Vou começar isto de uma forma diferente. Vou tentar.
Tenho 30 anos (que original), e, como tal, as grandes referências da minha existência são, eram e foram, muitos deles, homens e mulheres que rondam hoje a notável estação dos “entre os 70 e muitos e os 90”. Porquê? Fácil.

Quando comecei a ler, a ouvir música, a ver cinema e televisão e mais tarde a escrever, procurei sempre seguir os vivos, aqueles que produziam obra e que estavam cá para falar dela, mas muito mais do que isso, estavam cá para nos surpreender com algo fantástico na vida de um Autor, a sua obra, a continuidade na mesma, a criação.

Lamentavelmente, a vida é finita, tangível, fantástica e sobretudo, tão curta, para quem tem dentro de si uma imensidão de coisas para deixar a quem cá fica e a todos os outros que hão-de vir.
Escritores, músicos, arquitectos, pintores, todos eles têm comum uma e uma só coisa, o legado, a obra, o ter obra.
E ter obra não é para todo e qualquer “artista”. Quantos são os artistas que vivem toda uma vida envoltos em “artes” sem obra e que no final não deixam sequer uma obra de arte que mereça a pena ser destacada, ouvida, lida, observada?
Quantos são os vigaristas com almas de artistas em capas de revistas?

Esta semana, talvez pela primeira vez em muito, muito tempo, comovi-me com a morte de um destes mestres. Com a morte do Coronel das palavras, do artesão das histórias bem contadas, das mais bem contadas que alguma vez tive o prazer de ler e ouvi-las posteriormente a saltitar no meu imaginário, no pensar atabalhoado de quem quer guardar sofregamente tudo o que as letras têm para dar.

Recordo-me do primeiro que li, o inimitável Cem Anos de Solidão. De uma simplicidade de processos, de uma capacidade de prender, de agarrar, de desviar do caminho. Recordo-me de ter a sensação de estar a ser chamado em voz alta por García Márquez para ir ler, para continuar a história. De estar sentado nas aulas e desatento, a pensar nele, na casa, na terra, no cheiro do ar e das manhãs ensolaradas.
De pensar e sonhar com uma Colômbia onde nunca estive.
De Medellín a Bogotá, passei-lhe os dedos e os olhos pelas letras vezes sem conta. Quem conta uma coisa dessas?

Depois seguiu-se a crueza e a virilidade de Crónica de uma Morte Anunciada. E depois disso pensei para comigo: Quero escrever e contar assim, desta forma a que não consigo sequer dar adjectivos. Quero que um dia as pessoas falem nos livros e nos contos do Martim. Escrever daquela forma é escrever quase em absoluto. É magnífico e magnânimo. Para quem lê, é desejar que os livros não tenham fim e as personagens nunca se “resolvam”. Que a realidade do que ali está nos apareça ao próximo Bom Dia. É acordar com a sensação de ter a boca cheia de ideias e o cérebro cheio de gritos, de urros, de uivos, de loucuras e desventuras de personagens que não são nossas, mas que nos são gentilmente emprestadas, sem a chatice do V de volta, sem o problema comezinho de ter de devolver toda aquela vida e aquele sem fim de sensações que nos inundam os olhos e nos amassam o corpo, rendido ao despretensioso estilo de narrativa com que este Homem nos moldou.

Fiquei triste no dia da sua morte.

Sem o saber ou entender.
Sem o ter inicialmente percebido. Sem ter percebido ainda porquê. Percebendo apenas que um homem destes, alguém que entra tão completamente na cabeça das pessoas, não pode deixar de ser chorado, lembrado, recordado, porque foi alguém que foi amigo, companheiro, professor, de todos os que o leram com vontade ou com curiosidade apenas, dos que guardaram o bocadinho de si que quis oferecer, em cada manuscrito que se dispôs a partilhar com o mundo, que, feliz, o agarrou e publicou de toda e cada vez que quis dar mais um pouco.
Não era obrigado a fazê-lo, claro está. Podia simplesmente ter guardado as histórias para os filhos e netos, para caminhos desertos sem homens cobertos da infelicidade que os livros tantas vezes ajudam a atenuar.
Mas fê-lo. Com vontade.

Vou recordar a última imagem que dele vi e a última notícia que dele ouvi:
“García Márquez disse aos jornalistas para irem trabalhar, para fazerem qualquer coisa de útil!”

A sabedoria de quem alcança a idade dos Mestres com lucidez.
Quem o leu vai recordá-lo para sempre.

E hoje, num tempo em que a memória se vai alojando em espaços virtuais de armazenamento, em que guardamos cada vez menos e registamos e partilhamos cada vez mais, guardar García Márquez numa das gavetas mentais em que arrumamos e atafulhamos tudo é, sem margem para dúvidas, um risco, mas que pode sempre ser compensado com a possibilidade de o procurar na estante e escolher um qualquer, só porque sim, só porque me apetece, só porque quero ouvi-lo falar para mim durante uns minutos. Os livros têm esta força. Podemos conversar com o autor de quando em vez e de vez em quando. Ontem, hoje, amanhã, ou noutro dia qualquer de uma vida que é curta, mas que dá para ler. Sem hora marcada. Sem a força forçada do tempo que corre tantas vezes ao contrário, que pura e simplesmente não pára. Não pára, é certo, mas enquanto corre, permite-nos a veleidade de podermos admirar o que escrevem estas nobres e altruístas criaturas, de podermos enriquecer a língua, o olhar, o estar e o pensar. Permitem-nos viajar seja a que horas for, onde for e como for. Acompanham-nos e sobretudo marcam-nos com a aquela soberana capacidade de marcar que só as palavras têm. Bem ditas. Tão bem escritas. A ecoarem no tempo como notas plenas de perfeição.

Quando um escritor nos agarra ao que escreve, ganha tudo. Quando nos faz comprar às cegas, é Rei na terra de quem lê.

Obrigado Gabriel García Márquez. Até logo, no sofá, possivelmente.

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