Se há coisa que fazemos com elevada frequência até certa altura da nossa vida é travar ou iniciar relações de amizade com alguém. Coisa simples e facto plenamente consumado, certo? Não. Errado. Nada poderia estar mais longe da verdade na tentativa de descrever de forma simples um dos grandes dramas da existência humana. Porquê? Passo a explicar.

Não poucas vezes neste nosso sinuoso e tantas vezes tormentoso caminho nos deparamos com qualquer coisa que se atreve ordinariamente a colocar em causa a utilidade desse sentimento, tão amplamente reconhecido e mundialmente entronizado pela nobreza que carrega desde a sua natureza e que dá pelo nome de amizade. E é por aí mesmo que quero arrancar, pela (por vezes frequente) utilidade duvidosa da Amizade enquanto ocasional veículo de transporte de dor e de um sofrimento que não tem cabimento nem fingimento.
Porque ela também se alimenta disto. A amizade, evidentemente.
De dor. De tristeza. De sofrimento. De silêncio. De incompreensão. O que seria da amizade se não houvesse no peito um lugar chamado coração?

(REcentemente tive uma das melhoras provas de que este título que escolhi é, na verdade, estúpido, mas ainda assim… atrevo-me a continuar, até porque estou há mais de dois meses a escrever e a reescrever isto)

Se certo é que a incidência e a frequência com que fazemos amigos é extremamente elevada durante os primeiros anos da nossa vida social, não é menos correcto dizer que essa necessidade de fazer amigos à velocidade da luz vai (graças a Deus Nosso Senhor) diminuindo de forma inversamente proporcional ao número de anos que vamos somando pela vida fora.

Isto é, quanto mais velhos ficamos, menos vontade temos de conhecer gente nova, de fazer amigos novos, de abrir as portas do nosso admirável mundo velho ao Novo Mundo dos outros e de deixar entrar quem por acaso se atravessa e se cruza com o nosso caminho, independentemente das razões pelas quais o faz ou isso acontece. No entanto, não quero com isto dizer que não sintamos (com frequência) falta dos amigos que já temos. Isso, meus amigos, isso é coisa completamente diferente e conversa para outros escritos.
O que me parece indesmentível e inquestionável é que a capacidade de nos relacionarmos com os outros e de com eles estabelecermos e desenvolvermos relações de proximidade e de confiança, do zero, que entrem rapidamente no espectro daquilo a que vulgarmente chamamos amizade, não deixa de ser uma das mais nobres e notáveis skills que o ser humano possuí e que o torna absolutamente distinto de todos os outros habitantes não humanos com quem divide o planeta.

(as voltas que um gajo dá a um texto para não ter de começar logo por onde mais dói)

Pode por isso dizer-se que o expoente máximo das nossas relações de amizade deve andar ali entre o início da adolescência e os 30 ou 40 anos de idade. Não mais do que isso. Não muito mais do que isso.

Depois disso entramos (não todos, mas muitos) na fase em que começamos a avaliar e a catalogar os amigos que temos. É verdade. Isto acontece, mesmo que de forma inconsciente e meiga, com quase todos nós. É uma altura em que, regra geral, também fazemos uma espécie de limpeza geral da lista de todos os amigos que temos. Ou que julgamos que temos. Que, não poucas vezes, é praticamente a mesma coisa. Os telefones e redes sociais ajudam a acreditar que isto é assim tão simples. Que a “operação de limpeza” se resume ao delete no smartphone.

Quem já está ou já passou por esta fase da vida saberá perfeitamente que tenho alguma razão naquilo que estou a afirmar de forma tão estupidamente determinada.
A partir de certa idade começamos a tentar afincadamente perceber quem são, na verdade e de verdade, aqueles que conseguimos enquadrar nessa condição tão selectiva e particular que é a de sermos amigos de alguém ou chamarmos amigo a alguém.

E o que são então essas pessoas? O que representa cada uma delas no quadro da nossa passagem pela vida?

(repare-se que já vamos no 7º parágrafo e ainda nada… nem uma linha sobre o que me trouxe aqui e me fez estar durante quase 3 meses a escrever este texto.)

No início é tudo imaculado. É tudo limpo e puro. E tudo faz o mais perfeito sentido.
Com episódios de maior ou menor juízo. Com momentos de maior ou menor tensão. Mas são relações que assentam sobretudo em lealdade, presença, cumplicidade, desafio, identificação e aprendizagem mútua. Tudo vivido com a intensidade tão própria de quem tem as ganas da vida na sola dos pés.

São pessoas que passamos a tratar como se trata um membro distinto da nobreza, da realeza. São, e muitas acabam mesmo por sê-lo pela vida fora, algumas das pessoas mais especiais da nossa vida. Quanto mais não seja porque conquistam esse lugar e porque nos conquistam a nós. De forma única.
Cada amigo é uma vitória, uma aresta, uma árvore, uma estrada com curvas, rectas, subidas e descidas. Um amigo é uma vida.
São pessoas com quem partilhamos tudo. Alegrias, tristezas, vitórias, derrotas e demais conquistas. Isso tudo e… as meninas e meninos que nos passam pelas vistas. Artistas.
Depois há os “não insistas”, “não desistas”, “não me chateies”, “vai-te f***r”, “vai pró caral*o”. Dizemos isto tudo. Fazemos ainda mais. Somos capazes de ser tudo e de não ser absolutamente nada. De estar de boca aberta ou de a manter assim, calada e bem fechada. Por respeito. Por deferência. Por solidariedade e reverência. Por compaixão e por saudade. Porque somos amigos de verdade. E ser amigo, ser verdadeiramente amigo de alguém é muito mais do que simplesmente repetir a frase que acabei de escrever.

Mas o que me traz aqui não é – nem de perto nem de longe – a vontade de dissertar A Capella sobre o conceito de Amizade. Sobre o seu significado. Não.
O que me faz voltar a estas linhas é o particular, não o geral.
Comece-se então este texto como se na primeira linha se estivesse.

São amigos que me fazem escrever isto e não a Amizade. Porque é por eles, sempre por eles, pelas memórias de tudo o que esta para trás e tem o peso que pesa uma vida, é por eles que voltamos sempre a lugares onde já fomos, sentimos e fizemos de tudo um pouco.

É para os saudarmos, lembrarmos, homenagearmos e para os fazermos felizes que fazemos as coisas que fazemos. É por eles que quebramos barreiras, que fazemos asneiras, que bebemos e comemos durante noites inteiras. Que nos metemos em coisas com que nunca sonhámos.
É por eles.

Tenho um amigo doente. Grave e seriamente doente. Severa e injustamente doente. Cancro, uma vez mais!
E não é um amigo qualquer. É um amigo de há muito. De uma amizade com muitos anos. De um tempo em que não se pensava nas consequências nem nos danos.
Do tempo em que só se pensava no acto e no feito e, possivelmente, no jeito e no efeito e no acelerar de rompante da máquina que temos no peito. Tudo o resto era paisagem. Tudo o resto era miragem. Tudo o resto era desperdiçar tempo que se podia gastar a fazer mal ao corpo e “bem” ao cérebro. Uma coisa é a beira da estrada a outra é a Estrada da Beira. E se eu gosto da Estrada da Beira. E tanto que andei na beira da estrada. Bem ou mal iluminada.

Dizia eu que é um amigo de longe, de um tempo em que não se partilhava nada nas redes sociais, em que as redes sociais eram o muro do Manel, a roda de tendas no Verão, o amontoado de carros à porta do café, o inquantificável número de cabeças presente numa esquina do Bairro Alto, no Adamastor, na Flamenga, claro. Sempre ela. A Flamenga. O bairro onde crescemos. A rua que nos dá e nos tira.
Um tempo em que tudo era tanto mais. Um tempo em que as experiências, boas ou más, nos ficavam gravadas – muitas vezes a sangue, suor e lágrimas – nas veias, no pensar, no sentir, no dizer, no não dormir, no deitar já de dia e acordar já de noite.

É por eles, sempre por eles e quase só por eles que fazemos merda, que dizemos merda, que ouvimos merda, que comemos e bebemos merda, que vamos a sítios de merda, que nos metemos com gente de merda, que temos noites ou dias de merda… enfim. É com eles e muitas vezes por eles, porque nós nem temos vontade de ir.

Tenho um amigo doente. Muito doente. Doente com a doença do século. Cancro. Pois claro. Vai da cabeça aos pulmões, passa pelo que entre eles se intromete e e vai desaguar brutalmente no estômago. Puta que pariu esta doença de merda. Puta que pariu o ter de olhar para os olhos de um amigo e de ver a dor que ele esconde. Ver o medo que ele tapa mas não nega. Que ele sente mas a que não se rende. Herói! És um herói meu grande cabrão!
O cancro (já te disse que não escreverei o teu nome com maiúscula a não ser que calhes no começo de uma frase) De apetite voraz. Tremendo. Horrível e horripilante. Insolente e incapacitante. Não há como ser benevolente para com uma monstruosidade indigna, cobarde e tamanha. Não há como me manter sempre sorridente perante tal patranha.
Não sei o que lhe dizer. Confesso. Não sei mesmo. Ou melhor, saber até sei, mas não consigo, muitas vezes, dizer o que quero. Mas disse muito há não muito tempo. Mas por saber que foi episódico e que seria episódico sempre que o visse, e como vou estar com ele este fim-de-semana, nada mais acertado do que publicar isto agora.
E foi por me conhecer já bem, por saber que fraquejo nestas merdas, foi por isso mesmo que lhe pedi autorização para vir até aqui desancar a existência e praguejar com a vida.  por uma razão muito simples: Não sei fazer mais nada a não ser reagir assim. Escrevendo. Com o passar dos anos estou a tornar-me numa pessoa a quem custa cada vez mais ter de se expressar com profundidade sobre assuntos profundamente delicados de outra forma que não esta. E isso não é totalmente animador.

Ele ficou felicíssimo da vida. Todo contente e orgulhoso por ter um amigo que escreva sobre ele, para ele, por ele. Que conte o que é isto de estar doente. Que conte o que se sente. Até porque também eu já passei por essa aflição embora numa outra proporção. Mais leve. Mais simples. Menos aterradora e terrível. Muito menos aterradora e terrível. “Resolveu-se” a coisa com uma cirurgia.
Contudo, deste lado, o prisma é todo ele bem diferente. Agora não sou eu e não é de mim que falo. E é me sempre mais fácil falar de mim do que assumir o pulso à dor de outra pessoa. Sobretudo quando são pessoas que te dizem alguma coisa. Neste caso, diz-me muito. Uma espécie de tio mais novinho. De primo. De sei lá eu o quê. São estas pessoas que teimam em se enfiar na tua vida e que dela teimam igualmente em não sair de forma alguma. Pessoas que levarei comigo pela vida fora e pela morte dentro. Curioso como se usa esta palavra tantas vezes em conversas tão inócuas e como passas a ter medo de falar nela quando falas com alguém que a tem em risco. Vida.

Como se faz para não ficar devastado com o risco real (mesmo que ecoe surdo apenas no nosso pensamento) de perder alguém com quem já passámos tanto?! Como não chorar e fraquejar e tremelicar das pernas quando a ameaça é real? Tremenda, estúpida e assustadoramente real. Incompreensivelmente próxima e palpável, quase.
Como não sofrer quando o mundo lhes quer mal?! Como não gritar e espernear quando Deus aparentemente se esquece de quem também nós nos esquecemos na fúria velocista dos dias que correm por nós e que tantas vezes nos atropelam?

Como é que se lida com isto tudo. Como? Em silêncio?! Talvez. Muitas das vezes é a única forma possível de lidar com esta violência toda. Muitas vezes só mesmo assim. Calado. De olhar gélido e amedrontado. O que é que posso fazer mais?

Desde que comecei a escrever isto que já soube de mais dois casos de amigos doentes. Com a mesma merda. Com cancro. Em pequenino que não merece mais nada. Mais veleidade nenhuma. Já foi assim quando foi comigo. No estômago. Esta abstruza doença não pensa. Não tem memória. Esquece com uma desfaçatez e uma insensibilidade que entorpecem até o mais corajoso dos homens.

E nisto. O medo é meu. É nosso. É de todos. Quando um sofre, sofremos todos. Protegemos. Cuidamos. Ralhamos e barafustamos. Mas nunca, em momento algum, nos viramos costas quando precisamos uns dos outros.

O que será de nós se deixarmos de ser assim?
O que será de nós se não formos capaz de dizer presente.

A amizade serve de pouco nestas alturas. Ou então é mesmo tudo aquilo que precisamos sem termos a noção disso mesmo.
Já a fé, talvez seja ela a única que te vai dando alento mas, em dias de vento, a fé ganha asas e voa para sítios distantes, carregando no dorso o peso de meia-humanidade e de toda a nossa amizade.

A Amizade tem valor demasiado para ser engavetada num título de um texto sério e real. Cru. Nú. Integral. Não fiz por mal mas… é o que é.

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