“Porque a música diz, conta, mostra e faz parte de tudo… ou quase tudo nesta vida” – A minha playlist no Expresso

“Porque a música diz, conta, mostra e faz parte de tudo… ou quase tudo nesta vida” – A minha playlist no Expresso

Este foi o texto que escrevi para acompanhar a “playlist” de 10 canções que me pediram para escolher. Só vos posso desejar boas leituras ao som de boas músicas.

“Conheço as músicas pelo que estas me dizem, me contam, me mostram, me explicam. Habituei-me a escolhê-las assim. Depois há os clássicos, que revisito… sempre que me lembro de o fazer.

Passo demasiado tempo às voltas comigo mesmo para conseguir acompanhar tudo o que o mundo produz (e bem), mas vou-me mantendo conformado com a música que sei, que conheço de cor, que ouço e volto a ouvir vezes e vezes sem conta. Quem conta as vezes que ouve música de que gosta? Será sequer humanamente possível alguém dizer que não ouve música, que não gosta de música?

Por estas razões e por tantas mais escolhi estas dez. Número redondo e redutor que faz da escolha de quem escolhe um tormento enternecedor. Escolher música para ouvir é como escolher um livro para reler. Por vezes custa, por vezes dói, mas há dores e custos que têm mesmo de se viver.

Abro com o eterno e inimitável Bob Marley porque ninguém canta o amor à vida boa como ele. Pelo meio há um pouco de tudo o que me foi enchendo a vida até aqui. E fecho com Regina Spektor a falar de tempo. E tem sido muito o tempo que tenho passado a ver os episódios de “Orange is the new Black”, na Netflix, série à qual “You’ve got time” confere a perfeição que deve ser e ter um genérico de uma boa série. E não deixa de ser isto. Só isto. Somente isto.

Uma música é feliz quando não mais nos permite esquecer o quanto gostamos de a ouvir. Para mim, estas dez são assim.

Espero sinceramente que tenha tempo para ouvir esta playlist e tempo para não se esquecer de se lembrar que a vida é feita de música, de palavras, de sons, de vida, e que seria uma infelicidade tremenda viver num mundo que não este. Defeituoso e tormentoso. Mas musicado e musical.

Ouçam-na aqui!!

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A utilidade (extremamente) “duvidosa” da(s) Amizade(s)

A utilidade (extremamente) “duvidosa” da(s) Amizade(s)

Se há coisa que fazemos com elevada frequência até certa altura da nossa vida é travar ou iniciar relações de amizade com alguém. Coisa simples e facto plenamente consumado, certo? Não. Errado. Nada poderia estar mais longe da verdade na tentativa de descrever de forma simples um dos grandes dramas da existência humana. Porquê? Passo a explicar.

Não poucas vezes neste nosso sinuoso e tantas vezes tormentoso caminho nos deparamos com qualquer coisa que se atreve ordinariamente a colocar em causa a utilidade desse sentimento, tão amplamente reconhecido e mundialmente entronizado pela nobreza que carrega desde a sua natureza e que dá pelo nome de amizade. E é por aí mesmo que quero arrancar, pela (por vezes frequente) utilidade duvidosa da Amizade enquanto ocasional veículo de transporte de dor e de um sofrimento que não tem cabimento nem fingimento.
Porque ela também se alimenta disto. A amizade, evidentemente.
De dor. De tristeza. De sofrimento. De silêncio. De incompreensão. O que seria da amizade se não houvesse no peito um lugar chamado coração?

(REcentemente tive uma das melhoras provas de que este título que escolhi é, na verdade, estúpido, mas ainda assim… atrevo-me a continuar, até porque estou há mais de dois meses a escrever e a reescrever isto)

Se certo é que a incidência e a frequência com que fazemos amigos é extremamente elevada durante os primeiros anos da nossa vida social, não é menos correcto dizer que essa necessidade de fazer amigos à velocidade da luz vai (graças a Deus Nosso Senhor) diminuindo de forma inversamente proporcional ao número de anos que vamos somando pela vida fora.

Isto é, quanto mais velhos ficamos, menos vontade temos de conhecer gente nova, de fazer amigos novos, de abrir as portas do nosso admirável mundo velho ao Novo Mundo dos outros e de deixar entrar quem por acaso se atravessa e se cruza com o nosso caminho, independentemente das razões pelas quais o faz ou isso acontece. No entanto, não quero com isto dizer que não sintamos (com frequência) falta dos amigos que já temos. Isso, meus amigos, isso é coisa completamente diferente e conversa para outros escritos.
O que me parece indesmentível e inquestionável é que a capacidade de nos relacionarmos com os outros e de com eles estabelecermos e desenvolvermos relações de proximidade e de confiança, do zero, que entrem rapidamente no espectro daquilo a que vulgarmente chamamos amizade, não deixa de ser uma das mais nobres e notáveis skills que o ser humano possuí e que o torna absolutamente distinto de todos os outros habitantes não humanos com quem divide o planeta.

(as voltas que um gajo dá a um texto para não ter de começar logo por onde mais dói)

Pode por isso dizer-se que o expoente máximo das nossas relações de amizade deve andar ali entre o início da adolescência e os 30 ou 40 anos de idade. Não mais do que isso. Não muito mais do que isso.

Depois disso entramos (não todos, mas muitos) na fase em que começamos a avaliar e a catalogar os amigos que temos. É verdade. Isto acontece, mesmo que de forma inconsciente e meiga, com quase todos nós. É uma altura em que, regra geral, também fazemos uma espécie de limpeza geral da lista de todos os amigos que temos. Ou que julgamos que temos. Que, não poucas vezes, é praticamente a mesma coisa. Os telefones e redes sociais ajudam a acreditar que isto é assim tão simples. Que a “operação de limpeza” se resume ao delete no smartphone.

Quem já está ou já passou por esta fase da vida saberá perfeitamente que tenho alguma razão naquilo que estou a afirmar de forma tão estupidamente determinada.
A partir de certa idade começamos a tentar afincadamente perceber quem são, na verdade e de verdade, aqueles que conseguimos enquadrar nessa condição tão selectiva e particular que é a de sermos amigos de alguém ou chamarmos amigo a alguém.

E o que são então essas pessoas? O que representa cada uma delas no quadro da nossa passagem pela vida?

(repare-se que já vamos no 7º parágrafo e ainda nada… nem uma linha sobre o que me trouxe aqui e me fez estar durante quase 3 meses a escrever este texto.)

No início é tudo imaculado. É tudo limpo e puro. E tudo faz o mais perfeito sentido.
Com episódios de maior ou menor juízo. Com momentos de maior ou menor tensão. Mas são relações que assentam sobretudo em lealdade, presença, cumplicidade, desafio, identificação e aprendizagem mútua. Tudo vivido com a intensidade tão própria de quem tem as ganas da vida na sola dos pés.

São pessoas que passamos a tratar como se trata um membro distinto da nobreza, da realeza. São, e muitas acabam mesmo por sê-lo pela vida fora, algumas das pessoas mais especiais da nossa vida. Quanto mais não seja porque conquistam esse lugar e porque nos conquistam a nós. De forma única.
Cada amigo é uma vitória, uma aresta, uma árvore, uma estrada com curvas, rectas, subidas e descidas. Um amigo é uma vida.
São pessoas com quem partilhamos tudo. Alegrias, tristezas, vitórias, derrotas e demais conquistas. Isso tudo e… as meninas e meninos que nos passam pelas vistas. Artistas.
Depois há os “não insistas”, “não desistas”, “não me chateies”, “vai-te f***r”, “vai pró caral*o”. Dizemos isto tudo. Fazemos ainda mais. Somos capazes de ser tudo e de não ser absolutamente nada. De estar de boca aberta ou de a manter assim, calada e bem fechada. Por respeito. Por deferência. Por solidariedade e reverência. Por compaixão e por saudade. Porque somos amigos de verdade. E ser amigo, ser verdadeiramente amigo de alguém é muito mais do que simplesmente repetir a frase que acabei de escrever.

Mas o que me traz aqui não é – nem de perto nem de longe – a vontade de dissertar A Capella sobre o conceito de Amizade. Sobre o seu significado. Não.
O que me faz voltar a estas linhas é o particular, não o geral.
Comece-se então este texto como se na primeira linha se estivesse.

São amigos que me fazem escrever isto e não a Amizade. Porque é por eles, sempre por eles, pelas memórias de tudo o que esta para trás e tem o peso que pesa uma vida, é por eles que voltamos sempre a lugares onde já fomos, sentimos e fizemos de tudo um pouco.

É para os saudarmos, lembrarmos, homenagearmos e para os fazermos felizes que fazemos as coisas que fazemos. É por eles que quebramos barreiras, que fazemos asneiras, que bebemos e comemos durante noites inteiras. Que nos metemos em coisas com que nunca sonhámos.
É por eles.

Tenho um amigo doente. Grave e seriamente doente. Severa e injustamente doente. Cancro, uma vez mais!
E não é um amigo qualquer. É um amigo de há muito. De uma amizade com muitos anos. De um tempo em que não se pensava nas consequências nem nos danos.
Do tempo em que só se pensava no acto e no feito e, possivelmente, no jeito e no efeito e no acelerar de rompante da máquina que temos no peito. Tudo o resto era paisagem. Tudo o resto era miragem. Tudo o resto era desperdiçar tempo que se podia gastar a fazer mal ao corpo e “bem” ao cérebro. Uma coisa é a beira da estrada a outra é a Estrada da Beira. E se eu gosto da Estrada da Beira. E tanto que andei na beira da estrada. Bem ou mal iluminada.

Dizia eu que é um amigo de longe, de um tempo em que não se partilhava nada nas redes sociais, em que as redes sociais eram o muro do Manel, a roda de tendas no Verão, o amontoado de carros à porta do café, o inquantificável número de cabeças presente numa esquina do Bairro Alto, no Adamastor, na Flamenga, claro. Sempre ela. A Flamenga. O bairro onde crescemos. A rua que nos dá e nos tira.
Um tempo em que tudo era tanto mais. Um tempo em que as experiências, boas ou más, nos ficavam gravadas – muitas vezes a sangue, suor e lágrimas – nas veias, no pensar, no sentir, no dizer, no não dormir, no deitar já de dia e acordar já de noite.

É por eles, sempre por eles e quase só por eles que fazemos merda, que dizemos merda, que ouvimos merda, que comemos e bebemos merda, que vamos a sítios de merda, que nos metemos com gente de merda, que temos noites ou dias de merda… enfim. É com eles e muitas vezes por eles, porque nós nem temos vontade de ir.

Tenho um amigo doente. Muito doente. Doente com a doença do século. Cancro. Pois claro. Vai da cabeça aos pulmões, passa pelo que entre eles se intromete e e vai desaguar brutalmente no estômago. Puta que pariu esta doença de merda. Puta que pariu o ter de olhar para os olhos de um amigo e de ver a dor que ele esconde. Ver o medo que ele tapa mas não nega. Que ele sente mas a que não se rende. Herói! És um herói meu grande cabrão!
O cancro (já te disse que não escreverei o teu nome com maiúscula a não ser que calhes no começo de uma frase) De apetite voraz. Tremendo. Horrível e horripilante. Insolente e incapacitante. Não há como ser benevolente para com uma monstruosidade indigna, cobarde e tamanha. Não há como me manter sempre sorridente perante tal patranha.
Não sei o que lhe dizer. Confesso. Não sei mesmo. Ou melhor, saber até sei, mas não consigo, muitas vezes, dizer o que quero. Mas disse muito há não muito tempo. Mas por saber que foi episódico e que seria episódico sempre que o visse, e como vou estar com ele este fim-de-semana, nada mais acertado do que publicar isto agora.
E foi por me conhecer já bem, por saber que fraquejo nestas merdas, foi por isso mesmo que lhe pedi autorização para vir até aqui desancar a existência e praguejar com a vida.  por uma razão muito simples: Não sei fazer mais nada a não ser reagir assim. Escrevendo. Com o passar dos anos estou a tornar-me numa pessoa a quem custa cada vez mais ter de se expressar com profundidade sobre assuntos profundamente delicados de outra forma que não esta. E isso não é totalmente animador.

Ele ficou felicíssimo da vida. Todo contente e orgulhoso por ter um amigo que escreva sobre ele, para ele, por ele. Que conte o que é isto de estar doente. Que conte o que se sente. Até porque também eu já passei por essa aflição embora numa outra proporção. Mais leve. Mais simples. Menos aterradora e terrível. Muito menos aterradora e terrível. “Resolveu-se” a coisa com uma cirurgia.
Contudo, deste lado, o prisma é todo ele bem diferente. Agora não sou eu e não é de mim que falo. E é me sempre mais fácil falar de mim do que assumir o pulso à dor de outra pessoa. Sobretudo quando são pessoas que te dizem alguma coisa. Neste caso, diz-me muito. Uma espécie de tio mais novinho. De primo. De sei lá eu o quê. São estas pessoas que teimam em se enfiar na tua vida e que dela teimam igualmente em não sair de forma alguma. Pessoas que levarei comigo pela vida fora e pela morte dentro. Curioso como se usa esta palavra tantas vezes em conversas tão inócuas e como passas a ter medo de falar nela quando falas com alguém que a tem em risco. Vida.

Como se faz para não ficar devastado com o risco real (mesmo que ecoe surdo apenas no nosso pensamento) de perder alguém com quem já passámos tanto?! Como não chorar e fraquejar e tremelicar das pernas quando a ameaça é real? Tremenda, estúpida e assustadoramente real. Incompreensivelmente próxima e palpável, quase.
Como não sofrer quando o mundo lhes quer mal?! Como não gritar e espernear quando Deus aparentemente se esquece de quem também nós nos esquecemos na fúria velocista dos dias que correm por nós e que tantas vezes nos atropelam?

Como é que se lida com isto tudo. Como? Em silêncio?! Talvez. Muitas das vezes é a única forma possível de lidar com esta violência toda. Muitas vezes só mesmo assim. Calado. De olhar gélido e amedrontado. O que é que posso fazer mais?

Desde que comecei a escrever isto que já soube de mais dois casos de amigos doentes. Com a mesma merda. Com cancro. Em pequenino que não merece mais nada. Mais veleidade nenhuma. Já foi assim quando foi comigo. No estômago. Esta abstruza doença não pensa. Não tem memória. Esquece com uma desfaçatez e uma insensibilidade que entorpecem até o mais corajoso dos homens.

E nisto. O medo é meu. É nosso. É de todos. Quando um sofre, sofremos todos. Protegemos. Cuidamos. Ralhamos e barafustamos. Mas nunca, em momento algum, nos viramos costas quando precisamos uns dos outros.

O que será de nós se deixarmos de ser assim?
O que será de nós se não formos capaz de dizer presente.

A amizade serve de pouco nestas alturas. Ou então é mesmo tudo aquilo que precisamos sem termos a noção disso mesmo.
Já a fé, talvez seja ela a única que te vai dando alento mas, em dias de vento, a fé ganha asas e voa para sítios distantes, carregando no dorso o peso de meia-humanidade e de toda a nossa amizade.

A Amizade tem valor demasiado para ser engavetada num título de um texto sério e real. Cru. Nú. Integral. Não fiz por mal mas… é o que é.

Carta à Selecção e ao seu capitão

Carta à Selecção e ao seu capitão

2016-05-20-Portugal-selecao-nacional

Olá a todos!
Começo esta carta dizendo-vos que passo e perco horas e mais horas a tentar imaginar a emoção que vos correu e corre nas veias, quer durante (já a ganhar por 2-0) quer no final do jogo com o País de Gales
A emoção, a euforia, a alegria, a honra, o orgulho, o… eu sei lá mais o quê que vos deve ter passado pela cabeça (capitão, pela tua cabeça cruzes credo… passou aquela bolinha bem feliz por te ver lá em cima) no relvado, e já depois, fora dele, a caminho de “casa”… em Marcoussis.
Posso dizer-vos que eu estava em altas… como se costuma dizer.
Eu, os meus vizinhos, as pessoas na minha rua, na estrada, tudo a apitar com os carros, largaram-se foguetes, apanharam-se as canas, enfim… uma maravilha em bom português, como nós tanto gostamos!
Vocês nunca passaram por isto, alguns de vocês até podem ter passado em 2004, quando eram “meninos” e tinham de ver os jogos na televisão, ou ouvi-los na rádio, como fazem todos os outros vossos compatriotas que não podem entrar no lote dos 23, ou sentar-se nas bancadas dos estádios em que vocês jogam… é que os bilhetes ainda são caros pra caraças… mas dizia-vos que foi uma festarola e pêras.

(Aqui em casa não porque com uma bebé de 1 mês e meio não se pode andar em grandes aventuras pela noite dentro que depois, dormir, tá quieto…)

Mas olhem que há gente que sofre mesmo com estas noites hein, gente que se emociona de verdade! De tal maneira que sentem no peito uma qualquer coisa inexplicável, que parece querer rasgar-lhes o externo de par em par e sair cá para fora para gritar, ainda mais alto, o nome do nosso tão maltratado mas tão adorado país. Sim, somos um povo difícil e vocês sabem-no bem. Sabem-no porque na grande maioria, mesmo apesar de muitos de vós terem emigrado em busca de uma vida melhor, já provaram um pouco da complexidade que temos enquanto Nação.
Muitos de vós já foram vaiados, assobiados, gozados, criticados, em alguns casos não dá mesmo para perceber o que vos fez e faz continuar a querer vestir essa camisola… O Quaresma que o diga… e recentemente o Bruno Alves também…
Muitos outros, no vosso lugar, já teriam desistido (e alguns desistiram mesmo) há muito.

Mas é o que é, ou seja, as coisas são como são e Nós somos mesmo assim… Gostamos muito de dizer mal. De criticar. De dizer mal e criticar. Só porque sim, só porque temos uma veia (ou mesmo uma mão cheia delas) que nos empurra para estes comboios de anormalidade pegada. Não é só convosco. Somos assim uns com os outros. Não reconhecemos valor aos nossos amigos, mas sim aos amigos dos outros. Não reconhecemos a arte, a criatividade, o sacrifício daqueles com quem passamos mais tempo, dos nossos familiares, dos nossos companheiros, em vez disso, buscamos e encontramos sempre a excelência nos de fora, naqueles que não conhecemos de todo. E isto é tanto mais grave porque é transversal a todos os campos, estádios, estantes de livrarias, paredes de museus, parangonas de jornais, tudo…
Não creio que o façamos por maldade (pelo menos quero acreditar nisso), mas sim porque achamos que esse é o natural caminho para a diferença, que isso faz de nós seres muito melhores e mais altivos, cheios de massa crítica e de audácia discursiva, cheios de visão e de independência, mas no meio desse achismo todo esquecemos o mais importante, citando o Miguel Esteves Cardoso, esquecemo-nos de “como é linda a puta da vida!“.

Mas não fica por aqui: esquecemo-nos de que, em primeiro lugar, somos um país pequenino. Ok, a Islândia é bem mais pequena e o País de Gales também, mas isso não interessa nada, o que interessa é que, para o efeito, somos frequentemente vítimas de bullying quer por parte dos alemães (felizmente eliminados pelos franceses), quer por parte dos franceses (se pudessem perder os dois de uma vez…), e nisto, nisto nem os aliados daquela que é a mais antiga aliança do planeta nos defendem, aliás, agora até viraram costas à UE (esse tão profícuo órgão de soberania de um continente decadente)…
Esta gente (agora em processo de #Brexit) só fala de nós e connosco por causa do Algarve, do vinho e… da Maddie McCann…
Andam sempre “preocupadíssimos” com os nossos “défices enormes”, arranjam cães de fila que se mostram doidos por nos morder os… calcanhares! (Aiiii… aquele teu calcanhar contra a Hungria, capitão, que golo! que golaço, que “pedacinho”, como se diz lá na tua terra) de futebol maravilhoso, só ao alcance de jogadores como tu, e são tão poucos os que tiveram tudo aquilo que tu tens, mas já lá vamos;

Dizia que somos também aqueles que pagamos os devaneios engravatados e sem escrúpulos de bancos atrás de bancos, unicamente porque nos dizem que temos de o fazer, e nós, obedientes, pagamos e assistimos impávidos e extremamente serenos ao esventrar da nossa sociedade e do nosso povo às mãos senhores de belos fatos e (ás vezes) belas gravatas. Senhores esses que conduzem (ou são conduzidos) belos carros, têm belas casas, muitas vezes em belos sítios onde nos seria impossível sequer montar uma bela duma tenda.
Mas mesmo nessas alturas, nas piores agruras, parece haver apenas uma coisa capaz de nos “unir”… ou melhor, unir não que é demasiado forte e um pouco falso até, mas que é capaz de nos juntar, isso sim, a todos, num ambiente de (alguma) concordância e sofrimento, a Selecção Nacional!
Porque o sofrimento faz sempre parte de toda e qualquer campanha da nossa Selecção em grandes competições! É a representação mais fiel ao próprio país que o futebol europeu conhece… digo eu.

Pois é!
Por isso, o que vos digo é que se nos tiram o futebol e a alegria destas emoções fortes que nos parecem ter sido predestinadas, talvez deixemos mesmo de ser país, deixemos mesmo de ser povo, deixemos de nos juntar e passemos a viver activamente a infelicidade a que esta Europa nos parece querer forçosamente condenar.
Mas, no meio disto tudo, há um problema: é que somos muito bons com a bola nos pés.
Somos muito bons a fintar as previsões e as opiniões que nos destinam e nos vaticinam constantemente a desgraça, o falhanço, a consternação, somos muito bons a meter pela esquerda quando tudo parecia prever que íamos pela direita, somos muito bons a aguentar, a esperar, a ludibriar, a encantar, a fazer esperar e a saltar então, a saltar somos do caraças… não é capitão? Não é Bruno (tu que talvez saltes ainda + alto que o capitão)?
(Reparem na cara do Danilo Pereira e do Robson-Kanu a olhar para o Cristiano “Air” Ronaldo lá em cima pendurado na janela do 2º andar à espera que a bola lá chegue).

E assim fomos, saltando… de jogo em jogo, como saltam os sapos de nenúfar em nenúfar, pela vida fora, e nós pelo torneio adentro. E já estamos na final.
E agora? Agora. Agora não há outra coisa a fazer que não ganhar esse jogo de Domingo. Vão esgotar-se stocks de cerveja, de entremeadas e bifanas, de gritos e cânticos, de sonhos e esperanças, mas nós, há muito que nos vimos preparando para estas andanças porque temos no nosso capitão um voraz caçador de troféus, de finais, de recordes, de mais e mais e mais.
Nada lhe chega nem lhe é suficiente e ainda bem que assim é… porque é essa persistência que o faz, aos 32 anos, ser o jogador + internacional, o maior goleador, o recordista em presenças de fases finais de europeus, ter 3 bolas de ouro, ser o melhor marcador de sempre do Real Madrid… e eu sei lá o quê mais!
É o expoente maior do nosso futebol, mas hoje está diferente, está + homem, mais maduro, + companheiro, mais amigo, + sério, mais capaz, + frio, mais solidário, + atento, mais tudo… E o conforto que deu ao Bale (na foto), que o tem como ídolo, diz muito daquilo que é hoje o “nosso” Cristiano Ronaldo.

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E assim saltámos por cima dos perigos e fatalidades que nos apontaram os eternos arautos da desgraça (que a esta hora devem estar piursos porque lá nos apurámos para a final), saltámos por cima de todos os que nos diziam que não íamos a parte alguma, que não merecíamos, que tínhamos era de deixar de fazer poses e fitas e ir para casa para as férias benditas, porque isto, aquilo e aqueloutro… Seja lá o que for que isso queira dizer… Passámos ao lado (ou mesmo por cima) dos invejosos, dos nojentinhos, dos que “cagam postas de pescada” e dos que criticaram tanto e tudo e todos e que agora, agora saem de mansinho…
Driblámos os camones que nos odeiam e nos invejam, mas que têm de se habituar aos merdosos dos tugas, quanto mais não seja porque nós chegamos sempre lá. Muitas vezes chegamos de Zundap, a meio gás, meio tortos e a andar de lado, mas chegamos, e agora, agora ninguém nos pode roubar a possibilidade de sonhar ainda mais alto, de sonhar que é desta, que desta é que é, que nos vamos vingar da tremenda injustiça que sofremos no nosso próprio quintal em 2004.
Éramos os donos da bola e vieram cá aqueles “patetas” toscos daqueles miúdos gregos roubar-nos a redondinha, e de caminho levaram também a taça enquanto dormíamos hipnotizados por tanto apoio, pelos cavaleiros de Alcochete, pelos barcos no Tejo, os helicópteros, o cordão humano a vir sabe Deus de onde…

Bom, seja como for, confio em vocês!
Confio que vão fazer tudo o que estiver ao vosso alcance para trazerem para casa a Taça! Confio que vão deixar tudo naquele Stade de France, que vão encher-se de coragem para derrotar aqueles “macacos chauvinistas” que tanto nos adoram e que tantas vezes já se riram à nossa conta.
Vamos obrigá-los a começar a semana de olhos postos no chão quando entrarem em qualquer estabelecimento português no dia seguinte.
Os nossos emigrantes merecem isto, merecem mesmo! Nós merecemos isto! Merecemos mesmo!
Mas vocês, mais do que quaisquer outros, merecem a glória da vitória e a honra que tem um campeão. Pessoa disse-nos que para sermos homens, temos de ser inteiros, e eu estou inteiramente convicto de que vocês são homens mais do que suficientes para enfrentarem o desafio das vossas vidas profissionais… com a sorte tremenda de terem atrás de vocês, todo e qualquer “marmanjo” ou “marmanja” que arranhe a língua portuguesa a apoiar-vos até que a voz nos doa!!

Capitão, puxa por eles homem, puxa por eles que eles seguem-te para onde quer que tu vás! E o povo está contigo… como nunca esteve antes!

Como isto já vai compridote…
Deixo-vos um abraço, a todos sem excepção, deste que vos admira e que sofre convosco…

P.S – Fernando, sem a tua coragem nada disto seria possível.
Por isso, por tudo o que foi feito até agora, muito, mas muito obrigado!

Ver e sentir José Saramago… nas palavras de Pilar

Ver e sentir José Saramago… nas palavras de Pilar

Sexta-feira.
Final de tarde cinzento rato, de um final de uma semana molhada, encharcada, ensopada esta segunda semana de Abril.
Uma semana dentro de um mês que podia perfeitamente ser alienado do calendário.
Saio de casa e deixo a minha mulher grávida a descansar. Os 8 meses e meio de gravidez já lhe vão pesando as costas, os pés, as mãos… mãos que começam a inchar e tornar incómoda a convivência com a aliança.
Subo os túneis do Grilo e não sabendo bem como consigo fazer a carrinha serpentear pelo trânsito que se precipita enlagartado para a saída de Sacavém/2ª circular.
Daí à Casa dos Bicos é um tirinho.
O que vou lá fazer? Assistir a uma conferência intitulada “Conversas sobre o futuro do Jornalismo”, com o jornalista galego Alfonso Armada e, do nosso lado, António Mega Ferreira.
O primeiro episódio desta deslocação acontece imediatamente a seguir a estacionar. Detenho-me dentro da mesma ainda durante alguns minutos para devolver uma chamada que havia perdido durante a viagem. Estou eu ao telefone e, qual não é o meu espanto quando me aparece à janela do carro um enfarruscado, mas nem por isso menos desavergonhado arrumador de carros.
Antes de mais devo dizer e confessar que a minha simpatia para com estes tipos é muito próxima dos limites mínimos, directamente proporcional à tolerância que lhes tenho, sobretudo quando, como foi o caso, me aparecem tal e qual o melhor dos paraquedistas, vindos sabe Deus de onde, com o intuito único de me virem “enfiar” a mão no bolso com a frase mítica: “Oh amigo, não tem uma moedinha?”.
Neste caso, e dado que se plantou a mirar-me mesmo junto à janela do lugar do condutor, pôde ver-me ao telefone e assim decidiu arrepiar caminho de volta ao outro lado da estrada, de onde de resto tinha saído, e onde então se estacou expectante, aguardando a minha saída.
Terminei a chamada, peguei no meu bloco de notas, abri a porta e vi-o logo pelo canto do olho esquerdo. Sim, do esquerdo. O canto do olho direito não vê a ponta de um corno. E tranquei o carro.
Ainda no meio da estrada pude escutar um balbuciar de qualquer coisa de onde apenas consegui entender um…
“Podias era dar-me…” Erro número 1. Falou comigo utilizando insolentemente a 2ª pessoa do singular. Procurou quebrar o gelo remetendo para uma proximidade inexistente. Confesso que é coisa que me aborrece. Não suporto mesmo que o façam. Sobretudo quando o objectivo é tão somente sacar dinheiro por um serviço que nem sequer se prestou. A sem vergonhice pode atingir níveis estratosféricos!
– Desculpa? – Digo-lhe, com a sobrancelha arqueada (sinal clássico, evidente, e tão bem conhecido daqueles que me conhecem de que não estou a achar piada nenhuma à conversa).
Podias era dar-me umas moedinhas! – Repete com convicção e sem qualquer vergonha nas fuças. Sem meias medidas avanço na direcção dele, estaco-me diante dele e pergunto-lhe muito calmamente:
– Mas o que é que tu fizeste para me ajudares a estacionar o carro? Posso saber?
Ohhh… qué dizer, tamém não custa muito dar umas moedinhas…
– Não te dou moedinhas nenhumas e se me fazes alguma coisa ao carro levas com essa muleta na cabeça, estás a ouvir? – Viro-lhe costas assoberbado pela indignação e pela chatice de ter de aturar coisas destas numa das zonas de que mais gosto na minha cidade e, sobretudo, chateadíssimo porque aquele “animal” nem sequer teve o cuidado de perceber que eu estava prestes a acrescentar história à minha vida. Não teve sequer a decência de pedir apenas 1 moeda, têm de ser várias, mais do que uma, usando paulatinamente o plural como se fosse de conhecimento público que agora já temos de deixar moedinhas, várias, em farto número, tudo em nome da satisfação da sede do vício, tudo para que o “menino” possa refastelar o esqueleto e entreter o reboliço de que se alimenta o desgrenhado pensamento preocupado apenas com a droga de que precisa.
Tenho o “azar” de conseguir identificar um viciado em heroína à distância, do outro lado da estrada. Pelo olhar vazio e vítreo, obcecado na satisfação constante da ressaca que lhe corrói as entranhas; pela postura física; pela ausência total do compêndio de regras sociais que nos faz respeitar o próximo. Pela capacidade que o vício lhes dá de deitarem ao rio (ali tão perto) a dignidade e de se prestarem a tudo para arranjar dinheiro para a próxima dose.
Chateado com isto tudo lá avanço rumo à Casa dos Bicos onde funciona nobremente a Fundação José Saramago. Lamentavelmente foi a primeira vez que nela entrei e não podia ter ficado mais impressionado, mais convencido da grandeza do “nosso” Nobel da Literatura.
Ao contrário da maioria dos portugueses tenho a feliz felicidade de gostar de enaltecer os feitos dos meus irmãos de terra. E Saramago, goste-se ou não do estilo, foi o único homem nascido nesta terra que conseguiu atingir o expoente máximo de um homem que se embrenha nos sinuosos e solitários caminhos da Literatura.
Das escadas que dão acesso ao mundo letrado do autor, a tudo o que ali se expõe e se vê, a memória de José Saramago é permanente e vive ali, naquele histórica e apalaçada Casa dos Bicos que tanta coisa já foi na sua existência já cansada mas majestosamente reforçada e remodelada!
À entrada há um segurança que pronta, zelosa e energicamente nos pergunta ao que viemos:
– Sou jornalista. Venho para a Conferência, sim senhor. – Retribuo-lhe a curiosidade.
– Então é no 4º andar. Sobe aqui as escadas, e depois volta a subir até ao 3º andar, onde está a loja. Eles dentro de alguns momentos já devem abrir o espaço e então pode subir até ao 4º andar onde será a Conferência.
– Muito obrigado meu caro.
– Está cá a seu dona Pilar! Disse com um olhar meio atrevido.
– Subo as escadas e logo me deparo com isto:

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E, para quem gosta de palavras e do quão bem elas encaixam no mundo, isto tem significância, se tem.
Vou por ali acima e chego então à antecâmara da Conferência onde me espera a espera pela abertura da sala. Percorro atentamente o espaço e leio, leio, leio, coisas atrás de coisas, papéis, postais, capas de livros, a cópia emoldurada do Prémio Nobel… Credo! Até me arrepiei! Confesso!

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Não é todos os dias que se pode ver tamanho espectáculo para os olhos!!
Depois seguiu-se isto… que também me deixou parado a olhar por mais uns instantes.

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Ali fiquei até me chamarem para o andar de cima. Ali me detive a imaginar o que teria sido a coexistência literária de Pessoa e Saramago… Meu Deus! Se os escritores desta dimensão pudessem coexistir, co-criar, co-escrever, conversar…!
Depois ainda houve um momento curioso, em plena loja, no 3º andar. Passei por ele ao de leve, mas não pude deixar de o gravar, de o registar. Duas meninas, duas jovens universitárias, travaram-se momentaneamente de razões (coisa simples e em nada violenta), ali entre o Memorial do Convento, O Ensaio sobre a Cegueira e o Ensaio sobre a Lucidez, porque, de acordo com uma delas e com o pouco que consegui ouvir mas ainda assim suficiente para conseguir reter, um determinado rapaz estava bastante diferente e inacessível desde que tinha começado a dar-se com a que estava mais perto do Memorial do Convento e do Homem Duplicado, tudo isto debaixo do olhar atento de Caim.
A amiga bem que se tentava explicar mas estava a ser alvo de uma acusação frontal, sem meias palavras, mesmo antes de ambas subirem para o andar de cima e se sentarem lado a lado a assistir à conferência. Ai o amor e a rejeição que nos chegam a toldar o pensamento até perante aqueles que supostamente nos ladeiam os dias. Aquelas meninas ter-se-ão resolvido, espero.
Chegado lá acima e tendo de imediato procurado um lugar mais resguardado mas que, simultaneamente, me permitisse ver e ouvir tudo o que ali se fosse passar, saquei do bloco e comecei a preparar-me para tirar notas.
Olhei em redor, vi a composição da sala, tweetei sobre isso e sobre a média de idades que a compunha e nisto ouço uma voz em castelhano, feminina, nervosa mas frontal, insegura mas sólida, com pouca vontade de falar, mas com um ressoar metafísico que imediatamente me fez virar a cabeça na direcção do seu som. Era Pilar del Rio e os meus olhos não podiam crer em tal coisa. Estava ali. Em pé. A apresentar a conferência. A agradecer a presença. A ser pura e genuinamente a anfitriã, a Mestre de Cerimónias que envergonhadamente se retira depois de feito o que havia a fazer. Fiquei incrédulo. Atónito. Assoberbado pela presença quase metafísica da Musa de Saramago.
Foi como se estivesse a olhar para a Ofélia do Mestre Pessoa, a Maria Sans de Hemingway… Desconcertante! Absolutamente desconcertante!
Não sou um tipo impressionável. De todo. Vinte e cinco minutos antes adverti o arrumador da possibilidade de lhe dar com a muleta na cabeça… Não sou de facto muito impressionável – neste tipo de coisas – mas sou tremendamente sensível a estas metafísicas da vida e Pilar, Pilar é a representação real de Saramago, é o prolongamento natural das suas frases intermináveis, da sua ausência pontual.
Pilar Del Rio. Não, claro que não fui falar com ela. Que ideia. A metafísica não tem voz para a humanidade! Toda a gente sabe isso. Aproximar-me-ia de Pilar para lhe dizer o quê? Essa agora…
Respirei fundo, encostei-me na cadeira e ali me deixei ficar a ouvir Alfonso Armada e António Mega Ferreira que tão bem falaram.
Que tão boas ideias deixaram. Que fizeram valer a minha deslocação. Que justificaram o ter saído de casa e deixado a minha mulher super grávida em casa durante umas horas para me ir sentar numa sala cheia de desconhecidos, em dia de folga, e ouvir falar sobre o futuro da minha profissão. Porque não?

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Sobre a mesma, notas importantes:

– Pensamos com palavras e é com palavras (e cada vez mais com imagens) que o jornalista conta o mundo aos outros.
– O que torna grande um jornalista é a capacidade que o mesmo tem de conhecer as várias realidades dentro da realidade da vida!
– Será que a maneira de ler o mundo vai influenciar e alterar a maneira de contar o mundo?
– Estará o digital a transformar (para não dizer alterar) a morfologia do nosso cérebro?
– O choque geracional entre Jornalistas pode determinar a luta pelo futuro do Jornalismo?
– Quem vai fazer Jornalismo no futuro?
– A perda de hábito de fazer coisas manualmente.
– A comodidade do processo comunicativo no século XXI

Que me desculpem os que contavam saber mais sobre a conferência… mas, se queriam de facto saber mais… deviam ter lá estado.
Quanto a mim a (senhora) Pilar deixou-me assoberbado, embasbacado, petrificado. Parece até que estive noutra sala ao lado.

O regresso dos Pastéis de Nata

O regresso dos Pastéis de Nata

Escrevi e publiquei este texto em 2009. E agora, praticamente 6 anos volvidos, e porque a frase “Naquela tarde Lisboa cheirava abundantemente a pastéis de nata” nunca mais se desamarrou do meu pensamento, resolvi voltar a ele e nas últimas semanas tenho-o trabalhado de forma intensiva e exaustiva, tanto quanto o tempo que me sobra o permite. Lendo, relendo, escrevendo e reescrevendo, parando e recomeçando, afinando o gosto e sabor do pastel, o cheiro da massa, o óleo que impregna o papel de arroz e nos engordurece as pontas dos dedos que gostamos de lamber sofregamente para aproveitar cada bocadinho de sabor que o pastel de nata bem feito nos oferece. A sensação de incompleta satisfação que advém depois de se comer o primeiro e naquele espaço de tempo tão curto e imediato, qual reflexo pavloviano, que nos conduz ao desejo de ir atrás do segundo, sem medos, sem receios, guiados apenas pelo desejo feroz de insaciabilidade que nos força a voltar ao balcão e a pedir mais um, perante o olhar satisfeito mas ao mesmo tempo inquisitório do empregado de balcão, que, invejoso, consciente do que está a vender, nos observa e nos inquire com os olhos e se morde, de boca fechada, com as papilas gustativas encharcadas e num pré afogamento salivar de tanta cobiça. Foi tudo isto que me fez recuar no tempo e dar a todo este tempo mais tempo do que o tempo que já tem.
Por que razão é que se volta a trabalhar um texto tanto tempo depois de o ter escrito? É simples. Para ficar melhor. Para ser melhor! Porque pode sempre ficar melhor em qualquer uma das milhentas partes da miríade de sensações  e imagens que o compõem. Porque cada um de vós merece que o faça. Assim, foi com gozo e alegria que voltei aqui, para tentar ser o mais real e fiel possível dentro da enormidade da situação que vos trago. Quis que o texto ganhasse mais cheiro e mais sabor, mais gordura, quis também que a parte queimada se tornasse tão nítida que parecesse mesmo que o estavam a cheirar, a ver, a provar, que estavam a sujar os dedos e a encher os intervalos dos dentes de pequenas partículas enegrecidas como o carvão e que tanta gargalhada provocam em quem orgulhosamente exibe a boca cheia de “escorbuto”.

Voltei para aprimorar a descrição do tom da massa folhada e do cheiro inconfundível que o pastel nos oferece e dar-vos a possibilidade de, através da visualização a que vos tento fazer chegar, e com palavras abundantemente carregadas de descrições insistentemente pormenorizadas quanto as que vos trago, fazer com que seja onde for que estejam a ler, consigam sentir, reter e imaginar o cheiro e sobretudo o delicioso sabor que provamos na incrível experiência que é a de comer um pastel de nata dos verdadeiros.
Quis pretenciosamente tentar fazer-vos sentir a textura e a gordura que dele pinga quando o apertamos na segunda trinca, naquele momento que tem tanto de arte como de puro lambusar, e com tudo isso permitir que a construcção imagética a que vos remeto e que alcançam remetidos que estão à vossa individualidade, não seja irremediavelmente comprometida por uma distorção da matéria prima com que a estão a trabalhar, isto é, se não for capaz de vos conduzir ao caminho que pretendo que consigam seguir, abrir-vos-ei as portas para uma errada projecção mental que vai deturpar por completo o sentido mais profundo do que quer que seja que eu estou para aqui a tentar dizer, ou melhor, a tentar (re)escrever.
Ora, feitos que estão os imperiosos e indispensáveis esclarecimentos, retome-se então a corrente da acção que ia a cheirar tão bem.

É. Era para ser uma tarde normal mas acabou por ser exacta e precisamente o contrário.
Foi pois naquele magnífico e amarelado entardecer que a imperial e majestosa cidade de Lisboa foi supreendida na sua beleza, por um cheirar impressionante e abundante a pastéis de nata. Atenção que quando digo pastéis de nata, são mesmo pastéis de nata e não pastéis de Belém ou tartes de nata, ou outros tais que se tentem assemelhar aos primeiros.
Importa que se perceba desde já, neste preciso e exacto momento, do que é que vos estou a falar.
Seria um erro tremendo e de proporções incalculáveis tentar vir para aqui a cantar à desgarrada melodias apaixonadas e saborosas dedicadas aos pastéis de nata sem que fosse capaz, ou tivesse em atenção, a necessidade imperativa de delimitar a ideia e a imagem que brota desta mesma junção de palavras e que forma caprichosamente a imagem magnífica de um suculento, ainda morno e ligeiramente chamuscado pastel de nata, humildemente pronto para o próprio fim de vida que se lhe conhece, que compreende um desaparecimento frugal e regra geral muito apetitoso dentro da boca e depois a sua amaragem nos recantos agradecidos e emocionados do estômago de alguém esfomeado ou, tão casuisticamente de um guloso qualquer.
Podem pensar que se trata de um preciosismo pateta este, ligeiramente despropositado até, ou mesmo que estão diante de uma intransigência infantil e, sobretudo isso, de um discorrer trapalhão, feito mais com a boca do que com a razão. Ou então talvez pensem na verdade que se trata tão somente de um manifesto anti-pastéis de Belém, ou algo que teimosamente se lhe assemelhe… Mas não! Não é absolutamente nada disso. Posso desde já garantir-vos que se alguma destas coisas vos passou pela moleirinha então estão profunda e redondamente enganados, se por acaso vos passou algum destas cogitações pela Alma então digo-vos que estão equivocados. Adoro pastéis de Belém, com sumo, com chá, sem sumo, sem nada, com açúcar, sem canela. Mornos. Estrelicando e crepitando com a sua indecência por entre os dedos tremelicantes.
Mas não era de todo esse o cheiro que estava a tentar colonizar Lisboa naquela tarde pachorrenta, como tantas são as tardes de ócio despudorado que Lisboa conhece no pico do Verão.
Se não pensaram em absolutamente nada e estão simplesmente presos à imagem que já vos dei de um pastel de nata acabadinho de sair do forno e já ligeiramente menos quente e assim possível de se comer, então tudo vos está a correr na perfeição. Caso contrário também… não é caso para desanimarem. Não se esqueçam é de não limpar as mãos às calças ou à camisola, que o bom do pastel é sempre extrema e agradavelmente gorduroso.

Naquela tarde, Lisboa cheirava impressionante e abundantemente a pastéis de nata. Um cheiro quente. Um enebriante e perturbador odor que provocou, na primeira instância da sua constatação, uma reacção primeiro de espanto particular entre grupos distintos de pessoas, e depois uma reacção geral mas controlada e em cadeia de milhares que foram, com o passar dos minutos, sendo “apanhados” na doçura incomparável do cheiro que se propagava pelo ar e por toda a cidade, como se brotasse de todas as chaminés, de todas as casas, de todos os bairros, de todas as ruas da maravilhosa Lisboa. Foi como se a capital deste Império de Sol e de bem receber encostado aos braços do Atlântico e com o tapete do Mediterrâneo cabalmente deitado a seus pés, tivesse sido invadida por um Exército furioso, armado até aos dentes com tabuleiros metálicos, devidamente compartimentados e untados, prontos para receber as iguarias feitas de massa folhada e recheio adocicado de creme de natas.
Quente, mas não muito, assim a modos que mais para o morninho… e com um cheirinho que o acompanha que faz crescer no palato cascatas intermináveis de saliva que, de forma ansiosa, escorrem dentro da boca de um guloso. Se não era isso só se podia tratar de alguma tentativa a que previamente foi garantido o alcance de sucesso, de bater um daqueles recordes do Guinness, dos quais nós, portugueses, somos especiais adeptos, uma vez que parecem não se passar sequer três semanas sem que alguém tente bater um record qualquer, por mais estúpido e (in)digno que o mesmo possa ser na profusão da sua génese sem sentido.
Desde as feijoadas, aos pães com chouriço, das tigeladas às broas enfarinhadas, sempre em proporções hercúleas e homéricas. Das bandeiras humanas, aos logotipos colossais, às peregrinações de magotes a Fátima, ao maior coro, o maior rancho, a maior abóbora, a maior couve, a maior papa de sarrabulho, valha-nos Deus Nosso Senhor pela estrondosa sorte que tivemos com o bendito nascer do Entroncamento
Mas dizia então que Lisboa estava e se apresentava naquela tarde deliciosamente apetecível, com açúcar e canela e talvez também com uma limonada gelada acompanhada da folhinha de hortelã que timidamente lhe faz melhorar o sabor tão típico do calor latino que nos encrosta a pele. Fresca, gelada se possível. A limonada e não a pele, claro está.
Estava pois um dia quente de verão, daqueles que Lisboa tem tantas vezes, várias vezes, abençoadamente tantas vezes durante os vários meses do ano, o que faz de tudo isto uma “coisa” mais aceitável e menos sofrível, isto claro para quem consegue encontrar nestas pequenas coisas valores maiores e que permitam soltar com desenvoltura um sentimento de conformismo para com o destino que aqui e ali vamos traçando com afinco.

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Os estrangeiros que cá nos chegam iam aparecendo e saindo de todo o lado; saídos a granel dos cruzeiros, dos comboios, dos aviões; dormindo amontoados nos andares já cansados e empoeirados, até ligeiramente pestilentos das residenciais das avenidas velhas e famosas da cidade, ou então, nos novíssimos e arejados hostels e hotéis, isentos que estão da taxa vigente de bafio que vem incluída no preço do primeiro grupo que referi. Lá vinham então todos eles, excursionistas e exploradores, saindo alegremente dos autocarros, entrando afogueados nos centros comerciais, deitados (tantas vezes vestidos) nas praias, ou sentados em grupos por esses passeios e miradouros fora, ou simplesmente em pares românticos e apaixonados nos e pelos bancos de jardim dos magníficos jardins da cidade, ou mesmo até nos tapetes fofos e hipnotizantes a que a relva dos mesmos se assemelha; trazem as caras coloridas por tons fortes de vermelho ou rosa carmim que com muita certeza chegam a fazer inveja a quem anda atarantado no corre-corre de um dia fastidioso de trabalho e que, de estrangeiros, pouco fala, sabe ou quer saber. Apenas sabe que sente no recôndito e envergonhado recanto do seu ser, uma coisa também ela muito portuguesa, a INVEJA.

Havia um grupo em particular que estava acantonado no chão perfeitamente esculpido e polido do luminoso e absorvente Miradouro de São Pedro de Alcântara, ali nas costas no Bairro Alto, com a sua varanda “aberta” e escancarada, estrategicamente edificada ali mesmo de frente para a encosta brilhante da Mouraria e do Castelo que guarda Lisboa. Ali estavam eles sentados e muito atentos a todos os que chegam e também aos que partem, sorvendo, delicada e deliciadamente o eflúvio paladino e adocicado que o ar quente de Lisboa lhes fazia chegar com leveza aos narizes. Subitamente um deles, curioso, astuto, perspicaz, detecta no ar uma emanação atrevida e persistente de um cheiro que não é das árvores, não é da terra, não é do chão molhado pela rega do jardim, e não é também do tabaco e da mistura do hash que estão a fumar, é antes um cheiro que desconhecem, que nunca sentiram entrar sossegadamente pelas narinas acima em qualquer outra ocasião das suas vidas.

De seguida ele fecha os olhos e procura, dentro do cérebro, em fracções trôpegas de segundos, identificar e catalogar o cheiro magnífico que lhe chega ao nariz. Mas não consegue. Não consegue ter o mais pequeno vislumbre esclarecido do que se está ali a passar. Não percebe. Cheira-lhe à mistura perfeita de natas queimadas e cozinhadas com aquela massa de ir ao forno, massa folhada, que a pouco e pouco, ali sentados nas cavalitas do Tejo e no colo da velha Lisboa lhes ia invadindo e conquistando as vias nasais, como se o emanar da essência viesse munido de perigosíssimas e ameaçadoras baionetas que os obrigavam a cheirar ostensivamente toda aquela pornográfica abundância.
Por sua vez, lá mais para baixo, junto à margem direita do Tejo, a nossa, a lisboeta, alguns grupos de estrangeiros menos interessados nas subidas e descidas frenéticas e dolorosas das colinas íngremes de Lisboa, regozijavam-se por verem os olhos serem invadidos por imagens das majestosas e amonstroadas taínhas do Tejo que se aburguesavam e se escamavam de delírio diante de um plácido e desenvergonhado rodízio gigante de merda, gentilmente servido pela enorme boca de esgoto que a traz direitinha ao rio.
No meio de todos estes entretantos bebiam-se refrescos geladíssimos e comiam-se gelados de pauzinho de madeira e embalagem colorida e o cheiro, esse, já dobrava esquinas no Cais do Sodré e começava a encaminhar-se para a parte superior da cidade. Devagarinho que há tempo para chegar a toda a gente.
Toda esta orgia de sabores e odores era emoldurada por um ténue e estranhamente agradável nevoeiro quente que pairava teimosamente pelas principais artérias e veias da cidade.
Da Avenida da Liberdade à Almirante Reis, da Fontes Pereira de Melo à Rua da Escola Politécnica, de Santos a Xabregas, da Estrela a Alvalade, de Monsanto a Algés, de Benfica aos Olivais. Tudo. Em todo o lado. Coberto. Repleto. Uma inundação gasosa e insolente, esbranquecida e quase crepuscular, que escondia dos olhos os adornos dos metros e metros de rua que, com este nevoeiro, se deviam ver da Lua. Era na verdade uma estranha e impassível aura que beijava Lisboa e que esta nunca havia antes visto.
A cidade tinha sido invadida por uma estranha e pegajosa praga de boa disposição e simpatia, de educação e alegria, que tinha crescido com o passar vagaroso mas feliz das horas.
Pessoas sorridentes, bem educadas, simpáticas, cordiais, carinhosas e gentis. Corria também pelas ruas o boato (que carecia de oportuna confirmação) de que ainda não se tinha ouvido sequer uma buzina, nem tão pouco sequer uma simples apitadela, nem carros, nem autocarros, nem camiões, nem táxis (os tipos mais rápidos a soltar a chamada apitadela do sinal verde), durante toda a manhã. Nos relatos dos transeuntes que vagueavam ciclica e orgulhosamente pelas ruas de passeio gasto da Capital, parecia que nunca se tinha visto ou sentido tal coisa.
Não se passaram multas, não se ofenderam as mães de ninguém, não se estacionou em cima do passeio ou nas passadeiras, os restaurantes e os cafés estiveram cheios, a comida foi boa durante todo o dia, os políticos não discutiram nem se ridicularizaram mutuamente na casa da Democracia… Enfim, o prólogo inverosímil de um dia quase perfeito.
Esperem, consigo melhor do que isto: os políticos estavam sentados no chão do miradouro do Adamastor, no Bairro mais Alto, com as mangas das camisas desajeitadamente arregaçadas, gravatas ligeiramente lassas e amarfanhadas, perdidos no deleite refrescante das imperiais que vertiam como verdadeiros comensais…

Continua…