São tempos áureos estes que vivo desde que fui pai. (Ah até que enfim. Sempre sonhei começar uma dissertação desta índole pela expressão: “são tempos áureos”. Que maravilha.)
A imensidão da felicidade que atravessa por completo o espectro da minha existência torna-se cada vez mais difícil de contar, de partilhar, de desconstruir, de conversar sobre. Isto por si só não constitui qualquer problema, uma vez que gosto particularmente de coisas difíceis, complicadas, complexas.
Mas há, creio eu, uma explicação (não sei se entendível ou não) para tudo isto que é muito. É tanto. Se é.
Creio que a dificuldade a que me refiro possa estar ligada ao facto de me sentir acometido de uma espécie de necessidade totalitarista e egoísta de reter absoluta e absurdamente tudo o que vivo com a minha filha. Isto é, há uma necessidade bastante pronunciada de devorar e absorver todos os momentos, os cheiros (até os piores, sim…), os sorrisos, os sons, os gestos, os olhares, os toques, as brincadeiras, as aprendizagens, o crescimento, TUDO. Invariavelmente.
Só para mim. Só para nós.
Dizia eu que a vontade que tenho é de deixar fugir mesmo muito pouco ou quase nada. Porquê? Sei lá eu. É o que sinto. Ponto. Não há grande lógica por trás de uma coisa destas, é certo, mas isto faz parte da vida pensada a que Fernando Pessoa se referia. Na prática, nada disto é assim.

No entanto, e voltando à minha vontade, por é que disso que este exercício trata, é exactamente aquilo que disse acima. Apetece-me guardar e viver tudo. Às vezes apetece muito. Mas depois acalma-se a coisa.

Afinal de contas, tudo isto é perfeitamente compreensível, pelo menos na minha modesta e isentíssima opinião, uma vez que se trata da minha filha, caramba. É a minha primeira filha. Compreendem? Talvez não. Mas também pouco importa.

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Deus sabe (digo eu) que esta brincadeira de ser pai pela primeira vez, ainda para mais de uma menina, muda a forma como um homem passa a olhar de frente para as fuças da vida.
É sim, é a preciosidade maior que tenho nesta fugaz existência.
É sim, tremenda, a sensação de absurda felicidade que me invade os olhos, para depois me percorrer alegremente as veias e chegar a todos os recantos do meu 1,80m.

Mais ninguém neste planeta rasga os olhos de alegria e abre a boca num sorriso puro de felicidade sempre que me vê chegar a casa do trabalho, nem mesmo a minha querida e adorada esposa ainda mantém intacta esta alegria pura e desinteressada.
Passaram-se horas desde que me viu pela última vez, que, regra geral, é sempre antes de adormecer novamente, já no finalzinho da madrugada, de novo deitada, dizendo-me em surdina que me ama e que é a minha menina, a minha princesa adorada e tão desejada.

Não têm preço as entradas em casa quando ela está acordada.

Os segundos em que o tempo congela (não estou a falar do #MannequinChallenge) são segundos em que toda a vida que te invade as artérias parece estacar-se ali mesmo, diante de ti, naquele mesmo tapete redondo, amarelo mostrada, de pelo curto, agradavelmente disposto à entrada, para nos dar as boas vindas. E ali me planto, por baixo da ombreira da porta da sala, numa sucessão aparentemente furtuita de segundos tão absolutamente perfeitos que chego mesmo a esquecer-me da loucura do mundo em que vivemos e me foco unicamente no sopro de vida que enche os meus olhos e pelo qual sou e serei eternamente responsável.
Ser jornalista tem destas coisas. Vemos demasiado. Vemos bem mais do que aquilo que queríamos ver. Chegamos a casa, não poucas vezes, com a cabeça atafulhada de imagens estúpidas que contam e mostram o que de pior acontece no país e no mundo. Mas tudo isso parece esfumar-se quando chego à porta da sala, da cozinha, do teu quarto, e me deixo apanhar por aqueles segundos intermináveis em que a minha filha pára imediatamente o que está a fazer e fica também ela a olhar para mim.
Começa a sorrir de cima para baixo: rasgam-se e acocoram-se-lhe os olhos ao mesmo tempo que se enchem de uma luz que impressiona, sobretudo pela candura da idade. De seguida, não logo mas pouco depois, abre-se-lhe o sorriso, – Meu Deus, como é perfeita toda esta valsa – agitam-se as mãos e as pernas, pinta a cara com um pouco da cor que a vergonha já vai trazendo aos bebés desta idade e ali fica, à espera que largue tudo, que poise a mochila, tire o casaco, lave as mãos e por fim a pegue ao colo.

Depois, com as duas mãos, agarra-me cada uma das faces, sorri, esfrega a cara no meu peito, volta a levantar a cabeça como que a querer certificar-se de que sou mesmo eu que estou na frente dos seus olhos enormes, sempre muito abertos, a querer dar fé de tudo o que a circunda e envolve, e repete o gesto, como repete o sorriso. Com aquele felicidade estampada no rosto. Aquela felicidade que a inocência e o pouco que sabe da vida lhes confere. Ser feliz é uma missão e dá trabalho. Calma, filha. Um dia falar-te-emos de tudo isso.

Não tem explicação plausível, ou, pelo menos, ainda não lhe encontrei o poiso, à explicação, entenda-se, que a este amor que sinto, para ele, tenho explicações de sobra, ainda que não estejam devidamente arrumadas e fechadas nos seus devidos lugares. É somo se soubesse que o sei, mas não soubesse como faço para o saber na verdade. Sei que sinto, mas não sei como definir objectivamente o que sinto. Conclusão: não há objectividade possível num amor tão tremendo e arrebatador, num sentimento tão sanguíneo, tão vulcânico, tão avassalador.

Assim sendo, resta-me por enquanto prosseguir com esta embriaguez saudável e sem ressaca que as sensações que experimento diariamente, às mãos de uma bebé de 6 meses, tão perfeitamente perfeita, tão lindamente linda, me têm proporcionado.
Bebedeiras tão deliciosamente boas estas. Sem vidros partidos. Sem discussões. Sem confusões. Caramba filha, que é tudo tão maravilhoso quando estou contigo.

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Olho para ela e vejo-a assim, tão assutadoramente indefesa e a precisar de todo o amor que tivermos para lhe dar, sem qualquer tipo de reserva, sem qualquer laivo de frustração ou do que quer que seja que não um princípio basilar de amor total, de entrega plena, de imersão no mundo em que vive e que ainda é tão diferente daquele em que vivemos nós.

Não sei ser de outra forma. Não sei amar-te de outra forma que não esta, minha querida e adorada filha. Luz que dá cor ao meu rosto. Brilho no meu olhar. Vida que traz vida a cada novo acordar. Seja a que horas for… (sim, mesmo quando acordas pela madrugada dentro e queres conversar)
Não cabe sequer em mim nada mais que não o amor e a dedicação completa a esta família que escolhi, que criei, que jurei proteger e defender de tudo o que possa tentar ameaçá-la.
Não queria outra vida. Não queria nada mais do que aquilo que tenho agora. Queria apenas que tudo isto durasse para sempre. Que a felicidade não tivesse de ser interrompida, aqui e ali pelas obrigatórias e incontornáveis obrigações a que nós, os “crescidos” não conseguimos, invariavelmente, fugir.

Ser pai muda tudo. Ser pai deita por terra todos os teus proto-conceitos de vida, de realidade, de inteligência, de sensibilidade, de humanidade. Ser pai é para sempre. Não há meios-pais, como não há meis-filhos. Ser pai é ter a noção de que vais falhar, vais errar, vais chorar, vais rir, vais consentir e vais negar, mas mais do que qualquer outra coisa. Ser pai é encaminhar, é acompanhar, é a mão que se ergue do alto quando eles olham para cima e procuram a segurança inabalável que lhes traz o nosso olhar, a nossa mão que os ajuda a caminhar. Quero isto tudo e ser o dobro do que aqui não digo.

Não, não me esqueço de como começou este artigo.
Um dia, mais tarde, saberei que foi justa e justificada a vontade de te ter sempre comigo.

Pai.

 

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3 thoughts on “A paternidade aos meus olhos e aos pés dela – 6 meses depois

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