Quando era pequenino, demasiado pequenino para entender já a relação física das coisas, soube que a minha mãe estava a trabalhar na televisão. Recordo-me de ter sentido uma alegria fantástica, um orgulho imenso, agora, tinha um tio e a minha Mãe a trabalhar na televisão. Contudo, trabalhar na televisão era, para mim, uma coisa totalmente diferente daquilo que o cidadão comum entende, e bem, por trabalhar num canal de televisão.

Aos 4/5 anos, ainda dentro dos anos 80, entendia que trabalhar na televisão, era, trabalhar dentro de uma caixa de onde saiam imagens e sons e pessoas a fazer coisas e, os bonecos, mas mais precisamente, trabalhar na televisão era trabalhar no mesmíssino sítio onde eu via os “meus” desenhos animados, que piada é que isso tem? Tem muita! Quem é que trabalha dentro de caixas, apertado como uma mulher num espartilho? Quem quer ter um trabalho destes? Quando tens 5 anos, e alguém liga a televisão ao domingo e reconheces imediatamente a voz de um familiar a narrar um Grande Prémio de Fórmula 1, a alegria é indescritível, mas, na verdade, não percebia como era tudo aquilo fisicamente possível. Mas sabia que tinha duas pessoas muito importantes de quem podia falar na escola. O meu avô é engenheiro, a minha mãe e o meu tio trabalham na televisão. Incha! Vai buscar. O teu pai ou joga à bola ou já foste.

Como é que o meu tio faz para falar dentro da caixa? E o que é que a minha mãe faz na caixa se não a ouço a falar? Não faz nada? Então o meu tio trabalha e a minha mãe está para ali o dia todo a fazer o quê? Se é para estar sem fazer nada que venha para casa que faz aqui bem mais falta ao pé de mim para brincarmos, pensava eu para com os meus calções. Sim, era o ano inteiro de calções, se estivesse frio, botavam-se umas collants que se acabava logo o frio, se estivesse só fresquinho, era de meias de lã até ao joelho, mas calções! À Homem! Resumindo, nunca percebi o que é que as pessoas faziam dentro de caixa até ao dia em que a minha Mãe me levou com ela para o trabalho.

Estava radiante. Não me lembro desse momento épico, mas posso afirmar com toda a certeza que estava numa excitação sem precedentes e bem vestidinho. Só para mostrar aquela gente grande que já era um homenzinho. Afinal de contas ia entrar na caixa. Estava ansioso para ver como era tudo, a porta da caixa, as cadeiras onde as pessoas que trabalhavam na caixa se sentavam, o que é que faziam ao certo as pessoas que trabalhavam na caixa. Será que estavam lá mais meninos? É que às tantas uma criança enfiada tantas horas dentro de uma caixa chateia-se se não tem nada para fazer. E andavam lá mais meninos. Fazíamos corridas e jogávamos às escondidas. A caixa era o fim-de-semana de sonho. Adiante.

Cheguei à caixa, leia-se RTP, pois claro, nos anos 80, era a única “caixa” do país, mas como dizia, cheguei à caixa e fiquei desde logo fascinado com a porta. Nunca tinha visto uma porta giratória… Obviamente que tive que dar 3 voltas à porta até encontrar a saída, mas foi alucinante, com um regresso à casa da partida, sem receber 2 contos que fossem.

Depois de atravessar o cabo das rotações que era aquela magistral obra de construção humana (de um louco, devo ter pensado… para com os calções, claro!), deparei-me, de mão dada com a minha mãe, porque nunca se sabe quem é que se vai encontrar numa caixa, com uma recepção que se me assemelhava a um muro enorme e intrepável, sem ter por onde agarrar, onde a minha mãe entregava um cartão de plástico com a fotografia dela (bonita que só Deus sabe) e recebia um cartãozinho em troca para poder então ir para a caixa trabalhar. Lá fomos nós.

Seguiu-se o elevador e o travar conhecimento com um chão esquisito, cheio de bolinhas, parecia a fábrica de onde saiam os pneus de todos os carros do mundo. Fumava-se, muito, em todo o lado, era mesmo esquisita a vida, quando se fumava em todo o lado. Estava sempre nevoeiro. Tudo a fumar e a bater nas teclas das máquinas de escrever. Um horror. Casacos pendurados nas costas das cadeiras. Gente de papéis (Telexes) na mão a esbracejar em alvoroço, gritos, telefones a tocar, asneiras daquelas mesmo feias, até à minha mãe ficava corada, coitadinha. Aquilo da caixa era uma violência para ela. Nunca tinha visto tal coisa. Na minha escola não havia nevoeiro. Aquilo era uma bruma pegada. Depois do primeiro impacto e de vencida a timidez de uma criança, que se vê de repente no meio do campo onde desaparecera D. Sebastião, eis que chega a hora de conhecer as pessoas que trabalhavam com a minha mãe na caixa.

Olá. Olá. Olá. Beijinhos, beijinhos repenicados e pimba, as bochechas entrincheiradas entre os dedos opressores e a cara borrada de batom, bilhec…! Dá cá um bacalhau pá, quantos anos tens? Beijinhos. É igual a ti, Luisa, é a tua cara. Tão querido. Adoro os calçõezinhos. Do lado esquerdo da sala, um senhor de bigode (que hoje está casado com a minha mãe!), grande, alto, com pinta de duro e ali perto um outro, de óculos e olhar vincado, mas com um sorriso muito engraçado. Com voz límpida e marcada, atira-me com um, Olá. Estás bom? Sou o Mário e tu, como te chamas? Martim. E que idade é que tens? Cinco. Já sabes ler e escrever? Já alguma vez viste uma máquina de escrever? Sabes como funciona? (acenei envergonhadamente com a cabeça e ele chamou-me para junto de si e eu lá fui)

Foram estas as primeiras palavras que ouvi do Mário Crespo. Depois o tempo foi passado. Fomos crescendo. Eu mais do que ele, que o Mário já era crescido quando me conheceu. Passei a vê-lo outra vez dentro da caixa, como a tantos outros que via dentro da caixa e que me enchiam de orgulho perante os meus amigos. Eu conhecia as pessoas da caixa. Pegavam-me ao colo. A mim e ao meu irmão. E então começa lentamente o interesse pela informação. E o Mário lá ia andando, contando as coisas dos americanos. E eu ia crescendo. E depois deixei de o ver até me ter aparecido novamente naquele canal novo, a SIC Notícias. Mais crescido, com um ar ainda mais sabedor e conhecedor das coisas. E em 2010, foi a minha vez de chegar à SIC Notícias. E andei semanas e semanas e semanas, a ganhar coragem para me apresentar ao Mário Crespo, para lhe dizer que era o filho da Luisa e enteado do Luís, para lhe dizer que sabia que ele adorava jogar DigDug, mantendo sempre a compostura que deve assistir a um homem distinto e tentando não ser demasiado intrometido e insolente.

Continua…

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