A crónica da “Crónica dos Bons Malandros”, de Mário Zambujal

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Esta notável crónica do Mário Zambujal foi devorada em 3 dias.
E porque raio demorou tanto ou tão pouco tempo? Não que devam existir tempos previamente determinados para se ler seja que livro for, mas este em particular, consome-se com a mesma vivacidade com que o autor nos cola o traseiro ao sofá e nos empurra para o folhear ávido e compulsivo das páginas que compõem a sua intemporal Crónica dos Bons Malandros.
Do autor sei-o jornalista de carreira, recordo-me de o ver “pivotar” aos domingos em jeito desportivo, na RTP e recordo-me também de o ler aqui e ali e de pensar que um dia haveria de o ler mais a sério, com olhos de ver e não apenas com olhos de olhar.
Com a primeira edição datada de 1980, 3 anos mais velha do que eu, esta fantástica rábola é um elogio à imaginação, um templo de ritmo na escrita que cativa e prende quem tem a sorte de o estar a ler. Sobretudo é um povoar descarado da imaginação, com uma imagética fenomenal apoiada nas palavras seguras e na oralidade constante presente no trautear das tropelias da quadrilha.
Sem o lirismo templário e erudito de muitos dos “mestres” da nossa literatura, mas com uma sagacidade, uma comicidade e uma escrita absolutamente vorazes e simultaneamente tão simples e entendível, dourada mesmo, Mário Zambujal afigura-se como um dos escritores com quem mais me diverti nos últimos tempos, e do espaço do tempo sei eu qualquer coisa.
A malandragem que ele nos apresenta é de todos conhecida, se não é deveria ser, porque todos os de nós que já percorremos as noites da cidade conhecemos ou já ouvimos falar de algum daqueles trafulhas de renome, perpetrados por histórias de noites de pancadaria cega ou de golpadas absolutamente incríveis. Os Beto Mãozinhas desta praça que na noite em que muitos descansam tantos pecados cometem e a todas as luxúrias desta vida se entregam, com a particularidade notável de serem uma quadrilha absolutamente romântica e tambem ela lírica, que não permite a utilização de armas de fogo nos seus “estatutos” de pequenos vândalos. Ainda não percebem porque razão alguém se dá ao trabalho de escrever sobre o que já foi escrito? É fácil. Mesmo em português, mesmo sobre um livro que de novo já tem pouco, há sempre a sorte de não parecer louco e de escrever mais um pouco, tentando acrescentar o que quer que seja que lhe possa estar a faltar. Se lhe falta alguma coisa? Não. Mas nunca é pouco
A história atinge o ponto auge do romantismo de delícia no momento da morte de Renato e do enfarte que sofre Marlene, ao ver o seu companheiro sucumbir às armas que não desprezava.
Tudo isto para quê?
Não sou de fazer resumos ou de me achar ser seja lá o que for para vir, aqui, praticar um qualquer exercício de escrita a propósito de uma obra que tem mais anos que eu, de dizer se o livro é o melhor ou o pior, se está mais ou menos bem escrito, o que sou, isso sim, é de enaltecer e de elogiar, de defender e de legitimar, de distinguir e louvar quando alguma coisa ou o produto de alguém merece com toda a justiça louvores, distinções e elogios e é isso mesmo que Mário Zambujal me merece, louvores, elogios enaltecidos e provas provadas de letras bem orquestradas e brincadeiras lexicais capazes de me prender, de me colar o traseiro ao sofá, de me deixar ficar por lá.
Vou lê-lo novamente Mário, vou com toda a certeza! E vou reler esta sua crónica, não poucas vezes, nos anos de vida que tenho pela frente e, não contente, emprestarei e recomendarei o livro a quem não saiba o que há-de ler, a quem não saiba quem escolher, a quem não perceba o que esta Crónica dos Bons Malandros consegue fazer, por quem tem a sorte achada pelo somatório das vezes em que se conseguem folhear e voltar a passar as 180 páginas desta pérola. Sim, pérola, jóia, relógio banhado a alegria e a diversão, na bela companhia que faz toda esta história, na persistência com que a mesma se fixa na nossa memória e na agradável sensação que se tem enquanto se avança pela noite de Lisboa fora rumo ao grande assalto à Gulbenkian.
Atrevido como o ferrão das abelhas que servem de móbil ao Furto, Mário Zambujal chegou-me assim, livre, limpo, claro, solto, simples, informal, alegre e rápido, como rápido tem de ser um mestre na arte do contar, na arte do relatar, quanto mais um artesão da criação, um doutor das expressões livres e assim, para o soltinhas.
Obrigado, Mário. Foi um prazer conhecê-lo assim.

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