A minha homenagem a uma peça de literatura fenomenal do meu amigo António Reis.

“Os grandes escritores e o futebol

Jorge Luís Borges (a mão deve tremer ao escrever este nome), argentino, escritor de primeira linha da literatura mundial, e da última, e de todos os intervalos entre o princípio e fim de um texto, por mais argentino que fosse, e por mais incrível que isso possa parecer vindo de um argentino, vivia muito bem fora de jogo. Para ele o futebol era isto: “O futebol é popular porque a estupidez é popular”.
E mais do que isto, era isto: ” onze jogadores contra onze, correndo atrás de uma bola, não são especialmente atractivos”. Mais disse, Jorge Luís Borges, a seu tempo (1889-1986): “a ideia de que haja um que perca e outro que ganhe parece-me essencialmente desagradável. Há uma ideia de supremacia, de poder, que me parece horrível”. Torna-se impossível de compreender como é que um homem que tanto sabia de dizer coisas, tão pouco tenha percebido o jogo: “que estranho que nunca se tenha atirado à cara da Inglaterra o facto de ela ter enchido o mundo com jogos estúpidos, desportos puramente físicos com o futebol. O futebol é um dos maiores crimes da Inglaterra”.
Borges morreu quinze dias antes de Maradona ter levado a Argentina à conquista do título de campeã do mundo.

Adiante. Dizem as pesquisas que quando jovem Camilo José Cela (a mão deve tremer ao escrever este nome) jogava à bola e o fazia na fascinante posição de extremo esquerdo, o último da táctica, e quantas vezes, em quantas equipas, em quantas gerações, a táctica, quando chegava ao ponta esquerda já se tinha entretanto diluído pelos outros dez e já não era mais táctica, era o que sobrava do espartilho, o talento e a fantasia, enfim, o futebol.
Camilo José Cela, espanhol entre 1916 e 2002, morreu antes de poder ter visto a Espanha triunfar sobre o mundo com a bola nos pés. Mas viveu a tempo de ter escrito “Onze Contos de Futebol”, um livro do tamanho de dois cartões amarelos. Muito me atrai, no meio desse melhor onze do mundo, a peculiar situação do FC Waldetrudis Pucará: ” equipa que, levando até às últimas consequências as tácticas defensivas, jogava com dois guarda-redes. Teógenes, guarda-redes direito, e Teogonio, guarda-redes esquerdo”. Valerá a pena, a quem puder, ir ao livro e perguntar pela vida destes dois entre os postes.
Uma outra frase, de um outro contro: “é raro, mas não impossível, a morte estar escondida numa bandeirola de canto”. E outra, de outro: “é lei de jogadores: é tão mau rebentar como ficar a milhas”.

Um dos meus ídolos, que ainda os vou tendo, um chileno muito especial, morreu em 2003. Foi Roberto Bolaño (a mão deve tremer ao escrever este nome), que tinha nascido em 1953. Escreveu os livros que me foram aproximando da escrita e escreveu, em alguma parte de “Putas Assassinas”, no conto Buba, o que aí vem: “eu, por exemplo, e como todo o mundo sabe, sou extremo esquerdo. Quando jogava na América Latina (no Chile e depois na Argentina) marcava uma média de dez golos por época. Aqui (Barcelona), pelo contrário, a minha estreia foi asquerosa, lesionaram-me no terceiro jogo, tiveram de operar-me os ligamentos e a minha recuperação, que em teoria ia ser rápida, foi lenta e trabalhosa, para que é que a vou contar. Senti-me mais só de que a lua. Essa é que é a verdade”.

Em Inglaterra (1903-1950), George Orwell (a mão deve tremer ao escrever este nome), punha, nos seus últimos anos na Terra, o dedo no negócio do futebol, quando muito quente estava ainda o cadáver da Alemanha nazi:”na Inglaterra e nos EUA o desporto tornou-se uma actividade de pesados investimentos financeiros, capaz de atrair enormes multidões e de despertar paixões selvagens, e essa infecção alastrou-se de país em país. E foi nos desportos mais violentos e combativos, o futebol e o boxe, que ela mais se espalhou. Não há dúvida de que tudo isto está ligado à ascensão do nacionalismo, ou seja, este lunático hábito moderno de alguém se identificar com grandes estruturas de poder, e passar a enxergar todas as coisas do ponto de vista do prestígio competitivo”.
Orwell chegou a dizer que “futebol é a continuação da guerra por outros meios. É uma imitação da guerra”.

E de Portugal, isto, terminando por agora a ronda, mas prometendo voltar ao assunto um dia destes. António Lobo Antunes (a mão deve tremer ao escrever este nome), que felizmente ainda não chegou ao fim da data, e que nasceu em 1942, disse ao jornal espanhol El País, numa entrevista que foi replicada pelo MaisFutebol, de onde retiro estes últimos trechos, maravilhas sobre Messi: “nunca servi para outra coisa. Não sirvo para a vida prática. Nem sequer tenho computador. Escrevo à mão, porque é como bordar. Gosto do cheiro do papel, gosto dessa coisa artesanal que é escrever, do desenho das letras. Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos, as mulheres e Messi. Vi-o há pouco tempo, pela televisão, no Mundial de Clubes. Quem me dera escrever como Messi joga futebol. A bola parece amá-lo”

 

Obrigado António Reis

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