Chegar à cidade de Córdoba a meio de uma tarde de Julho é uma experiência no mínimo invulgar e marcante. Não só por tudo o que se vê, mas igualmente pelo surpreendente e inesperado vazio de gente, de movimento, de reboliço, de corrupio, de desvario, acima de tudo é isso, impressiona pela ausência bastante significativa de gente nas ruas. Tal coisa só pode, no entanto, ser inesperada para quem não vive ali, nem tão pouco sequer alguma vez ali esteve, em particular, naquela época do ano tão exageradamente quente.

Antes de chegar a Córdoba, percorrem quase 100 quilómetros por entre uma estrada de rectas intermináveis e secas, com pequenos adornos em forma de curvas que se fazem em 5ª velocidade, tal é a pequenez do ângulo que as mesmas descrevem. É impossível ver o fim a uma destas rectas num dia de calor, em que o asfalto se maquilha com vestes prateadas, que se assemelham a lagos perfeitos no horizonte escaldado. Sentiram que estavam a caminhar alegremente para o interior negro e queimado de um caldeirão, que estavam a penetrar lenta e pesarosamente num vale quente, tórrido, abraçado por áridos vislumbres das vizinhanças e largado ao desinteresse por montanhas que nunca dormem.

A Sierra Morena lembra os visitantes que esta era uma cidade estrategicamente plantada neste local, defendida pela natureza que lhe ergueu montes, montanhas, serras e vales e que, em tempos distantes, esta foi a Urbe mais importante da Terra. Chegar a uma cidade onde nunca se esteve, sentado ao volante indeciso de um carro que, também ele, parece perdido e desorientado no emaranhado de ruas e ruazinhas, de “vira à esquerda, não, afinal vira à direita, Ah porra, que não era por aqui, viste bem o mapa?” é, sem sombra de dúvida, uma experiência que testa as capacidades e, sobretudo, a resistência de uma parelha única, com espírito de missão e com uma vontade absoluta e insaciável de novidade, de conhecimento, de descoberta, de vida. Acima de tudo isso, isto é, distinguem-se pela vontade que têm de fazer tudo em conjunto, sempre, só é somente. Isso.

Bem sei que estão a estranhar o recurso a um mapa de papel, nesta Era da tecnologia, que faz tudo por nós, mas ainda há quem orgulhosamente se sirva de um mapa da Península, para viajar por ela adentro. Um mapa, em papel, exactamente, um daqueles que estão fantasticamente dobrados em partes simetricamente iguais (acho mesmo que os mapas são feitos com o objectivo pérfido de complicar a vida seja de quem for, porque, sejamos honestos, é preciso aprender a ver mapas, é preciso arte para nos conseguirmos guiar por um mapa, sobretudo, se estivermos confinados ao interior de um Corsa dos mais crescidos), que, regra geral, vivem espalhados sabiamente por tudo o que é estação de serviço, de Norte a Sul de um país e que fazem com que para alguns artistas, como é o caso, não dêem para passar uma viagem sem rasgar um pedaço de qualquer estrada, ponte, ou linha de comboio, na tentativa pateticamente furiosa de devolver o mapa ao seu caótico emaranhado de rios, vias secundárias e principais, auto-estradas, vilas, aldeias, cidades e povoações, caminhos de terra, serras, lagos, pontes e todas as suas ligações, dobradinho como se tivesse sido engomado a preceito com um ferro de caldeira.

Claro está que ao fim de algumas centenas de quilómetros já se pode ver, entre Portugal e Espanha, um joelho e o pedal do travão. Amor… Sim querido? Estás a ver o mapa ao contrário! Cala-te não sejas parvo… ahahahahaha… pois estou! Lá vão eles – ligeiramente indecisos nos próprios silêncios, também esses tão realisticamente particulares e tão próprios dos dias de calor absoluto e infernal – entrando, maravilhosamente cansados, mas felizes, nas entranhas tórridas de Córdoba, sem conseguirem ver praticamente vivalma, nem tão pouco um puto montado numa bicicleta.

Antes de encontrarem o hotel, entregam desavergonhadamente cerca de meia hora às ruas desconhecidas e às avenidas largas, que aos seus olhos se cruzam respeitosa e cavalheirescamente umas com as outras, sem malícia, ou maldade alguma. São serviçais, existem tão simplesmente para servir quem delas se serve. O calor, esse, parece recebê-los com entusiasmo, pois a temperatura aumenta estupidamente à medida que a velocidade do carro diminui. Tudo, ou praticamente tudo, parece acontecer em slow motion. Os carros circulam devagar, os que circulam, não vêem mais que três, durante a deambulação gratuita que empreendem pelas ruas cordobenhas. Os cumprimentos à entrada do hotel, as árvores que balouçam ao sabor de um tímido soprar de um vento aquecido, os passos dos hóspedes, os carros que circulam no parque de estacionamento, as folhitas que se habituam a viver junto aos pneus dos carros parqueados saltitam como se procurassem tirar as costas do chão em brasa.

O hotel parece-lhes muy bien.

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Facto: os portugueses gostam de chegar a qualquer país e ouvir a sua língua e, quando viajam de carro, sentem um natural e reconfortante prazer se conseguem ver o P por baixo das estrelas da bandeira da União Europeia de uma matrícula qualquer, seja em que veículo for. É inexplicável. É uma sensação de segurança misturada com… sei lá o quê mais. É o que é e como é. Podem nem se falar, durante toda a estadia, podem perfeitamente cruzar-se apenas no trânsito, num semáforo, numa praça, num restaurante, ou numa esquina qualquer, mas a sensação de pertença e de identificação com aquele P sentado por baixo das estrelas não deixa de ser curiosa. E moderadamente agradável.

Voltando a Córdoba. Conseguem um lugar não muito longe da porta do Eurostars Las Adelfas, um hotel tipicamente andaluz, amarelo, com as janelas de todos os quartos divididas com os arcos e as colunas em mármore branco… lindo. Perfeito! “Que horas são?” Para a piscina, já! Check-in feito em 20 minutos, depois de dois casais de espanhóis quase se terem pegado ao estalo para decidirem quem tinha chegado primeiro à fila. Transpiram desalmadamente com as roupas já coladas a algumas partes do corpo. Ele não deixa de olhar para ela, com aquele ar malandro de quem tem o fogo na alma, de quem a ama com a paixão louca das páginas ocres dos livros que guardam na alma.

Sentem o Verão e a sua alegria no coração da Andaluzia.

Instalam-se. Trocam de roupa. Brincam nus pelo quarto. Vestem-se rapidamente e rapidamente vão até à piscina. Procuram um pedaço de relva que ainda permita estender duas toalhas, já que as espreguiçadeiras estão com lotação esgotada. Aninham-se atrevidamente à sombra de um chapéu-de-sol que protege dois ingleses e, sem mais demoras que não as do duche obrigatório antes de enfiar o corpo assado dentro de água, vão com tudo o que ainda lhes resta de energias, depois de uma viagem de 670 quilómetros, e mergulham como as lontras para dentro de água. Férias dizem os olhos de um para o outro. Férias, meu amor. Férias!

Amo-te respondem depois com o sorriso nos lábios, embelezado por um abraço que deixa apenas as cabecitas fora de água e o coração cheio novamente. O coração é assim mesmo, caprichoso, de hábitos pouco redondos. Alimenta-se destas coisas. De vez em quando, assume alguma modéstia e não complica o que é simples, quando é simples. De vez em quando, o coração deixa-se ser apenas isso mesmo, coração. Ela parece-lhe extraordinariamente perfeita debaixo daquele calor quase insolente e dentro da água, então, é um vislumbre de maravilha e de felicidade, que se quer eterna. Tenta parar o tempo, ali, naquele preciso instante. Tenta. Não consegue, para já. Voltará a tentar.

Dão pela fome quase em simultâneo, depois de cerca de 20 minutos de molho, a marinar. Sem pressas de maior, voltam ao quarto, para um banho fresco, uma muda de roupa e aproveitar o guifi (Wi-Fi) gratuito, a fim de perceberem mais ou menos onde vão jantar, ou pelo menos onde é que podem estacionar o carro para poderem depois perder-se à vontade nas vielas floridas e encantadoramente alegres da Judiaria de Córdoba, agraciados e confortados pelo seu estrondoso entardecer. Estacionam numa rua interior, onde já chega mais fraco o calor das 19:30. Que grande Verão que se adivinha pensa ele, feliz, simplesmente feliz.

Por vezes é tão simples a felicidade. Quando o teu corpo e alma se encontram tão abundantemente satisfeitos e completos, que sentes uma leveza estranhamente agradável e constante, que não se esfuma no deitar e no dormir, que se renova a cada beijo, a cada abraço, a cada nova rua desta cidade nova nos olhos, quando sentes isso, estás bem, estás feliz. Simples. É.

Flores. Pátios. Branco. Gente. A gente que se esconde nas tardes abrasadoras abandona as tocas e aparece ao final da tarde/princípio da noite, como se de facto só se pudesse viver verdadeiramente nesta terra, quando o sol nasce e mais tarde quando ele se começa a despedir, deixando para trás a pintura maravilhosa de um céu tingido de um laranja absolutamente memorável. No entanto, ela começa a queixar-se de dores na garganta. Na verdade, já as traz consigo desde Lisboa. Param junto à velhinha ponte romana e admiram a entrada na parte antiga e moura da cidade. Ele não resiste ao céu polvilhado de pó de tijolo e limão ressequido que, misturado com os cabelos dela e o reflexo da luz quente que se despede nos óculos que traz no rosto para não ferir os olhos com o brilho quente da estrela amarela e redonda, fazem a anunciação de uma fotografia perfeita. Enquadra, abre, foca, espreita, sorri-lhe pelo canto da boca e dispara, uma e outra vez, enquanto a vai vendo mexer-se imaculadamente à luz do final de tarde perfeito no Sul da vizinha Espanha.

Vão andando. Nem muito depressa, nem muito devagar. Andando. Parando. Olhando. Admirando. Falando, agora menos. Já lhe custa falar e não o consegue esconder. Ele preocupa-se e dá-lhe a mão. Vamos jantar, diz-lhe baixinho e com todo o amor que lhe tem encrostado dentro daquelas duas palavras. Tapas e Tinto de Verano, pois claro. Ali ficam até aquilo fechar.

Ele nota-lhe o esforço tremendo que faz, durante toda a noite, para esconder o desconforto que as dores na garganta lhe estão a provocar. Já ela, pobrezinha, aproveita até os mais breves silêncios para descansar. Até o pestanejar se vai já tornando pesado, cansado, marcado pelo latejar da dor que a transtorna.

Fazem o caminho de volta ao carro, com um pequeno desvio para pararem exactamente no mesmo sítio onde horas antes ele a fotografou, estarrecido com a beleza da pintura que os seus olhos viam. Admiraram tudo com esponjas sôfregas nos olhos, a fim de guardarem tudo aquilo nos recantos puros e escondidos das memórias boas que nos trazem este tipo de viagens. Selam a vista com um beijo abraçado e, de mãos dadas, atravessam a rua e voltam a encontrar a pequenina e apertada ruela interior, onde pararam o Corsa. É sempre uma festa, quando se encontra o carro à primeira, no primeiro dia em que conduzimos numa cidade onde nunca tínhamos posto as rodas, ou os pés.

Por esta altura ela já se calou.

(continua…)

Texto publicado no site  www.reportersombra.com

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