ali perdi a minha irmã.
Ali me casei com a mulher da minha vida.
Ali fui pai. Ali.
E ali fiz amigos. Aprendi o que é a televisão. O que é o jornalismo.
Depois veio o desporto e a produção de programas. E por fim, as redes sociais pelas quais me apaixonei.

É agora tempo de dizer Obrigado. A todos. Por tudo.

Vou feliz. Levo-vos no ❤️. Se levo.

Não digo adeus, digo adeus e até já. Continuarei a ler-vos e a ver-vos!

Vocês são a informação em Portugal! Vocês. Para mim são vocês e só vocês.

Terei sempre as memórias e o bicho do jornalismo que se esconde por baixo da pele para não nos deixar pensar diferente para o resto da vida.

Com o jornalismo percebi o mundo. Pelas vozes de jornalistas que se foram tornando amigos, colegas, companheiros, camaradas.

Agora é tempo de “virar a página” de forma literal. De virar a folha para continuar a escrever a minha história que já conta com muita coisa para contar.

Não vos quero maçar. Afinal de contas saio por vontade própria, para procurar melhor, para viver mais e ser mais. Não preciso de sorte. Preciso apenas de ser feliz e de trabalhar para ser melhor. Sempre. Uma vez mais, obrigado à SIC e ao Expresso.
À Impresa. Obrigado. De coração.

Tenho a certeza que o melhor ainda está para ver.

#storytelling

Anúncios

Estes “sacanas” destes refugiados II – Medo, ignorância e o terror daquela infância

Estes “sacanas” destes refugiados II – Medo, ignorância e o terror daquela infância

O meu último texto superou todas as expectativas que tive quando o publiquei aqui. Estava longe de imaginar que o mesmo iria gerar mais visualizações num só dia do que o blog alguma vez tivera nos 6 anos da sua dedicada e insistente existência. É certo que o tema era e é quente, recente, contundente, e que não deixa (quase) ninguém indiferente, mas daí a ser partilhado e comentado por tanta gente… isso, isso é coisa bem diferente. Mas vamos por partes. O Rogério Esteves e a Cândida Pinto (dois nomes que devem ser referidos com orgulho, reverência e solenidade) já regressaram a Portugal. E a coisa não lhes correu nada mal. Estiveram lá durante mais de duas semanas a queimar os olhos e as pestanas, a ver coisas desumanas, espantados com as atrocidades cometidas, com as palavras proferidas, com as horas perdidas, com as crianças desnutridas, com a quantidade inquantificável de gente de vistas perdidas, de olhares vazios, de lágrimas no rosto, aninhados, amedrontados e com fome e frio. (Mas estes “sacanas” merecem. Ou pensavam que era só vir aqui invadir a Europa e encontrar um mar de facilidades?)
O Rogério e a Cândida sofreram! Sim. Sofreram. Como sofre qualquer ser humano de boa índole ao ver outro ser humano em sofrimento. Talvez mais ele do que ela. A Cândida Pinto (cujo nome, como já disse e não me canso ou nada importo de repetir, se deve ler com reverência – obrigado novamente António Reis que tanto sabes) já esteve várias vezes em cenários de guerra, reais, por demais, com fogo que não é amigo, bem pelo contrário, olhando bem de perto para a cara feia do perigo, esquecendo-se sempre do seu próprio umbigo.

refugiados3
Foto: Rogério Esteves

Ele não. Ele foi “lá parar” porque ela quis que ele fosse, pediu que ele fosse, porque gosta do trabalho dele, porque acredita que ele tem nos olhos e na relação íntima com a câmera e com as imagens, qualidades inequívocas e inquestionáveis no que a este tipo de trabalho diz respeito. Mas, o que também importa aqui dizer é que o R. tem 25 anos, vinte e cinco anos apenas, banhados pela luz radiante e tremendamente contagiosa de um coração enorme, de uma bondade que conhece poucos ou até mesmo nenhuns limites, purificada por uma sinceridade transcendente ao próprio corpo e que se propaga pela imensidão dos seus olhos azuis e da alma que lhe carrega tantas vezes o corpo e o senta no diafragma da lente com que nos mostra… “o país e o mundo”.
Foca e desfoca, ri, chora e não treme, como não tremeu nestes dias em que esteve com a Cândida (repito: este nome deve dizer-se com reverência) e que viu as coisas mais verdadeiramente impressionantes da sua ainda curta vida. Escrevei anteriormente que o que mais o impressionou e que foi mais difícil de aceitar foi o ter de ouvir, olhar, ver e escutar os lamentos desesperados das crianças e dos seus olhos carregados de verdade e de tristeza, de medo, fustigadas por terror a mais para anos de vida a menos.

refugiados14
Foto: Rogério Esteves

Verdade. Digo, disse-o e repito-o. Sem apelo nem agravo, sem dó nem piedade, porque por cá, quem continua (depois de tantos e tantos dias, depois de tantas e tantas imagens, depois de tantos e tantos relatos) a revelar-se intransigente, inflexível, racista, xenófobo e estúpido, a mostrar ser implacável na verborreia com que apregoa o medo que os “sacanas” dos sírios lhe(s) causa(m), com argumentos translúcidos e inspirados tais como: que querem “colonizar” o mundo com um imperialismo disfarçado e hostil, querem oprimir todos os seres humanos que encontrarem pela frente e os seus animais também (que pode sempre dar jeito), quem continua a defender esse tipo de ignomínia absurda, não merece mais do que verdade. Factos. Que a realidade lhes lave os olhos fechados… com tanta gente que queria ver!

Ah e querem igualmente usurpar-nos os empregos… falo daqueles que tiverem paciência e vontade de trabalhar, obviamente, porque como é “certo e sabido”, todos eles querem vir para a Europa para serem parasitas, sanguessugas, escorpiões, cobras venenosas e malvadas, munidas de uma peçonha sem antídoto, dum venenoso e pérfido poder que nos vai dizimar a todos… logo a Nós, os europeus puros de sangue! Os do “velho continente”.
E este pensar, não está ele corrompido por ideias despóticas e imperiais, que serviram de base idealista para as piores atrocidades que se comentaram neste continente e que culminaram com a tentativa de extermínio de um povo (os judeus), que também tinha vindo aqui para procurar refúgio?

refugiados9
Foto: Rogério Esteves
IMG_0777
Foto: Rogério Esteves

Pergunto-vos, porque gosto muito de conversar: Alguém acredita, no seu perfeito juízo, ou consegue acreditar, que existam seres humanos que gostem de ser REFUGIADOS de Guerra? Que se vangloriem de viver assim? Que se sintam felizes por não poderem viver na terra onde nasceram, onde cresceram, onde aprenderam a ser gente? Onde aprenderam o significado de ser e estar.

Ser. Mas ser mesmo. Existir. Tal grandeza só tem sentido se o coração bater, se o sangue correr, se o olhos brilharem mesmo que não vejam, se o nariz cheirar mesmo que o cheiro seja hediondo e o ar conspurcado.
Perde-se tempo, tanto tempo, demasiado tempo a tentar encontrar motivações que consigam explicar todo este fluxo migratório e, digo-vos eu, pela ponta dos meus dedos, que é tempo perdido. Porquê? Porque a verdadeira motivação desta migração massiva está, simplesmente, na luta desigual e constante pela sobrevivência. Numa vontade inabalável de viver, de sorrir, de crescer, de ser mais, de ter mais, mais do que tudo isso, de recomeçar. Quem cá chega abandonou tudo. Quem cá chega trabalhou durante meses ou até anos a fio para juntar tudo o que era possível juntar e que, não poucas vezes, acaba no fundo do Mediterrâneo. E há depois a superior e inesgotável vontade de não ter medo.

Os meus colegas viram coisas que nós, aqui, no sofá, no escritório, pela televisão, pela internet, no tablet, no telefone, não vemos! E capacitem-se de que nunca, mas nunca vamos ver… da mesma forma que eles viram! São coisas a que nunca vamos conseguir chegar, imagens que, por muitas e mais vezes que nos sejam contadas, serão sempre isso, relatos, histórias, imagens vistas pelos olhos de alguém, que, vão sendo cada vez mais difíceis de enquadrar. Mas para isso há uma explicação cabal e inequívoca. Há um nome sem rosto mas que é maior que os Deuses, que os sonhos, que o Sol. O Medo! Esse sim o verdadeiro monstro, aquele que nos impede de abrir os olhos, que nos obriga a ficar debaixo dos lençóis sedosos e apetitosos da facilidade e do conforto, tapados, submersos, impressionante imobilizados e de sangue congelado nas veias, à espera que o pesadelo passe e que seja novamente manhã, que brilhe o sol, que corram felizes as nuvens e que tudo isto não passe… de um sonho mau.
E viram coisas estranhas, coisas esquisitas, nas suas próprias palavras.
Campos de acolhimento que se esvaziaram mais depressa do que uma curta noite de sono. Centenas de pessoas a serem metidas em autocarros e levadas para parte incerta. Estratégias de combate militar da polícia húngara. E sons. Muitos sons. Sons que ficam. Sons que teimam em não os largar. A ele em particular. De pânico. De terror. De fuga. Que chegam em forma de gritos. De homens, de mulheres e de crianças. Como é horrível o som do terror da pequena infância.
O R. não se esquece do “barulho impressionante” de 5 mil pessoas a correr em todas as direcções, do tumulto, da polícia, do polícia que lhe enfiou um braço por baixo da câmara e lhe lançou uma bombada de gás pimenta para os olhos e para a boca – “nunca tinha ouvido um barulho assim meu amigo”. Não se esquece do homem sírio que, vendo-o aflito, parou a sua corrida e lhe deu um pacote de lenços de papel e lhe disse para limpar a boca e os olhos com o papel, “ajuda a tirar o gás” disse ele.

refugiados8
Foto: Rogério Esteves

E todas estas são palavras em que acredito piamente. Os olhos do R. não mentem, muito menos a sua boca, onde o espaço é, regra geral, reservado a sorrisos largos e gargalhadas estridentes. A Cândida Pinto (volto a frisar que este nome deve ler-se com reverência e respeito extremo) é uma jornalista “sénior” como dizemos na redacção da SIC. Tem muitos anos “disto”. Com ela nunca troquei mais do que o cordial e educado bom dia, boa tarde ou boa noite. Não porque não quisesse falar mais, mas porque há colegas nesta casa que me merecem tal respeito pelo trajecto profissional que têm, que o embargo na voz me foi sempre emudecendo, e me impediu de ser capaz de a abordar com qualquer pergunta sobre tudo o que fez enquanto jornalista profissional.
Levei igualmente muito tempo para conseguir dirigir-me ao Rodrigo Guedes de Carvalho e à Clara de Sousa, à Ana Lourenço ou mesmo ao Mário Crespo que conheci ainda era eu um petiz de colo. Foi preciso outro tanto para não tratar com solenidade episcopal o José Manuel Mestre… e a Cândida Pinto (isso mesmo, reverência e respeito, já perceberam a lógica) faz parte desse mesmo lote. Mas para que não se pense que os húngaros agem de ânimo leve, importa recordar que este é um país traumatizado, que viveu 45 anos sob ocupação russa (com tudo o que isso implica). Não nos esqueçamos que o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do império austrohúngaro, em Sarajevo, precipita o começo da Primeira Grande Guerra, com a invasão da Sérvia (outro dos países por onde passaram, a pé, todos estes recentes refugiados. A história a encarregar-se de nos surpreender com a sua fina ironia).

refugiados12
Foto: Rogério Esteves

Não nos esqueçamos que o povo húngaro também tem um elevado historial de procura de refúgio e de asilo noutros países, de fuga em massa para escapar das garras poderosas da fome, do frio e do terror imposto pela URSS.
Dissolvido em 1918, o império austro-húngaro deu então origem à República democrática da Hungria (Lá está outra vez a fuga deliberada para a graçola, Martim).

Depois veio a ocupação russa e isso, isso, por si só, é coisinha para marcar toda a história e vida de uma nação.
Basta que olhemos para todos os países que fizeram parte da URSS e vejamos o que lhes sucedeu.
Estónia, Letónia, Lituânia, Bielorrússia, Moldávia, Ucrânia, Arménia, Azerbaijão, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão. Tudo sítios onde é certo e sabido que a vida decorre debaixo da maior das liberdades, onde se é um ser livre para se ser, se pensar, se estar e se viver da forma que mais nos aprouver… isto enquanto não se chateia ninguém e não se “preenche” os requisitos mínimos para levar um baláziozinho nos miolos, se aquilo que quisermos e acharmos giro chatear quem não deve. Tirando isso. Tudo impecável.

IMG_0791

Veja-se então como vivem e pensam hoje a maioria dos habitantes destas nações independentes…

Apenas para que se olhe para a Hungria com olhos de ver, com olhos de realidade a quem os críticos, e todos aqueles que querem mandar pastar “esta gente” tanto apregoam, como sendo aquilo que nós, os que defendemos a vida “desta gente“, não somos capazes de ver; para que todos percebam a atitude que mantiveram e mantêm, os ataques aos refugiados e a Xenofobia (medo excessivo, descontrolado e desmedido em relação a pessoas estranhas, com as quais nós habitualmente não contactamos. Esta doença (sim, DOENÇA) insere-se no grupo das perturbações fóbicas…) evidente e despudorada, é preciso que se perceba que da boca do Primeiro-Ministro húngaro (que para nós é um “bolito” miniatura de pastelaria) é um senhor desses com laivos vários de ditador, hegemónico, disposto a tudo, que recentemente gastou cerca de 20 Milhões de Dólares para construir um estádio de futebol com capacidade para 4 mil lugares sentados, junto à sua casa de campo, para poder ver jogos com os amigos… parece-me tudo bem… esse mesmo senhor deixou sair pela cloaca as seguintes palavras: “É preciso manter a Europa cristã” e, meses antes, em Paris, naquela altura em que fomos todos Charlie, referiu também a necessidade de “travar o fluxo migratório não-cristão que se regista na Europa”. Robin-Hood do Cristianismo. Portanto, temos na Hungria um patriota acérrimo, que dá elevados sinais de corrupção activa e abuso de poder, e que já mandou erguer cartazes com mensagens no mínimo ameaçadoras para quem entra no país, e que se vê a ele mesmo como o salvador do Cristianismo Europeu. Tudo normal. Excepto uma coisa muito importante.
Deus não nos ensina a distinguir entre as cores da pele, meu caro Viktor! Os formatos das mãos, os decotes nas camisolas, ou aquilo com que escondemos o corpo não são, na palavra do Senhor, seja lá em que língua for, coisas retratadas e a ter em conta por todos os que O seguem. Isso é tão estúpido como dizer que quem se explode no meio de uma multidão e mata o maior número possível de pessoas tem 70 virgens à sua espera, num apregoado e idílico paraíso onde se pode beber boa pinga e enfardar fruta todo o dia, para além de passar a vida envolto na luxúria orgulhosa com tantas mulheres quantas aquelas que quiser ter. Deus ensina a amar caramba. Eu aprendi isto, com freiras, com padres, com catequistas, com bispos, com a Bíblia, com a minha família, com a minha mãe, com a minha avó e com os meus tios. Aprendi, isso sim, que Deus é Amor, ponto. No fundo é disso que se trata aqui, de A.M.O.R, como diz e bem o Pedro Abrunhosa.

Foto: Rogério Esteves
Foto: Rogério Esteves

Quanto ao Rogério e à Cândida, foram quase 20 dias, cerca de 5 mil quilómetros, 5 fronteiras na Europa Central, 2 fronteiras “protegidas” com muros de arame farpado, cargas policiais com direito a gás lacrimogéneo e pimenta nas fuças, canhões de água no corpinho (não fossem eles precisar de um banhito), com ordens dadas aos militares húngaros para que atirassem/disparassem de forma não letal sobre os migrantes… houve de tudo.
Mas houve a felicidade de familiares, colegas e amigos em saberem que, para eles, chegou por fim a hora de voltar a casa. De voltar ao… seu refúgio. Áquele que cada um de nós tem a sorte de ter.
Bye, bye Budapest, disseram na hora da partida, e bye, bye fronteiras armadas, muros erguidos para proteger os países de invasões por parte destes bárbaros de pele mais “tostada” pelo sol e de olhos enegrecidos pelo terror.
(leiam o artigo do NYTimes sobre o Primeiro-ministro húngaro que partilho no fim deste texto)
Hoje, a única coisa que quero é que levem as mãos às vossas consciências.
Os que concordam e os que discordam de tudo o que disse e repeti. Os que têm opinião e os que não têm. Os que se preocupam e os que se estão nas tintas para tudo isto e para os outros. Para as pessoas. Se vivem ou se morrem.
E a vocês, racistas, xenófobos, ignorantes, acéfalos, pequenos pedaços de vida sem sentido, até a vós eu vos pergunto meninos proto-arianos, digam-me o que fariam se tivessem nascido ali e não aqui. Porque corpo, corpo todos temos, lá por dentro é que tudo muda. Mas digam-me, preferiam morrer, a fugir, não era? Seus valentões! Claro que sim.
E preferiam ver toda a vossa família morrer, a fugir, não era? Claro que sim. Nem fuga nem rendição. Que quem se rende são os pretos, os monhés, os judeus, os chineses, os índios e essa “escumalha toda”. Mais nada!

Agora olhem para os vossos filhos já deitados na cama, para a vossa mulher a terminar de lhes arrumar a comida nas mochilas, para as fotografias dos vossos pais, amigos e familiares espalhadas pela sala, pelo corredor, pelo hall, pelo quarto e pensem… e se amanhã perdessem tudo isto e só vos restasse… fugir, de barco, de carro, a pé, de comboio, para salvar a minha família. O que faziam? O que faziam se as fronteiras da vossa fuga vos fossem fechadas na cara? Se toda a esperança vos fosse deliberadamente trancada a cadeado. Que tudo isto sirva, ao menos, para percebermos que é urgente voltar a pensar pela nossa própria cabeça. É urgente regressarmos à educação que tivemos, aos princípios básicos da vida humana em sociedade. A morte, o abandono, o nojo, o medo, a repulsa… não fazem parte desse lote de leis com que se deve pautar uma vida. Nem podem fazer. Nem ontem, nem hoje nem nunca. Seja qual for a cor da tua pele, o som da tua língua, a origem do teu povo, a bandeira do teu país, o teu hino, o teu pequeno-almoço, ou a roupa que vestes nos dias em que festejas seja lá o que for. Somos todos homens. Já fomos todos Charlies. E o que não vão chamar os nossos netos? A estes dois jornalistas eu agradeço porque graças a eles, hoje sei mais, sou maior, sou melhor. E devemos agradecer todos porque, mesmo estando ali para fazer o seu trabalho, para o qual são pagos no final de cada mês, são capazes de nos contar as histórias, sejam elas melhores ou piores, tenham elas um final mais ou menos feliz. Ser jornalista é isto mesmo, contar a história que não foi contada, mostrar as imagens que ainda não foram vistas. Obrigado Rogério e Cândida. (Estes dois nomes devem ler-se com respeito e reverência, apenas ao alcance dos que o merecem pela distinção nobre do trabalho que fazem e da vida que vivem)

refugiados4
Foto: Cândida Pinto

Artigos relacionados:

http://goo.gl/gaxpmh

https://goo.gl/tX4hgt

O regresso dos Pastéis de Nata

O regresso dos Pastéis de Nata

Escrevi e publiquei este texto em 2009. E agora, praticamente 6 anos volvidos, e porque a frase “Naquela tarde Lisboa cheirava abundantemente a pastéis de nata” nunca mais se desamarrou do meu pensamento, resolvi voltar a ele e nas últimas semanas tenho-o trabalhado de forma intensiva e exaustiva, tanto quanto o tempo que me sobra o permite. Lendo, relendo, escrevendo e reescrevendo, parando e recomeçando, afinando o gosto e sabor do pastel, o cheiro da massa, o óleo que impregna o papel de arroz e nos engordurece as pontas dos dedos que gostamos de lamber sofregamente para aproveitar cada bocadinho de sabor que o pastel de nata bem feito nos oferece. A sensação de incompleta satisfação que advém depois de se comer o primeiro e naquele espaço de tempo tão curto e imediato, qual reflexo pavloviano, que nos conduz ao desejo de ir atrás do segundo, sem medos, sem receios, guiados apenas pelo desejo feroz de insaciabilidade que nos força a voltar ao balcão e a pedir mais um, perante o olhar satisfeito mas ao mesmo tempo inquisitório do empregado de balcão, que, invejoso, consciente do que está a vender, nos observa e nos inquire com os olhos e se morde, de boca fechada, com as papilas gustativas encharcadas e num pré afogamento salivar de tanta cobiça. Foi tudo isto que me fez recuar no tempo e dar a todo este tempo mais tempo do que o tempo que já tem.
Por que razão é que se volta a trabalhar um texto tanto tempo depois de o ter escrito? É simples. Para ficar melhor. Para ser melhor! Porque pode sempre ficar melhor em qualquer uma das milhentas partes da miríade de sensações  e imagens que o compõem. Porque cada um de vós merece que o faça. Assim, foi com gozo e alegria que voltei aqui, para tentar ser o mais real e fiel possível dentro da enormidade da situação que vos trago. Quis que o texto ganhasse mais cheiro e mais sabor, mais gordura, quis também que a parte queimada se tornasse tão nítida que parecesse mesmo que o estavam a cheirar, a ver, a provar, que estavam a sujar os dedos e a encher os intervalos dos dentes de pequenas partículas enegrecidas como o carvão e que tanta gargalhada provocam em quem orgulhosamente exibe a boca cheia de “escorbuto”.

Voltei para aprimorar a descrição do tom da massa folhada e do cheiro inconfundível que o pastel nos oferece e dar-vos a possibilidade de, através da visualização a que vos tento fazer chegar, e com palavras abundantemente carregadas de descrições insistentemente pormenorizadas quanto as que vos trago, fazer com que seja onde for que estejam a ler, consigam sentir, reter e imaginar o cheiro e sobretudo o delicioso sabor que provamos na incrível experiência que é a de comer um pastel de nata dos verdadeiros.
Quis pretenciosamente tentar fazer-vos sentir a textura e a gordura que dele pinga quando o apertamos na segunda trinca, naquele momento que tem tanto de arte como de puro lambusar, e com tudo isso permitir que a construcção imagética a que vos remeto e que alcançam remetidos que estão à vossa individualidade, não seja irremediavelmente comprometida por uma distorção da matéria prima com que a estão a trabalhar, isto é, se não for capaz de vos conduzir ao caminho que pretendo que consigam seguir, abrir-vos-ei as portas para uma errada projecção mental que vai deturpar por completo o sentido mais profundo do que quer que seja que eu estou para aqui a tentar dizer, ou melhor, a tentar (re)escrever.
Ora, feitos que estão os imperiosos e indispensáveis esclarecimentos, retome-se então a corrente da acção que ia a cheirar tão bem.

É. Era para ser uma tarde normal mas acabou por ser exacta e precisamente o contrário.
Foi pois naquele magnífico e amarelado entardecer que a imperial e majestosa cidade de Lisboa foi supreendida na sua beleza, por um cheirar impressionante e abundante a pastéis de nata. Atenção que quando digo pastéis de nata, são mesmo pastéis de nata e não pastéis de Belém ou tartes de nata, ou outros tais que se tentem assemelhar aos primeiros.
Importa que se perceba desde já, neste preciso e exacto momento, do que é que vos estou a falar.
Seria um erro tremendo e de proporções incalculáveis tentar vir para aqui a cantar à desgarrada melodias apaixonadas e saborosas dedicadas aos pastéis de nata sem que fosse capaz, ou tivesse em atenção, a necessidade imperativa de delimitar a ideia e a imagem que brota desta mesma junção de palavras e que forma caprichosamente a imagem magnífica de um suculento, ainda morno e ligeiramente chamuscado pastel de nata, humildemente pronto para o próprio fim de vida que se lhe conhece, que compreende um desaparecimento frugal e regra geral muito apetitoso dentro da boca e depois a sua amaragem nos recantos agradecidos e emocionados do estômago de alguém esfomeado ou, tão casuisticamente de um guloso qualquer.
Podem pensar que se trata de um preciosismo pateta este, ligeiramente despropositado até, ou mesmo que estão diante de uma intransigência infantil e, sobretudo isso, de um discorrer trapalhão, feito mais com a boca do que com a razão. Ou então talvez pensem na verdade que se trata tão somente de um manifesto anti-pastéis de Belém, ou algo que teimosamente se lhe assemelhe… Mas não! Não é absolutamente nada disso. Posso desde já garantir-vos que se alguma destas coisas vos passou pela moleirinha então estão profunda e redondamente enganados, se por acaso vos passou algum destas cogitações pela Alma então digo-vos que estão equivocados. Adoro pastéis de Belém, com sumo, com chá, sem sumo, sem nada, com açúcar, sem canela. Mornos. Estrelicando e crepitando com a sua indecência por entre os dedos tremelicantes.
Mas não era de todo esse o cheiro que estava a tentar colonizar Lisboa naquela tarde pachorrenta, como tantas são as tardes de ócio despudorado que Lisboa conhece no pico do Verão.
Se não pensaram em absolutamente nada e estão simplesmente presos à imagem que já vos dei de um pastel de nata acabadinho de sair do forno e já ligeiramente menos quente e assim possível de se comer, então tudo vos está a correr na perfeição. Caso contrário também… não é caso para desanimarem. Não se esqueçam é de não limpar as mãos às calças ou à camisola, que o bom do pastel é sempre extrema e agradavelmente gorduroso.

Naquela tarde, Lisboa cheirava impressionante e abundantemente a pastéis de nata. Um cheiro quente. Um enebriante e perturbador odor que provocou, na primeira instância da sua constatação, uma reacção primeiro de espanto particular entre grupos distintos de pessoas, e depois uma reacção geral mas controlada e em cadeia de milhares que foram, com o passar dos minutos, sendo “apanhados” na doçura incomparável do cheiro que se propagava pelo ar e por toda a cidade, como se brotasse de todas as chaminés, de todas as casas, de todos os bairros, de todas as ruas da maravilhosa Lisboa. Foi como se a capital deste Império de Sol e de bem receber encostado aos braços do Atlântico e com o tapete do Mediterrâneo cabalmente deitado a seus pés, tivesse sido invadida por um Exército furioso, armado até aos dentes com tabuleiros metálicos, devidamente compartimentados e untados, prontos para receber as iguarias feitas de massa folhada e recheio adocicado de creme de natas.
Quente, mas não muito, assim a modos que mais para o morninho… e com um cheirinho que o acompanha que faz crescer no palato cascatas intermináveis de saliva que, de forma ansiosa, escorrem dentro da boca de um guloso. Se não era isso só se podia tratar de alguma tentativa a que previamente foi garantido o alcance de sucesso, de bater um daqueles recordes do Guinness, dos quais nós, portugueses, somos especiais adeptos, uma vez que parecem não se passar sequer três semanas sem que alguém tente bater um record qualquer, por mais estúpido e (in)digno que o mesmo possa ser na profusão da sua génese sem sentido.
Desde as feijoadas, aos pães com chouriço, das tigeladas às broas enfarinhadas, sempre em proporções hercúleas e homéricas. Das bandeiras humanas, aos logotipos colossais, às peregrinações de magotes a Fátima, ao maior coro, o maior rancho, a maior abóbora, a maior couve, a maior papa de sarrabulho, valha-nos Deus Nosso Senhor pela estrondosa sorte que tivemos com o bendito nascer do Entroncamento
Mas dizia então que Lisboa estava e se apresentava naquela tarde deliciosamente apetecível, com açúcar e canela e talvez também com uma limonada gelada acompanhada da folhinha de hortelã que timidamente lhe faz melhorar o sabor tão típico do calor latino que nos encrosta a pele. Fresca, gelada se possível. A limonada e não a pele, claro está.
Estava pois um dia quente de verão, daqueles que Lisboa tem tantas vezes, várias vezes, abençoadamente tantas vezes durante os vários meses do ano, o que faz de tudo isto uma “coisa” mais aceitável e menos sofrível, isto claro para quem consegue encontrar nestas pequenas coisas valores maiores e que permitam soltar com desenvoltura um sentimento de conformismo para com o destino que aqui e ali vamos traçando com afinco.

IMG_1377 (2)

Os estrangeiros que cá nos chegam iam aparecendo e saindo de todo o lado; saídos a granel dos cruzeiros, dos comboios, dos aviões; dormindo amontoados nos andares já cansados e empoeirados, até ligeiramente pestilentos das residenciais das avenidas velhas e famosas da cidade, ou então, nos novíssimos e arejados hostels e hotéis, isentos que estão da taxa vigente de bafio que vem incluída no preço do primeiro grupo que referi. Lá vinham então todos eles, excursionistas e exploradores, saindo alegremente dos autocarros, entrando afogueados nos centros comerciais, deitados (tantas vezes vestidos) nas praias, ou sentados em grupos por esses passeios e miradouros fora, ou simplesmente em pares românticos e apaixonados nos e pelos bancos de jardim dos magníficos jardins da cidade, ou mesmo até nos tapetes fofos e hipnotizantes a que a relva dos mesmos se assemelha; trazem as caras coloridas por tons fortes de vermelho ou rosa carmim que com muita certeza chegam a fazer inveja a quem anda atarantado no corre-corre de um dia fastidioso de trabalho e que, de estrangeiros, pouco fala, sabe ou quer saber. Apenas sabe que sente no recôndito e envergonhado recanto do seu ser, uma coisa também ela muito portuguesa, a INVEJA.

Havia um grupo em particular que estava acantonado no chão perfeitamente esculpido e polido do luminoso e absorvente Miradouro de São Pedro de Alcântara, ali nas costas no Bairro Alto, com a sua varanda “aberta” e escancarada, estrategicamente edificada ali mesmo de frente para a encosta brilhante da Mouraria e do Castelo que guarda Lisboa. Ali estavam eles sentados e muito atentos a todos os que chegam e também aos que partem, sorvendo, delicada e deliciadamente o eflúvio paladino e adocicado que o ar quente de Lisboa lhes fazia chegar com leveza aos narizes. Subitamente um deles, curioso, astuto, perspicaz, detecta no ar uma emanação atrevida e persistente de um cheiro que não é das árvores, não é da terra, não é do chão molhado pela rega do jardim, e não é também do tabaco e da mistura do hash que estão a fumar, é antes um cheiro que desconhecem, que nunca sentiram entrar sossegadamente pelas narinas acima em qualquer outra ocasião das suas vidas.

De seguida ele fecha os olhos e procura, dentro do cérebro, em fracções trôpegas de segundos, identificar e catalogar o cheiro magnífico que lhe chega ao nariz. Mas não consegue. Não consegue ter o mais pequeno vislumbre esclarecido do que se está ali a passar. Não percebe. Cheira-lhe à mistura perfeita de natas queimadas e cozinhadas com aquela massa de ir ao forno, massa folhada, que a pouco e pouco, ali sentados nas cavalitas do Tejo e no colo da velha Lisboa lhes ia invadindo e conquistando as vias nasais, como se o emanar da essência viesse munido de perigosíssimas e ameaçadoras baionetas que os obrigavam a cheirar ostensivamente toda aquela pornográfica abundância.
Por sua vez, lá mais para baixo, junto à margem direita do Tejo, a nossa, a lisboeta, alguns grupos de estrangeiros menos interessados nas subidas e descidas frenéticas e dolorosas das colinas íngremes de Lisboa, regozijavam-se por verem os olhos serem invadidos por imagens das majestosas e amonstroadas taínhas do Tejo que se aburguesavam e se escamavam de delírio diante de um plácido e desenvergonhado rodízio gigante de merda, gentilmente servido pela enorme boca de esgoto que a traz direitinha ao rio.
No meio de todos estes entretantos bebiam-se refrescos geladíssimos e comiam-se gelados de pauzinho de madeira e embalagem colorida e o cheiro, esse, já dobrava esquinas no Cais do Sodré e começava a encaminhar-se para a parte superior da cidade. Devagarinho que há tempo para chegar a toda a gente.
Toda esta orgia de sabores e odores era emoldurada por um ténue e estranhamente agradável nevoeiro quente que pairava teimosamente pelas principais artérias e veias da cidade.
Da Avenida da Liberdade à Almirante Reis, da Fontes Pereira de Melo à Rua da Escola Politécnica, de Santos a Xabregas, da Estrela a Alvalade, de Monsanto a Algés, de Benfica aos Olivais. Tudo. Em todo o lado. Coberto. Repleto. Uma inundação gasosa e insolente, esbranquecida e quase crepuscular, que escondia dos olhos os adornos dos metros e metros de rua que, com este nevoeiro, se deviam ver da Lua. Era na verdade uma estranha e impassível aura que beijava Lisboa e que esta nunca havia antes visto.
A cidade tinha sido invadida por uma estranha e pegajosa praga de boa disposição e simpatia, de educação e alegria, que tinha crescido com o passar vagaroso mas feliz das horas.
Pessoas sorridentes, bem educadas, simpáticas, cordiais, carinhosas e gentis. Corria também pelas ruas o boato (que carecia de oportuna confirmação) de que ainda não se tinha ouvido sequer uma buzina, nem tão pouco sequer uma simples apitadela, nem carros, nem autocarros, nem camiões, nem táxis (os tipos mais rápidos a soltar a chamada apitadela do sinal verde), durante toda a manhã. Nos relatos dos transeuntes que vagueavam ciclica e orgulhosamente pelas ruas de passeio gasto da Capital, parecia que nunca se tinha visto ou sentido tal coisa.
Não se passaram multas, não se ofenderam as mães de ninguém, não se estacionou em cima do passeio ou nas passadeiras, os restaurantes e os cafés estiveram cheios, a comida foi boa durante todo o dia, os políticos não discutiram nem se ridicularizaram mutuamente na casa da Democracia… Enfim, o prólogo inverosímil de um dia quase perfeito.
Esperem, consigo melhor do que isto: os políticos estavam sentados no chão do miradouro do Adamastor, no Bairro mais Alto, com as mangas das camisas desajeitadamente arregaçadas, gravatas ligeiramente lassas e amarfanhadas, perdidos no deleite refrescante das imperiais que vertiam como verdadeiros comensais…

Continua…