Vergílio Ferreira disse certa vez que, “O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou.”.
Como queria eu não perceber e não saber do que nos fala.
O tempo é talvez, isto se não tivermos em conta o amor, a vida e o fim da mesma, uma das temáticas que mais palavras mereceu junto de quem tão bem as escreveu.
Mas o que é o Tempo afinal? O que é do tempo? O que é nosso? O que é meu, teu, deles? O que faz o tempo aos homens e como olham os homens para o Tempo?
Por esta altura posso estar já a contribuir para uma pequena confusão que residirá no facto de estar a escrever a palavra Tempo, ora assim, ora noutro tempo… Não se arreliem que não é caso para tanto.
Ora então, temos o tempo das horas e o tempo do Tempo, da vida, da história, dos dias e das noites e das tardes e seus açoites. E depois, depois temos tudo o resto e as coisas intemporais também.
Não para o tempo e o seu estado mas para o Tempo medido em unidades de grandeza factual, de perpetuação de histórias e memórias, de derrotas e vitórias, de verdades ilusórias, de sensações premonitórias que a mais não levam do que ao centro meridional da reflexão e à procura incessante da explicação convincente, que no fundo, não desmente a crença de que no Tempo se encontra a solução para o mais profundo e obtuso dos males e também o elixir jovial eterno que te permite reviver e reaproveitar o que de mais fantástico já viveste na tua… vida.
Há, na durabilidade das memórias e das histórias uma perpetuação da sensação, uma prolongar do recordar e uma vivência da experiência. Sem tudo isto não teríamos passado, e digo… passado, mas não tocando a melodia do verbo passar no seu particípio passado, falo sim do passado enquanto outra das grandezas temporais, enquanto história construída de forma unilateral e sobretudo enquanto história não pensada, enquanto recordação eterna da vida já vivida e do tempo já passado, ultrapassado, contado e relatado, que se alcança com o simples exercício de lembrar.
Mas o que é então esse passado? É tão somente a lembrança pungente do tempo que já passou? Da vida que foi e que por teimosia birrenta já não volta?
Caramba, falta-me o tempo para escrever sobre ele, falta-me o vagar para permitir que a mente me fuja para o “lá atrás”, para o “ai que já foi há tanto tempo”, ou mesmo para tudo aquilo que procurei afundar nas profundezas da memória, desde a coisa mais bela à mais triste história… E foram tantas e tão poucas, mais ou menos loucas, mas histórias, memórias, mais ou menos irrisórias, minhas, do meu Tempo.
É preciso tempo, muito tempo para se escrever sobre algo tão grande e incomensurável quanto o Tempo.
Eu bem tento, mas por vezes não há nada que se possa dizer, nem tão pouco a libertação das mãos e a soltura da fluidez imagética surda, que aprisionada no cérebro te martiriza a ausência de voz e te pesa no viver a impossibilidade de voltar atrás para resolver e reescrever o que foi escrito de forma errada. Não interessa, não posso nem lhe quero fazer mais nada.
E se o pudesses mudar, por onde começavas?
Não tenho tempo. Por isso mudava pouco mais que nada.
A história do Tempo e do seu desalento para com os homens,
A história da figura que se afigura nos olhos.
A história de quem guarda Tempo em molhos inesgotáveis, em pensamentos indecifráveis, em… em sei lá mais o quê. E você?
Dê-me só uns minutinhos que já lhe conto mais uns bocadinhos.
Se um dia tivesse tempo passaria todo o Tempo a ouvir com os olhos. Sim, porque gosto dos sons que eles escutam, os olhos. Com ou sem miopia os olhos não perdem uma linda sinfonia. E no silêncio da ausência de palavras os olhos ouvem, escutam, cheiram, lutam e procuram a resposta para tudo aquilo a que a boca não sabe responder.
Será do Tempo, ou são mesmo os olhos que fazem bem mais do que… ver?
Hoje li a crónica do António Lobo Antunes, Tudo cinzento na janela , e… fez-se silêncio, foi toda ela lida em silêncio. Surdo. Absoluto. Total. Os olhos ouviram-no bem, chamei a Ana para ouvir também.
E tal como diz o Pedro (Abrunhosa), haverá por certo dias, e mais dias e dias em que só queremos voltar para os braços da nossa mãe. E quem não tem? Não volta para os braços de ninguém?
Errado. Está frio. Em Fevereiro. Mas é inverno. E eu com isso? O céu cinzento e eu que já não aguento a tristeza dos dias. O bolso vazio e corpo com frio. Mas cá me aguento e tento, faça chuva ou seja apenas a voz do vento, não importa, a vida está torta mas olhos fazem o que lhes peço.
Só tenho de os tratar bem e não chatear ninguém. E as palavras que não saem e as outras que não sei.
E se eu soubesse todas as palavras da minha língua, minha mãe?
Enchia uma sala de todas as que aprendera e que não mais esquecera.
Está frio. Chove. É Fevereiro. Não gosto nem deste nem do anterior. Dá para começar o ano em Março se faz favor?
Gosto da chuva no rosto e do seu som nos meus olhos.
Mas não gosto do cinzento nem do barulho excessivo do vento, que por razões que desconheço se torna leviano e mal educado quando entra de rompante pela casa dentro, quando assobia radiante pelas frestas das portas e as molduras já tortas, Óh meu Deus… que raça de miúdo… o Tempo.
E poderia escrever sem parar, fazer com o Tempo o que me permitisse o vagar e ser feliz, feliz com o simples viver em seu redor e com escrever sobre a o amor a vida e o fim da mesma.
Não tenho tempo. Não ouço nada. Shiiiuuu, vê se te calas que ainda acordas a vizinhança, com essa teimosia que não descansa, pareces uma criança, mimada, que só se sente realizada, quando tudo à sua volta se lhe dedica.
E este teu servo aqui fica, sentado, teclado no colo, a dizer-te das boas.
Se tens asas… porque é que não voas?
Ó Tempo… não voltes para trás!

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