À conversa com o Medo – Parte II

medo

Faço questão de retomar exactamente do ponto em que te deixei.
Não que pense que esta seja a atitude certa a tomar, até porque sempre fui o oposto desta resolução.
Sempre fui de deixar as coisas a meio, de começar uma e depois partir para outra, começava uma brincadeira, desarrumava metade dos brinquedos (também não eram tantos assim…) para exasperação da minha santa mãezinha, para não muito depois me sentar em cima destes, a ler um qualquer livro das Aventuras de Tintim, e assim brincava o Martim.
Como dizia, sempre fui desorganizado, sempre me organizei na minha própria desorganização, frase tão cabalmente utilizada por todos os “desarrumados” e “desalinhados” ao longo dos tempos.
Mas como como comecei por dizer, vou pegar exactamente onde te deixei… Deixei-te a meio da tua brincadeira, do cobarde e inacreditável ataque que ousaste disferir-me, sem me avisares, sem sequer ao menos te teres dado ao trabalho de perceber o que estavas a fazer e onde estavas tu a mexer, meu cabrão! Sabes? Irritas-me!
Creio que não preciso sequer de te dizer que te vou tratar por tu novamente, na verdade, não vejo outra forma de me poder dirigir a quem me tenta, perdão, a quem me tentou foder de forma tão suja como tu tentaste…
Mas, e agora vem a parte deliciosa no meio de tudo isto, falhaste meu porco de merda, falhaste, falhaste, falhaste! Sim, 3 vezes, porque não me vou cansar nunca de te gritar bem alto dentro desses ouvidos de filho da puta, que falhaste tão redondamente quanto aquilo que alcançaste primeiramente!
Não sou injusto e cada dia mais não suporto injustiças, e por essa mesma razão reconheço que não falhaste na totalidade, não falhaste, por exemplo, na natureza do que me fizeste, falhaste sim na vontade, falhaste porque foste curto de vista e eu, mesmo vendo mal, vi bem melhor do que tu, vi mais longe, mais fundo, mais para lá e para mais longe e vi que te foste deliciando a ver-me, a ver-nos, a ver-me na cara o sofrimento, a desconfiança, a dúvida, a incerteza.
Esfregavas as mãos de contente e recostavas-te na tua cadeira de pele, apetitosamente moldada à falta de espinha da tua existência.
Falhaste porque me subestimaste, porque pensaste, e foi aqui que na verdade te “esmerdaste”, que me tinhas deitado abaixo quando me deste aquela tareia há três meses atrás, pouco depois de ter feito trinta anos.
Conheces-me mal rapaz, conheces-me muito mal e esse foi o teu grande erro, pensaste saber já tudo o que havia para saber sobre a minha pessoa.
Pensaste que me vergarias como vergas o melhor dos homens e mais forte das mulheres à tua passagem, julgaste-te dono e senhor da situação e quiseste divertir-te um pouco, não foi?
Confesso que conseguiste em determinados e mais variados momentos deitar-me por terra, é certo, como seria de esperar, fiquei sem reacção quando percebi que aos trinta anos, com poucos dias, estava perante um cancro, eu.
Fiquei atónito, não queria crer nos sons, nas palavras e no seu significado.
De repente quis não entender uma palavra do que me disse o médico, quis não ser português, não entender uma palavra desta língua absolutamente maravilhosa, quis sorrir sem querer chorar, quis crer que não estava a acreditar.
Agiste como ages sempre. Sorveste-me a fé e imiscuíste-te no meu corpo, na minha alma, no corpo e na alma dos que me amam e me rodeiam. Não pensaste, talvez…
Não pensaste de todo!
Bem sei que não tens quem te ame verdadeiramente, que nunca tiveste, que nunca vais ter, mas isso não te dá o direito de brincares com quem te respeita, de humilhares quem cedo acorda e quem tarde se deita.
Pensaste que um cancrozinho de merda servia para me atirar ao chão e ali me deixar!
Pensaste que eras tão mais forte que eu que nem ponderaste sequer dares-te ao trabalho de ver se eu continuava a respirar.
Foste sobranceiro e arrogante ao ponto de achares que tinhas ganho, que tinhas fodido mais um e que agora era só sentares-te de bracinhos cruzados, copo na mão, as pedras de gelo balouçando e dançando alegremente em corropios coordenados, em coreografias tão densas quantos os teus próprios intentos, mas… deste-te mal e comigo dar-te-às sempre mal, pelo menos no que a este tipo de merdas diz respeito.
Estou especialmente violento na linguagem?
Desculpa, estás a ficar ligeiramente sensível e com requintes de burguês apalaçado de bigode aparvalhado!
Aquilo que me fizeste merecia muito mais, merecia que te desfizesse um dos maxilares, mas, infelizmente, és tão físico como o ar que respiramos e, como tal, nada feito.
Estou certo que assim te dói mais… e o prazer sádico que isso me provoca é simples e absolutamente delicioso!
Segunda-feira, 11 de Novembro de 2013, pela primeira vez desde que decidiste vir “brincar” com a minha vida, olhei-te verdadeiramente nos olhos, com a alegria de quem vence, com a raiva de quem dobra uma tormenta maior do que inicialmente se aguenta. Soube que não tenho mais nada a fazer para te expulsar do quotidiano que me levou de mão dada pelo tempo dentro. Pelo tempo em que parei e te enfrentei, olhos nos olhos, cão!
A primeira coisa em que pensei, depois das lágrimas de alegria, comoção e alívio que derramei, foi em escrever-te.
Diz lá que não sou um querido, não me esqueci de ti, viste?
Deves ter muitos assim, deves… deves, deves!
Pensei no imediato instante em que o doutor de nome importante me serenou a alma em esfregar-te nessa cara imunda, porca, sem expressão, sem nada.
Tens uma tromba de um porco sádico e trocista, trocismo reles todavia, insalubre e descabido.
Sempre me foi dito que é feio, muito feio brincar com os sentimentos das pessoas e tu, mais do que ninguém nesta vida, brincas e brincas como bem te apetece, com o que te apetece, quando te apetece, mas para mim, por agora, chega! Estou farto, ouviste?
Foste, decididamente, longe demais, consegues entender isso?! Que não és, de modo algum, inocente, “Não há inocentes. Há apenas diferentes graus de responsabilidade” e tu és tremendamente responsável por grande parte do mal que há na vida das gentes.
Apertaste-me. Vergaste-me, mas não me partiste, isso não, isso nunca.
Durante três meses a minha vida sofreu uma rude mudança e a mudança, como é sabido, implica encaixe, implica transformação, percepção, compreensão, entendimento, aceitação e também sofrimento.
No entanto louvo-te a resiliência e capacidade invulgar de resistência, uma resistência quase maquiavélica, perturbado e profundamente insensível, que não pode ser explicada por palavras curtas, que pode até não ser explicável de forma alguma, pois se existe coisa subjectiva nesta vida é a relação do homem com o medo e com o amor.
Se no amor e na paixão testamos os nossos limites metafísicos e as nossas capacidades desconhecidas em cada novo fulgor da alma, junto a ti, somos pequenos e percebo o quão penosos e ridículos te devemos parecer, acagaçados com um problema de saúde, atarantados com o nome que significa o que tu sabes que significa.
Consegues ao menos entender a dimensão da palavra cancro?
Consegues perceber que as pessoas possam ter medo de morrer? Possam não gostar de sofrer? Que possam, em tempos cada vez mais agradáveis, agarrar-se à vida e ao amor, sem que para isso tenham que caminhar diariamente a teu lado?
Porque não és tu capaz de perceber o quanto és mal amado? Porque não vais chatear os cornos do teu pai?
Se soubesses o quão desagradável consegues ser, o quão inconveniente e mau sabes e gostas de ser… às vezes julgo na verdade estar a falar com alguém que ouve e que vai para casa pensar em tudo aquilo que lhe gritam aos ouvidos, mas depois, depois…
Análises, ecografias, raio-x, TACs, cirurgia, remoção, prótese, cicatriz, grande, enorme, agrafada, isenção, oncologia, impressão, dor instalada, pânico, sofrimento, alma assustada, MEDO, MUITO MAS MUITO MEDO!
Bem sabes que a minha relação contigo é saudável e não tens tão pouco a coragem para o desmentir, certo?
Tive sempre para contigo um trato que foi sobretudo digno e de alguma admiração até, nas alturas em que te sabes comportar e que não és verdadeiro parasita que és, a sanguessuga vampiresca, o monte de esterco indecoroso que na verdade todos sabemos que és.
És com toda a certeza a sensação mais aterradora que experimentei na minha vida.
Estou certo que esta não é a última vez que tenho de te encher as fuças de verdades e coisas que não gostas de ouvir.
És aquele miúdo estúpido com que ninguém brinca e por isso roubas a bola e furas com uma faca, bates em todos só porque és maior e mais velho, ameaças, roubas, fazes chantagem, mas no final dos dias, vais-te sempre embora sozinho. Choras de noite e ninguém te acode. Tens raiva de tudo o que sorri e tem vida. Tens raiva de quem tem saúde e por isso… metes-me nojo!
Já eu, de uma forma ou de outra, sozinho nunca fico, percebes?
Percebes, meu filho de uma grandessíssima puta porque é que nunca me vais dobrar? Percebes ou não? Foda-se!!! Havia alguma necessidade desta merda? Havia?
Com tanto assassino, violador, pedófilo, político, banqueiro à solta, vens escolher-me justamente a mim para me tentares arruinar a vida?
Mudaste tudo! Estragaste muito e muita coisa! Tornaste os meus olhos mais duros, a minha cara mais fechada, o meu pensar mais puro.
E deixo-te com isto: não destruíste o mais importante, a minha vontade de viver, le joie de vivre, (pode ser que em francês entendas melhor) de querer sempre mais, melhor, ser mais, ser maior, ser feliz, mais feliz, ontem, hoje e sempre.
Não foste capaz de aniquilar o sorriso com que acordo e me deito, não foste nem nunca serás, meu rapaz!
Por isso sugiro-te que agora vás fazer a tua vida para outros lados e que não me faças ter de vir desancar-te publicamente tão cedo, ouviste? Porque da próxima vez prometo-te que o espectáculo não será bonito.
Não tenhas… não é caso disso.
Mudaste-me e agradeço-te por isso, mas… já chega.
Já diz o ditado que, tudo o que é de mais enjoa!
E agora, ficas aí, de bico calado!
– Mas..
– Pschhht… está calado! Está caladinho.

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4 thoughts on “À conversa com o Medo – Parte II

  1. Comecei por ler esta parte II sem dar lugar à 1ª parte. Logo me prendeu, não só pela escrita mas por apresentar algumas dimensões comuns aos atuais capítulos do livro da minha vida: o cancro – inicialmente da mãe e agora do pai -, o desrespeito pela condição humana e a libertação da alma.
    Tomando como ponto de partida que se trata de uma situação real, trata-se de uma publicação que traduz muita coragem. Com ou sem assédio, nesta doença ou outra muitos leitores se poderão rever e assim (espero!) soltar o grito dos silêncios que tantas vezes os consome. Atualmente todas as explicações se encontram na crise e na troika mas o que dizer do crescente vazio humano? O que dizer de alguns dos meus alunos, com 11-13 anos que em nada se importam se um colega está doente, ou algum familiar do mesmo morreu… Que nem perante as dores de um portador de deficiência manifestaram qualquer preocupação?
    O assédio … esse é outro tema, e que tema… A muito custo dele consegui falar numa sessão de psicoterapia. Trabalhava eu com casos de violação, por exemplo, ou drogas, e não era capaz de relatar um episódio que me fazia sentir sujo. Ainda assim, …
    Aqui voltarei com mais tempo. É de madrugada e eu estou com insónia que persiste desde sexta,,, Enfim, o aproximar do retorno à vida de cigano, a 120km de distância, numa escola na qual jamais poderei ser eu 😦
    Abraço.

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    1. Obrigado pelas suas palavras! Dizer-lhe que se está ligado ao ensino, transmita, fale, converse, explique, mostre vídeos, “agarre” os seus miúdos enquanto a sua passagem pela vida deles ainda pode significar alguma coisa! Resta-nos a crença e a capacidade de tentar fazer alguma coisa, qualquer coisa, o que quer que seja! Abraço. Cada um de nós tem de ser mais do que um fio

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      1. E falar, … falar sem complexos!
        É importante falar. Algo tão banal, comum mas para muitos difícil. A falar/conversar se incutem respeito mas também valores e defesas… E fazem descobertas!

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