Nelson Mandela – Imperador da Liberdade

Mandela

Nelson (nome que lhe foi atribuído academicamente por uma professora e um nome tão pouco… africano, com tanto de… inglês) Mandela morreu!
O cursor pisca-me no ecrã. Insiste em piscar repetidamente e eu quieto fico a olhá-lo… isto só acontece verdadeiramente quando não fazes a mais pequena ideia do que vais escrever. E não faço de todo.
Não posso dizer, de forma alguma, que não estava à espera que acontecesse, seria tremendamente hipócrita e estúpido da minha parte não estar à espera que um homem de 95 anos – que há quase 2 lutava contra uma infecção pulmonar – morresse. A infecção, embora fosse mais forte que Ele, nunca foi sequer capaz de subir os degraus que compunham a tremenda e conventual escadaria que levavam ao alto da sua grandeza, ao incomparável símbolo em que se tornou ao longo de uma vida marcada pelo sofrimento, pela dor, pela clausura, pela luta feroz e sem tréguas por um direito que é para todos nós, os jovens homens deste tempo de merda em que vivemos, uma coisa banal e ridícula de tão garantida que a temos, a Liberdade.
Começo por dizer que Mandela nasceu preto, num país ocupado e governado por uma lei branca, imperial, colonialista, segregadora, racista, alienígena, ERRADA! E o que fez Mandela? Lutou. Lutou com todas as forças que encontrou no corpo, na terra, na injustiça, na série obtusa de leis pré-históricas que viu serem legisladas, se assim se pode sequer dizer, para protecção anglo-holandesa e castração dos povos nativos, dos povos locais, dos donos da terra, dos filhos da mesma, dos Pretos.
Mandela foi, portanto, africano, nascido em África, num país ocupado e saqueado por brancos que sempre se acharam pois, melhores que os pretos e donos dos pretos, e no primeiro país em que Mandela viveu – este de que aqui falo – era exactamente assim.
Os brancos eram donos de tudo, até da própria terra. Já os pretos, não eram donos de nada, não podiam sequer, por lei, trabalhar em terras que não fossem de proprietários brancos, NADA.
A perversão só piorou no Século XX, esse, de tão boas memórias e ideias no que à Liberdade e à sua vivência dizem respeito.
Perante tudo isto, Mandela podia ter feito como fizeram tantos outros. Podia sim.
Podia não ter feito absolutamente nada, podia ter sido, tão simplesmente, mais uma calada e fustigada vítima de segregação e exclusão racial e de humilhações durante toda a sua vida. Podia. Podia ter sido subjugado por todo o medo que foi sentindo, por toda a luta que foi travando, por tudo o que foi aqui e ali semeando, mas não. Em vez disso, sonhou e construiu um novo país, o segundo em que viveu. Uniu o que homens (que não) como ele haviam separado.
O homem insiste constantemente em aparecer como o maior dos seus inimigos e o pior dos seus aliados. De que servem afinal os grandes Deuses de tempos passados?
Conheci-o quando tinha 7 anos. Ele tinha já milhares deles. Era ancestral. Intemporal. Julguei até que fosse imortal.
Lembro-me – porque naquela altura, com a idade dos calções por cima do joelho e da luz acesa para dormir à noite, o que eu mais gostava de ver na televisão, era o noticiário da hora do almoço – do dia em que o libertaram. Estávamos em 1990 e o acontecimento teve honras de abertura de Jornal, claro está. Lembro-me igualmente de qualquer coisa igualmente importante no ano anterior, quando deitaram abaixo o muro grande na Alemanha. Recordo-me da imensa multidão. Creio que nunca tinha visto tanta gente junta na televisão.
Na verdade o que recordo sobretudo é a imagem de um homem que passou 26 anos preso e que é libertado e exibe um sorriso gracioso de um homem bom. Lembro-me de pensar que a prisão talvez não fosse um sítio tão mau, porque ele não vinha com uma cara triste, a cara que deviam ter os homens que estavam presos, porque a prisão era um lugar para homens maus. Logo me lembro de ter perguntado à minha mãe se o Mandela também era mau. Disse-me que não: “estava preso injustamente. É um herói e ainda vai mudar o país dele. Ainda vai ser presidente”.
Mandela foi, é e continuará sempre a ser um homem preciso, um homem necessário.
Talvez se trate na verdade de um daqueles Homens escolhidos pela vida. Um daqueles que, escolhido, sente a escolha e a abraça, seguro de que a Vida não se arrependerá da escolha que fez. Tenho a sensação de que se trata sim, de um homem que não deixou morrer o único e obstinado sonho que teve durante toda a sua existência: a Liberdade e a luta pela igualdade de direitos entre os homens do seu país. Do país que um dia haveria de ver de pé.
Há qualquer coisa em Nelson Mandela para além da obra, para além do lutador, para além da figura incontornável que nos encheu e encherá a memória e as páginas dos livros de História.
Mandela é, foi, e será, uma espécie de divindade um pouco à imagem das divindades greco-romanas que fomos estudando nas cadeiras de pau frio das nossas escolas.
Dele nunca esquecerei a frase que me guiou tantas vezes no meu invulgar percurso universitário e que me guia tantas vezes na minha própria vida: “A educação e o ensino são as mais poderosas armas para mudar o mundo”.

Mandela é um Deus. Mandela foi o último Imperador da Liberdade, o último Rei africano. Mandela foi o último Rei, ponto.

Mesmo sabendo que estes dias têm de chegar, vejo e verei sempre com pena, não que estes homens deixem o mundo, mas por ver como fica cada vez mais ignóbil este mundo, por ver como ele se encaminha, sem que se perceba bem para onde, sem estes Homens, sem estes Deuses das pequenas coisas, mas dos grandes feitos e feitos da mesma carne que apodrece, do mesmo rosto que empalidece, da mesma vontade que esmorece, Deuses forçados a partir, que não podem continuar a carregar nas costas o peso de tudo o que fizeram, da obra que deixaram, enquanto assistem, já cansados, a tudo, sem ver ninguém que lhes siga os feitos, que lhes tome os jeitos, sem ver camisas rasgadas no peito, sem ver luta, crença, honra, sem ver quem honre aquilo que pensa e ver quem nem sequer pensa na honra.

No mundo tão virtual e cada vez mais perigoso, que hoje se chore e se lamente tão profundamente a partida deste Homem majestoso. Adeus Madiba. Obrigado, sobretudo isso, obrigado.

“A educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal. É através dela que a filha de um camponês se torna médica, que o filho de um mineiro pode chegar a chefe de mina, que um filho de trabalhadores rurais pode chegar a presidente de uma grande nação.Nelson Mandela, Imperador da Liberdade

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