Devo confessar, se é que me é permitida a veleidade, que desde o dia em que fomos ver e ouvir o nosso bebé pela segunda vez que ando completamente desconcertado. Sim, desconcertado, não cair no erro de confundir com desconcentrado. Sinto-me verdadeiramente desconcertado, e porquê? Porque efectivamente não consigo arrancar do cérebro o som incomparável do bater do teu coração. Rápido, ansioso, frenético, vivo, voraz, cadenciado e afogueado, carregando já no bater veloz e desenfreado a vontade inexplicável e irreprimível que uma criança tem de viver, de conhecer, de descobrir, de ser.

E desde então que dentro do meu pensar ecoa furtivamente o som mágico do bater do teu coração, bebé. Coisa que impressiona e que agarra. Não tem argumento nem texto, não tem nada mais que não a ilusão pura de um casal apaixonado (nós, os papás) que quis ser ainda mais feliz e que quis dar largas ao sonho de uma vida. E, caramba, como tudo isto me dá a volta às ideias. Como tudo isto me afasta das coisas feias e me faz caminhar sorridente e altivo nos passeios deste meu mundo impenetrável, sem que tenha de me deter tempo a mais ou a menos nas coisas. Limito-me a pensar. A sentir. Misturando as duas grandezas num claro desrespeito pelos conselhos de Alberto Caeiro e do Senhor Pessoa, mas lembrando-me sempre dele(s) quando olho para as flores nos canteiros. A dor de sentir. A esperar pelo grande dia que há-de estar para vir. Por agora, penso e não me canso, divago pela orla das madrugadas sem me preocupar com a ideia de que, mais do que a possibilidade, a mesma assume já o contorno puro e fiel da realidade. Pai. Sim. Pai. Ai, ai, ai… E o medo de não o conseguir ser da forma como sempre acreditei que o seria. A certeza de que vou falhar, alicerçada na garantia eterna de que me vou esforçar e não me vou esgotar na dificuldade de te criar, de te educar, de te ajudar a crescer e ensinar a viver. Antes seja eu o criador do sabor a que sabe esta tão imensa felicidade. Assim seja eu o protector eterno da tua integridade.

Devias ver a tua mãe. Devias poder olhar de fora e vê-la assim como ela anda, linda, maravilhosa, feliz, radiante, não te abandona nem por um instante. Se devias. Em cada hora. Todos os dias. Se devias. A tua mãe está transformada na mais linda mulher que os meus olhos conhecem bebé. Espectáculo incrível de se ver, de se admirar, de registar e gravar com os olhos, esses cuja memória do cartão não acaba, esses que não precisam de Wifi, de wireless, de pilhas, de bateria ou da sombra de mais um dia. Pelos olhos te vemos e pelo pensar te imaginamos. E acredita que é assim que estamos. Felizes. Radiantes. Ansiosos. Deve ser assim. Tem de ser assim. Fará sentido que assim não seja? Fará sentido que só se lembrem de Santa Bárbara quando troveja? Não. Mas é certo e sabido que aguardamos ansiosamente a tua chegada., contudo, por agora, contentamo-nos com o teu crescer dentro da barriga da mamã. Para já é mais do que suficiente. Para já é desta forma que tornas a nossa vida bem diferente. Não dês muito trabalho à mamã, sim?

Um beijo do papá Martim.

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3 thoughts on “Não me sais da cabeça e ainda mal nos conhecemos

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