Tenho o coração retorcido, apertado por metros valentes de arame farpado ferrugento, que o vai picando e repicando de cada vez que bate e rebate.

A noite foi horrível. Terrível. A manhã foi, muito naturalmente, um atabalhoar de sucedimentos provocados pelo cansaço tão próprio de quem não dorme e não o faz por vontade própria. Obviamente que a saída de casa teve de ser dolorosa, como alías não me recordo de alguma vez ter sido. Ai não que não se sente. Sente e não é pouco, quem o nega só pode ser louco ou não sentir as coisas condignamente.

Por vezes, a nós, homens de barba hirsuta, exemplarmente cofiada, também a nós, durões e racionais seres humanos, também a nós nos apetece chorar de dor, de raiva, de frustração e impotência, de incapacidade total e de uma certa dormência quando mais não podemos fazer do que assistir, quase que passivamente, ao sofrimento dos nossos filhos e filhas.
E reforço a ideia dizendo ainda que, pior do que tudo isso que absurdamente se sente, é a sensação que nos invade a alma quando temos de os “abandonar” em casa. Ainda que fiquem graciosamente aos magníficos cuidados da incrível mamã que volta assim a ver uma semana de folgas (mais do que merecidas) começar de forma nada agradável.

A sensação de desorientação chega a apoderar-se de certa parte da noite, com tanta tosse, tanto choro, tanto desconforto e, sobretudo, porque acordas tantíssimas vezes que não sabes já bem o que é que estás a pensar, o que é que estás a fazer. Nada.

A certa altura acordei, com a sensação que deviam ser 4 ou 5 da manhã, mas não. Nem de perto nem de longe. Eram “apenas” 1h15 e já o meu cérebro se sentia como um preso a ser torturado numa cabana subterrânea em Mossul, ou num dos milhentos “escritórios” da CIA espalhados pelo mundo.

Vim calado o caminho todo até Paço de Arcos. Não cantei. Não conversei com a malta das Manhãs da Comercial. Não sorri. Pouco ou nada olhei para os lados, para o céu, para as nuvens. Nada. Só caminho. Estrada. A perseguição implacável do carro aos riscos brancos no asfalto acinzentado da CRIL/A5.

E entretanto o dia passou penosamente e estou quase quase a poder sair desta cadeira, deste teclado, deste monitor, desta sala, deste 4º andar neste edifício estrondoso, para poder finalmente ir pegar em ti, abraçar-te, encher-te de miminhos e festinhas, de sorrisos e turrinhas, a ti, minha filha, coisa mais preciosa e grandiosa que a vida um dia teve a amabilidade de me oferecer.

Bronqueolite. Quanto a nós. Falamos um dia destes. Podes ter a certeza que não me vou esquecer disto.

 

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