Pois é. Se há uns anos me dissessem que ia fazer isto. Dizia que era ridículo! Mas não é. Não foi. Estar durante 8 dias sem redes sociais foi muito bom e é exactamente sobre isso que vos vou falar. Desde as razões que me levaram a fazê-lo às sensações que pude registar durante esse (curto) período.

A ideia partiu depois de uma conversa que tive, há coisa de 1 ano, com o meu amigo e um dos meus mentores desta vida digital, o Pedro Caramez, que me disse ter feito algo semelhante numas férias recentes em família. Comecei logo a magicar uma coisa parecida e tomei a decisão quando faltavam cerca de 3 semanas para entrar de férias. “Vou fazer isto mesmo”. Pensei. “Vou (tentar) passar 8 dias sem redes sociais. E depois escrevo sobre isso. Quanto mais não seja para explicar às pessoas porque é que um Social Media Manager sentiu necessidade de fazer uma coisa destas. Explicar as razões e as sensações que recolhi durante esta “empreitada”. Parece-me bem. Já me levantei da cama por muito menos e a pagar!”

A primeira pessoa a duvidar da minha capacidade e nível de compromisso para com a missão foi, nada mais nada menos, que a minha mulher. Afirmou categoricamente que não seria capaz, que sabia perfeitamente que eu ia levar o telefone para a casa de banho e outras provocações do género. Não me fiz rogado e resolvi apostar um jantar! Era precisamente o estímulo que me faltava!! “Vou provar-te que estás redondamente enganada e ainda vou jantar à tua conta… à conta disto!”.

Posso adiantar-vos que foi bem mais fácil do que inicialmente pensei que seria. E olhem que ainda ponderei a hipótese de prolongar a coisa durante mais uma semana. Por aqui podem ficar com uma ligeira ideia do quão bem me soube. Ocupei o meu tempo de uma forma que me deixa tremendamente feliz.

Li 160 páginas d’ “O Regresso do Soldado” de William Faulkner e acabei o livro. Li os três primeiros volumes da colecção das 1001 Noites do Expresso, tendo já começado a leitura do quarto. E isso, por si só, é motivo de tremendo gáudio. Passei o tempo a brincar com a minha filha, a ver o mar, a pensar e, ocasionalmente, quando a minha mulher parava um instante para descansar e consultar as novidades nas redes… eu aproveitava para reclamar com ela… só porque… sim. (sabe tão bem ter a razão do nosso lado!)

21216257_10155135722019132_958828006_o

Foi uma excelente e muito revigorante primeira semana de férias. Mas agora importa explicar as razões e alguma das sensações que recolhi de toda esta empreitada. Comecemos então pelas razões:

FullSizeRender

Em primeiro lugar creio que o facto de trabalhar directamente com redes sociais e em páginas de uma dimensão “assustadora” – no que diz respeito ao número de seguidores e de consumidores de conteúdos – me fez sentir este ímpeto e esta vontade. Passar um ano diariamente ligado e a ter de escutar e perscutar tudo o que se passa nas redes com as quais trabalho e nas quais me movo, produziu um cansaço grande que me fez sentir a necessidade de “virar costas” a tudo a fim de conseguir verdadeiramente desligar o cérebro e aproveitar as merecidas férias deste ano tão exigente.

Em segundo lugar está, muito possivelmente, a influência que a verborreia e o ódio bem destiladinho com que somos confrontados, todos os dias, todas as semanas, todos os meses, durante todo o ano, em todas as redes onde circulamos tem em cada um de nós. Não foi exactamente disso que precisei de me desligar mas sim do acumular de tudo o que vamos lendo e vendo e tuitando e partilhando e favoritando ou detestando ao longo de um ano inteiro. Entrei nestas férias a sentir uma necessidade tremenda de falar com as pessoas, olhos nos olhos, cara a cara, de viva voz… como preferirem.

Por último, mas nem por isso menos importante, se é absolutamente inequívoco que as redes sociais se fazem de pessoas e para pessoas, não é menos verdade que é exactamente por isso que as mesmas, não raras vezes, se deixam conspurcar pelo que de pior tem cada um de nós. E disso, disso sim, parece-me que precisamos de nos libertar de quando em vez, sob pena de nos deixarmos contagiar pela maldade e acabarmos por embarcar nesse comboio pernicioso e repleto do pior da condição humana… sem o “perigo” de existir um fiscal que nos pergunte pelo bilhete.

A protecção que a máscara confortável atrás da qual nos escondemos – entenda-se por máscara aquela que nos dá o aparelho que usamos para estarmos presentes nas redes – faz destas um meio que se pode tornar perigoso, quando usado com más intenções. E sim, toda a gente sabe isto, e não, não há meio de “isto” deixar de ser assim. Porquê? Se eu soubesse a resposta a esta pergunta tantas vezes repetida… estava rico… e provavelmente andaria a escrever artigos no LinkedIn sobre coisas bem diferentes! =)

Acreditem que todos os dias vejo coisas que me deixam assustado, preocupado, incrédulo e estupefacto com o estado a que estão a chegar as relações sociais entre todos nós. Cada vez sabemos menos uns sobre os outros. Cada vez nos preocupamos menos com isso. Cada vez somos mais frios e insensíveis e despreocupados e desligados. Fisicamente desligados uns dos outros. Importam-nos mais os likes, os shares, os comments, os favorites, os retweets e reposts. Isso sim é pão para nos encher o bucho.

Cada vez mais nos interessa cada vez menos a opinião de alguém, uma vez que a possibilidade de dizermos o que queremos, como e quando queremos, aliada à tal “invencibilidade virtual” e à suposta protecção que o ecrã que nos separa dos outros permite que grasse a violência verbal, o desrespeito e falta de consideração entre a grande maioria dos utilizadores das redes.

Parecem-me razões mais do que suficientes para que tenhamos, nós, as pessoas boas, as boas pessoas, necessidade de desligar disto tudo, sobretudo se tivermos de estar nas redes, nomeadamente, por motivos profissionais. Para o ano repito a dose. E quanto a mim, espero ter-vos influenciado positivamente com esta minha narrativa meio geek mas que em muito contribuiu para que tivesse umas férias sensacionais. Longe de “tudo” e extraordinariamente daquilo que para mim é mais que tudo: os meus, a minha família. As coisas, os sítios e as pessoas de que verdadeiramente gosto. Sem filtros, sem #hashtags, sem mentions nem o diabo que nos carregue! E sabe muito bem, acreditem! É experimentar e partilhar.

Anúncios

2 thoughts on “8 dias sem redes sociais – das razões às sensações

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s