E logo haveria de ter sido no dia do Pai…
Não sei bem o que lhes deu, sinceramente.
Ainda estou para aqui aos caídos a tentar perceber o que foi que lhes passou pela ponta dos dedos, mas a diabrura foi tal que me foram ao centro da memória, que conseguiram remexer-me na história e no final das contas o resultado foi tenebroso e roçou mesmo a deselegância, pouco comum na minha pessoa.
Levou inclusivé a que tivesse de me retratar publicamente, tal não foi a dimensão da escandaleira que estas duas aprontaram.
Mas vamos por partes.
O dia até começou de forma relativamente aceitável, mas depois veio tudo por aí abaixo, aos escabrosos trambolhões, mas não foram cambalhotas inofensivas e apalermadas, foi um espalhafato de tal forma, que se pôs “a gente” a comentar, pudera, não era coisa para menos…
Aparentemente o dia do Pai mexeu com as “meninas”, coitadinhas, que se começaram a enervar, e com todo esse nervoso miúdo, foi como se subitamente tivessem ganho vida, como se de repente tivessem assumido o controlo de tudo.
A partir desse instante infeliz, desataram numa fúria consertada de escrever palavras à estalada, a eito, sem parar sequer para reflectir, sem se questionarem sequer sobre a legitimidade ou mesmo a lógica do que iam escrevendo com a voracidade de um incêndio a lavrar mato dentro. Verdadeiramente diabólico.
Nem dei por nada. Devo ter “adormecido” por uns instantes e elas foram por ali fora, com uma crueldade galopante e sobretudo com a insolência e desobediência própria não da infância, mas sim da adolescência…
Que raio de mal vos fizeram os pais e os filhos, para merecerem tamanha desconsideração? Que raio de bicho vos mordeu? Apanharam-me distraído e fizeram com que levasse tempo a perceber que já me tinha espalhado ao comprido… Quando percebi a verdadeira da dimensão da “brincadeira”, já era tarde de mais, tinha acabado de rasgar de alto a baixo, algo que une tão verdadeiramente filhos e pais. O dia dos segundos. Sem qualquer justificação, o que torna tudo ainda mais… estúpido.
Fiquei doido, azul de raiva.
Ainda tentava perceber que raio se tinha passado aqui e já elas transpiravam amedrontadas (pudera, já conhecem o suficiente do “pai” para perceberem que fizeram asneira… da grossa), quando me começo a preparar para as desancar de forma colérica, enfiaram-se dentro dos bolsos das calças e juraram a… mãos juntas, que não mais haviam de sair dali enquanto eu não me acalmasse.
E assim foi, passaram quase meia-hora escondidas no escurinho protector da “algibeira”, por onde iam espreitando a medo, a ver se conseguiam encontrar-me os olhos, se conseguiam ver se o sobrolho ainda arregalado. Claro que o tinha. Fiquei desvairado com o que estas duas aprontaram…
É que não se faz.
Passado um bocado apanharam-me a olhar para o lado e pimba, saltaram cá para fora, refugiando-se atrás de um cruzar de braços firme e decidido. (É que estas duas quando armam um putedo deste género, têm alguma dificuldade em chegar-se à frente para serem responsabilizadas pelas lindas embrulhadas em que se/me metem)
Lá as consegui convencer de que fugir não era de todo a melhor solução, e elas quietinhas, à espera… Não lhes podia dar uma palmada, isso é totalmente anti-pedagógico e violência só gera violência.
Depois pensei em castigá-las, claro, era quase imperativo tomar uma posição de força e autoridade para que percebessem que isto pode ser à vontade, mas não à vontadinha, que a palavra final na publicação de um texto, não é delas, mas minha, que se isto não é respeitado, está o caldo entornado.
Ainda tentaram gracejar dizendo: “Sim, mas sabes que uma mão lava a outra…”
Viram que não esbocei sequer a tentativa de um esgar moribundo e arrumaram a viola no saco.
Disse-lhes que tão depressa não voltavam a escrever.
Que tinham passado das marcas, sem direito a piadas…
Ficaram muito tristes.
Expliquei-lhes que me estava cagando para a tristeza delas, que me envergonharam, desrespeitaram, que me usaram para um fim que de nobre teve pouco ou quase nada, bem sei que nenhuma delas é mal intencionada, mas… não se pode dar corda a um desrespeito deste tamanho, disse-lhes ainda, e aqui acho que também me excedi (mas caramba, estava nervosíssimo e irritado, e um homem irritado às vezes fica um pouco descontrolado), que, por exemplo, no Irão, eles cortam as mãos a quem é apanhado a roubar… A quem se apodera do que não é seu…
Ficaram brancas, estarrecidas, a suar em bica, parecia que de facto estavam a chorar desalmadamente diante dos meus olhos, inertes, imóveis, congeladas, com a mais vil sensação de arrependimento que lhes vi nos olhos nos últimos tempos.
Sim, as mãos também vêem.
Prometeram-me mundos e fundos, mas castiguei-as. Fui severo? Não fui não, fui justo, fui pedagógico e sobretudo, fui formador.
Tenho a certeza de que tão cedo não voltam a tomar-me as dores e a servirem-se dos meus pensamentos para dar voz aos seus intentos.
Um dia também eu hei-de ser pai e rejubilar com as coisas boas dos filhos, com as más também, com a amor da minha mãe, com a ternura da minha linda e adorada mulher, a vê-los comer sopa com a colher, e quando esse dia vier, escreverei, e para isso precisarei delas, concentradas, focadas, resolvidas e bem encaradas, porque nada há de pior para o escritor que ter as mãos desavindas, que ter nas mãos um obstáculo, é quase como o Polvo quando não pode contar com um tentáculo, espectáculo de comparação, pssssccchhhtttt, está quieta, que já chega de brincadeira por hoje.
E agora?
Passaram toda um a tarde de penitência. Não tocaram no telefone. Não folhearam as páginas do Vargas Llosa. Só se mexeram para se sentarem à mesa com os pais da Ana, que respeitinho é muito bonito e as outras pessoas não têm que ser incomodadas por um par de mãos mal educadas.
Entretanto já nos acertámos e entendemos. Daqui para a frente, veremos se se conseguem comportar.
O castigo? Esse é simples, basta não as deixar sonhar.
Ao dia e aos Pais peço eu desculpa uma vez mais, prometo não tornar a chatear.
Até já.
Nós vamos indo…
Adeusinho…
Digam até amanhã às pessoas, se fazem favor!!
– Até amanhã!
– Ah bom. Está bonito isto, ai está está.

E tu?
Quem? Eu?

Sim, tu.
Oh, deixa ver no que isto dá.
Vais ver que aprenderam a lição.
Espero que sim, não quero ter de as castigar novamente.
Castigos são coisa de gente.

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